A noiva trocada – trecho

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Capítulo I

O carro sacudia na estrada esburacada. O caminho de terra marrom era estreito e irregular mas única alternativa para se chegar à cidade. Depois de algumas horas de viagem, os ocupantes do carro avistaram o Rio de Janeiro. O cocheiro virou para trás e avisou o outro:
– Olha, chegamos!
– Ainda bem! Eu não aguentava mais!
Pouco depois, eles chegaram à praça central, no alto do Descanso, onde desceram.
– Ah, estou todo quebrado! -ele se torcia, tentando colocar os músculos de volta ao lugar.
– Tu não estás acostumado a vir à cidade, Amândio. Por isso sentes tanto.
– E eu não sei como consegues vir tantas vezes.
– Não devíamos ir ao porto, de uma vez?
– Henrique me encomendou que marcasse a data: eu não quero esquecer. Os proclamas já estão correndo há muito tempo e ele tem pressa.
– Está bem. Eu te espero aqui.
Amândio entrou na igreja e Miguel ficou na praça. Andou por ali, procurando alguém conhecido. Do alto da cidade, podia ver toda a baía e a praia, onde os navios ancoravam.
– Mas,… o que…? O que aquele navio faz ali?! -ele segurou um transeunte- Aquele é o navio que veio de Portugal?
O homem olhou para onde ele apontava.
– Sim, é aquele.
– Há quanto tempo chegou?
– Está aí desde a manhã.
Miguel soltou o outro, que continuou seu caminho.
– Meu Deus…!
Ele voltou correndo até a praça e entrou na igreja. Encontrou Amândio na sacristia, conversando com o pároco.
– Amândio, corre! O navio já chegou de manhã!
Amândio pulou da cadeira:
– De manhã!? Mas não estava previsto chegar de tarde?!
– Tiveram bons ventos, assim me disse o capitão -o padre explicou.
– Temos que ir, então. A sua bênção, padre.
Amândio e também Miguel beijaram a mão do vigário e saíram, apressados.
– Onde vamos encontrá-la agora?
– Calma, Miguel.
– Tu conheces mesmo a moça?
– Conheço.
– Tu lembras do rosto dela?
– Lembro. Calma, Miguel: nós vamos encontrá-la.
Eles entraram no carro e foram ao porto. Lá, encontraram o capitão do navio que tinha chegado pela manhã.
– Não, todos os passageiros desembarcaram.
– Era uma moça alta, magra, jovem; de cabelos pretos e olhos castanhos.
– Havia muitas moças neste navio, senhor: trouxemos muitas órfãs da Rainha.
– E para onde elas foram?
– Foram alojadas temporariamente no colégio dos Jesuítas. Mas não ficarão muito tempo por lá porque logo arranjarão casamento.
– Ela não iria com as órfãs… -Amândio pensou alto- Ela sabia que alguém viria buscá-la…
– Na verdade -o capitão lembrou- uma moça ficou para trás. Tinha muitas arcas e vestia-se bem. E corresponde à vossa descrição.
– O senhor tem ideia de onde pode estar? -ele se encheu de esperança.
– Se eu soubesse que era noiva de Dom Henrique Carvalho, teria prestado mais atenção: teria cuidado dela, já que o senhor não estava aqui a esperá-la. Olha -ele percebeu algo- a bagagem dela é aquela ali -ele apontou uma coleção de arcas a pouca distância- Ela não deve ter ido longe. Talvez tenha ido a alguma taberna para jantar ou mesmo abrigar-se do sol: como é quente esta terra!
– Muito obrigado pelas informações, capitão. Vem, Miguel, vamos procurar pela moça.
Os dois afastaram-se, na direção da taberna mais próxima.
– Ela não entraria aqui -Miguel arriscou- É um lugar imundo.
– Não custa olhar. Vamos.
Eles entraram e procuraram, e perguntaram pela moça. Nada. Andaram mais alguns metros, entraram na outra taberna e perguntaram. A moça que os atendeu apontou uma direção:
– Será aquela ali?
Eles olharam na direção indicada e viram uma pessoa debruçada sobre uma das mesas. Aproximaram-se e chamaram por ela, sem ter resposta. Amândio suspendeu-a para ver se era quem procuravam.
– Meu Deus, é ela!
– Ela jantou, bebeu e apagou -a taberneira explicou.
– Bebeu? Bebeu o que?
– Umas três garrafas de vinho.
– Três garrafas!
Ele tentou acordá-la mas não teve sucesso.
– E agora, o que vamos fazer?! Como vamos apresentá-la ao noivo neste estado?!
– Do jeito que ele é, vai por a culpa em nós.
– E que culpa temos se o navio chegou antes da hora?
– Ah, já ouço a voz dele: “tu tinhas que ter previsto essa possibilidade”. Mas se tu, que és o chefe, não estás preocupado, eu, que sou empregado, é que não vou me preocupar.
Amândio pensou na reação do patrão.
– Ele vai ficar furioso. E com razão: devíamos ter vindo ontem, para evitar qualquer imprevisto.
Miguel olhou para a taberneira, que estava ali com eles, e para a moça adormecida:
– Ele não conhece a moça, conhece?
– Não. E que forma de conhecê-la: bêbada.
– E se… -e falou à taberneira- Pode nos dar licença um instante?
– Tudo bem. Mas ela não pagou a despesa. Quero ver quem vai pagar.
Ela se afastou e os dois cochicharam. Amândio olhou para as duas e deu seu parecer:
– É loucura! Isso não pode dar certo.
– Tu tens outra ideia?
Amândio pensou e chamou a taberneira de volta, perguntou qual tinha sido a despesa e pagou a conta.
– Como a senhora pode ver, eu e meu amigo estamos numa situação bem difícil.
– É, eu pude ver.
– A senhora não se disporia a nos ajudar?
– Eu? Como? Eu não sou médica nem “payé” para fazê-la acordar.
– Bem, nós temos que levar uma noiva a nosso patrão. A senhora não poderia ir no lugar dela?
– Eu?! Deus me livre! E quando ele descobrir que foi enganado? Não, senhor, eu não posso fazer isso.
– Nem se… se nós lhe pagarmos?
– Pagar? -ela se interessou- quanto?
– Quanto a senhora quer?
– Dez mil réis.
– O que?! Mas isso é muito dinheiro! Como acha que posso conseguir uma tal quantia?!
– Bem, os senhores precisam de alguém para levar a seu patrão…
– Arranjaremos alguém que cobre menos. Carrega ela, Miguel, eu vou cuidar da bagagem.
Miguel pegou a moça adormecida ao colo. A taberneira reagiu:
– Espera! Eu preciso do dinheiro mas… Quanto o senhor pode me pagar?
Amândio fez as contas e respondeu:
– Mil réis. Dois mil, no máximo.
– Está bem, eu aceito.
– Mas, se não fores convincente e ele descobrir, não receberás nada.
– Eu serei convincente.
– Cada deslize seu será cem réis a menos no pagamento.
– Está bem. Mas, se ele descobrir por culpa dos senhores, eu receberei meus dois mil réis e direi que a ideia foi vossa e que me obrigastes a participar.
– Estamos combinados.
Os dois apertaram-se as mãos, fechando o acordo.
– Esperem um instante: eu vou avisar que preciso sair agora e que não virei amanhã.
Ela foi à cozinha e logo voltou, sem o avental e com o cabelo preso.
– Podemos ir.
Os quatro saíram e, enquanto Miguel acomodava a moça adormecida no interior do carro, Amândio cuidou que a bagagem dela fosse levada para o carro. Quando estava tudo pronto, eles partiram, de volta para casa.
No caminho – assim que o carro se pôs em movimento – a taberneira procurou aprender seu papel:
– Muito bem, o que eu devo saber sobre ela? O que ele sabe dela e o que ela sabe dele?
– Como é seu nome?
– Inês.
– Pois acostume-se a atender pelo nome de Assunción. Maria Assunción Hernandez. É o nome dela.
– Assunción? Ela é espanhola?
– Sim, de Toledo.
– Pare este carro -ela gritou e Miguel atendeu.
– O que foi? -Amândio se assustou com a reação dela.
– Como vou me passar por uma espanhola: eu não sei espanhol!
– Os pais dela são portugueses. Ela fala português fluentemente.
– E se o noivo pedir para ela falar em espanhol com ele?
– Decline. Estamos em terras portuguesas e, até El-Rei, o cardeal D. Henrique morrer, não teremos relações com a Espanha.
– Está bem. Eu pensarei em algo.
Amândio avisou Miguel e o carro voltou a se mover.
– Agora me fale da relação dos dois.
– Eles nunca se viram, nem trocaram cartas. O pai de Henrique mora em Portugal e arranjou a noiva para o filho. Ela é filha de um amigo dele… eu não sei bem como é a história.
– Eles nem ao menos trocaram cartas?
– Não.
– Quando será o casamento?
– No domingo.
– Mas… daqui a cinco dias!
– Por isso é tão importante que ele tenha uma boa impressão dela.
– Eu não me pareço tanto com ela. Ele vai saber que eu não sou ela.
– Não tereis muito contato hoje e, quando chegarmos em casa, será noite. Até amanhã, ela já deverá estar melhor. Tu usarás a mantilha, como as espanholas usam, e cobrirás o rosto com um leque.
– Eu gostaria que o senhor continuasse a me tratar por “senhora”.
– Perdão.
– Seu patrão deve confiar muito no senhor e em seu amigo, para permitir que buscásseis a noiva dele, sozinhos.
– Ele confia. Ele é um homem muito difícil de se lidar. Ele não admite ser contrariado. E ele é muito rico. Se ela se queixasse de nosso comportamento, seríamos, na melhor das hipóteses, presos.
Inês suspirou: e teria que lidar com tal homem.
– E ela, como é? alegre, faladeira, recatada, geniosa…?
– Séria, de pouca fala – mas fala o que pensa, doa a quem doer. Não é o tipo envergonhada mas também não é dada a simpatias gratuitas. É gentil e educada.
– É estudada? Ela sabe ler?
– Por certo!
– Olhe, moço, eu nunca estudei nada. Eu não sei nem ler nem escrever nada.
– Se ele lhe pedir para ler, diga que ainda está mareada.
– É uma boa ideia.
– Eu estarei por perto para ajudá-la no que for preciso.
– O senhor mora na casa-grande, junto com ele?
– Sim. Eu, que sou o guarda-livros dele, e alguns irmãos que vieram para o Brasil com ele.
– São quantos irmãos?
– Três rapazes e uma moça: a minha noiva.
Inês sorriu:
– O senhor é esperto… Ele é novo, velho…
– Novo, novo… Tem vinte e cinco anos.
– Não é feio de morrer, é?
– Não: é bem apessoado.
– Ainda bem: só me faltava fazer sala para velho feio. E ela, quantos anos tem?
– Dezenove. Fará vinte no próximo mês.
– E os nomes dos pais dela? O nome do velho que arrumou o casamento? E o nome do moço que é o noivo?
– Os pais dela são João Lopez e Isabel Hernandez. Ela tem mais duas irmãs: Encarnación e Anunciación; e um irmão: Francisco. O pai dele é Marcos Carvalho. O noivo é Henrique Carvalho.
– Judeus?
– Convertidos. Eles não têm práticas judaicas: eu sei, eu moro na mesma casa que eles.
– É o que eu espero, porque não gosto dos judeus.
– Os judeus são ricos.
– Não me interessa: o sangue deles é sujo como o dos negros.
– Eles não são judeus, Assunción, eu lhe asseguro. Todos os filhos do velho Marcos foram batizados ainda crianças, quando nasceram. E vivem como bons cristãos.
– Acredito no senhor. Fale-me mais sobre ela: como o senhor a conheceu, como é a vida dela, o que ela gosta de fazer, se vive bem com os pais,… Eu preciso saber tudo, para não falar tolices.
– Está bem, Assunción, eu direi tudo o que sei sobre ela. Mas antes…
Ele bateu no teto do carro, chamando Miguel.
– O que é?
– Vamos deixar a verdadeira Assunción em tua casa: tua irmã cuidará dela. Iremos direto à tua casa, deixar a moça, e para Inês vestir uma roupa dela.
– Está certo.
A viagem continuou. Inês prestava atenção às informações que Amândio lhe passava e tentava imaginar como agir para parecer-se com a espanhola.
Eles chegaram à propriedade no fim da tarde. Conforme combinado, passaram longe da casa-grande, indo diretamente a uma casa simples mas bem construída, não muito longe da casa principal. Miguel carregou Assunción adormecida e deixou-a na cama da irmã. Inês trocou seu vestido, cobriu os cabelos e parte do rosto com uma mantilha e pegou o leque, para ter como cobrir o rosto. Só então eles chegaram na casa-grande.
Assim que ouviu o passo dos cavalos, Henrique foi até o alpendre ver o carro que chegava. Amândio desembarcou, ajudou Inês a descer e conduziu-a até a casa.
– Aqui está tua noiva, Henrique: Dona Maria Assunción Hernandez.
Henrique olhava fixamente para ela e sorria, tentando adivinhar o rosto que ela escondia atrás do leque. Ela estendeu-lhe a mão, que ele apressou-se em segurar.
– Encantado por conhecê-la, senhora.
– Da mesma forma, senhor -ela procurou forçar um sotaque espanhol.
– Então é verdade: a senhora sabe mesmo português.
– Sempre falamos português em casa. Só uso… usava o espanhol com pessoas de fora da família: os empregados e os amigos dos meus pais.
– Isso é bom, porque eu não sei espanhol. Venha, vamos entrar -ele conduziu-a pela mão- Está escurecendo, é hora de fechar a casa: temos muitos mosquitos aqui.
– O senhor Amândio me contou.
– Contou? E o que mais ele lhe contou?
Ela sorriu. Procurava andar um pouco à frente dele e com o rosto voltado na direção oposta a ele para não ser vista, sem precisar ficar escondida atrás do leque todo o tempo.
– Ele me explicou o que é um engenho e me falou do senhor.
– De mim? -ele parou de andar- Não falaste mal de mim – perguntou ao próprio.
– Só a verdade, Henrique.
Ela puxou-o para dentro de casa, onde as luzes ainda não estavam acesas e, por isso, estava mais escuro, para poder falar-lhe diretamente, sem se esconder.
– Ele me falou que o senhor é um homem decidido e de bom caráter. Disse que não vou me arrepender por ser sua esposa.
– Isso eu lhe garanto. Aqui nunca lhe faltará nada e a senhora será sempre respeitada. Eu sou um homem honrado: se a senhora cumprir com seus deveres, nunca terá queixas de mim.
– Eu fico muito satisfeita por ouvir isso.
– Henrique, por que não levas Dona Assunción ao quarto dela? Tenho certeza de que ela gostaria de se refrescar e descansar um pouco antes da ceia.
– É claro.
Ele conduziu-a a um quarto, onde entraram, e acendeu uma lâmpada.
– Eu espero que a senhora ache confortável.
Ela olhou em volta: a cama larga, a mesa com a jarra d’água, uma cadeira acolchoada e lugar para os baús de roupas.
– Acho que está bom, sim.
– Não sei como é em sua casa…
– Eu sou uma pessoa simples, senhor Henrique. Não precisa se preocupar, eu ficarei bem aqui.
– Eu mandarei chamá-la quando a ceia estiver pronta.
– Obrigada. Poderia mandar subir minhas coisas?
– É claro. Amândio deve estar providenciando isso agora mesmo. Logo sua bagagem estará aqui. Precisa de uma escrava para ajudá-la?
Ela pensou em recusar mas lembrou que o vestido que estava usando era abotoado nas costas.
– Por favor.
– Ela logo estará aqui. Com licença.
Ele saiu e fechou a porta. Inês respirou, aliviada: saíra-se bem no primeiro encontro. Agora restava a ceia, dormir e, no dia seguinte, a verdadeira Assunción tomaria seu devido lugar.
Inês desceu para a ceia. Assim que chegou à sala, Henrique foi até ela.
– Descansou um pouco?
– Sim. A cama é bem macia: o senhor se importa mesmo com meu conforto.
– Certamente. Venha conhecer meus irmãos.
Inês aproximou-se do grupo que estava sentado em sofás: mais gente para perceber, depois, que ela não era a mesma que tomaria seu lugar no dia seguinte:
– Meus irmãos, esta é Assunción. Assunción, meus irmãos Pedro, Duarte e Antônio. E minha irmã, Maria.
Ela cumprimentou-os e disse a Maria:
– Temos o mesmo nome. Mas, como minhas irmãs também são Marias, acostumei-me a ser chamada pelo segundo nome. E, breve, terei mais uma irmã com nome de Maria.
As duas trocaram um sorriso e Inês perguntou a Henrique:
– Quem é o mais velho?
– Dos que estão aqui, eu. Mas tenho um irmão mais velho do que eu, que está em Portugal com meu pai. E também tenho mais duas irmãs, uma mais velha e outra mais nova, que são casadas e também moram em Portugal.
– É uma família grande.
Henrique riu e brincou:
– Sim. Por isso, chegou um dia que meu pai não aguentou mais tanta gente e nos mandou embora a todos.
– De verdade?
– Não. Mas o futuro de Portugal é o Brasil. Se alguém quer enriquecer, é aqui que tem que trabalhar. Por isso, eu vim.
– Eu pensei que esta fazenda já era riqueza.
– Não posso pô-la nas costas e levá-la para Portugal. Eu quero ter muito ouro para, um dia, voltar para minha terra.
– A ceia, Henrique -Maria avisou.
Todos se levantaram e tomaram lugar à mesa. Inês queria sentar-se longe de Henrique, para que a iluminação fraca dificultasse a visão dela por ele mas teve que sentar-se ao lado dele.
Falaram pouco enquanto comiam e, assim que se levantaram da mesa, Inês pediu licença para retirar-se, alegando estar cansada da viagem. Ela desejou boa noite a todos e, antes de sair, olhou para Amândio e fez-lhe um sinal sutil de que queria falar-lhe.
Inês entrou no quarto, onde a escrava a esperava. Tirou o vestido e deitou-se, despachando a escrava. Mas não dormiu. Em que encrenca tinha se metido! Precisava escapar o quanto antes. As horas se passavam e Amândio não vinha. Será que ele não tinha entendido seu pedido? Ainda ouvia movimentação pela casa. Por certo, ele esperava que todos fossem dormir para ir ao quarto dela sem chamar a atenção dos outros. Aos poucos, a casa foi silenciando até calar. Então ela ouviu uma batida leve na porta. Levantou-se, foi até a porta e perguntou em voz baixa:
– Quem é?
– Sou eu -outra voz sussurrou.
Ela abriu a porta mas assustou-se ao ver quem era.
– Ah, é o senhor?…
Henrique entrou e fechou a porta.
– Sim. Por quê? a senhora esperava outra pessoa?
– Na-não… Quero dizer: sim. É que eu esqueci m-meu leque lá na sala. O senhor Amândio ofereceu-se para buscá-lo para mim. O que o senhor quer aqui?
– O fim disso.
– Fim? De que?
– De toda essa formalidade. Não quero mais chamar-te de “senhora”, não quero mais que me chames por “senhor”. Quero um pouco mais de intimidade; afinal, vamos nos casar no domingo.
– Eu não acho isso correto. O senhor deve sair daqui agora.
– Só se tu pedires direito -ele quis se aproximar dela- Vem cá, deixa eu te sentir perto de mim.
– Não! -ela se afastava a cada passo dele- Por favor, senhor, vá embora.
– Enquanto me chamares de “senhor”, não ouvirei uma só palavra.
Ele atacou rápido e segurou-a pelo pulso.
– Vem cá, quero só um abraço.
Mas ela lutava por permanecer longe dele.
– Mas que gata feroz!
– Fique longe de mim!
E, como ela ameaçasse morder a mão que a segurava, ele a soltou.
– Fica calma, eu não quero tua virtude. Não hoje. Para subir ao altar comigo, tem que ser pura. Depois… -ele sorriu- Bem, depois tu serás minha mulher e não me rejeitarás mais. Eu te quero virgem até domingo. Agora eu só quero ficar um pouco perto de ti. Confia em mim.
Ela acreditou nas palavras dele e desarmou-se. Ao ver a mudança na atitude dela, ele se aproximou e ela não reagiu quando ele passou os braços em torno dela.
– Pronto, é só isso.
– Não é certo. O senhor não devia estar aqui.
– Eu até desejo que passes a noite me chamando de “senhor”. Porque, enquanto insistires com isso, eu não sairei daqui.
Ela pensou um pouco e cedeu:
– Está bem: Henrique.
Ele fechou os olhos um instante:
– Nunca meu nome me foi tão agradável aos ouvidos.
Ela riu:
– Como eu fui tola! Eu tive tanto medo de te conhecer… E o senhor Amândio ainda me disse que tu não costumas ser gentil.
– Não sou mesmo. Pelo menos, não com ele, que é homem e meu empregado. Mas tu… és a criatura mais linda que já vi. Eu queria que fosse dia, para poder ver teu rosto com todos os detalhes.
– Se me deixares dormir, logo será dia. E amanhã serei mais bela, porque estarei mais descansada. -“e serei a tua noiva verdadeira”, pensou.
– Queres mesmo que eu vá?
– Sim, por favor.
– Está bem. Essa viagem é mesmo muito cansativa.
Ele quis beijá-la mas ela esquivou-se e soltou-se dele.
– Só um beijo de boa-noite.
– Mas como é abusado!
– Só quero tocar teus lábios.
– Primeiro só quer tocar meu corpo, depois meus lábios. O que mais o senhor “só quer tocar”?
– Ah, chamaste-me de senhor.
– Henrique, por favor, sai daqui.
– Dá-me um beijo.
– Não.
– Então não saio.
– Bem que o senhor Amândio disse que tu não aceitas ser contrariado -ela perdeu a paciência- Só que eu não sou um brinquedo nas tuas mãos: sou uma mulher e tenho vontade própria. E, neste caso, minha vontade é contrária à tua.
– Então tens que ceder.
– Por que eu é que tenho que ceder?
– Porque tu és mulher. Mais: tu serás minha mulher: é bom que te acostumes logo.
– Se eu ceder hoje, tu cederás outro dia?
– É claro que não! Tuas atitudes me preocupam. Que tipo de educação recebeste?
– Aprendi a não ficar calada se me sinto injustiçada.
– Injustiçada? Não é injustiça atender teu marido. E, quando fores minha mulher, terei direito a teus beijos e a tudo mais que eu quiser, na hora em que eu quiser. Grava bem isso.
Ela suspirou e concluíu:
– Que infeliz é Maria Assunción Hernandez, por ter que se submeter a um homem como tu…
– Vem cá, deixa-me beijar-te.
Dois mil réis valeriam o sacrifício? E por que Amândio não vinha logo atender seu chamado? Será que nada a salvaria desse destino?
– Está bem, mas será do meu jeito.
Ele sorriu, aprovando.
– E como é o teu jeito?
– Eu vou beijar-te. Tu não te mexas por nada.
Ele sorriu e não respondeu. Ela foi até ele.
– Não me olhes assim.
– Como queres que eu te olhe?
– Não me olhes.
– Está bem, vou fechar os olhos.
Ele fechou os olhos para não envergonhá-la. Ela apoiou as mãos nos ombros dele, tocou os lábios dele com os seus e pressionou-os, num beijo. Ele não resistiu e abraçou-a, e retribuiu o toque dela com um beijo mais caloroso. Ela se assustou, a princípio, mas deixou o carinho continuar. Quando se soltaram, os dois suspiraram, sem se afastarem um do outro.
– Eu devo ir agora -ele concluíu- antes que eu queira “só tocar-te” em algum outro lugar.
Ele beijou os lábios dela duas,três vezes e só então soltou-a e saiu do quarto. Inês sentou-se na cama para não cair: seu corpo inteiro tremia.
– Que feliz é Maria Assunción Hernandez -ela começou a chorar- por ter que se submeter a esse homem…
Novamente bateram na porta.
– O que é?
– Sou eu: Amândio.
Ela abriu a porta e o fez entrar. Logo ele percebeu que havia algo errado:
– Eu esperei todos dormirem para vir aqui sem perigo. Mas o que tens?
– Não tenho nada.
– Estás chorando e… pareces ter febre. O que aconteceu?
– O senhor sabe quem acaba de sair daqui?
– Não faço ideia.
– Henrique.
– Henrique!? E o que ele veio fazer aqui?
– Veio para me beijar.
– Mas tu não…
– O senhor o conhece melhor do que eu: ele não aceita recusas.
– Tu o beijaste!
– Ele me beijou.
– Por isso estás assim… Não ouses apaixonar-te por ele.
– Eu não vou me apaixonar por ele. O senhor não entende? Ele esteve aqui, ele me viu de perto, ele me tocou, ele me beijou! Amanhã ele vai saber que ela não é eu. O senhor tem que me tirar daqui. Agora!
– Agora?! Mas nem em pensamento! Miguel esteve aqui. A verdadeira Assunción dá sinais de vida. Ela vai acordar amanhã e tomar teu lugar. Depois pensaremos em como te tirar daqui.
– Ele vai descobrir. Quando ele puser os olhos nela amanhã, saberá que não foi com ela que esteve aqui, hoje. Eu quero estar bem longe, quando isso acontecer.
– Mantém-te calma, Inês. Tudo vai correr como planejado. Quando Assunción aparecer, tu desaparecerás. Henrique nunca mais vai te ver.
– É o que eu espero.
– Vamos dormir, então. Amanhã tu não saias do quarto enquanto eu não te der uma posição.
– Certamente. A última coisa que eu quero é que ele me veja com a luz do sol.
Amândio saiu. Inês deitou-se e tentou relaxar, mas era difícil esquecer o toque de Henrique. Não podia se apaixonar por ele: era um homem comprometido, quase casado. Com outra. Quando, enfim, ela adormeceu, o sono foi profundo. Ela nem ouviu quando a porta se abriu e alguém entrou. Ele respeitou o sono dela e foi silencioso, e contentou-se apenas em observar. Ele sentou-se no chão, junto à cama, bem perto do rosto de Inês, para observá-la a noite inteira. A luz que ela deixara acesa era frágil e quase não iluminava mas era bom estar ali, perto dela.

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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

2 thoughts on “A noiva trocada – trecho

  1. Gostei demais da trama, a ideia do livro me fisgou. Que confusão interessante. E o bom de tudo, logo de princípio já dá início ao tema central, sem rodeios. Amo livros assim.

    Parabéns, Mônica.

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