Apresentação

CLASSIFICAÇÃO LITERÁRIA

Muitas de minhas histórias são ambientadas no passado e, por isso, eu as considerava romance histórico, mas ainda não tinha encontrado uma definição que justificasse minha classificação. Ao contrário, encontrava definições que diziam que romance histórico é ficcionar a vida de pessoas que existiram de verdade – que é algo que eu absolutamente não faço. Então, um dia, encontrei, não sei mais como, a definição de Györg Lukács, que abarca os meus romances. Como ele é um filósofo e lingüista reconhecido internacionalmente, com diversos livros publicados e estudados, acho que posso confiar no que ele diz, e considerar acertadamente que o que eu escrevo são romances históricos pois, segundo Lukács, o romance histórico “exige não só a colocação da diegese em épocas históricas remotas, como uma estratégia narrativa capaz de reconstituir com minúcia os componentes sociais, axiológicos, jurídicos e culturais que caracterizam essas épocas”. Além disso, deve apresentar as seguintes características: “1) traça grandes painéis históricos, abarcando determinada época e um conjunto de acontecimentos; 2) a exemplo dos procedimentos típicos da escrita da História, organiza-se em observância a uma temporalidade cronológica dos acontecimentos narrados; 3) vale-se de personagens fictícias, puramente inventadas, na análise que empreendem dos acontecimentos históricos; 4) as personalidades históricas, quando presentes, são apenas citadas ou integram o pano de fundo das narrativas; 5) os dados e detalhes históricos são utilizados com o intuito de conferir veracidade à narrativa, aspecto que torna a História incontestável; 6) o narrador se faz presente, em geral, na terceira pessoa do discurso, numa simulação de distanciamento e imparcialidade, procedimento herdado igualmente do discurso da História”. (György Lukács. O romance histórico.)
 
Dessa forma, seriam romance histórico Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Primeiro a honra, A noiva trocada, Construir a terra, conquistar a vida, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas. Em Construir a terra, conquistar a vida e O canhoto, não apenas detalhei o ambiente histórico mas fiz minhas personagens participarem ativamente dos eventos históricos reais, e contracenarem com pessoas que existiram de verdade e isso dá às histórias uma consistência maior do que simplesmente uma boa contextualização. Em O destino pelo vão de uma janela e Vingança, que também são ambientadas no passado, a contextualização é mais superficial porque não é importante para o desenvolvimento da trama e isso faz que não possam ser consideradas romance histórico, pois lhes faltam o primeiro e o quinto itens. O processo de Ser, além do caráter absolutamente intimista, que por isso dispensou uma contextualização muito detalhada, se passa na época em que foi escrita (embora hoje já tenha se tornado passado). Considero que O Aro de Ouro é ficção científica, por acontecer numa realidade virtual e que Nem tudo que brilha… é terror, porque se baseia em Edgar Allan Poe. Amor de Redenção tem uma fase no passado, que seria romance histórico se tivesse se tornado toda a história, mas está ambientada na mesma época em que foi escrita – aliás, é uma história que se projeta para o futuro e que, portanto, ainda está em curso.
 
Percebo no mundo literário um certo tom pejorativo quando se fala em “romances de banca de jornal”, ou nos “romances água-com-açúcar”, conceitos que muitas vezes convergem no mesmo objeto. Às vezes o “romance de amor” se confunde com o “romance água-com-açúcar”. Talvez por isso eu considere que meus romances não têm características desses tipos de livro mas na verdade não me sinto em condições ideais para julgar. A única das minhas histórias que eu declaro ser “romance água-com-açúcar” é A noiva trocada. Em todas as outras, minha impressão é de que há temas e conflitos mais importantes do que a conquista do amor – embora muitas vezes esse seja o objetivo das personagens. Fico pensando se o amor não está presente apenas como uma última chance das personagens se sentirem felizes, depois de tudo por que passaram durante a história, e de todas as perdas que sofreram ao longo do percurso. Na verdade, não me preocupa que meus romances – inclusive os históricos – sejam considerados “água-com-açúcar”, mesmo que em tom pejorativo. O que me importa é que eu conto a história que eu quero, do jeito que eu quero. Não produzo para os críticos, mas para leitores reais, que gostam de boas histórias.

COMO O PENSAMENTO FUNCIONA

Minha infância e adolescência foram marcadas por muita leitura (especialmente romances) e muito cinema. O estímulo à narração sempre foi muito forte. Ao mesmo tempo, as redações da escola eram desastrosas, pois os professores sempre pediam textos de descrição, argumentação, dissertação. Diálogos não faziam parte do programa. Sempre tirei notas baixas em redação, até que consegui contar uma história com o tema proposto. Mesmo não tendo escrito diálogos, fiz uma narração.

Eu penso em forma de cena, de diálogo, de relação. No final de 2010, recebi um PPS cheio de fotos, e uma delas me impressionou. Se eu fosse poeta, tinha escrito um poema que recriasse aquela imagem com palavras, ou um texto poético em prosa, que descrevesse a beleza da foto. Em vez disso, escrevi uma cena curta, que sintetiza passado e presente do momento retratado. Considero que há poesia no texto, mas não é um poema, nem o que se chama “prosa poética”, pois consiste apenas em um diálogo. Sem descrições, sem contextualizações, sem nenhuma explicação. Apenas a conversa (amorosa) de dois seres que se encontram. É um texto que não existe sem a foto, pois é ela que contextualiza e descreve. A foto existe sem o texto mas, modéstia à parte, ganha em poesia com ele. Eu gostaria de descobrir o nome do fotógrafo antes de divulgar o texto e a foto, para dar o devido crédito (e defender os direitos autorais!) Por isso não a publico aqui.

Há pessoas que pensam em forma de som, outros pensam em forma de cor, outros pensam em forma de objeto, outros pensam em forma de palavra, outros pensam em forma de movimento, outros pensam em forma de cena, etc. Dentro de cada um desses tipos, há subdivisões de materiais e organização estrutural, e ainda os que conjugam mais de uma forma, que é o meu caso. Meus textos têm um pouco de teatro, um pouco de cinema, mas eu escolhi expressar minhas cenas em forma de palavra. Estruturar o texto, escolher o vocabulário, organizar descrição, narração e diálogo nos seus lugares: é o que eu gosto de fazer. Às vezes uso recursos do teatro, como explicar contextos e fazer descrições nos diálogos. Às vezes uso recursos de cinema, como se uma câmera se aproximasse e se afastasse, focasse no primeiro plano e no horizonte. Mas a expressão é a palavra. Eu fiz uma escolha consciente pela literatura e pelo romance. Então, mesmo quando quero expressar uma emoção – o que seria assunto para a poesia – invento uma historinha e faço um diálogo. É assim que eu funciono, e é por isso que escrever romances é tão fácil para mim, enquanto as outras formas de expressão, literárias ou não, são tão impossíveis. Dom? Destino? Prefiro dizer que foi escolha consciente e dedicação, muito estudo e análise, afinal, como dizia (não sei se ainda diz) um amigo meu da faculdade, “Dom é título de nobreza espanhola.”

ONDE ESTÃO OS CONTOS?

Pois é, percebi que algumas vezes eu citei aqui alguns contos (História do mundo, À procura) mas eles não estão listados nem especificados em lugar nenhum, só aparecendo no Blog de Apoio. Então resolvi inaugurar uma lista com os contos [editado: aqui no site não há listas, então procure pelos contos nas TAGS], que passa a figurar após a lista de Romances na fila de publicação, e fazer este texto explicando porque meu aparente descaso por eles.

Já comentei neste blog que não me preocupo com a forma a priori, e chamo todas as minhas narrativas pelo nome genérico de história. Então meu critério mais forte para determinar se uma história é conto ou romance acaba sendo o número de páginas, em vez de ser a estrutura em si (o que é errado). Se o conflito é rapidamente resolvido, a história é um conto; se demora mais, é romance. O reduzido número de personagens, a restrição de tempo e espaço, a linearidade da trama acabam sendo uma consequência do reduzido número de páginas, em vez de ser seu determinante.
 
Na única vez que submeti meus contos à analise de um contista profissional, ouvi críticas que poderiam ter me desestimulado. Mas, como ele viu qualidades nos capítulos dos meus romances que leu, eu perguntei a ele “então você acha melhor eu parar de fazer contos e ficar escrevendo só romances?” Com um sorriso meio sem jeito, meio “graças a Deus você entendeu rápido”, ele concordou. Desde então, não fiz mais contos, nem pretendo mais fazê-los. Dois deles, inclusive (História do mundo À procura), eu quero ver se consigo desenvolver mais e transformar em romances. Os outros poucos sobreviventes, vou publicar num volume junto com duas pequenas cenas e alguns textos em prosa que escrevi e que, por não terem personagens estruturados, nem uma trama definida, mas serem divagações em forma de ficção narrativa, eu considerava poesia em prosa.
 
Textos curtos têm necessariamente que ser brilhantes todo o tempo. Não há espaço para erros. Um romance não precisa ser todo excelente, é possível se manter a qualidade apesar de alguns erros. Talvez por isso eu não sirva para ser contista. Desde que me mostraram que não sei fazer bons contos, mas meus romances se salvam, está sendo mais fácil focar no que eu sei fazer melhor e me aprimorar nisso. Assim como foi um pouco frustrante descobrir que não sou contista, e que o mundo agradecerá se eu parar de fazer contos, foi importante saber que meu caminho é o romance, e é onde devo investir e buscar aperfeiçoamento.

SE EU FAÇO POESIAS?

Não. Já fiz. Afinal, qual adolescente nunca fez um poema, uma quadrinha, uma frase poética? Mas parou por aí. À medida que a narrativa em prosa – e o romance em especial – ia conquistando mais espaço na minha vida, a poesia ia sendo abandonada.

Nunca escrevi nada de grande valor em forma de poesia. Não consigo lidar bem com o trio rima-ritmo-métrica. Sei que a poesia moderna aboliu isso mas eu acho importante utilizar pelo menos um. Além disso, minhas frases ficaram longas, e não cabem mais em forma de verso, nem se eu as quebrar: fica visível que é uma frase quebrada, e não um verso.
 
Apesar de não lhes dar muito valor, pois não são o forte da minha produção, reuni todas as minhas poesias num livro, que vou publicar em algum momento. Tenho pensado em juntar poesias, textos em prosa, remanescentes de contos e publicar um único volume com tudo o que deixou de ser foco da minha produção.

DICAS PARA ESCRITORES INICIANTES

Acho muito legal quando um autor, consagrado ou não, escreve um livro, um site ou mesmo um blog com ensinamentos para autores menos experientes, ou dá cursos e palestras sobre o assunto. Sempre aprendo muito com eles, revejo meus processos e repenso as coisas que já fiz. Gostaria de ensinar os outros também mas não consigo. Acho que, como aprendi informalmente, caoticamente, não consigo organizar as informações de forma genérica, para que possam servir a qualquer pessoa. Só me resta ajudar os mais novos como espero estar fazendo neste blog: disponibilizando minha experiência pessoal para ser apropriada por quem quiser fazer dela algum uso.

 

UM POUCO DE HISTÓRIA: A MINHA

Pode soar óbvio, mas eu comecei a escrever lendo muito. Gostaria de conseguir ler mais mas passei a ler menos depois que comecei a escrever porque não consigo ler um livro se estou escrevendo outro. Não tenho tanto tempo quanto gostaria. Então, quando estou escrevendo um romance meu, não leio outros livros de literatura.

Tudo começou assim: um dia, ainda na infância, eu tive um sonho e resolvi escrevê-lo. O final não me agradou mas eu tomei gosto pela brincadeira e cheguei aos doze anos com três histórias escritas: “Uma noite na fazenda”, “Os morangos de ouro”, “A formiguinha distraída”. Então eu resolvi que bastava de histórias infantis, que eu ía escrever uma história adulta, e caprichei no clichê: moça rica se apaixona por rapaz pobre; o pai dela não permite o romance; ela foge da casa, vai morar com a família dele e conhece as dificuldades da vida de pobre mas se adapta; ela faz as pazes com o pai, volta para casa e para a vida de rica; ela se casa com o rapaz e são felizes para sempre. Mas foi só a idéia, não a escrevi imediatamente, nem mesmo registrei, e ela ficou esquecida por muitos anos.

Em abril de 1985 – eu tinha 14 anos – eu tive um sonho com princípio, meio e fim, sem aquela lógica que parece ilógica e que é característica dos sonhos. Parecia um filme e resolvi escrevê-lo. Acrescentei falas, inventei cenas e assim redescobri o gosto por inventar histórias.

Depois vieram outras histórias, não sonhadas, e de repente eu estava vivendo minhas histórias, muitas vezes até como personagem principal. 1986 foi um ano de muitas idéias, muitos começos e pouca coisa que realmente valesse a pena.

Comecei a registrar todas as minhas idéias numa planilha – nome das personagens, nome da história, local e época em que se passa (setting, em inglês), data de criação. Ao longo dos anos, outros campos foram sendo incluídos nessa planilha para que vários outros detalhes tabeláveis ficassem registrados. Recentemente senti necessidade de incluir um resumo – anotar enquanto ainda lembro! – mas ainda não resolvi a questão do espaço.

Nesses quase vinte e cinco anos de carreira, tenho ao todo 285 histórias criadas, sendo que apenas 122 completas (com início, meio e fim). Dessas, escrevi 75 e considero boas (eu chamo de sobreviventes) vinte. As outras foram descartadas (ou seja, arquivadas – jogar fora nem pensar!). Mantenho 5 suspensas – uma espécie de limbo entre vivos e mortos, porque são histórias descartadas por algum motivo que, se resolvido, pode transformá-las em sobreviventes. Até agora, tenho seis livros publicados e dez livros na fila de publicação, sendo um livro de contos, um livro de poesias, um livro com Romances de Cavalaria e sete romances.

 

PORQUE UM BLOG

Lembro do primeiro CD de um grupo europeu da década de 90 chamado The Cranberries: “Everybody is doing it, why don’t we”?

O motivo que me leva a criar e manter um blog é o mesmo: tenho me deparado com muitos blogs ultimamente. Parece que todo mundo tem um blog. Também tenho visto incentivos para que as pessoas escrevam e publiquem suas idéias e opiniões sobre assuntos por que se interessam. Então acho que chegou a hora de eu ter meu próprio espaço também. Pretendo acrescentar textos nos dias 1, 11 e 21 de cada mês. Comentários e críticas são bem-vindos. Caso o leitor queira sugerir algum tema, basta pedir e eu farei o possível para atender.

E O ASSUNTO?

Eu não tinha entrado no universo “blogueiro” justamente por falta de definição do assunto. Eu poderia escrever sobre arte, música, literatura em geral, que pertencem à minha área de atuação profissional – como até me foi sugerido. Mas aí eu estaria opinando sobre o trabalho alheio, teria que estudar, e o texto correria o risco de ser apenas uma repetição do que há nos livros; ou, se eu não tivesse muito tempo para estudar, o texto poderia ficar sem base e se tornar reles “achismo”. Há ainda a questão: quantos textos sobre esses assuntos eu vou querer escrever depois de criado o blog? Não sei.

Então pensei: que tema eu de fato domino sem precisar de leituras adicionais e pelo qual sou tão apaixonada que poderia escrever vários textos curtos? A resposta foi óbvia: eu mesma e meus livros.

Portanto pretendo ocupar este espaço para falar do que escrevi, do que estou escrevendo, das minhas pesquisas para os romances, do meu processo de criação, do meu método de trabalho. Quero contar histórias das minhas histórias e finalmente responder todas aquelas perguntas que ninguém fez. Assim como eu aprendi muito com os depoimentos dos outros, agora disponibilizo a minha experiência, na esperança de – quem sabe? – ajudar alguém a encontrar o próprio caminho.