Organização

SOBRE A ESCRITA

Acabei de ler (pela segunda vez, tomando notas) Sobre a escrita, de Stephen King. Fiquei encantada com a forma simples e despojada de ele falar – sim, o texto parece uma conversa entre amigos. E adorei o conteúdo, em parte porque concordo com ele em muitas coisas – e é muito bom ouvir meu pensamento polêmico na boca de alguém famoso, porque isso para mim significa que estou no caminho certo – e em parte para organizar meu método e acrescentar o que falta. Quem sabe assim não consigo saltar de “escritora competente” para “boa escritora”? e finalmente ter meus livros publicados e lidos em quantidade.

A pior parte é ler os “do” e “don’t” (“faça” e “não faça”) e estar coma história mais recente ainda fechada numa caixa. Ele recomenda escrever um livro em três meses e depois passar seis semanas em tempo de espera, para o escritor esquecer o que escreveu e para o texto amadurecer (exatamente o termo que eu uso). Para mim, seis semanas é pouco. Minha memória é muito boa e às vezes nem um ano inteiro (o meu tempo de espera) é o bastante para que eu esqueça falas inteiras de algum trecho mais marcante da história. Ah, e eu adoraria poder escrever um livro em três meses. Se eu tivesse três ou quatro horas por dia para essa atividade (como ele recomenda e os escritores profissionais têm), eu certamente faria um livro de 300 páginas em três meses (escrevi as 160 páginas de O maior de todos em 40 dias: estava de férias e passava o dia escrevendo). Então, ao ler os “do” e “dont’s” do amigo Steve, minha vontade é pegar De mãos dadas de dentro da caixa e conferir se fiz o que ele recomenda. Mas isso só será possível em novembro. Enquanto isso, vou conferindo esses pontos nas histórias mais antigas que ainda não foram publicadas. Lá vou eu incrementar minhas revisões… e isso é ótimo!

RELACIONAMENTO

Estou num momento interessante de meu relacionamento com Toni. A história está guardada, lacrada numa caixa de arquivo e meu compromisso é só reler depois de 1/11/2015 (um ano depois que acabei de escrever). Mas, se posso evitar ler, é claro que não posso evitar lembrar. Então, volta e meia me pego revendo cenas que fiz, lembrando de gestos e falas, e sentindo saudades das personagens com quem convivi por três anos e cinco meses: Luigi, Raquel, Ricardo, Letícia, Dona Luizinha, Rosa e, naturalmente, Toni.

Tenho muita satisfação em lembrar. Fico com a sensação de que fiz direito, de que o texto realmente ficou bom. E o melhor é a certeza de que a saudade vai ter fim. E que, depois de 1/11/2015, eu poderei ler tudo sempre que quiser.

VIDA E MORTE

Acusam-me de matar muitas personagens em minhas histórias mas minha mania de tabelas tem outra opinião. Na verdade, em minhas histórias nasce muita gente. Se são 72 mortes em 59 histórias (conto apenas as que eu escrevi até o fim) – média de 1,22 mortes por história – são 66 nascimentos nas mesmas 59 histórias – média de 1,18 nascimentos por história. 
 
Há apenas oito histórias com três ou mais mortes: Juliana (4 mortes), Viagem sem volta (3 mortes), Mosteiro (4 mortes), O maior de todos (12 mortes, mas há que se considerar o período da Peste Negra e a trama de golpe de estado), Primeiro a honra (3 mortes), Vingança (8 mortes, mas há que se considerar que é uma história de vingança), O canhoto (4 mortes, como em Mosteiro), De mãos dadas (6 mortes, sem esquecer de considerar a Gripe Espanhola, que matou mais do que eu), totalizando 44 mortes só aqui.
 
Do outro lado, são cinco histórias com mais de três nascimentos: Juliana (4 nascimentos), Idade média (5 nascimentos), Tudo que o dinheiro pode comprar (4 nascimentos), Construir a terra, conquistar a vida (17 nascimentos), De mãos dadas (22 nascimentos), totalizando 52 nascimentos só aqui.
 
Percebe-se também que quanto maior o número de páginas, maior o número de nascimentos e menor o número de mortes: Construir a terra, conquistar a vida tem 895 páginas manuscritas, 2 mortes e 17 nascimentos; De mãos dadas tem 810 páginas manuscritas, 6 mortes e 22 nascimentos. Então, se há nascimentos como há mortes (para não falar na quantidade de personagens que nem nascem nem morrem durante as histórias), na verdade o que há em minhas histórias é um retrato mais ou menos real do que é a vida: pessoas nascem, vivem e morrem. Sem cobranças, sem culpas.
 

DE REPENTE, 30

Este mês faz 30 anos que eu resolvi que escrever histórias era uma atividade interessante e algo que eu gostaria de fazer intensamente. É claro que eu não podia imaginar que 30 anos depois eu estaria falando sobre isso, ainda mais num blog. Pois é, há 30 anos atrás, não existia internet e nem mesmo computador pessoal como os conhecemos hoje. Muita coisa mudou no mundo em 30 anos e eu também mudei muito durante esse tempo. Cresci, estudei, casei, mudei de casa várias vezes, aprendi muitas coisas, me tornei mãe. Minhas histórias acompanharam esse percurso de vida, crescendo, estudando, aprendendo, mudando, formando famílias. É interessante ver os textos que eu escrevia há 30 anos atrás. Pensando melhor, é tenebroso ver esses textos. Eu era apenas uma adolescente imatura e as histórias mal-contadas refletem isso. Hoje vejo adolescentes (meninos e meninas) de 14 e 15 anos que escrevem muito melhor do que eu escrevia com a mesma idade. Talvez porque eles estão intencionalmente escrevendo um romance e, portanto, conscientes e atentos à estrutura e aos elementos do gênero. Eu nunca escrevi livros; a vida toda escrevo histórias, que no decorrer da escrita se mostram contos, novelas e romances, e depois viram livros. Tudo realmente informal, no fluxo do inconsciente. Os elementos necessários aos gêneros vão entrando no texto devagar e de forma automática durante a escrita, ou analiticamente durante as revisões.
Meu método e procedimentos também mudaram, amadureceram, consolidaram-se e hoje são muito mais consistentes e refletidos do que há 30 anos atrás. Eu agora sei o que fazer com uma ideia, como construí-la e desenvolvê-la, como trabalhar os temas e amadurecer as personagens.
Os objetivos mudaram também e, se no início eu queria revolucionar a história da literatura brasileira, hoje fico feliz por escrever o que alguns chamam de literatura de entretenimento. Há um certo preconceito nessa denominação, como se fosse uma forma menor de literatura, mas hoje isso não me incomoda mais. O importante é fazer bem feito, e esse é meu empenho.
Chego então aos 30 anos com os seguintes números:
– 311 ideias registradas
– 141 histórias criadas (com começo, meio e fim)
– 23 histórias sobreviventes, que se dividem em:
            – 2 contos
            – 3 romances de cavalaria
            – 18 romances ou novelas
– 10 histórias suspensas (aguardando eu resolver algum problema estrutural para poder escrever)
– 20 histórias sobreviventes escritas
– 8 histórias publicadas: O destino pelo vão de uma janela, O processo de Ser, Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha…, O maior de todos, Primeiro a honra, A noiva trocada.
– 11 histórias na fila de publicação: Construir a terra conquistar a vida, Vingança, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, Biblioteca de Kerdeor (Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do bretão, Os Cavaleiros Cantores), O cisne (conto), Labirinto vital (conto), O Além (conto).
– 1 história escrita aguardando avaliação: De mãos dadas.
– 4 histórias aguardando para serem escritas: Rodrigo – que vai gerar 3 livros, Amnésia.
Durante esses 30 anos, passeei pelos gêneros – conto, crônica, novela, romance, poema – e por sub-gêneros – histórico, urbano atual, ficção científica, alegoria, policial, suspense, fantasia. Me diverti muito com todos eles, abandonei uns, demonstrei preferência por outros. A predileção pelo romance histórico parece óbvia mas não é real: também gosto bastante de ambientar histórias no presente da minha cidade; gosto de andar por onde minhas personagens andam, de ver o que elas veem. Gosto de me estender nos romances, mas também de ser rápida e objetiva nas novelas. Então, na verdade, apenas gosto de contar histórias, de preferência longas, em que as personagens possam desenvolver e mostrar suas personalidades, de forma que sejam amadas ou odiadas pelos leitores.

Não sei como estarei daqui a trinta anos, quantas histórias terei inventado, quantos livros estarão publicados. Mas espero poder voltar aqui (ou ao que existir na época, no lugar dos blogs atuais) para contar a vocês.

TRILOGIA x COLETÂNEA

Meus leitores mais atentos podem ter ficado surpresos quando eu disse que a história de Rodrigo é minha primeira trilogia, e podem ter se perguntado “Mas e a Biblioteca de Kerdeor? Não são também três livros reunidos?” Sim, são, e é exatamente essa a diferença entre os dois. Por que eu chamo Kerdeor de coletânea e chamo Rodrigo de trilogia?
A estrutura de formação dos dois conjuntos é distinta. Kerdeor é um agrupamento de três livros com protagonistas diferentes, com objetivos diferentes, reunidos em um tomo único pela característica de serem novelas de cavalaria. Já a história de Rodrigo são também três livros mas com o mesmo protagonista, com muitas personagens em comum, contando uma mesma história dividida em três pedaços. A publicação de Kerdeor será feita em um tomo; a publicação da história de Rodrigo será feita em três tomos, um para cada livro.

É por isso que, embora eu já tenha um conjunto com três livros, Rodrigo é a primeira experiência com uma história dividida em mais de um livro.

SEM ASSUNTO… OU DICAS PARA ESCREVER MELHOR

Chegou o dia de publicar um texto no blog e não tenho nada pré-preparado. Não gosto disso. Gosto de escrever meus textos com calma, revisá-los, relê-los, tirar partes daqui e colocar ali, jogar tudo fora e começar de novo, aproveitar uma ideia daqui e uma dali para fazer uma coisa só, reescrever tudo, trocar palavras e frases inteiras… Enfim, gosto de ter tempo de dar polimento ao texto, para que ele não seja como este que estou escrevendo agora: simples, direto ao ponto, talvez pobre de conteúdo (não sei, ainda não acabei de escrever).
 
Pois é, como o texto dos 28 anos de carreira estava pronto desde janeiro, eu acabei me descuidando dessa escrita e não adiantei os textos para publicar este mês. Queria muito contar como anda a história de Toni, mas vou preferir falar sobre isso em junho, quando fará dois anos que comecei a escrevê-lo. Talvez até lá o nome de Rosinha esteja mais justificado, por ela ter voltado à história. Só vou saber quando junho chegar.
 
Eu tinha começado a escrever um texto sobre a idade de minhas personagens, mas percebi que minha apresentação estava incorreta, então tenho que primeiro corrigir as informações para só depois poder tecer comentários e conclusões. As publicações anteriores vinham falando de amor, mas os principais casos já citei: o amor à primeira vista, como em Romeu e Julieta; e o amor desde sempre, como em O morro dos ventos uivantes.
 
Na falta de outro assunto a tratar de forma organizada, vou deixar aqui uma lista de “dicas para escrever melhor”, que fiz pensando nas listas de dicas de autores de sucesso. Me digam se concordam ou discordam, e se devo discorrer mais detalhadamente sobre algum dos itens. Minhas dicas são estas:
 
1 – Passe a infância e a adolescência lendo livros apropriados à faixa etária. A partir do final da adolescência, todos os clássicos da literatura universal já são apropriados.
 
2 – Escreva tudo o que lhe vier à cabeça; faça o melhor que puder e depois corrija, reescreva, retire partes, acrescente partes, mude palavras, mude cenas inteiras. E depois, corrija, reescreva, revise, retire retire partes, acrescente partes, mude palavras. mude cenas inteiras… o trabalho realmente não tem fim.
 
3 – A menos que você seja um gênio, seu primeiro texto será ruim. Só comece a procurar publicação a partir do segundo, devidamente amadurecido e revisado.
 
4 – Descubra seu ponto forte e invista nele – e aqui me refiro a gênero (romance, conto, crônica, poesia, etc), tipo (romance, drama, comédia, policial, fantasia, ficção científica, etc), narrativa (diálogos, descrição, argumentação, dissertação, etc), criação de personagens, criação de situações, etc. Faça o que você sabe fazer de  melhor.
 
5 – Amadureça o texto antes de mostrá-lo a alguém.
 
 
6 – Seja humilde para aceitar críticas, mas não seja submisso para mudar todo seu texto por causa delas.
 
7 – Erros intencionais precisam ser justificados; erros não-intencionais precisam ser corrigidos.
 
8 – Personagens podem usar clichês; o narrador, não
 
9 – Deus-ex-machina é permitido, mas sem exageros
 
10 – não perca tempo lendo dicas de escrita de outros escritores.
 

FASES

Interessante analisar comparativamente a estrutura das histórias, procurando se há um padrão – se eu sigo uma fórmula pessoal. É verdade que não costumo me prender a dogmas, dicas, fórmulas, quando estou inventando, mas isso não quer dizer que não os esteja usando, mesmo que inconscientemente. Tive um professor na faculdade de Educação Artística que costumava dizer algo como “inconscientemente não é ignorantemente”, para dizer que, mesmo que o artista não faça escolhas conscientes, mesmo que não saiba explicar suas escolhas, ele sabe muito bem que está escolhendo o que é mais apropriado para sua obra. Então resolvi fazer mais uma tabela, para verificar quantas fases distintas cada história tem, e onde está o clímax de cada uma delas. Descobri que posso dividir a grande maioria em três fases (7 histórias) e que, nessas, o clímax está na terceira fase. Em outras 5 histórias, há duas fases, com o clímax na segunda fase e apenas duas histórias não consegui dividir em fases, pois a ação segue num continuum sem interrupção.
Não estou chamando de “fases” as divisões estruturais necessárias a um romance: apresentação, desenvolvimento, clímax, conclusão. Estou dividindo apenas o desenvolvimento. A apresentação necessariamente faz parte da primeira fase e o clímax com a conclusão estão na última, seja ela a segunda ou a terceira, ou a mesma primeira com que a história começou. O que marca essa divisão em fases são pontos de virada determinantes, que fazem a história dar uma guinada e mudar de rumo. Não são pontos de virada de comprometimento da personagem principal com seu objetivo, mas justamente quando a personagem muda de planos.
 
Vamos exemplificar:
1)     De mãos dadas:
Fase 1 – fazenda, apresentação das personagens, apresentação dos objetivos, Toni vai para São Paulo, trabalha e ganha dinheiro, dificuldades (Fase “Toni”).
Fase 2 – Letícia chega com dinheiro e uma proposta, Letícia influencia a vida de Toni, Letícia se afasta de Toni (Fase “Letícia”).
Fase 3 – Toni tenta se manter e organizar a vida, Toni volta à fazenda. As coisas não acontecem como ele esperava, e ele precisa redescobrir sua própria identidade e objetivos. Clímax e conclusão. (Fase “Rosa”).
 
2)     O canhoto:
Fase 1 –  apresentação das personagens, apresentação do problema, Ten Duinen, Maurits, casa do pai (Fase “Bruges”).
Fase 2 – Aachen, Antwerpen, Gênova, conhece Miguel, Cruzada (Fase “Exílio”).
Fase 3 – volta a Bruges. As coisas estão diferentes do que ele esperava e ele precisa organizar novamente sua vida. Clímax e conclusão (Fase “Bruges”).
 
Em seis histórias de três fases, a estrutura é mais ou menos como essas que apresentei: a personagem de alguma forma volta a suas origens na terceira fase, mas tudo está diferente: o ambiente, as pessoas, e ela mesma, que amadureceu durante os eventos da primeira e da segunda fases. São assim O destino pelo vão de uma janela, O maior de todos, Primeiro a honra, Não é cor-de-rosa, e as já citadas O canhoto e De mãos dadas. Apenas uma história com três fases é diferente, a ponto de, num primeiro momento, eu ter considerado que havia apenas uma fase: Construir a terra, conquistar a vida. Mas há marcadamente três momentos na história. Um primeiro, em que Duarte e Fernão lutam para se estabelecerem na terra nova. Na segunda fase, já de alguma forma estabelecidos, é preciso manter o que foi conquistado, e preparar a próxima geração para não ter que enfrentar os mesmos problemas. Depois, na terceira fase, é hora dos filhos também decidirem seus rumos, e conquistarem suas vidas. Na terceira fase também ficam o clímax e a conclusão.
 
Nas histórias com duas fases, o que acontece é um contraponto, uma espécie de duelo entre duas personagens, dois temas, duas questões. Na primeira fase, prevalece um deles e, no segundo, prevalece o segundo, encaminhando para a conclusão. Um exemplo é A noiva trocada, em que Inês prevalece na primeira fase e, troca desfeita, a segunda fase pertence a Assunción. Também têm duas fases Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha… e Amor de redenção. Em todas essas, há apenas um ponto de corte, de mudança de rumo na história.
 
E não consegui dividir em partes O processo de Ser nem Vingança. São histórias curtas, lineares, sem contrapontos, sem pontos de virada dramáticos. É um fluxo apenas, um encadeamento que vai somente numa direção, da apresentação ao clímax e à conclusão.
 
As mais intensas são provavelmente as histórias com três fases, inclusive porque nelas o protagonista volta ao ponto inicial modificado por sua jornada e percebe que não existe retorno, mas somente uma caminhada sempre em frente, sempre construindo coisas novas, mesmo que aparentemente sobre o que já foi um dia. Assim também é a nossa vida: sempre em frente. A repetição da rotina é apenas uma abstração da nossa mente controladora, e não existe na realidade. Cada dia é um novo dia.

TIPOS DE FINAL

De todas as 306 idéias que tive, 137 são histórias com começo, meio e fim; dessas, escrevi (ou estou prestes a escrever) 54. Elaborei uma tabela com essas 54 histórias para poder comparar e analisar alguns aspectos das histórias e do meu inconsciente. É graças a essa tabela que consigo facilmente informar quantas pessoas morrem, quantas nascem, quem são as personagens vingadoras e as subversivas, e outras tantas informações de categorias e quantidades que dou aqui. Desta vez, resolvi atentar para os tipos de final, já que a minha impressão é de que não costumo fazer finais felizes.

Minha classificação não é assim tão simples (feliz ou infeliz), pois há as nuances “aparentemente feliz”, que na verdade é infeliz; e “feliz embora não pareça”, que parece infeliz mas é feliz. Há também a categoria “trágico”, que deve ser compreendida no conceito da Tragédia Grega “o que não pode ser de outra forma”. Então, num exemplo fictício, se a personagem principal sabidamente tem uma doença terminal e ao final da história ela morre, isso não é “infeliz”, mas “trágico”, pois era uma morte prevista e até esperada. Da mesma forma, se é notório que o casal protagonista, por um motivo qualquer, não tem condições de terminar a história juntos, isso também não é “infeliz”, mas “trágico”. A idéia que temos hoje de tragédia como coisa ruim em si não implica que meus finais trágicos sejam infelizes em si. Ou, dizendo de outra forma, meus finais trágicos são mais infelizes do que felizes, mas não havia como ser de outra forma. Não havia nada que eu, mesmo como criadora, pudesse fazer sem romper com as leis da física, da química e da biologia, sem falar na moral, na ética, e outras leis antropo-sociológicas e filosóficas. Não cabe a mim fazer milagres, nem posso abusar do Deus-ex-Machina. Então resta-me deixar o paciente terminal morrer e não lamentar isso, nem colocar esse fato na minha conta de infelicidade. Quando os finais são felizes ou infelizes (e todas as nuances), eu, como autora, tenho participação neles: fui eu que ajudei os protagonistas a conseguirem ou a não conseguirem o que querem. Eu podia ter ajudado mais ou menos mas decidi que o final seria aquele. O final trágico foge do meu controle, e não depende da minha vontade. Só o que eu podia ter feito e não fiz era botar o ponto final antes e deixar a história incompleta – o que, como escritora, não devo fazer.

Deixando de lado as explicações e partindo para os números: tenho 25 histórias com final “feliz”, 3 histórias com final “feliz embora não pareça”, 2 histórias com final “indefinido”, 7 histórias com final “aparentemente feliz”, 6 histórias com final “trágico”, 11 histórias com final “infeliz”. Somando-se as nuances, juntando os trágicos aos infelizes (já que aconteceu uma tragédia que eu não pude evitar), juntando os indefinidos aos felizes (pois neutro é mais feliz do que infeliz), pode-se finalmente resumir tudo em simplesmente “feliz” e “infeliz”. Dessa forma, percebo que eu, na verdade, tenho mais finais felizes (30) do que infelizes (24). Acho que preciso rever meus conceitos e minha tabela…

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?

Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, De mãos dadas, O processo de Ser, O Além.
 
Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha…, que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.
 
Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.
 
E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Não é cor-de-rosa, Pelo poder ou pela honra, À procura.
 
Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

LÍNGUAS ARCAICAS / TU x VOCÊ

Escrevo este texto a partir de uma pergunta que me foi feita no Fórum do site Recanto das Letras (O fórum não existe mais; foi desativado), sobre o uso do bantu num romance histórico ambientado no Brasil do século XVIII, com personagens africanas ou descendentes. Na resposta que eu dei, procurei focar nos aspectos mais objetivos, mas aqui posso me estender em exemplos e citações.
 
Em primeiro lugar, não acho que seja uma necessidade o autor contextualizar também a língua, para que a história esteja bem contextualizada. Por outro lado, é um fator facilitador para o autor, e uma espécie de brinde para o leitor, como uma cereja num doce. Usar formas antigas da língua requer uma pesquisa específica, de filologia histórica. E só vale para histórias ambientadas em países que têm a mesma língua em que a história será escrita. Ou seja, é inútil eu usar português arcaico numa história que se passa em local que não fala português. Não acrescenta nada em contextualização eu fazer Nicolaas dizer “asinha”. Já Duarte pedir que Fernão faça alguma coisa, acrescentando “asinha” faz todo sentido e dá à história o sabor de arcaísmo que eu estou tentando evocar (“asinha” quer dizer “rápido”). Quando o local escolhido é um país que não fala português, meu único cuidado linguístico é não usar gírias nem expressões coloquiais, e assim a linguagem fica formal, talvez em excesso, considerando que eles deviam ter expressões coloquiais. Mas descobrir as expressões coloquiais de outros povos em outras épocas e como traduzi-las corretamente para o português, de forma que sejam a expressão original e façam sentido em português é uma pesquisa muito específica e foge aos meus propósitos, que são apenas de contar uma história e contextualizá-la da forma mais verossímil possível. Não pretendo servir de fonte a pesquisas linguísticas.
 
Quando fui escrever Construir a terra, conquistar a vida, resolvi que usaria a linguagem da época, tanto quanto não comprometesse a compreensão do leitor, sem que eu precisasse construir um glossário. A pesquisa foi mais longa do que a escrita e é algo que terei ainda que revisar. Aproveitei também a oportunidade para entrar em contato com o tupi, pois tenho Ayraci, uma personagem Tupinambá. Ela fala algumas palavras e frases em tupi, que são logo traduzidas, mas, quando precisei fazer um diálogo inteiro, preferi escrever em português, e apenas informar que o diálogo estava acontecendo em tupi, privilegiando a compreensão do leitor.
 
Acho que utilizar a língua como era na época ajuda o autor a contextualizar, e ajuda o leitor a entrar “no clima” da história, mas não é uma necessidade. O autor pode conseguir os mesmos objetivos sem utilizar a língua histórica. Tudo vai depender da habilidade dele, seja para usar a língua antiga, seja para dar clima de antiguidade sem usar a gramática e o vocabulário antigos. Quando eu estava escrevendo Construir a terra, conquistar a vida, toda hora eu consultava a parte de informação histórica do Dicionário Houaiss (que me foi gentilmente oferecido pela Gerente de Patrocínio da Petrobras à época). Eu queria escrever “garoto”, palavra que só aparece escrita no século XIX – portanto não me serve, pois não devia ser de uso corrente no século XVI. Então mudei para “moleque”, que tem registro escrito no século XVIII, mas é de origem africana, e os africanos estavam apenas chegando no Brasil, portanto ainda não influenciariam tanto a língua, a ponto de um português de Lisboa usar o neologismo. Fiquei então com “fedelho” que, embora tenha certa conotação pejorativa de imaturidade, é uma palavra da época (escrita desde o século XVI) e de origem portuguesa. Aí o tempo passou e eu quis escrever “prostituta”, que só começa a aparecer por escrito no século XIX, então fiquei mesmo com a antiga “meretriz” (do século XIV), que atendeu meus propósitos. Além disso, recolhi palavras e expressões especialmente de Gil Vicente, escritor para o povo, e também de Camões, e vou ver como acrescentar ao texto de forma que não prejudiquem a compreensão.
 
Sempre que vou escrever uma história ambientada no passado, paro para pensar se vou escrever os diálogos em segunda ou terceira pessoa (“tu” ou “você”). Como no Brasil é raro usarmos coloquialmente a segunda pessoa, às vezes opto por ela para caracterizar a antiguidade. Fiz isso em O maior de todos mas não nos outros publicados. Na época em que escrevi O destino pelo vão de uma janela, eu costumava alternar o uso da segunda e da terceira pessoa conforma o contexto da cena, usando a terceira nas situações normais e reservando a segunda para denotar intimidade. Meus romances ambientados no Brasil do século XIX são escritos em terceira pessoa, pois é justamente quando o Vossa Mercê estava se tornando você; mas nas conversas familiares às vezes uso a segunda pessoa, nessa ideia de denotar intimidade.
 
Na hora de re-escrever O canhoto, pensei em repetir o que fiz em O maior de todos e escrever tudo em segunda pessoa, mas uma das falas que eu queria aproveitar de Mosteiro era a despedida de Ester, quando ela diz “amo você, quero você, preciso de você”. Achei que não teria a mesma força na segunda pessoa, então, por causa de uma frase, escrevi toda a história em terceira pessoa. Cheguei a pensar em fazer os monges usarem a segunda pessoa, mas achei que seria muito forçado, como se a pessoa deixasse de ser o que é, deixasse para trás seus hábitos só porque se tornou monge, então meus monges usam a terceira pessoa como todas as outras personagens.
 
Tudo fica mais fácil ao se ambientar uma história no Brasil atual, quando esse cuidado na escolha das palavras e expressões não é necessário, pois vou mesmo usar o português atual em terceira pessoa. Mas aí que graça tem?