Pergunta

DE ONDE VÊM AS PERSONAGENS?

Nesse último mês de dezembro, li o livro A personagem, de Beth Brait (Série Princípios da Ed. Ática, 2006). A parte que eu mais gostei foi o último capítulo, quando escritores tentam explicar como é o processo pessoal de criação de suas personagens. Foi muito válido para eu tentar perceber e registrar  em palavras meu próprio processo.
Eu diria que minhas personagens nascem de dentro para fora. No início, a personagem é um sentimento, um desejo, um ideal que aos poucos vai ganhando corporeidade. Em primeiro lugar, ela ganha um objetivo a alcançar e, em decorrência, características de caráter que a façam ter sucesso de forma fácil ou difícil. Depois vêm os obstáculos e ajudas, que acrescentam à personagem outras características. Sim, a trama ajuda a formatar a personagem. No meu processo, uma não existe sem a outra. Só depois que a história existe e se sustenta é que eu vou completar as características da personagem: idade, época em que vive, onde nasceu, onde mora, estrutura familiar, papel na sociedade. E só quando ela começa a se relacionar com as outras personagens é que vão se definindo os gestos, os trejeitos, as características mais peculiares, que distinguem aquela personagem de suas companheiras de história. A última, bem última coisa que se forma é a aparência física da personagem – e essa, por ser de convivência mais recente, eu muitas vezes esqueço de contar ao leitor, no livro. Acabo enfatizando mais as características emocionais, psicológicas, sociais, motivacionais da personagem do que sua aparência física.

Gostei de fazer essa reflexão. A forma como construo as personagens é algo que eu fazia sem pensar no processo. Tomar consciência dos processos me ajuda a compreender melhor como minha mente trabalha. É realmente fascinante.

POR QUE VOCÊ ESCREVE O QUE ESCREVE?

Essa foi uma pergunta lançada no grupo “Escritores ajudando outros escritores”, do Facebook. É realmente uma boa reflexão a ser feita. Em geral, sabemos facilmente responder o que fazemos, em quanto tempo e como fazemos. Mas a motivação primordial é algo em que nem sempre se para pensar. Pelo menos esse é o meu caso. Nunca me preocupei em tentar verbalizar porque escrevo as coisas que escrevo. Mas, atendendo ao desfio do colega, parei para considerar essa questão.
Achei que ia passar dias quebrando a cabeça tentando encontrar uma resposta mas ela começou a vir em algumas horas (uma noite de sono). Então posso já dizer alguns dos motivos que me levam a escrever o que eu escrevo:
1)     é o que eu gosto de escrever – sim, prazer acima de qualquer coisa. Não teria sentido para mim escrever alguma coisa que não me desse satisfação emocional e psicológica – e até racional.
2)     é o que me vem à cabeça – considerando que meu processo de criação é majoritariamente inconsciente, é prudente obedecer a ele e dar prosseguimento ao que ele determina, em vez de querer criar conscientemente. Nunca consegui escrever uma história por encomenda ou por motivação externa.
3)     é o que eu sei fazer – para que vou ficar lutando com gêneros e estilos que não domino? É muito mais fácil para mim continuar o que já venho fazendo há anos – sempre aprimorando, é claro, porque não dá para ficar repetindo “mais do mesmo”.

Esses são os principais motivos pelos quais eu escrevo o que escrevo. Motivos concretos, sem mitificações.

E SE A PERSONAGEM PRINCIPAL ESTIVER AUSENTE?

Essa pergunta pode soar estranha, afinal, uma personagem, para ser principal – protagonista – precisa estar presente na história para carregar a trama. Eu sei disso mas, mesmo assim, por três vezes, tentei escrever uma história em que o protagonista não aparecesse. A bem da verdade, ele aparece, ocupa seu lugar de personagem principal e depois é afastado da trama. Tudo acontece por causa dele, e as outras personagens se encarregam de caracterizá-lo, como se ele estivesse presente o tempo todo. Foi o que eu fiz em O caso MArchand, Idade média, e Primeiro a honra. Ao chegar ao final das histórias, porém, fiquei com a sensação de não ter alcançado meu objetivo – talvez por isso duas dessas histórias estejam descartadas, e somente Primeiro a honra tenha sobrevivido, por tratar desse tema de uma forma mais madura e refletida. Porque o que acontece é que essa personagem, ao ser afastada da trama, na verdade perde seu lugar de protagonista, e vai ocupar o lugar de “motivo” da ação das outras personagens. Então Michel Archand não é a personagem principal, mas apenas o motivo pelo qual a história acontece. A personagem principal, o protagonista, aquela que carrega a trama, é o Detetive Chaloult. A história acontece ao redor da personalidade e da vida de Archand, mas quem conduz é Chaloult. O dia que eu souber escrever romance policial, essa história volta à vida.

Há um outro caso, numa história que é claro que não vou dizer o nome, em que a personagem principal morre no final, e eu conto como foram o velório e o enterro, em meio aos lamentos das outras personagens. É muito interessante porque, desde que morre, o protagonista está presente em todas as outras cenas, mas sem dizer nenhuma palavra e sem fazer sequer um movimento (é claro, pois está morto). Ele se torna “motivo” das ações das outras personagens mas seu protagonismo continua sólido como foi em toda a história. Cada palavra, cada gesto das outras personagens parecem dialogar com o silêncio e o imobilismo do protagonista. O silêncio dele fala; a imobilidade gesticula. Como já era mesmo o fim da história, nenhuma outra personagem assumiu o lugar de protagonista – mesmo porque eu não saberia a quem entregar esse bastão.

Escrever com o protagonista em algum tipo de “limbo” é um exercício bastante complexo e, muitas vezes, inglório. Já tive a minha quota e só uma possível re-escrita de O caso MArchand me faria tentar de novo. Mas fica a sugestão para quem quiser experimentar.

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?

Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, De mãos dadas, O processo de Ser, O Além.
 
Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha…, que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.
 
Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.
 
E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Não é cor-de-rosa, Pelo poder ou pela honra, À procura.
 
Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

QUANTO TEMPO ENTRE TERMINAR UMA HISTÓRIA E COMEÇAR OUTRA?

A resposta a essa pergunta é muito simples: algumas horas, não mais do que um dia. Sou viciada em criar, então, assim que termino uma história já começo a pensar em outra. Sou como aquele fumante que acende um cigarro no outro: não há intervalo nem pausa.
 
Mas isso não quer dizer que escrevo todo o tempo. Esse intervalo de escrita tem sido maior, chegando a dois anos entre terminar de escrever uma história e começar a escrever outra. Nesse período de “descanso”, trabalho histórias novas mentalmente , retomo idéias antigas, procurando alguma que valha a pena escrever. Em março do ano passado, terminei de escrever O canhoto. Em novembro, re-escrevi À procura. Desde então, venho repassando duas histórias que acho boas: Rosinha (1986), tentando acertar um final interessante dentro dos objetivos que quero; e Amnésia (2004), tentando estruturar os eventos, construir a trama e melhorar a caracterização das personagens. Como podem ver, vou me preocupar com o título depois. Caso eu resolva escrever alguma das duas, haverá ainda etapas de pesquisa e planejamento, especialmente no caso de Rosinha, que se passa em São Paulo, no início do século XX – é preciso escolher uma data mais exata e ter informações para contextualizar.
 
Há anos atrás, esse tempo de pausa me angustiava. Eu ficava especulando se seria capaz de escrever novamente. A seqüência ponto final – assinatura – data me causava um vazio mental momentâneo, a sensação de “acabou”, que é ao mesmo tempo de alegria infinita pela conclusão e angústia de fim. Será que algum dia terei outra boa idéia? Será que conseguirei escrever com as melhores palavras? E se isso nunca mais acontecer, como vou viver sem criar e sem escrever? Eu considerava que tinha o compromisso de ter sempre boas idéias e escrever todas elas. Aos poucos, fui aprendendo que não é possível ser brilhante toda vez, e que é melhor não perder tempo escrevendo o que não é excelente. Desde então, tenho histórias que são meros passatempo, uma trama boba, cuja função é apenas me ajudar a dormir. Em geral, uso um conjunto fechado de personagens (inspiradas nas minhas velhas bonecas de papel), e mudo a caracterização, o ambiente e a trama. Chamo essas histórias de exercícios de criação, e não tenho pretensão de escrevê-las. São elas que preenchem meu tempo entre uma história boa e outra. Às vezes uma delas se desenvolve bem, chega ao fim, me agrada, e eu resolvo escrevê-la. Foi o que aconteceu com O destino pelo vão de uma janela, Difícil conquista (1991, descartada), Um dia, depois (1991, descartada), Amor maior que o amor, Tudo que o dinheiro pode comprar, À procura. Algumas são razoáveis, e talvez eu retome algum dia, para aperfeiçoá-las e escrevê-las, como Bonzinho mau-caráter (na versão de 2009), Um campo verde (1993), A Bela e a Fera (na versão de 1996).
 
Então atualmente estou curtindo também esse tempo de pausa de escrita, aproveitando para preparar as publicações, escrever textos para o blog, participar das comunidades de literatura. Considero que tudo isso é tão importante para minha carreira quanto criar e escrever. E hoje eu sei que eu vou conseguir criar novamente, e escrever como quero. Sei que meu inconsciente está trabalhando mesmo (e principalmente) sem eu sentir, e vai se manifestar quando estiver pronto, quando for a hora certa.

Os romances que estão na fila de impressão estão prontos para serem publicados?

Na verdade, não. Eles estão apenas escritos e aprovados em avaliações sucessivas. Somente quando chega a vez daquele texto ser publicado é que eu dou a ele a forma definitiva. É quando verifico principalmente se a contextualização foi feita a contento, e se as descrições de personagens e locais existem e aparecem na hora certa. Nessa fase do trabalho com o texto, ainda posso retirar falas – e até cenas inteiras que me incomodam, e acrescentar detalhes, falas e cenas inteiras. Só o que não está mais sujeito a mudança é a estrutura da história e a caracterização das personagens. Também não costumo nem incluir nem retirar personagens.
 
As personagens de Primeiro a honra, por exemplo, só foram descritas agora, enquanto preparo a publicação. Já percebi também (e até já disse aqui) que terei o mesmo trabalho quando for a vez de O canhoto. Outro dia, reli trechos de Não é cor-de-rosa e me assustei ao encontrar uma observação de que, em certo ponto, deve entrar o trecho com a descrição da fábrica. A fábrica é o cenário principal da história e eu não o descrevi! Preciso voltar a esse texto, porque também não lembro se descrevi direito as personagens. São todas questões que eu resolverei quando for a hora de publicar essa história.
 
Às vezes, a complementação necessária consiste em apenas acrescentar um parágrafo para situar o local e a época, como aconteceu em O maior de todos. Às vezes, é necessário dar mais consistência às personagens e suas questões pessoais, como foi com O destino pelo vão de uma janela.
 
A história que mais mudou nessa fase de preparação para publicação foi O processo de Ser. Em 1986, quando a inventei, eu tive acesso a pouco material sobre a cidade e a região, como são as pessoas e a vida naquele canto do mundo. Então, quando fui publicar, fiz nova pesquisa e consegui mais informações, que me permitiram fazer alterações importantes que enriqueceram a história. Troquei a religiosidade ortodoxa russa por expressões folclóricas do local: a festa do verão, em vez de ser a Páscoa, passou a ser o Ysyakh. Acentuei a questão do frio com informações sobre a luz. Considerei também que o sentimento de gratidão de Piotr não estava bem explicado, então praticamente acrescentei uma cena inteira após uma cena que já existia, em que esse assunto era abordado de forma muito superficial. Mudei também umas falas e gestos aqui e ali, por falas e gestos mais maduros – em 2003, quando publiquei, eu não tinha mais os 16 anos de quando criei, nem os 19 anos de quando escrevi.
 
Então, de fato, minhas histórias só estão realmente prontas quando se tornam livros. E, mesmo assim, às vezes acontece de eu lembrar de uma cena e pensar em algo para melhorá-la. Aí eu lembro “Ah, já publiquei, deixa pra lá”. Enquanto a gráfica não liga as máquinas, eu me dou o direito de ainda tentar melhorar os meus textos.
 

COMO SE FAZ UM ROMANCE HISTÓRICO?

A meu ver, todos os romances são históricos. É claro que são exceção aqueles ambientados fora do tempo/espaço, os romances de ficção e os de fantasia.

Quando se fala em romance histórico, a primeira impressão é de que se trata de uma história ambientada no passado. Mas as histórias do presente também expressam a realidade de uma época, de uma visão de mundo e de um modo de pensar.

À primeira vista também, é mais fácil escrever ambientando a história no tempo presente, pois a contextualização é mais simples, uma vez que se considera que conhecemos a época que estamos vivendo. Ah, sim, conhecemos, mas quanto do que sabemos colocamos no romance? Muitas vezes, pelo contexto ser natural tanto para o escritor como para o leitor, deixamos os detalhes de fora, escondidos, mal-explicados só nas entrelinhas. Precisamos sempre pensar como fizeram os romancistas do século XIX, que nos deixaram um panorama bem delineado e detalhado da época em que viveram. Até mesmo a pesquisa histórica científica pode se basear nos livros da época para reconstruir o que foi o século XIX.

O cuidado para se escrever uma história ambientada no presente ou no passado deve ser o mesmo: contextualizar bem. Para isso, é importante que o autor tenha bom conhecimento de aspectos da época escolhida: sociedade, economia, filosofia, política, religião, arte, literatura, e que considere que o leitor não tem conhecimento específico nenhum, e aprenderá o que é aquela época lendo o livro. É preciso, no entanto, cuidado para não transformar a obra literária num livro didático escolar. Deve-se evitar explicação durante a narração. Ao invés disso, é melhor fazer as personagens agirem com naturalidade naquele ambiente. Em vez de dizer que a sociedade era patriarcal, construa uma cena em que o desejo do patriarca prevalece sobre todos os outros, e um filho indignado contendo a raiva e submetendo-se à vontade do pai. Outro artifício interessante é juntar duas pessoas de grupos diferentes, e uma explicar à outra certos aspectos. O cuidado aqui é para que a explicação não se torne uma aula, nem tenha tom didático. As comparações são maçantes: “você é um guelfo e por isso pensa assim. Eu sou um gibelino e por isso penso assado” e também é melhor que sejam evitadas.

Em Construir a terra, conquistar a vida, o caráter guerreiro da cultura de Ayraci é expresso na atitude dela, quando ela reclama por Duarte prezar a paz; no critério de escolha dos nomes dos filhos deles; no que ela decide que quer como prova de amor; em tudo o que Duarte faz para agradá-la e viver bem com ela.

Gostei de como contextualizei o caráter mercador de Nicolaas, em O canhoto. No século XII, época da história, os mercadores não eram mais uma escória de aproveitadores, como no início do século XI, mas também não eram todos comerciantes respeitáveis. Um centro mercantil importante como era Bruges (em Flandres, atual Bélgica) não teria certamente só um tipo de mercador. Havia, provavelmente, os honestos e os desonestos, e os honestos por certo seriam bastante respeitáveis – como eu queria que fosse a família e o próprio Nicolaas. Então, quando ele encontra Miguel, o espadachim, vemos a situação dos mercadores do século XII por um outro ponto de vista – o dos guerreiros, e vemos como o limite entre honestidade e desonestidade ainda era bem tênue. Nesse mesmo encontro, tive a oportunidade de explicar a situação dos heróis guerreiros pelo ponto de vista de um mercador que dá mais valor ao dinheiro do que ao orgulho, para mostrar que o limite entre a honra e a arrogância também era muito tênue. Esses encontros de culturas e visões de mundo diferentes são perfeitos para desenvolver a contextualização sem cair no didatismo óbvio e maçante. Enquanto cada um defende seu ponto de vista, eu aproveito para explicar tudo o que eu quero.

A construção do romance histórico é igual à construção de qualquer outro romance. A diferença é que as personagens do passado agem de forma diferente de nós e, estranhamente, acham isso muito natural…

COMO TER UM ESTILO DE ESCRITA PRÓPRIO?

Este é um tema sugerido por pessoas que chegam ao blog utilizando ferramentas de busca.

Acho muito difícil alguém que escreve não ter um estilo próprio. Cada pessoa tem seu jeito de contar uma história – ou então está fazendo pastiche. É claro que somos influenciados pelos autores que gostamos de ler mas estilo é a forma como cada um se expressa, desde a escolha dos temas, a composição das personagens, a estrutura da história, até as palavras que escolhe escrever, o tamanho das frases, a linguagem. Então, para ter seu próprio estilo, um escritor precisa escrever bastante.

Num segundo momento, está o desenvolvimento do estilo: aprimorar a forma de escrever. Para conseguir isso, o escritor precisa ter consciência de seu estilo (por exemplo, os aspectos que eu destaquei neste texto aqui). Sabendo como cada item é construído, torna-se possível trabalhar melhor cada um. Também é possível perceber como outros autores fazem, e avaliar se é uma característica desejável.

É preciso analisar os próprios textos, entender como foram construídos e como se dá seu processo pessoal de criação. É preciso auto-crítica para perceber o que se faz bem e o que é preciso melhorar. Nessa hora, pode ser boa a opinião de um escritor mais experiente, que terá mais facilidade em perceber e apontar esses aspectos. Assim, um texto com problemas pode ser corrigido e até mesmo re-escrito – eu faço isso o tempo todo, como contei neste outro texto e também recentemente, com todo o processo de transformação de À procura e História do Mundo.

O desenvolvimento do estilo é um processo contínuo, infinito, pois o autor sempre pode encontrar algo que queira melhorar e investir nisso.

POR QUE UMA FILA DE PUBLICAÇÃO?

Há dois motivos para haver romances aguardando publicação. O primeiro – e o mais óbvio – é que eu comecei a escrever em 1985 mas só comecei a publicar em 2002. Na época, fiquei pensando se devia publicar primeiro a história mais antiga ou a mais recente e concluí que devia começar pelas mais antigas; que, se começasse pela mais recente, depois não ia querer publicar as mais antigas.

O outro motivo – que acaba sendo mais relevante, diante de todo meu processo de criação – é que não consigo acabar de escrever e publicar em seguida. Gosto que a história passe um tempo na gaveta, amadurecendo. Depois de um ano guardada, eu a leio com outra visão e outra maturidade, e faço um julgamento mais isento, menos emocional do que o julgamento que tenho quando estou escrevendo. Então a história escrita sempre tem que esperar pelo momento certo de ser publicada.

Sou bastante cuidadosa com essa questão do amadurecimento do texto. Gosto de ler e reler muitas vezes antes de publicar qualquer coisa. Os textos deste blog também têm fila de publicação. Vou escrevendo à medida que as idéias vêm, mas publico muitas vezes em outra ordem, conforme o assunto que eu queira divulgar naquele dia. Eu só comecei o blog quando já tinha uns cinco textos escritos. Escrevo em média 2 ou 3 textos por semana, e publico 3 textos por mês, o que me garante uma boa reserva, caso eu passe algumas semanas só revisando, sem escrever nada novo. Quando um texto é publicado, ela já foi lido e relido, reescrito, corrigido muitas vezes. Este texto, por exemplo, começou a ser escrito em 30 de agosto de 2009.

ONDE ESTÃO OS CONTOS?

Pois é, percebi que algumas vezes eu citei aqui alguns contos (História do mundo, À procura) mas eles não estão listados nem especificados em lugar nenhum, só aparecendo no Blog de Apoio. Então resolvi inaugurar uma lista com os contos [editado: aqui no site não há listas, então procure pelos contos nas TAGS], que passa a figurar após a lista de Romances na fila de publicação, e fazer este texto explicando porque meu aparente descaso por eles.

Já comentei neste blog que não me preocupo com a forma a priori, e chamo todas as minhas narrativas pelo nome genérico de história. Então meu critério mais forte para determinar se uma história é conto ou romance acaba sendo o número de páginas, em vez de ser a estrutura em si (o que é errado). Se o conflito é rapidamente resolvido, a história é um conto; se demora mais, é romance. O reduzido número de personagens, a restrição de tempo e espaço, a linearidade da trama acabam sendo uma consequência do reduzido número de páginas, em vez de ser seu determinante.
 
Na única vez que submeti meus contos à analise de um contista profissional, ouvi críticas que poderiam ter me desestimulado. Mas, como ele viu qualidades nos capítulos dos meus romances que leu, eu perguntei a ele “então você acha melhor eu parar de fazer contos e ficar escrevendo só romances?” Com um sorriso meio sem jeito, meio “graças a Deus você entendeu rápido”, ele concordou. Desde então, não fiz mais contos, nem pretendo mais fazê-los. Dois deles, inclusive (História do mundo À procura), eu quero ver se consigo desenvolver mais e transformar em romances. Os outros poucos sobreviventes, vou publicar num volume junto com duas pequenas cenas e alguns textos em prosa que escrevi e que, por não terem personagens estruturados, nem uma trama definida, mas serem divagações em forma de ficção narrativa, eu considerava poesia em prosa.
 
Textos curtos têm necessariamente que ser brilhantes todo o tempo. Não há espaço para erros. Um romance não precisa ser todo excelente, é possível se manter a qualidade apesar de alguns erros. Talvez por isso eu não sirva para ser contista. Desde que me mostraram que não sei fazer bons contos, mas meus romances se salvam, está sendo mais fácil focar no que eu sei fazer melhor e me aprimorar nisso. Assim como foi um pouco frustrante descobrir que não sou contista, e que o mundo agradecerá se eu parar de fazer contos, foi importante saber que meu caminho é o romance, e é onde devo investir e buscar aperfeiçoamento.