Personagem

FINALMENTE VAI NASCER EDUARDO

Quem será essa personagem que merece ter seu nascimento anunciado? É o filho de Rodrigo, o protagonista de meu próximo romance. Estou numa fase de organizar as informações e a estrutura da história e uma das questões a definir é o nome das personagens. Pensei em chamá-lo de Lucas ou de Tiago mas alguma coisa me dizia que esses nomes não seriam bons. Em vez de ficar quebrando a cabeça para resolver um problema, gosto de deixar o inconsciente aflorar para que ele resolva. Então parei de pensar em que nome daria ao menino. De repente, do nada (assim chamamos quando o inconsciente passa alguma informação à consciência), eu me lembrei que devo seguir uma tradição que criei, senão ela deixará de ser tradição.
Já expliquei essa tradição em outro texto mas vou repetir o princípio básico aqui: filhos de protagonistas nascidos durante a história recebem o nome do último protagonista que teve filhos. Até hoje, só fiz isso para os meninos. Hora de pesquisar como anda o nascimento de meninas… A tradição começou com Miguel Vasconcelos de Araújo, que foi pai de Ricardo, como Ricardo de Almeida. Depois Duarte Correia foi pai de Miguel. E depois disso (2002), nenhum outro protagonista teve filhos. Agora, finalmente, Rodrigo terá um filho. Não vou contar seu nascimento porque ele nasce no tempo entre o livro 2 e o livro 3. Mas é uma criança que nasce enquanto estou contando uma história, uma vez que a história de Rodrigo é um conjunto de três livros. Então, se o protagonista tem um filho, ele deve ter o nome do protagonista anterior. Não cabe, nos dias de hoje, em pleno Rio de Janeiro (época e local da história de Rodrigo), chamar uma criança de Duarte – essa forma do nome caiu em desuso por aqui (embora continue sendo usada em Portugal). Então vamos modernizar e abrasileirar Duarte e vê-lo transformar-se em Eduardo.
É uma alegria dar continuidade a uma tradição que é só minha e que, portanto, precisa de mim para continuar existindo. E o problema de que nome dar ao garoto foi facilmente resolvido: o filho de Rodrigo se chamará Eduardo. Assim também já fica decidido que, depois de Eduardo, o próximo menino que nascer se chamará Rodrigo.

OS FEIOS

Não gosto de personagens deslumbrantemente bonitas. Lembro que, quando comecei a escrever, todo mundo era príncipe ou princesa, e minha mãe chamou à atenção a inconveniência dessa coincidência. Imaginário de contos de fadas começa a criar assim. Aos poucos, fui conseguindo fincar os pés no chão (pelo menos um pouco) e começar a inventar personagens que são pessoas comuns. E pessoas comuns não são nem feias nem bonitas; são simplesmente comuns. Aprendi a colocar a beleza das personagens não nelas mesmas, mas nos olhos de quem as vê. Então tenho poucas personagens realmente bonitas – nem me ocorre o nome de nenhuma para citar aqui. Quando vou descrever as personagens, acabo falando de poucos detalhes, só do que realmente faz diferença para a história. Porque não importa se a personagem tem olho castanho ou azul: ela enxerga do mesmo jeito. Me prendo mais em cores do que em formas, e na maneira como as personagens usam seus atributos físicos – por exemplo, cabelo curto ou comprido, solto ou preso. Mas se isso for importante para a história, se ajudar a compor a personalidade da personagem.
Minha “feia” mais famosa é Inês, tida por feia inclusive pelo pai, pelos filhos e por ela mesma, mas cuja aparência muito encanta Fernão, o marido. Na verdade, é o que importa: que a beleza esteja nos olhos da pessoa certa.

DE ONDE VÊM AS PERSONAGENS?

Nesse último mês de dezembro, li o livro A personagem, de Beth Brait (Série Princípios da Ed. Ática, 2006). A parte que eu mais gostei foi o último capítulo, quando escritores tentam explicar como é o processo pessoal de criação de suas personagens. Foi muito válido para eu tentar perceber e registrar  em palavras meu próprio processo.
Eu diria que minhas personagens nascem de dentro para fora. No início, a personagem é um sentimento, um desejo, um ideal que aos poucos vai ganhando corporeidade. Em primeiro lugar, ela ganha um objetivo a alcançar e, em decorrência, características de caráter que a façam ter sucesso de forma fácil ou difícil. Depois vêm os obstáculos e ajudas, que acrescentam à personagem outras características. Sim, a trama ajuda a formatar a personagem. No meu processo, uma não existe sem a outra. Só depois que a história existe e se sustenta é que eu vou completar as características da personagem: idade, época em que vive, onde nasceu, onde mora, estrutura familiar, papel na sociedade. E só quando ela começa a se relacionar com as outras personagens é que vão se definindo os gestos, os trejeitos, as características mais peculiares, que distinguem aquela personagem de suas companheiras de história. A última, bem última coisa que se forma é a aparência física da personagem – e essa, por ser de convivência mais recente, eu muitas vezes esqueço de contar ao leitor, no livro. Acabo enfatizando mais as características emocionais, psicológicas, sociais, motivacionais da personagem do que sua aparência física.

Gostei de fazer essa reflexão. A forma como construo as personagens é algo que eu fazia sem pensar no processo. Tomar consciência dos processos me ajuda a compreender melhor como minha mente trabalha. É realmente fascinante.

800 PÁGINAS

Por estar lendo Construir a terra, conquistar a vida e escrevendo De mãos dadas, as duas com mais de 500 páginas, percebi como é mais fácil escrever muito quando as personagens secundárias ajudam a carregar a trama – que é o que acontece em Construir a terra, conquistar a vida, em que Fernão, Ayraci, Inês e os filhos têm seu momento de protagonismo. Duarte integra e harmoniza, mas divide o fardo de carregar a história com o resto da família.
Já a situação em De mãos dadas é diferente: Toni carrega sozinho a história. Ele não apenas resolve sozinho seus problemas como ainda participa ativamente da solução dos problemas das personagens secundárias. Numa atitude “fominha”, ele não abre brecha para mais ninguém ser protagonista, nem mesmo temporariamente. É bem mais difícil de construir e levar uma história de longa duração assim. Acho que não conseguiria passar 25 anos com Toni, como passei 25 anos com Duarte e Fernão.
Em De mãos dadas, as tramas secundárias são convergentes, e caem todas nas costas do pobre Toni. Em Construir a terra, conquistar a vida, as tramas secundárias são divergentes e são resolvidas próximo a Duarte e com apoio dele, mas cada personagem secundária resolve seu próprio problema. E o interessante é que fazer isto ou aquilo não foi escolha intencional, mas consequência do caminho trilhado. Eu não decidi de antemão, simplesmente aconteceu.
 Olhando também para as outras histórias, percebi que minha tendência é ter protagonistas centralizadores e tramas convergentes. Quem sabe, na próxima história de longa duração (sete anos ou mais na vida das personagens), eu não experimento de novo fazer tramas secundárias divergentes, e ter um protagonista que cede temporariamente seu espaço às personagens secundárias – mas desta vez, com tudo planejado e intencional. Seria um desafio interessante.

A VOZ DAS PERSONAGENS

Eu prezo muito a correção gramatical, e tomo certos cuidados no trabalho com meus textos: evito repetição de palavras no parágrafo; evito aliterações; certifico-me de que as frases estão completas, com sujeito, verbo e complementos, corretamente ordenados e pontuados; entre outros detalhes igualmente importantes para que o texto fique estilisticamente bom.
Esse perfeccionismo acaba na hora de fazer os diálogos. Eu, o narrador em terceira pessoa, não posso cometer erros gramaticais, nem usar linguagem coloquial. Mas as personagens podem cometer erros e devem usar linguagem coloquial. Então, enquanto o narrador diz “Toni pegou-a ao colo e levou-a para o outro lado”, uma personagem estaria sugerindo “Vai lá, pega ela no colo e leva ela pro outro lado”. O narrador não deve ter a mesma voz que as personagens, e os diálogos (as personagens) não podem ter a mesma voz que o narrador em terceira pessoa. Um costuma ser mais formal e o outro deve ser totalmente informal.
Tenho visto, em sites com as famosas “dicas” para escrever, a informação de que diálogos são difíceis de se fazer, pelo grau de informalidade e naturalidade que devem ter. Ora, é justamente por isso que é tão fácil se escrever diálogos! Ponha-se na pele da personagem e desande a conversar, ora bolas! Imite o sotaque de sua personagem, faça seus trejeitos. Incorpore: os diálogos serão informais e naturais.
Outro dia, escrevendo De mãos dadas, fiz um diálogo em que, a certa altura, Toni diz: “Lá na empresa, eu faço a diferença. O que eu faço lá ninguém mais faz e isso me faz muito bem”. Assim que reli a primeira vez, meus sensores já detectaram faço-faço-faz-faz e meu primeiro impulso foi riscar e corrigir, escolhendo três verbos diferentes para trocar. Mas logo freei a mão, ao lembrar de que Toni não está lendo e escrevendo: ele está falando! Mais: ele está argumentando! Ninguém pensa em elegância de estilo quando defende seu ponto de vista verbalmente. Ainda mais que Toni estudou apenas o mínimo necessário para fazer seu trabalho. Ele não é um intelectual, menos ainda um erudito. O gosto dele para leitura é no nível do senso-comum, sem nenhum refinamento. Ele nem gosta de poesia. Nem sei se ele lê o jornal do dia. Então, se eu corrigisse as repetições da fala dele, o resultado seria artificial e arriscaria até ser pedante. Poderia ficar assim: “Lá na empresa, eu sou o diferencial. O que eu realizo lá ninguém mais faz, e isso me agrada muito”. Sem repetições, mas não é o meu Toni falando. Então, ao mesmo tempo em que eu me esforço para narrar “Entregou-lhe o livro pedido” (ênclise correta), minhas personagens pedem “Me dá aqui esse livro” (próclise no lugar errado).

O segredo para dar a voz correta às personagens nos diálogos é bem simples: o autor precisa saber vestir muitas peles; pensar, sentir, agir e falar como cada uma de suas personagens, de preferência todas ao mesmo tempo. E precisa saber sair de todas essas peles na hora de usar um narrador em terceira pessoa. No começo, pode não ser fácil de se fazer mas, depois que se pratica, os diálogos se tornam a parte mais simples e prazerosa de se escrever.

O ANTI-HERÓI

Estou há tempo ensaiando para falar desse tipo de protagonista. Andei pesquisando conceitos e exemplos mas não encontrei muita informação conclusiva. Todos preferem falar do herói, aquele sujeito sem graça que abarca todas as qualidades da face da terra e que salva o mundo todos os dias. O anti-herói, perto do herói, é asqueroso e desprezível. Tenho uma queda pelos desamparados, talvez por isso prefira os anti-heróis.
Todos os meus protagonistas são anti-heróis. Não que sempre lhes falte caráter (característica apontada como necessária para alguns conceituadores) mas eles têm uma série de defeitos: sentem medo, sentem raiva destrutiva (e não a indignação mobilizante dos heróis), têm dúvidas, erram, choram, caem, pedem desculpas; são muitas vezes gananciosos, interesseiros, falsos, mentirosos, inescrupulosos, embora confiáveis, amorosos, fiéis a seus ideais. Por isso, pode acontecer de eles serem confundidos com antagonistas – como eu mesma fiz, analisando a personagem Curt Legrant neste texto. Na verdade, ele é o protagonista da história mas, por ser um anti-herói, ele acaba parecendo antagonista de Karl. O mesmo acontece com Ninette, que é, sim, protagonista de sua história. Dessa forma, Karl e Estienne ficam mesmo com o papel de co-protagonistas, na função de “pequenos” (ver texto sobre Grande e pequeno) e, na verdade, eles também são antagonistas, pois impedem Curt e Ninette de alcançarem o poder que almejam.

O anti-herói está mais próximo da pessoa real do que o herói. E eu gosto das pessoas reais, que têm defeitos e problemas. Acho que construir anti-heróis me ajuda a dar verossimilhança à história, pois a vida no passado (o que eu gosto de fazer) não era um conto-de-fadas, mas vida de verdade, de pessoas humanas como nós.

PROTAGONISTAS, ANTAGONISTAS E SEUS OBJETIVOS

Desde que inverti a relação entre Curt e Karl, venho pensando muito na questão dos objetivos de vida das personagens, e o que seria lícito para um protagonista. “Tomar o poder” é objetivo para um protagonista? Ou isso necessariamente se torna “impedir que alguém tenha poder”, jogando essa personagem para o papel de antagonista e elevando o “alguém” ao papel de protagonista? Essa questão acaba se desdobrando em “o mocinho pode ser o vilão da história?” E se, no final, o Bem vencer? Minha personagem principal será punida. De repente minha falta de finais felizes começa a fazer sentido: como meus protagonistas são na verdade antagonistas, e o Bem vence no final (minha formação ética não me deixa fazer diferente), minhas personagens acabam não tendo o final feliz que gostariam.

Sempre que a questão do poder – em geral apresentada como poder político – se apresenta, minha tendência é ficar do lado do contestador, do subversivo, do transgressor, e elevá-lo ao posto de personagem principal e ponto de vista da história. É esse transgressor que carrega toda a história, que conduz a trama, para, no final, entregar tudo àquele que tentou prejudicar – uma personagem frágil que só mostra sua força no final, justamente para subverter a classificação dos papéis e terminar como o protagonista que vence o antagonista.
 
É revoltante entregar o protagonismo a Karl e Estienne, por exemplo, quando o trabalho pesado de conduzir a trama foi de Curt e Ninette, lutando contra todo tipo de adversidade, lutando contra os inimigos de Karl e Estienne. E, de repente, só porque o poder pertence legalmente a Karl e Estienne, Curt e Ninette acabam sendo proscritos, e ocupando o lugar de antagonistas.

Preciso estudar melhor essa classificação de papéis para definir se meus “malvados” podem ser protagonistas, mesmo que objetivos que se opõem aos objetivos das personagens “boazinhas”.

O PROTAGONISTA SEMPRE VENCE O ANTAGONISTA?

É hábito da literatura expor o protagonista a todo tipo de dificuldade pelo meio do caminho e fazê-lo superar tudo antes do fim da história. Então, seja o antagonista outra personagem ou alguma circunstância da vida, o protagonista sempre o vence no final. Em algumas histórias, esses papéis são facilmente identificados e o leitor consegue acompanhar o desenvolvimento dessa temática sem dificuldade. Costumo pensar que, nas minhas histórias, a classificação protagonista / antagonista não é óbvia, o que dificultaria perceber se o protagonista sempre vence o antagonista no final. Na verdade, a questão é um pouco anterior: eu me apego aos antagonistas e acabo vendo-os como personagens principais e, portanto, protagonistas. Eles não se opõem aos protagonistas por loucura ou falta de caráter (tudo bem, há exceções) mas por circunstâncias da vida. Eles têm um motivo para estarem nessa posição e, em geral, é um motivo justo, então eu os perdoo. Muitas vezes, o antagonista é a personagem principal da história, enquanto o protagonista age e carrega a trama dos bastidores. Então, antes de eu poder dizer se, nas minhas histórias, o protagonista sempre vence o antagonista, é necessário definir exatamente qual é o objetivo de vida de cada personagem importante, durante a história, para ver se o objetivo de um se opõe ao objetivo do outro, para poder definir se um deles é antagonista, e finalmente analisar se, ao final, o objetivo de um se sobrepôs ao objetivo do outro e em que sentido (objetivo do protagonista se sobrepôs ao do antagonista // objetivo do antagonista se sobrepôs ao do protagonista). Mudança nos objetivos também significa derrota: ao ver que não conseguiria, o antagonista achou melhor fazer outra coisa.

Estou considerando que o protagonista é a personagem que, além de carregar a trama, tem pelo menos um objetivo a perseguir e que o antagonista, que também pode ser quem carrega a trama, tem por objetivo impedir, prejudicar ou atrapalhar o protagonista em seu objetivo.
 
Acho que especificar aqui o que acontece nas minhas histórias meio que tiraria a graça da leitura (eu estaria contando o final da história). Então vou deixar essa análise para meus leitores fazerem.

KARL E CURT / CURT E KARL

São as personagens de O maior de todos que disputam o poder sobre o pequeno e frágil reino germânico de Durpoin. Quando eu sonhei essa história, Curt era a personagem predominante, que tinha que influenciar o Rei para salvar Lisbet, depois do acidente com a Rainha. Karl era apenas um menino com uma coroa na cabeça, alguém que não resistiria à persuasão de Curt. Senti a confiança de Curt em seu próprio poder, apesar das circunstâncias, e resolvi escrever a história para mostrar isso.

Quando eu escrevi essa história, Curt era a personagem principal, o protagonista, aquele que conduz, não apenas a trama, mas também o destino do reino e das pessoas que estão nele. Ele era o poderoso Curt Legrant, o conde que manda no rei, que domina o conselho dos ministros, e cuja palavra é lei. Karl era um jovem frágil, inexperiente, dependente de Curt, ansiando por libertar-se mas geneticamente predestinado à submissão, embora capaz de uma subversão em algum momento.
 
Quando analisei essa história, vi o conflito entre grande e o pequeno, vi como Curt e Karl se alteram no poder, e vi que conseguir o que se quer nem sempre é o melhor que pode acontecer a alguém. Na minha leitura, Curt era o protagonista e o antagonista eram as circunstâncias. Karl era um terceiro, sem papel identificado.
 
Então veio o blog e, para produzir estes textos, novas análises foram necessárias. Explorei os aspectos que eu já tinha observado e fiz novas observações. O primeiro estranhamento foi quando tratei da Jornada do Herói. Outros protagonistas eram ou não heróis, mas aqui quem faz a Jornada é Karl, e não Curt. Depois falei dos protagonistas e antagonistas, e contrapus Curt a Karl em alternância, o que também é estranho, já que Karl não age contra Curt. Mas foi ao analisar os inimigos de confiança que uma nova luz se fez: o protagonista de O maior de todos é Karl. Curt é, na verdade, o antagonista. É Curt quem precisa ser detido em sua sede de poder; é Curt quem se opõe a que Karl reine plenamente, como rei recém-coroado que é. Curt não é um vilão, porque não faz maldades, e tem seus próprios problemas pessoais para resolver, aos quais dedica muita atenção. Mas o objetivo de sua vida é atrapalhar Karl e é isso o que ele faz todo o tempo, no papel de antagonista. E, por fim, quem subjacentemente está conduzindo a trama, quem soluciona o conflito de poder é Karl, num papel de protagonista que vai crescendo ao longo da história.
 
Dessa nova leitura, surgem novas questões, que vou contando aqui à medida que for conseguindo refletir sobre elas e elaborá-las.

MELHOR AMIGO OU INIMIGO

Minhas histórias não são do tipo que um herói vence inimigos. O conflito protagonista – antagonista não é óbvio. Há casos em que o antagonista é alguma circunstância, e não uma outra personagem. E, como não gosto também dessa visão simplista de bem x mal, costumo desconstruir a relação mocinho x vilão. Muitas vezes, o vilão é a pessoa em quem o mocinho pode confiar, não por ser a única alternativa, mas por ser a melhor. Em algum momento da trama, a pessoa que, de alguma forma, quer o mal para o protagonista se torna a pessoa em quem o protagonista pode realmente confiar. Algo como se o vilão dissesse “proteja-se apenas de mim, e eu o protejo do resto do mundo”. E há também a possibilidade da pessoa que quer o bem do protagonista, o amigo, por alguma fatalidade, acabar prejudicando e fazendo o mal, em geral, involuntariamente. Vamos falar de cada um em termos de “Caso 1” e “Caso 2”.

 
Caso 1 – inimigo de confiança
 
Acho que o típico inimigo de confiança é Curt Legrant. No meio de todo o conflito político, a única pessoa em quem Karl pode realmente confiar é Curt: o próximo na linha sucessória, e o homem cuja missão de vida é enfraquecer o poder do Rei. Talvez por Curt ter objetivos tão explícitos, Karl sabe o que esperar dele, como agir diante dele, e pode confiar a ele sua vida, pois a morte de Karl destrói o objetivo da vida de Curt. E Karl confia nele cegamente.
 
Fréderic e Ágila são do tipo “eu te projeto do mundo para que só eu lhe faça mal”. É uma proteção que sufoca, que faz mal, porque fragiliza e torna dependente. E, mesmo assim, Ninette e Camila veem neles a pessoa de confiança, a quem podem entregar a vida sem receios. Há uma cena em que Ninette diz “Será que eu só tenho você?” e Fréderic responde “Não sei se sou o único, mas pode sempre confiar em mim”. Há uma outra cena em que Ágila diz “Mas eu posso protegê-la de tudo. Você está assustada porque vivemos num mundo violento mas você sabe que não precisa ter medo de mim.” E é assim que Camila descreve o abraço de Ágila: “Os braços dele eram como uma muralha a envolvê-la e a protegê-la de tudo. Mas também era um abraço que a isolava do mundo, e criava um universo próprio, em que só eles dois existiam.” E Ninette confia em Fréderic, assim como Camila confia em Ágila.
 
Quando Alex sugere a Caty que visite a fábrica do pai dela, quer vingar-se dela por sentir-se humilhado pelo comportamento e pela atitude dela. Nessa hora, ele é um inimigo. Mas Caty sente que a proposta dele pode lhe trazer algum bem e segue a sugestão de Alex  Confia no que pensa que ele sente e o segue até a última consequência.
 
Da mesma forma, quando Jacques começa a contar a Marie eventos do passado, está agindo como inimigo dela, mesmo dizendo que lhe quer bem. Ele também é inimigo de Gustave, mas tanto Marie quanto Gustave permanecem inertes frente à influência dele. Apesar de tudo, Marie confia em Jacques – mais até do que em Gustave.
 
Caso 2 – amigo que faz mal
 
Nessa categoria, acho que um dos mais marcantes é Maurits, talvez o melhor amigo de Nicolaas. Por causa dessa amizade, Nicolaas enfrenta muitas dificuldades na vida, mas é uma amizade marcante, que segue firme até o fim da história. Maurits deseja bem a Nicolaas  mas, involuntariamente, faz mal.
 
Já comentei sobre Letícia e seu papel dúbio, sendo ao mesmo tempo quem ajuda Toni no objetivo imediato e quem o afasta da meta final. Ela é uma amiga, quer ajudar, mas acaba também fazendo mal.
 
Penso que tudo isso cabe no tema das falsas aparências, que acaba sendo constante nas minhas histórias, de uma forma ou de outra. Inimigos que fazem bem, amigos que fazem mal são subversões das caracterizações típicas. Gosto disso, de não saber o que esperar de uma personagem. Acho que é um ponto de interesse na história: construir personalidades complexas e, de certa forma, imprevisíveis.