Desagravo – trecho

 
Capítulo I
 
Luz filtrada por grossas cortinas, deixando o ambiente na penumbra. Móveis de madeira-de-lei escura, grandes, pesados. Cômodo grande mas cheio com estantes de livros, duas escrivaninhas e um canapé espaçoso, onde dois rapazes conversavam.
– Seu pai queria que você esquecesse esse assunto.
– Eu sei. Se não fiz nada até hoje, foi em respeito a ele. Mas já fiz luto por um ano, não tenho porque esperar mais.
– Podia atender o desejo dele.
– Eu não queria dar-lhe desgosto mas agora ele não está mais aqui para desgostar-se. Eu preciso fazer isso, Álvaro.
– Não entendo porque não consegue esquecer tudo.
– Esquecer?! A minha vida mudou totalmente, você acha que posso esquecer?!
– Mudou para melhor, não?
– Não importa. Eles não tinham direito. Não tinham direito…
– A Angélica já sabe?
– Não. Nem deve saber. Você é o único que sabe. Então é o único que pode me deter. Mas é também o único que não tentará me deter.
– Você vive obsecado com essa idéia. Esqueça, Artur, perdoe!
– Nunca: eu jurei vingança. E eu terei minha vingança.
– Já sabe o que fará?
– Não, não sei em que situação vivem. Preciso estar lá para decidir.
– Não faça nada de que possa se arrepender depois.
– O que quer que eu faça, não será motivo de arrependimento.
– Eu não sei como convencê-lo a não ir.
– Não sabe porque não há como. Eu partirei na próxima semana. Já tenho tudo planejado até chegar lá. Então verei o que fazer.
– Rodrigo, você é jovem, rico, tem uma noiva linda, por que ficar repisando coisas do passado?
– É uma ferida que não fechou, Álvaro. É preciso pôr remédio para que cicatrize.
– E vingança é remédio?
– Para mim, é. Você fala tudo isso porque não sabe o que aconteceu.
– Eu sei: você me contou.
– Você não sabe o que eu sofri, o que eu passei. Eles merecem todo o que eu darei a eles. Eles pagarão muito caro pelo que me fizeram.
Álvaro desistiu: sabia que a esperança da vingança era o que mantinha Artur vivo. E, apenas quando se sentisse vingado, ele poderia viver em paz, como uma pessoa normal. Enquanto restasse essa mágoa, ele estaria sempre angustiado, amargurado, melancólico.
– Então, que você tenha sucesso, e que sua sede de vingança seja saciada.
– Deus permita.
 
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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

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