DIÁLOGOS

Meu fascínio pelos diálogos nos textos dos outros (para aprender a fazer nos meus) é intuitivo e emocional, e não tem um motivo racional que eu possa usar como argumento. Acho que o texto fui com mais facilidade e leveza quando os assuntos são tratados em forma de diálogo.
 
Essa é minha opinião e meu gosto pessoal, mas eu não estou sozinha. A uns bons anos atrás, meu pai, jornalista e repórter, me contou como os noticiários da televisão vinham mudando, dando-se cada vez mais espaço a matérias externas, em vez nas notícias de estúdio. E ele me explicou: as pessoas querem ver a sua cidade, querem saber quem foi que disse o que o jornalista está contando. Trazendo para as histórias: as pessoas não querem um narrador que conta o que está acontecendo; elas querem ver e ouvir as pessoas interagindo em seu próprio ambiente.
 
É claro que, para descrever as personagens e contar seus pensamentos mais íntimos, só a narração é possível… Claro nada! Eu posso descrever uma personagem com diálogos. Como? Outras pessoas comentam a aparência e o jeito de ser da personagem em questão. É claro que, dessa forma, temos apenas a opinião das outras personagens, e não a descrição “isenta” do narrador, muitas vezes uma espécie de deus onisciente. Mas quem precisa de uma opinião isenta? Gostei muito da forma como descrevi Inês Martins, em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Ayraci destacando características que a tornam feia e Fernão tentando suavizar os defeitos para convencê-los de que ela é bonita. Ficou mais ou menos assim (estou repetindo de memória, então não garanto que o texto tenha ficado exatamente assim):
 
– O que viste nela, Fernão? Ela é feia! –Duarte opinou.
– Não é feia, não! –Fernão defendeu.
– Ela tem olhos arregalados!
– Não são arregalados, são grandes.
– Sim, e bem abertos –Duarte completou.
– Não vejo problema nenhum nisso. Eu gosto dos olhos dela.
– Ela não tem queixo –Ayraci disse, em voz baixa.
– Tem sim. Só que… é pequenino.
– Não adianta, Fernão –Duarte concluiu- Ela é feia.
– Eu não acho. Para mim, ela é bonita. A moça mais bonita da cidade. E não vou ficar aqui a ouvir insultos.
 
Isso é só um pedacinho, porque descrevo também outras características da moça. Usando diálogos, posso também usar exageros. Não fica bem um narrador sério e “isento” dizer que a moça teria olhos arregalados e não teria queixo. Eu acabaria usando os termos de Fernão, e o leitor acharia que os olhos de Inês eram apenas grandes e bem abertos quando me agrada passar a imagem de olhos arregalados.
 
Quanto aos pensamentos íntimos das personagens: embora eu conte em terceira pessoa (como é a voz do meu narrador), faço de forma a usar o jeito de falar da personagem, como se ela estivesse falando consigo mesma. E, se o parágrafo ficar muito extenso, faço a personagem falar em voz alta, para escrever um travessão e quebrar a massa pesada do parágrafo. Um exemplo hipotético ficaria assim (de propósito vou fazer o conteúdo vazio e sem sentido, para enfatizar a forma):
 
Tinha que ser assim –ele pensou- Afinal, há anos sabia dessa questão e evitava enfrentar o problema. Ninguém mais podia ajudá-lo, pois afastara-se dos amigos e perdera contato também com os inimigos (segue o blá-blá-blá)
– Não adianta lamentar. Agora está feito.
Mas, em seus pensamentos, ainda tinha a imagem dos eventos passados, como aquele dia em que sua mãe lhe dissera como era importante resolver os problemas na hora em que se apresentam. E ele nunca dera ouvidos a sua mãe… (segue o blá-blá-blá)

O uso de diálogos é, portanto, uma ferramenta importante não apenas para fazer as personagens se comunicarem, mas também para passar informações para o leitor de uma forma interessante, quebrando a monotonia da voz do narrador.

Posted on: 11 de novembro de 2011Mônica Cadorin

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