Nem tudo que brilha… – trecho

 
 
Capítulo I
 
Quando voltaram da lua-de-mel, Roberto e Isabel foram para a casa nova, que tinha sido comprada pouco tempo antes do casamento.
Isabel mostrou a Roberto o recorte do jornal.
– ‘Cê ta brincando! É uma casa enorme, deve custar uma nota! Ainda mais mobiliada.
– Eu passei na frente dela outro dia. É uma casa linda. Eu sempre quis morar num lugar como aquele. Ah, Roberto, não custa nada dar uma olhada.
Ele sorriu.
– Tá bem. Eu esqueço que, pra você, dinheiro não é problema.
– Eu sei que nós tínhamos combinado que você ía comprar um lugar pra nós mas…
– Mas, se você gostar da casa, eu vou ter que contribuir de outra forma.
– Não vamos brigar por causa de dinheiro, vamos? -ela abraçou-o pela cintura.
– Não -ele passou os braços em torno dela- É só que eu não quero que digam depois que eu me casei por dinheiro. De você, eu só quero uma coisa.
– O que?
– Você.
Eles trocaram um sorriso e um beijo.
Instalados, os recém-casados cuidavam de dar toques pessoais a móveis e ornamentos estranhos, enquanto se habituavam à nova casa.
– Não é mesmo um sonho morar num lugar assim?
– É, sim.
– Esta casa parece… parece ter histórias a contar.
– Deve ter -ele olhou pela janela- É uma casa antiga.
Tocaram a campainha.
– Deixa que eu vou ver.
Isabel saiu da sala, atravessou o vestíbulo e saiu da casa. Andou por entre os arbustos, sobre as pedras que forravam o chão até o portão. Do lado de fora, um velho de cabelos grisalhos, rosto enrugado, as costas meio recurvadas e um sorriso simpático. Quando ele viu Isabel, o sorriso morreu-lhe e ele pareceu tomado de grande terror.
– Você! -ele sussurrou.
– Pois não, -ela não ouviu o sussurro dele- o senhor quer alguma coisa?
– A senhora mudou-se para cá há pouco tempo, não é? -ele voltou a sorrir.
– É verdade.
– Há muito tempo atrás, esta era uma casa muito bonita. Mas agora, pintaram ela toda, e o jardim está todo maltratado. Eu sou jardineiro, sabia? A senhora vai precisar de um bom jardineiro pra cuidar das plantas.
Isabel sorriu, surpresa pela proposta.
– Olha, eu… ainda não tinha pensado no assunto. Nós chegamos de viagem hoje e… Como é mesmo seu nome?
– Vicente Cruz, seu criado.
– Meu nome é Isabel Ca- -não, agora era uma mulher casada- Isabel Dantas.
– Dantas? -ele pareceu assustado.
– Algum problema, Isabel? -Roberto perguntou da porta.
– Não, está tudo bem.
Mas o velho ficou mais assustado ao ver a figura de Roberto de longe. Seus olhos não lhe permitiam mais perceber detalhes de fisionomia a essa distância mas só o porte de Roberto bastou para trazer-lhe medo e recordações.
– O senhor está se sentindo bem? -Isabel percebeu que havia algo errado.
– Sim, eu estou bem. Aquele é seu marido, não é? Sim, ele é o Dantas, posso ver daqui.
– O senhor conhece a família?
– Ah, não. Não, não senhora. Eu conheci um Dantas, uma vez, mas faz muito, muito tempo. Ele já morreu há muito tempo.
– Seu Vicente, eu vou pensar na sua oferta. O senhor pode voltar aqui amanhã? eu lhe dou uma resposta.
– Sim, eu voltarei amanhã. Mas pense bem: -ele falou grave- se vai morar nesta casa, vai precisar de ajuda. -ele forçou um sorriso- Com o jardim, eu quero dizer.
Isabel despediu-se com um sorriso e esperou o velho se afastar para voltar para junto de Roberto.
– O que ele queria?
– Emprego de jardineiro.
– Velho daquele jeito? Ele não daria conta.
– Pessoas velhas precisam ter em que se ocupar.
Ele sorriu.
– Se eu a conheço bem, você vai contratá-lo e não vai mais mandá-lo embora, mesmo que ele não dê conta do serviço.
– O que você acha?
– Bem, eu não levo muito jeito com plantas e o jardim precisa mesmo de cuidados. Se podemos nos dar ao luxo de ter um jardineiro e você acha que podemos confiar nele…
– Sabia que você ía concordar -ela sorriu.
No outro dia, Vicente foi contratado. Trabalharia durante a semana, na parte da manhã e, depois do almoço, voltaria para casa. Como o acordo foi feito à tarde, ele saiu, para voltar no dia seguinte. Isabel andou pelo jardim e pela casa, acostumando-se a tudo. No fim da tarde, quando chegou em casa, Roberto encontrou alguns móveis fora de lugar e Isabel com uma vassoura na mão, ocupada em varrer o lugar em que estava um móvel.
– O que aconteceu por aqui?
– Ah, que bom que você chegou: assim você me ajuda.
– O que está fazendo?
– Resolvi mudar a arrumação dos cômodos.
– Por quê? Você tinha dito que a decoração estava de acordo com a casa.
– É, eu sei, mas… Você vai achar maluquice minha, mas… os móveis ficavam em outros lugares antes. Aquela cadeira, por exemplo. O lugar dela é perto da janela, não nesta parede, onde estava.
– Aquela cadeira nunca esteve perto daquela janela. O lugar dela sempre foi nesta parede.
– Como pode saber?
– Eu não sei. Estou usando o mesmo critério que você: eu acho.
– Mas eu não acho, eu sinto.
Ele fez uma expressão de desengano e descrédito.
– Tudo bem. O que falta mudar?
– Não consegui carregar a cristaleira.
– No mínimo você não foi trabalhar hoje.
– Não fui, mas liguei pra lá: está tudo sob controle.
– “O que engorda o boi é o olho do dono”.
– Eu sei.
– Eu vou trocar de roupa e já venho te ajudar.
Antes do fim do dia, toda a casa estava arrumada diferente. Agora, sim, estava de acordo com o gosto de Isabel. Agora, sim, ela se sentia em casa, numa casa sua, e não estranha.
No outro dia, o jardineiro chegou cedo para trabalhar.
– Toma cuidado com ele. -Roberto recomendou, antes de sair- Não sabemos quem é, pode não ser de confiança.
– Ele é um velho, o que pode fazer?
– Pode, por exemplo, abrir o portão a outros mais novos.
– Está bem, -ela sorriu da preocupação dele- vou tomar cuidado. Você vem almoçar, não vem?
– É claro que venho.
Despediram-se com um beijo e ele saiu. O jardineiro se aproximou:
– Ele parece gostar muito da senhora.
– Ele gosta, sim. -ela sorriu- Onde conseguiu essas ferramentas? -ela viu que ele tinha uma caixa na mão.
– Eu trouxe de casa.
– Quanto tempo o senhor acha que deve levar pro jardim ficar bonito?
– Se tiver sol e chuva na medida certa, um mês ou dois.
– E, com seus cuidados…
– Vou fazer o possível.
Ela sorriu e entrou em casa. Telefonou para o trabalho, avisando que só iria à tarde. Depois sentou-se no canapé e olhou em volta. As paredes eram tão brancas… Deviam ter uma cor mais suave, mais amena. De repente, ela se lembrou de algo, levantou e foi até um ponto na parede, perto da janela, onde a quina de um console tinha batido, soltando uma lasca de tinta. Isabel puxou a tinta solta e adimirou-se por encontrar vestígios de outra pintura por baixo. Pareciam… – ela arrancou mais alguns pedaços de tinta – pareciam flores! Devia ser… talvez uma guirlanda, emoldurando a janela. E essa camada de branco cobrindo tudo… cobrindo o aspecto original do lugar. Precisava remover a tinta nova, com cuidado de restaurador, para deixar aparecer a cor original das paredes.
– Mas não hoje. Vou falar com Roberto primeiro. Sei que ele vai concordar mas quero consultá-lo primeiro.
Na hora do almoço, o casal se encontrou.
– Vamos precisar de uma empregada.
– Estava estranhando sua demora em chegar a essa conclusão.
– Por quê?
– Você nunca fez nada na sua casa, de repente virar dona-de-casa, ainda mais numa casa deste tamanho. Você ía ter que ficar o dia inteiro por conta disso. -ele segurou as mãos dela- Eu não ía gostar de chegar em casa e encontrar a minha mulher cansada de limpar e arrumar, com as mãos ásperas, e cheirando a sabão e poeira.
– Descobri que há uma pintura diferente por baixo da tinta branca. Estava pensando em… retirar essa tinta, pra ver o que tem embaixo.
– Não gosto disso. Desde que viemos pra cá, você dá mais atenção a esta casa do que a mim!
– Não é isso, meu amor. Você não se sente melhor depois das mudanças de ontem?
– Não fiquei muito tempo em casa desde ontem.
– Pois eu a sinto cada vez mais nossa.
Ele sorriu:
– Se é importante pra você, faça o que quiser: tire a tinta, faça buracos nas paredes, arranque as janelas, troque o assoalho…
Ela riu:
– Não exagere, sabe que não vou chegar a tanto. Mas o chão precisa ser encerado e as janelas, limpas. Por isso precisamos de uma empregada.
– Ela vai ter que ser paciente, pra suportar limpar pó de tinta todos os dias.
– Eu liguei pra minha mãe, ela vai ver se consegue alguém.
– Indicação da sua mãe…
– Ah, não começa.
– Não. -ele sorriu com carinho e mudou de assunto- O tal jardineiro ‘tava podando os arbustos. Acho que o subestimei.
– Ele é um profissional: dá pra ver pela forma como ele segura as plantas. As vezes… -ela riu- parece que eles estão conversando.
– Ele fala com as plantas?
– Sim, e parece que elas respondem. Conversei com ele no meio da manhã e ele me disse que conhece esta casa desde que ele era jovem. Ele disse que algumas plantas são antigas, que são mais velhas do que eu!
– Nossa, as plantas vivem tanto tempo assim?! -brincou.
– Seu bobo… Ele disse que, por fora, a casa era de outra cor. Ele descreveu como um rosa pálido misturado com creme.
– Por que é tão importante pra você deixar esta casa como era antigamente?
– Não sei. Gosto de coisas antigas.
– Qualquer dia eu vou chegar e encontrar você com um vestido do século passado.
– Também nem tanto!
– Não sei se conforto e antigüidade combinam.
– Você prefere conforto…
– Meu amor, eu trabalho o dia inteiro, a semana inteira. Quando eu chego em casa, quero estar à vontade, me sentir bem. Esses… sofás duros que tem na sala-
– Não são sofás, são canapés.
– Seja. Eles são bons pra receber visitas chatas, não pra sentar e conversar com os amigos, ou pra ver televisão.
– Bem, podemos… podemos conjugar os dois: ter umas partes da casa confortáveis, outras antigas.
– Você nunca foi tão vidrada em antiguidades.
– Acho que é o ar desta casa. -ela riu- Está me influenciando.
– Tem certeza de que gosta daqui.
– Tenho.
– Não quer sair daqui?
– Não.
– Então vou ter que arranjar umas roupas rendadas e uma peruca branca encacheada, pra você não me trocar pela casa.
Ela riu do comentário dele e ele riu também. Depois do almoço, eles saíram.
– Pode ficar com o carro, se quiser.
– Não: eu, definitivamente, não vou precisar do carro. Você pode precisar. Você fica com o carro. Só não pode esquecer de me pegar depois.
– Quanto a isso, não se preocupe. -ela pegou a chave e sentou-se no lugar do motorista, e eles foram trabalhar.
— “ —
Capítulo II
Enfim um final de semana – o primeiro na casa nova. Isabel acordou cedo e preparou o café. Arrumou tudo numa bandeja e levou para o quarto. Quando entrou, Roberto já estava acordado.
– Nossa, café na cama! Que chique!
Eles trocaram um beijo de bom dia e sentaram-se frente a frente para o café da manhã.
– Hoje quero que você abra aquela porta pra mim.
– Pra que? Já vimos por fora: não há um balcão, nem uma grade, nada.
– É a única janela para o corredor e o alto da escada: é preciso arejar.
– Vai prometer tomar cuidado: uma queda daqui de cima pode ser fatal.
Ela sorriu da preocupação dele e prometeu.
– Sua mãe conseguiu uma empregada?
– Conseguiu. Ela vem na segunda.
– Então podemos arrancar toda a tinta da casa até lá.
– Mas tem que ser com cuidado, pra não estragar a camada de baixo. Eu vi como você ‘tava fazendo ontem: ‘tava quase arrancando o reboco!
– É que a tinta ali não ‘tava saindo. E, por baixo, só tinha outra camada de branco. Eu deixei de lado, depois você vê se dá jeito.
– Sabe o que eu estava pensando?
– Só vou saber se você falar.
– Uma casa antiga como esta devia ter um porão.
– O que a faz pensar assim?
– Casas antigas costumavam ter um porão, para guardar vinhos, defumar lingüiças… ou para os escravos dormirem… sei lá. Esta casa não é exatamente do tipo neoclássico mas ela é alta demais em relação ao chão, pra não ter outro andar embaixo.
– Ah, então vamos começar a procurar passagens secretas. E que tal se encontrarmos um porão, cheio de vinhos velhos, ratos devoradores de lingüiça e esqueletos de escravos esquecidos e trancados lá?
– Eu estou falando sério!
Ele deitou para trás, rindo.
– Está bem, -ele levou a sério- vamos procurar passagens secretas. -ele sentou novamente- Então o programa de hoje é abrir uma porta que dá para o céu, descascar as paredes do primeiro andar e procurar um porão. Não me diga que vai querer um sótão também.
– Eu tô falando sério, Roberto.
– Eu também. Não é melhor procurarmos um sótão também, de uma vez?
– É, pode ser uma boa idéia.
– “A casa misteriosa” – episódio de hoje: “em busca de passagens secretas” -ele riu e recostou-se nos travesseiros.
– Será que não dá pra falar a sério com você?
– Não. Não quando eu estou feliz. -ele a puxou para perto e abraçou-a- E eu estou feliz agora.
Ela o abraçou também e eles ficaram ali, juntos, muito tempo.
— “ —
Antes do almoço, Roberto lubrificou umas dobradiças e uma tranca velha, do tipo que uma argola central empurra e puxa ferros para cima e para baixo, fechando em dois pontos. O trinco estava emperrado e foi preciso muito óleo e muita força para que cedesse e destrancasse. Então Roberto abriu as duas folhas estreitas da porta que, como uma janela, separava o lado de dentro do lado de fora. Dali, era possível ver os fundos do jardim, a mesma vista dos quartos que ficavam sobre a cozinha.
– Tarefa número um concluída.
– Será que algum dia houve um balcão aqui? -da porta, ela olhou para fora e para baixo- Uma grade ou qualquer coisa para evitar que uma pessoa descuidada caia?
– Como vou saber? Mas, que é ilógico, é. Não tem sentido colocar uma porta, em vez de uma janela, no segundo andar.
– Será que alguém já caiu daqui? Ou, pior do que isso, será que alguém já foi empurrado daqui?
– Não sei. Mas quem quer que tenha colocado esta porta aqui queria uma coisa ou outra.
– É horrível…
Roberto puxou Isabel para dentro do corredor.
– Veja se encontra algum vestígio de porta no teto. Mas não chegue muito perto desta porta.
– Pode deixar.
– Eu vou lá embaixo, procurar um porão.
– E se a entrada do porão ficava na cozinha, ou no lavabo?
– Então nunca vamos encontrar: o chão foi coberto com ladrilhos.
– Seria uma pena.
Roberto desceu a escada. Isabel andou pelo corredor comprido, que ía do alto da escada em direção aos fundos, dando acesso a dois quartos e a um banheiro, construído depois que a casa já estava pronta. Entrou no quarto maior, que servia como sala de televisão, e procurou por algum sinal no teto. Não encontrou. Entrou no quarto menor, do outro lado do corredor, onde tinham sido colocados os desconfortáveis sofás antigos do outro quarto, trocados por outros mais apropriados. Também ali não havia sinal de que parte do teto servisse como porta a um outro cômodo. No banheiro, nada também. Isabel chegou ao alto da escada, sempre olhando para cima.
– Nossa, as aranhas estão tomando conta… -ela olhava para o encontro das paredes com o teto- Quanta poeira… -ela passou o dedo pelo vitral.
Por cima da escada, também não parecia haver nenhuma entrada. Mesmo porque, seria absurdo haver uma abertura para o sótão sobre a escada. Então só faltava procurar no quarto principal, que ocupava toda a parte da frente, exatamente sobre a sala, no primeiro andar.
– Isabel, achei! -Roberto chamou.
Realmente, depois de ter procurado na grande sala da frente, no vestíbulo e na cozinha – os três cômodos do andar térreo, Roberto encontrara um sinal embaixo da escada.
Isabel desceu depressa, curiosa, parou no primeiro degrau da escada, e apoiou-se no corrimão.
– Olha só -Roberto mostrou- duas dobradiças. E, se você olhar de perto, dá pra ver um buraquinho aqui, onde devia ter um puxador qualquer.
– Parece continuação do chão. Não me admira não termos percebido antes. Já tentou abrir?
– Não. Não sei como vou fazer: uma tábua está muito perto da outra… e não tem onde puxar…
– O jeito é enfiar alguma coisa entre as tábuas.
– E usar como alavanca… Vou ver se acho alguma coisa.
Ele foi à cozinha e logo voltou com algumas ferramentas, que colocou no chão, e começou a subir a escada.
– Onde você vai?
– Nós: você também vai. -ele passou o braço pelos ombros dela e puxou-a.
– Aonde?
– Você pode achar que eu falei por brincadeira mas deve haver ratos lá embaixo. Não quero me arriscar e não quero que se arrisque.
Ela subiu com ele e eles entraram no quarto.
– Calças jeans e botas -ele comandou.
Depois, eles voltaram às posições iniciais, ao pé da escada, e ele entregou a ela uma vassoura de piaçava, e fechou as portas da sala e da cozinha, deixando aberta apenas a porta principal.
– Fique aí em cima. Se, por acaso, alguma ratazana tentar subir, jogue-a o mais longe possível, de preferência, direto lá pra fora.
– Vou fazer o possível.
Roberto bateu de leve nas tábuas do chão, confirmando que algumas revelavam uma abertura. Enfiou uma espátula de metal entre as tábuas, e empurrou para o chão, como uma alavanca. As dobradiças rangeram e Isabel derramou óleo sobre elas. Roberto voltou a fazer força, até que umas tábuas se elevaram uns milímetros sobre as outras. Ele enfiou uma chave de fenda comprida ao lado da espátula e empurrou com o pé, para ter as mãos livres para puxar. Ele se levantou, carregando a porta, e jogou-a contra a parede.
O cheiro de umidade subiu. Roberto pegou a lanterna e cobriu o nariz e a boca com um lenço parcialmente dobrado, a título de máscara. Isabel ía descendo da escada mas ele disse:
– Fique aí: não sabemos o que tem lá embaixo.
Com a lanterna, ele iluminou a escada empoeirada e suja que descia ao porão. Sempre testando os degraus antes de pisar neles definitivamente, ele desceu até o meio da escada e se abaixou para ver o que havia lá embaixo. Iluminou as paredes e o chão, e os objetos que estavam pelo chão. Depois subiu e saiu da casa, e só então respirou. Isabel saiu também e esperou ele recuperar o fôlego para perguntar o que ele tinha visto.
– Nem os ratos sobreviveram. As janelas foram lacradas por fora: o ar é irrespirável e faz arderem os olhos.
– É muito grande? O que tem lá dentro?
– Não é muito grande. É como… -ele olhou para dentro da casa- acho que é só embaixo daqui: a escada e o hall de entrada. Deu pra ver umas prateleiras, com garrafas deitadas: devia ser uma adega.
– É só o que tem lá?
– Tem uns móveis velhos e lixo paca.
Isabel sorriu: sim, era o que imaginara encontrar.
– Então devíamos abrir as janelas, pra deixar esse ar sair, e entrar ar puro.
– Devíamos era fechar aquela porta e esquecer tudo.
– Não. Na época da chuva, quando aumenta a umidade, o cheiro pode subir e empestear tudo.
Ele olhou para ela enquanto pensava.
– Está bem. Vamos improvisar máscaras e vamos descer.
Eles amarraram lenços dobrados sobre o nariz e a boca e desceram: ele na frente, com a lanterna e uma marreta, e ela atrás, com as mãos apoiadas nos ombros dele. Lá embaixo, ela segurava a lanterna, enquanto ele, com a marreta, destruía o lacre e as janelas. Em pouco mais de uma hora, com pausas para os dois respiraram ar puro, o serviço estava feito, e quatro aberturas – duas de cada lado da casa – permitiam que o ar morto de dentro saísse, para que novo ar entrasse. Roberto e Isabel saíram da casa para respirar ar puro e ver o efeito pelo lado de fora.
– Depois a gente bota umas janelas novas, no estilo que eram aquelas.
– Fecha a porta, de uma vez.
– Não. A tarde vou comprar veneno de rato e deixar lá dentro: com essas aberturas e o cheiro, os ratos podem se sentir tentados a entrar.
– Seja sincero: você tem medo de ratos?
– Nojo. É um bicho imundo, transmite um monte de doenças. -ele calou um instante e mudou de assunto- O que vamos almoçar hoje?
– Já está com fome?
– É, deu pra cansar. Tô precisando repor as energias.
– O freezer está vazio.
– O que? -ele não esperava essa informação- Não tem nada pronto?
– Nadinha.
– Bem, então é melhor começar logo a fazer o almoço.
– Eu? Você morou sozinho: você sabe cozinhar.
– Não faz mal que seja simples, ou que não fique tão bom: -ele procurou animá-la- vale a sua intenção de fazer uma comidinha boa para o seu marido.
– Roberto, você mesmo falou outro dia: eu nunca fiz nada na minha casa.
– Mas sabe, pelo menos, fazer um arroz com bife.
– Não. Minha especialidade é o café da manhã.
– Ferver o leite e a água do café. Que maravilha -ironizou- minha mulher não sabe cozinhar.
– Mas você sabe.
– Tá bem, mas você vai me ajudar.
– É só dizer o que eu tenho que fazer.
Eles entraram em casa. Antes de irem à cozinha, tiraram as roupas de proteção, agora que sabiam que não havia ratos no porão.
Roberto abriu os armários e a geladeira, procurando o que poderia servir para o almoço.
– Tenho que reconhecer: sua mãe nos proveu de bastante comida. Só que, como sempre, exagerou.
– Queria que a sua mãe fosse viva, pra eu poder implicar com ela, como você faz com a minha.
– Se a sua mãe fizesse alguma coisa direito, eu não teria do que implicar. Mas não vamos brigar por causa disso. Toma, cata o arroz.
Depois do almoço, enquanto descansavam das atividades da manhã, Isabel terminou sua procura, e não encontrou uma possível porta para um possível sótão. Antes do fim da tarde, Roberto e Isabel foram ao supermercado, comprar o necessário para repor o que tinha sido consumido durante a semana…
– E, é claro, veneno de rato.
– Uma caixa basta.
– Não, duas: uma para cada duas janelas. Tem tanto entulho lá que, se um rato entrar por um lado, pode não conseguir chegar ao meio do cômodo.
– Não me engana: você tem medo de rato -ela riu.
— “ —
Na segunda de manhã, a empregada chegou. Na sala, havia muitas lascas de tinta pelo chão mas a parede ainda estava bastante branca, principalmente num pedaço mais largo entre a janela do meio e a do canto da parede. Era uma disposição peculiar de aberturas: uma janela – uma porta – uma janela – um grande pedaço de parede – uma janela, enquanto que o andar de cima tinha cinco aberturas, assim como a cozinha e, sobre a cozinha, a combinação das duas janelas de cada quarto com a porta que não tinha proteção também formava cinco aberturas. Por que a sala seria diferente, com apenas quatro aberturas, ainda por cima, assimétricas?
– A senhora abriu as janelas do porão… -o jardineiro comentou com Isabel.
– O senhor sabia desse porão?
– Sabia.
– Nunca me disse.
– A senhora não perguntou. As janelas estavam lacradas, não estavam? E a porta, escondida em meio às tábuas do chão.
– É, foi difícil encontrar.
– O que… o que havia lá dentro?
– Umas garrafas em prateleiras, e móveis velhos. E, é claro, muita sujeira.
– Só isso?
– Deveria haver mais alguma coisa?
– Não, eu não sei o que se guarda num porão. Essa moça é que vai limpar lá dentro?
– Sim, no sábado. Eu e Roberto vamos ajudar, porque ela sozinha não vai conseguir limpar tudo.
– Se a senhora deixasse,… eu queria ajudar.
Ela sorriu da oferta dele: o que um velho como ele poderia fazer para ajudar? Era gentil da parte dele ser tão solícito.
– Toda ajuda será bem vinda. -ela respondeu com um sorriso.
– Até sábado a senhora vai tirar de lá alguma coisa?
– Ah, não, não pretendo entrar lá antes de sábado. Aquele lugar estava fechado há muito tempo, o cheiro era horrível. Por isso abrimos as janelas: para arejar.
– A senhora também abriu a porta do segundo andar…
– Gosto de sentir o vento atravessando a casa. Tem que haver muito ar. Não gosto de lugares fechados, janelas fechadas: me dá falta de ar.
– Eu imaginei que pensasse assim… -pensou alto.
– Por que achou isso?
Ele sorriu e respondeu:
– A senhora irradia vida. Sua luz se perderia num lugar fechado.
Isabel sorriu também. Ele era muito gentil e ela sentia carinho por ele.
No sábado, os quatro se encontraram no vestíbulo. Vestiram as máscaras contra poeira e desceram ao porão, carregando vassoura, pá de lixo, panos de limpeza, água e detergente. Roberto ligou um fio na tomada do lavabo, o cômodo mais próximo, e desceu na frente, carregando a outra ponta do fio, onde tinha instalado uma lâmpada. Os outros desceram atrás. Roberto pendurou o fio com a lâmpada num gancho que ele já tinha pregado no teto, de forma que todo o cômodo ficasse iluminado.
As garrafas foram levadas para a cozinha e as que estavam vazias foram lavadas. As prateleiras foram limpas. O chão foi varrido e lavado, as paredes, esfregadas. Os móveis velhos foram deixados no vestíbulo, para terem decidido seu destino. No fim do dia, o porão cheirava a limpeza. Para completar o serviço, Roberto passou uma mão de tinta branca nas paredes.
– Não está aqui… -Vicente pensou alto- E, se não está aqui, só pode estar num lugar. É cruel demais, meu Deus…!
– Algum problema, Seu Vicente? -Isabel ouviu o que ele disse.
– Eu… eu pensei ter deixado a pazinha aqui -ele forçou um sorriso e continuou a explicação- É duro ficar velho, Dona Isabel, a gente esquece das coisas.
– A pazinha está ali na escada.
– É, eu me lembrei depois.
Por último, o chão recebeu uma camada de cera e eles deram por encerrado o trabalho. Os dois empregados foram embora e Roberto e Isabel sentaram-se no chão, perto da escada, e olharam o cômodo que tinham acabado de incorporar à casa.
– Pensei que nunca fôssemos conseguir.
– É, eu também. Parece um milagre. Nem parece o mesmo cômodo de hoje de manhã. -ele mudou de assunto- Quantas garrafas ainda estão cheias?
– Dez, talvez.
– Todas com vinho?
Ela concordou com um gesto de cabeça e completou:
– São vinhos italianos e franceses. Muito bons.
– Então, se o porão ainda era usado, por que lacrar as janelas?
– Eu acho que… uma mesma pessoa fez o corredor com uma porta sem proteção e lacrou as janelas aqui. Quem quer que tenha sido, não estava em pleno uso da razão.
Roberto olhou para ela.
– Quem quer que tenha sido, teve motivos para fazer o que fez.
– É claro que sim. Mas uma mente insana não tem motivos racionais. Por isso são chamados de loucos e excluídos do convívio social.
– O dia de hoje me cansou bastante. -ele se levantou- Depois vou dar um jeito na instalação elétrica, pra não ficar esse fio no meio do caminho.
Ela estendeu as mãos na direção dele e ele a ajudou a levantar e eles saíram do porão e fecharam a porta.
No domingo, tocaram a campainha. Isabel atendeu e fez a visita entrar.
– Como me achou aqui?
– Liguei pra sua mãe e ela me deu o endereço.
– Lembra do Marcos, Roberto? Ele foi meu namorado por… quanto tempo mesmo?
– Dois anos, três meses e seis dias.
Eles trocaram um sorriso de cumplicidade, que Roberto interrompeu.
– É, eu acho que você nos apresentou, uma vez.
Os três foram à sala.
– Não repare a bagunça: estamos descascando as paredes para recuperar a pintura original.
– A casa parece muito bonita.
– É, sim. Depois eu te mostro ela toda.
– Você se casou e esqueceu dos amigos… -Marcos reclamou.
– Não, não esqueci. -ela riu- Mas nós só voltamos da lua-de-mel há duas semanas. Ainda estou me adaptando à casa, à nova vida…
– E é boa a nova vida?
Isabel olhou para Roberto e sorriu-lhe com carinho:
– Eu estou gostando muito.
– É bom saber que você é feliz.
Os três conversaram algumas horas, Isabel mostrou a casa ao amigo, e ele se despediu.
– Eu estou morando a duas quadras daqui. -ele entregou a ela um cartão com o endereço- Não deixe de me fazer uma visita qualquer dia desses.
– Nós vamos, sim. Quando quiser, volte: geralmente ficamos em casa no final de semana, e eu tenho ficado em casa pela manhã, durante a semana.
– Não se preocupe: quando eu me sentir muito sozinho na minha casa, virei aqui, pra gente conversar. Isto é, se seu marido não se importar… -ele sorriu da expressão de Roberto.
– É claro que não me importo: Isabel é livre para fazer o que quiser.
Marcos despediu-se e saiu.
– Por que disse a ele que você fica em casa de manhã?
– Que que tem?
– Tem que eu não estou aqui.
Ela riu da reação dele:
– Você está com ciúme!
– Que absurdo, é claro que não!
– Não confia em mim?
– Confio. Eu não estou com ciúme.
Ela segurou o sorriso: ele era orgulhoso, nunca admitiria uma fraqueza. Mas ela podia perceber que ele sentia ciúme, e isso a lisonjeava.
 
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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

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