O Aro de Ouro – trecho

 
 
Capítulo I
 
Um mundo sem morte, sem guerras, onde reina a paz, o respeito e a colaboração entre as pessoas. Utopia? Sonho? Talvez, mas era essa exatamente a promessa feita no anúncio do Aro de Ouro.
No dia marcado, a cidade em peso aglomerou-se às portas do Palácio do Governo Estadual, o local marcado para o lançamento. Lá dentro, nas espaçosas e luxuosas salas, políticos, imprensa, pessoas de renome nacional, convidados internacionais, embaixadores e representantes de quase todos os países do mundo. O pensamento de todos era um só: quem seriam os escolhidos para o teste do Aro de Ouro?
O governador tomou a palavra e discursou, falando do orgulho de ser a primeira cidade do mundo a receber o Aro de Ouro, e da esperança de que, sendo a experiência um sucesso, o Aro de Ouro fosse aberto a toda a população do mundo, para que, enfim, o mundo conhecesse a paz e o respeito, que fazem uma sociedade perfeita. Ele apresentou o Presidente do Conselho Legislador do Aro de Ouro – um homem de meia idade, de cabelos parcialmente grisalhos e expressão digna e nobre, que sorria também com os olhos, numa evocação do charme de sua juventude. O Presidente do Conselho Legislador disse:
– Depois de décadas de aperfeiçoamento, acredito que chegamos a um ponto tal de perfeição que queremos – e, mais que isso, precisamos – abrir nossa sociedade a quantos queiram a ela pertencer. Não podemos nos esquecer de que, para haver liberdade, é necessário haver leis severas para que cada um, conhecendo seus limites, possa gozar de sua liberdade sem prejudicar a liberdade dos outros. É essa nossa prática, esse o nosso mundo, que apresentamos a vocês -ele descerrou uma caixa transparente de uns trinta centímetros quadrados, aproximadamente, que continha um aro dourado, e abriu uma porta gigantesca, de onde saía luz e fumaça- Esta é a porta de entrada no nosso mundo e aqui, -ele colocou as mãos na caixa- nesta redoma de diamante sólido, o nosso Aro de Ouro.
Ouviu-se por toda parte um zum-zum-zum de perguntas sem resposta. O Presidente do Conselho Legislador sorriu, adivinhando as perguntas – na verdade, a pergunta fundamental – e pediu silêncio para explicar:
– Vocês devem estar se perguntando como é possível existir uma cidade num aro de vinte centímetros. Pior que isso: como podemos nos propor transportar pessoas como vocês para nossa cidade -ele sorriu, amistoso- Na verdade, temos proporções milimétricas. Esta porta que vocês vêem é um projetor celular. Uma pessoa que passar por ela terá o tamanho necessário para viver em nosso mundo. Não sentirá diferença alguma, uma vez que a proporção será sempre a mesma, tanto que eu estou aqui, em perfeito estado. Gostaríamos de agradecer ao Governador por ceder uma sala para nossa acomodação, enquanto a experiência durar. -ele fez uma pausa- Nós recebemos muitas cartas de candidatos voluntários para a experiência. Eu quero avisar, desde já, que o caráter experimental se deve ao fato de que a transferência do indivíduo à nossa sociedade não será definitiva: findo o prazo, haverá uma avaliação de ambas as partes: se o voluntário não se adaptar às nossas regras, ou se não gostar de viver com elas, será devolvido ao mundo de vocês. Senhor Prefeito, eu creio que o senhor tem os nomes dos dois escolhidos.
O prefeito se aproximou, com um envelope na mão, e disse:
– A escolha foi feita pelo Conselho Legislador do Aro de Ouro. Foram escolhidas pessoas que, pelos traços de caráter e antecedentes de comportamento, devem mais facilmente se adaptar à sociedade do Aro de Ouro. -ele abriu o envelope e leu os nomes- Senhor Lucas Aguiar e Senhorita Vera Miranda. Algum dos dois está presente?
Nenhuma resposta no interior do cômodo. Na rua, entretanto, dentre a população que assistia a tudo pelos telões, uma voz se levantou, comemorando a vitória de ter sido escolhida para habitar num mundo perfeito. Numa casa, distante dali, outra voz comemorou, pelo mesmo motivo, alegria igual.
A cerimônia terminou com um coquetel, oferecido pela prefeitura da cidade que recebia, pela primeira vez, a cidade encantada do Aro de Ouro.
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Em uma semana, outra cerimônia; esta para anunciar ao mundo o ingresso dos dois escolhidos na cidade utópica. O Presidente do Conselho Legislador recebeu-os e, terminados os discursos oficiais, desejando sorte aos dois, e que eles não decepcionassem o mundo, que contava com eles para o sucesso da experiência, novamente o Presidente do Conselho Legislador abriu a gigantesca porta da qual saía luz e fumaça e convidou os dois jovens a entrarem. Os dois se entreolharam e, pela primeira vez desde o anúncio de que haviam sido escolhidos, o sorriso alegre deu lugar a um olhar de receio e expectativa do desconhecido. Mas foi um instante apenas e eles se despediram dos que estavam ali – inclusive familiares e amigos – e entraram. Pouco depois, pelos amplificadores instalados para este propósito, toda a cidade e muitas partes do mundo ouvia a voz deles:
– Eu não acredito! Eu estou aqui dentro! -Lucas dizia, assombrado.
– Que lugar lindo! -Vera atentou- Parece… parece um dia de verão!
Do lado de fora, o Presidente do Conselho Legislador desligou os amplificadores.
– Se me dão licença, cabe a mim receber os visitantes em nosso mundo, agora a nova residência deles.
Com um sorriso, ele despediu-se de todos e atravessou a fronteira, entrando também no Aro de Ouro.
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– E então, o que acham? -ele perguntou aos estrangeiros.
– Parece um lugar muito bonito -Lucas foi cauteloso.
– Bonito? Isto aqui é lindo! -Vera estava deslumbrada.
– Esta é a sala do Conselho Legislador. É aqui que nos reunimos para decidir todos os assuntos de interesse da comunidade. Mas venham, vou lhes mostrar a cidade e as acomodações que escolhemos para vocês.
Os três saíram por outra porta. Estavam numa rua que beirava a praia.
– Parece Copacabana! -Vera percebeu.
– É, parece mesmo. Foi construída a partir de Copacabana.
– E vamos reconhecer outras partes da cidade? -Lucas perguntou.
– Provavelmente. Uma vez que nos instalamos aqui, decidimos moldar nossa cidade à maneira da sua, assim vocês não se sentirão em outro lugar. Ou, de outra forma, -ele sorriu, amistoso- se sentirão em casa aqui.
– É engraçado, não vejo o limite do aro. -Lucas comentou, olhando para o horizonte e para o céu.
– Achou que fosse ver?
– É, achei que o céu fosse dourado, ou que o mar tivesse um limite… Na verdade, não pensei que coubesse um oceano em um cilindro de um centímetro de diâmetro.
– Queria ver o limite do aro…
– Eu pensei que fosse possível ver.
– Já viu o limite do seu universo?
– Não. Mas o universo é imenso!
– Asseguro-lhe que é bem menor do que este aro que lhe parece tão pequeno.
Um carro parou à frente deles. Não tinha rodas mas flutuava no ar. E, apesar do barulho suave do motor, não soltava fumaça. O motorista abriu a porta e eles entraram. Enquanto percorriam a cidade, reconhecendo pontos familiares, esclareciam algumas dúvidas:
– Se ninguém morre aqui, -Lucas disse- a população deve ser enorme.
– Não foi dito que ninguém morre. A vantagem sobre seu mundo é que, aqui, a morte é voluntária. Quem já viveu o bastante sabe a hora de parar de viver.
– Vocês controlam a natalidade?
– Não.
– Então a população deve ser enorme. -Lucas insistiu.
– Não, porque no início éramos muito poucos. Agora é que estamos na terceira geração. -ele mudou de assunto- Achamos que vocês gostariam de morar no mesmo bairro em que moram, lá fora.
– É, seria uma boa idéia -os dois concordaram.
– Senhorita Vera, nossa companhia de publicidade se alegrou ao saber de sua escolha para vir para cá. Gostaríamos muito se você trabalhasse conosco.
– Ah, eu gostaria muito.
O Presidente entregou a ela um cartão.
– Sabe onde fica?
– Sei, é no Centro. Quando devo começar?
– Quando achar que deve.
O carro parou em frente a um edifício.
– É aqui que eu moro! -ela reconheceu.
– Precisamente -o Presidente confirmou- Vocês vão encontrar seus apartamentos como são, lá fora. Aos poucos, à medida em que forem se acostumando, terão acesso a facilidades que nós temos, e vocês, não.
Vera ía se despedir mas ele não deixou:
– Há ainda uma coisa muito importante a ser dita: nós não usamos dinheiro. Usamos as palavras “por favor”. Não negar favores a quem nos pede é prova de gentileza. E, entre nós, gentileza é uma lei.
Vera e Lucas fizeram um gesto, concordando que educação é a base de uma sociedade organizada em que existe respeito. Vera despediu-se dos dois e saiu do carro e entrou no edifício.
– Senhor Lucas, nossa Equipe de Construtores de Aeronaves aplaudiu nossa escolha de trazê-lo. Você é um bom piloto de testes e nossa indústria aérea está começando a se desenvolver. Ficaríamos felizes em tê-lo conosco.
– É, deve ser ótimo voar sem pensar em temer uma pane.
– Esse é seu problema: o medo da morte.
– Não exatamente. Gosto do que faço e sei que a morte voa comigo. Mas não é nada agradável saber que, num milésimo de segundo, pode terminar tudo.
– Isso não acontecerá aqui, com certeza. -ele sorriu.
– Onde devo me apresentar?
O Presidente entregou-lhe um cartão e Lucas leu.
– Aeroporto Santos Dumont? Fazem testes no aeroporto?
– Não temos aviação comercial: somos só uma cidade, não haveria sentido.
– Ainda assim: bem no centro da cidade? Se alguma coisa sair errada-
– Se algum acidente for necessário, -ele sorriu- escolha a baía. Sabe nadar, não sabe?
– Sei.
– Então não há problema. Mais alguma dúvida, Senhor Lucas?
O carro parou em frente a um outro edifício.
– Acho que não. Quando eu tiver alguma dúvida sobre como este lugar funciona, a quem devo perguntar?
– À pessoa mais próxima. Ninguém lhe negará um favor.
Lucas sorriu: era bom estar ali. Despediu-se do Presidente e saiu do carro.
 
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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

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