O Cisne (conto) – trecho

  

Capítulo I

 
Sul da Escandinávia. O gelo toma conta de tudo. Pelo céu vão, majestosos, os cisnes selvagens. Sobre a neve, casas frágeis vencem o rigor do inverno com bravura. Dentro delas, o fogo aquece os seres.
Perto do fogo, amigos falam muito enquanto esvaziam barris de bebida destilada.
– Tens que te casar, Hurik. Pensa no teu filho.
– Não. Ela pode querer voltar um dia.
– Se ela quisesse ficar, não teria ido embora.
– Mesmo que ela não volte, não quero outra.
Fizeram comentários maliciosos a que Hurik não respondeu. Algum tempo depois, eles saíram e só o dono da casa ficou com um menino.
– O senhor acha que minha mãe pode voltar?
– Não sei, Garion.
– Eu queria tanto conhecer minha mãe… -ele pensou um pouco e arriscou- Aquela mulher que esteve aqui outro dia-
– Garion, vai te deitar: é hora de dormir.
O menino abriu a boca para continuar o que estava falando mas preferiu não desafiar o pai e obedeceu-o.
Garion acordou no meio da noite e ouviu que seu pai conversava com uma mulher. Sentou-se na cama e olhou naquela direção mas a luz era fraca e ele nada pode ver. Tomou coragem, levantou-se e atravessou o cômodo em direção à cama do pai. A mulher viu-o, porém, e escondeu o rosto e as mãos no travesseiro.
– Pai, ela é minha mãe?
– Tira ele daqui! -ela falou com voz abafada.
Hurik levantou, pegou Garion pela mão e levou-o de volta à cama dele.
– É ela, pai? É ela? Pai, me diz!
– Fica quieto. Deita e dorme e não perguntes nada.
– Pai!-
– Cala-te!
Hurik voltou para sua cama e ela não estava mais lá. Rogou uma praga e correu à janela. Viu um vulto que se afastava no meio da neve.
– Pai, me diz…!-
– Sim, ela é tua mãe. -respondeu impaciente, pronto para culpar o menino pelo que acontecera.
– Então… por que…?
– Ela tem os motivos dela. -ele ainda buscava o vulto dela pela janela.
– Quem é ela?
– Não posso te dizer. -ele desistiu da tarefa e sentou-se na cama ao lado do filho.
– Ela é minha mãe e eu não posso saber o nome dela?!
– Entende, Garion -ele abraçou o menino, mais para se consolar que a ele- Ela não quer que tu saibas quem ela é. Se eu te disser o nome dela, ela não vai mais voltar. Tu entendes que não posso ficar sem ela?
– Então eu a conheço.
– Sim. Talvez a tenhas visto apenas uma vez mas tu já a viste.
Garion apenas baixou a cabeça: não podia entender porque manter esse segredo seria tão importante.
– Eu nunca vou saber quem ela é? -ele ergueu os olhos para ver os olhos do pai.
– Talvez, algum dia, ela te conte. É uma decisão dela, que eu tenho que respeitar.
Garion soltou-se do pai e disse:
– Tinhas que obrigá-la a ser tua mulher todo o tempo! Tinhas que morar com ela e apresentá-la a teus amigos.
– Sim é o que eu devia ter feito. Mas conosco foi tudo diferente. Foi ela que se aproximou de mim e me escolheu. Cohabitamos até que tu nasceste. Ela pediu que eu cuidasse bem de ti e foi embora. As vezes ela vem, à noite, enquanto tu dormes. Quando acordo, pela manhã, ela não está mais aqui. Devia obrigá-la a ficar mas não consigo. O jeito como ela fala… sempre me convence a deixá-la ir.
– Por isso não queres outra mulher: porque ela vem, às vezes.
– Sim, é por isso. Todas as noites espero, na maioria das vezes, em vão. Mas, quando ela vem, enche minha vida de tanta alegria que até esqueço da tristeza de quando ela não está aqui.
– Também quero minha vida cheia de alegria por causa dela.
– Prometo que falarei com ela sobre teu desejo de conhecê-la. Não fiques triste enquanto isso, porém. Tira as preocupações de tua cabeça. Descansa bastante que amanhã a lida é dura e o frio não tem pena.
O menino deitou-se e cobriu-se. Hurik também foi para sua cama e também deitou.
O dia mal amanheceu e as pessoas já estavam de pé. O trabalho na neve era mais difícil. Todas as mulheres resguardadas dentro das casas, apenas uma se arriscava no frio, apesar dos poucos agasalhos.
– O que queres, Bruxa?
– Mantimentos. E lenha.
– Terás que esperar: estamos ocupados.
– Garion.
– Pronto, pai. -ele deixou o que fazia e correu a colocar-se frente ao pai.
– Providencia o que ela precisa.
O menino obedeceu.
– Deixa que ela espere. -um comentou.
– Ele só tem vontade de ajudar. Pode ajudar mais a ela que a nós.
Garion já ía longe, seguido pela mulher.
– Entra, deixa eu fechar a porta. Queres te sentar ao fogo?
– Não te preocupes comigo, estou bem, não sinto o frio.
– Teus cabelos estão molhados.
– É a umidade.
– Nunca ficas doente?
– Não.
Garion separava em pacotes e caixas o que ela levaria.
– Tu sabes tudo?
– Algumas coisas.
– Tu nasceste aqui?
– Sim.
– Então por que moras afastada?
– Por que me chamas de Bruxa?
– Todos te chamam assim.
– Tu não tens vontade própria?
– Como queres que eu te chame?
– Tu podes escolher um nome para mim. Só não me chames de mãe, porque eu não sou tua mãe.
– Tu sabes quem é minha mãe? -ele parou o que fazia e olhou para ela.
– Tu sabes se tu tens mãe?
– Devo ter: meu pai pôde me gerar sozinho?
– Não pode?
Ele voltou a agrupar os mantimentos e a lenha.
– Tu sabes quem é. -ele parou novamente e olhou-a nos olhos.
– Tu achas que sim?
– Tenho certeza: tu és uma bruxa. Tu sabes tudo. Tu avisas as chuvas, tu avisas as calamidades…tu olhas os cisnes… Mas meu pai disse que não devo me importar com isso. Aqui está o que precisas. Carrega um bocado, eu te ajudo.
Eles saíram da casa. No pátio, ela parou.
– Garion, vai na frente, vou logo depois.
Ela parou para falar com Hurik e colocou os pacotes no chão.
– Pensei muito desde que te vi pela última vez.
– E então?
– Se falhei contigo alguma vez, perdoa-me.
– Tu falhaste alguma vez? -ele sorriu-lhe com carinho.
– Quero que saibas que, de ti, só tenho boas recordações.
– Tu falas como se um de nós fosse morrer. -ele riu da hipótese.
– Bravamente. -ela falou com orgulho.
Hurik assustou-se.
– Que Odin esteja comigo!
– Tu estarás com ele. Está chegando o dia em que as Valquírias virão e muitos merecerão o Walhall.
Ela leu a preocupação nos olhos dele e tranqüilizou-o:
– Não te preocupes quanto a isso: eu mesma me encarregarei de cuidar do teu filho.
– Não é fácil aceitar o que me dizes.
– Tu não deves temer por antecipação. -ela abraçou-o- Tu és o único homem que já amei em toda minha vida. Irei ver-te todas as noites, agora que sei que o tempo é contado.
– Quanto tempo?
– Eu não sei, mas está perto. Mas se fores te desesperar desde agora, vou fazer-te esquecer.
– Não, eu prefiro saber, por mais que doa.
Eles ficaram em silêncio algum tempo, até que ela soltou-o e falou:
– Tu disseste a Garion sobre a mãe dele.
– Algum dia ele poderá saber quem ela é?
– Algum dia ela dirá a ele. Eu ainda não sei quando. Mas, se esse dia não chegar, eu vou dizer a ele. Um dia ele vai saber, tranqüiliza-o.
– Às vezes tenho vontade de contar a verdade.
– Tu não tens direito de fazê-lo e tu sabes disso.
– Por isso nunca disse nada.
– Há que se esperar pelo tempo certo. A pressa não é necessária. Tranqüiliza-o, pois, com minha promessa e manda-o aguardar.
– Farei isso. Se ele não desistir, não o faças esquecer.
– Não posso, é importante demais para ele. Espera por mim hoje.
– Por mim ou por ti mesma?
– Por mim. Desculpa.
– Prefiro assim. Vou esperar todas as noites. Até chegar o dia.
Ela se afastou em direção a sua casa.
 
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Posted on: 1 de Março de 2009Mônica Cadorin

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