O destino pelo vão de uma janela – trecho

 
  

Capítulo I

 
De repente, um vulto entra pela janela do quarto da jovem. Ele foi silencioso pois pensava que ela já estivesse dormindo mas ela não dormia e, ao vê-lo, sentou-se na cama, assustada, e cobriu-se.
– Quem é você e o que quer aqui? Saia logo ou gritarei.
– Fique calma, não lhe quero mal.
Ele aproximou-se e, sob a frágil luz, ela pôde vê-lo e ele também pôde vê-la melhor. Ao perceber-lhe as feições – os cabelos claros, quase dourados, cortados com uniformidade, os ombros largos e a postura de cavaleiro, ela tranqüilizou-se: com essa aparência, pensou, ele não pode ser um mal-feitor.
– Quem é você? -perguntou mais calma.
– Gustave Neville.
– O que quer aqui?
Antes que ele pudesse responder, bateram à porta.
– Marie, ainda está acordada?
– Teu nome é Marie…
– Você tem que ir embora: -ela se assustou com a possibilidade da aia entrar no quarto nesse momento- ela não pode achá-lo aqui.
– Ela confia em você?
– Sim, mas-
– Não diga a ela que estou aqui.
O intruso, rápido, enfiou-se debaixo da cama. A velha aia entrou no quarto. Marie deitou-se na cama, temendo que ela desconfiasse de algo.
– Estava falando com alguém, Marie?
– Eu? Por que estaria? e com quem? -ela tentava disfarçar o medo de ser descoberta.
– Não sei. Pensei ter ouvido sua voz.
– Estava dizendo minhas orações, deve ter sido isso. – ela forçou um sorriso.
– É, deve ter sido isso. -ela retribuiu o mesmo sorriso- Quer que eu fique aqui com você?
– Não, não precisa. -respondeu depressa.
– Não tem frio? Vou fechar a janela.
– Deixe, Louise, sinto calor.
– Vai ficar doente com esse vento.
– O vento não chega aqui.
– Precisa que eu faça alguma coisa para você?
– Não se preocupe, Louise, estou bem. Pode ir dormir. Eu também tentarei conciliar o sono.
Louise foi até ela, arrumou-lhe as cobertas e fechou o cortinado. Saiu e fechou a porta atrás de si. Como que de dentro do chão, uma voz falou:
– Ela já foi?
– Espere.
Apenas quando não ouviu mais ruídos fora de seu quarto, Marie deixou-o sair. Ele entrou por um lado do cortinado. Ela sentou-se, cobriu-se, receosa, e olhou para ele.
– Então te chamas Marie… Marie… como a Virgem… – ele olhava para ela com carinho.
– O que veio fazer em meu quarto a uma hora tão adiantada?
– Queria confirmar se eram verdadeiros os boatos que ouvi acerca de tua beleza. Quem te viu insiste em que és linda. Não era mentira mas eu tinha que conferir com meus olhos.
– Não podia esperar pelo dia?
– E não é dia aqui, onde brilham teus olhos?
– Pelas roupas que usa, você não me parece um servo.
– E não sou.
– Um nobre?
– Tanto quanto você.
– Então é conhecido de meu pai.
– Sim, há algum tempo.
– Se assim é, por que nunca o vi?
– Eu e teu pai não temos o mesmo pensamento… Na verdade, por mais de uma vez, quase pegamos em armas um contra o outro. Na linguagem do povo, somos inimigos.
– Como ousa entrar em meu quarto sendo inimigo de meu pai? -ela indignou-se.
– Calma, sou inimigo de teu pai, não teu.
– Todos os inimigos de meu pai são meus também. Peço que se retire imediatamente.
– Queres que eu saia da tua vida antes mesmo de entrar nela?
– Exatamente.
– Não posso permitir que isso aconteça. Vou te dar uma chance de me quereres na tua vida. Quando me conheceres melhor…
– Dispenso a honra.
Ele senta-se na cama dela. Ela pensa em chamar Louise mas lembra-se de que o escondeu sob sua cama e desiste da idéia. Puxa sobre si as cobertas para que ele não imagine seu corpo sob a camisola.
– Marie, você parece assustada. Está com medo de mim? Acha que eu seria capaz de atingir seu pai através de você?
– Acho apenas que o senhor é um tanto abusado.
– Por quê? Por eu estar aqui, a esta hora, a sós com você?
– Precisamente.
– Se isso oferecesse algum perigo a você, eu não estaria aqui.
– O que quer, então?
– Seu amor.
Ela não sabia o que dizer. Gustave inclinou-se na direção dela e continuou:
– Sei que mal nos conhecemos mas não preciso de mais tempo para saber que amo você e que vou amá-la todos os dias de minha vida. Marie, permita-me que lhe queira bem.
– Eu nem sei quem você é…
– Não precisa me conhecer para me amar. Ah, paixão irreversível! Minha vida é sua, Marie. Sinto meu coração queimar como nunca senti antes. -ele sorriu, feliz por sentir-se assim- Marie, faça feliz este homem que ousou invadir seu quarto: diga que posso pretender à sua mão.
– Eu não… sei… o que dizer. Você tem que falar com meu pai.
– É sua vontade que eu fale com ele?
Ela não respondeu, apenas sorriu para ele, feliz por tê-lo a sua frente. Ah, sim, paixão irreversível! Também o coração dela ardia em chamas. Também os olhos dela buscavam nos dele explicação para tão súbito amor.
Ruídos vindos de fora do quarto indicaram a presença de mais alguém além de Louise. Marie acordou da viagem pelos sentimentos dela e de Gustave e assustou-se.
– Deves ir embora: ninguém pode ver-te aqui.
– Sim, devo ir agora. Não esquecerei jamais esta noite. Permite-me ser ousado?
Marie não sabia o que seria “ser ousado” mas, ainda assim, consentiu. Gustave beijou-lhe a mão como se fosse algo sagrado, levantou-se, uniu as duas metades do cortinado e afastou-se sem tirar os olhos da silhueta que, do outro lado do tecido, acompanhava os olhos dele. Pela mesma janela por que entrara, Gustave saiu. Marie, nervosa, cobriu-se e deitou-se. Pouco depois, a mãe de Marie entrou no quarto.
– Ainda está acordada, Marie? -ela caminhou até a cama- Que bom: precisamos conversar.
– Sim, mamãe, pode falar.
A senhora sentou-se na cama da filha, que também sentara-se, uma em frente à outra.
– Já é hora de você se casar, Marie. Seu pai… tem alguém em mente.
– É mesmo? Quem? -perguntou com pouco interesse.
– Não sei. Mas, se ficar tudo certo, seu pai terá menos problemas.
– Uma aliança?
– Sim. Vou fazer o possível para que seu pai me atenda: se achar que não poderá suportar por marido aquele que seu pai escolheu, faça o que for necessário mas não se case se não puder vir a amar seu marido.
– Farei isso. E… se eu conhecer alguém e me apaixonar? Devo me casar com ele ou com quem meu pai escolher?
– Não me parece uma pergunta hipotética… -ela sorriu como se tivesse adivinhado- Quem é, Marie?
Marie sentiu-se ruborizar e sorriu sem jeito.
– Ninguém, mamãe… Era uma pergunta hipotética.
– Marie…
Marie achou melhor confessar, uma vez que a mãe parecia já saber o que ela sentia.
– Se ele falar com meu pai, eu lhe direi quem é. Se ele não falar…, não merecerá ser lembrado.
– Está bem. Tenha juízo. O homem que seu pai escolheu está no castelo: quer conhecer você.
– Já?!
– Ele chegou no início da noite. Você vai conhecê-lo amanhã.
– A senhora o viu?
– Não. Seu pai também não me disse o nome dele.
– Ah, estou curiosa!
– Durma bem, querida, e fique bem bonita para amanhã.
As duas sorriram e a senhora saiu do quarto. Louise entrou, curiosa.
– O que ela queria com você?
– Vou me casar, Louise. Ele quis me conhecer primeiro: está no castelo. -falou com responsabilidade.
Louise sentiu-se sufocar de alegria. Só conseguiu sorrir e murmurar:
– Marie… -depois de uma pausa, continuou- Quem é ele?
– Não sei. Não importa, sei que não vou gostar dele.
– Marie, você nem o conhece!
– Não pude evitar: estou apaixonada por outro.
– Quem?
– Só o vi uma vez… Por favor, Louise, não conte a ninguém.
– Não contarei. Durma bem, Marie.
– Você também, Louise.
Ela saiu. Marie ficou imaginando como seria o escolhido de seu pai para seu marido. Pensava também no curto diálogo que tivera com alguém chamado Gustave Neville. Estava apaixonada, bem sabia. Perdida em doces pensamentos, ela dormiu.
 
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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

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