O maior de todos – trecho

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Capítulo I

O Reno nasce nos Alpes e corre pelas montanhas até escorregar para a planície ao norte, onde constrói seu leito. De um lado e de outro do rio, alguns castelos, muitas casas e casebres, campos cobertos de trigo, pequenos bosques e grandes florestas. De um lado, o grande reino da França, poderoso e unificado. Do outro lado, os reinos e ducados germânicos. Dos dois lados, a mesma preocupação: bem-servir ao senhor feudal.
O conde ía apressado pelo corredor escuro do castelo.
– Ah, até que enfim, apareceste! – um homem veio a seu encontro, também andando rápido- O rei já perguntou por ti. Todo o castelo já se pôs à tua procura. Onde estavas?
O conde olhou para o amigo um instante e eles caminharam juntos à sala do trono.
– É uma pergunta indiscreta.
– Não acredito que estavas com uma mulher.
– Eu não disse isso.
– Curt, -ele segurou-o pelo braço e eles pararam de andar- sabes que o rei atende audiências sempre a esta hora e que ele não resolve nada sem ouvir os ministros. Como podes te ocupar com uma mulher numa hora dessas?
O conde tirou a mão do outro de seu braço.
– Estou errado ou o rei cresceu? Está na hora dele aprender a tomar decisões sozinho.
Curt abriu as portas e entrou na grande sala em que estava o rei. Curvou-se respeitosamente e aproximou-se da única pessoa que estava sentada.
– Perdoai meu atraso, Majestade. Forças além da minha vontade mantiveram-me ocupado até agora.
– Parece-me que há sempre uma força qualquer que te mantém afastado de teus deveres junto ao Reino.
– Eu peço vosso perdão, senhor.
– Falaremos sobre isso depois. -ele olhou para um dos guardas- Faz entrar o próximo.
Terminadas as audiências, o rei levantou-se e ía sair, seguido pelos ministros.
– Não -ele disse aos outros- Legrant, vem comigo.
Curt seguiu o rei ao gabinete dele. Os dois entraram e o conde fechou as portas e se aproximou do rei, parando, porém, a uma distância respeitosa. O rei olhou pela janela o Reno, ali perto, e os servos trabalhando nos campos, enquanto pensava em que palavras usaria para iniciar o assunto que o incomodava. Curt tinha os olhos sobre o jovem rei, que acompanhava absortamente a movimentação dos servos nos campos.
– Algum problema, meu rei? -ele achou melhor romper logo o silêncio.
Sem se mover, o rei disse:
– Quanto tempo ainda vou ter que suportar isso, Legrant?
Curt pensou por um segundo mas não entendeu a pergunta.
– Do que estais falando?
O rei virou-se e olhou para o conde, impassível.
– De ti.
– Não entendo, Majestade.
– Se não dás valor algum a teu cargo junto ao reino, deixa a corte e vai para teu castelo.
– Majestade, é uma honra para mim-
– Sempre chegas atrasado. Zombas de meus ministros -ele saiu da janela- Que cargo pensas que ocupas para agires assim, sempre tão poderoso?
– Majestade, eu- -ele procurava se desculpar.
– Cala a boca. Tu contas sempre as mesmas histórias. Pensas que eu não sei o que estavas fazendo? Eu sei. Se, pelo menos, fosse a tua mulher, eu seria capaz de perdoar.
– Meu rei-
– Vou te dar o direito de escolher mas só tens duas alternativas: ou tu te tornas um ministro responsável, ou deixas a corte e voltas a teu castelo.
Os dois se encararam alguns segundos, numa disputa de poder que nenhum venceu.
– Entendeste?
– Entendi.
– Não precisas me dar uma resposta: teu comportamento e tuas ações me dirão o que preferes.
O rei passou pelo conde, que se curvou respeitosamente à sua passagem, e saiu, deixando as portas abertas. O conde acompanhou-o com os olhos, até que as sombras do corredor o encobriram.
– Garoto insolente. -murmurou.
À noite, durante a ceia, da qual o rei não tomou parte, Curt percebeu que era motivo de cochichos escondidos, pelos olhares que se dirigiam a ele, e que não se sustentavam quando retribuídos. Depois da ceia, ele percebeu que sua presença era evitada.
– Espera. -ele segurou um amigo pelo braço- O que está acontecendo por aqui? Por que falam de mim pelas costas, sem coragem de falar abertamente?
– É impressão tua, Curt.
– Fala, Hermann. Ou será que fiz mal em te escolher por amigo?
Hermann pensou um pouco, enquanto olhava para o chão, e depois olhou novamente para o amigo.
– Estão dizendo… que tu voltarás ao castelo Legrant.
– Por quê?
– O rei se cansou de teus atrasos constantes e te expulsou da corte.
– Quem disse isso?
– Ninguém revela a fonte, mas garantem que são palavras do próprio rei.
Curt soltou o braço de Hermann e sorriu:
– Então é o que ele quer… Bom saber disso, agora sei exatamente o que fazer. -ele se afastou, andando rápido.
– Curt, aonde vais?
– Aonde vou? -ele voltou-se para responder- Vou arrumar minha bagagem. -e riu.
Curt entrou em seus aposentos e chamou pelo servo. Sem esperar por ele, tirou o gorro de conde da cabeça e desamarrou a túnica. Uma mulher veio do outro cômodo, usando uma camisa de leito branca comprida, e tendo os cabelos loiros presos em duas tranças grossas, que íam até a cintura.
– Não é cedo demais para estares aqui?
Ele olhou para ela, parada na porta. Era uma adorável aparição, aquele anjo de beleza, mas ele olhou para ela com indiferença e voltou ao que estava fazendo.
– São meus aposentos, posso vir à hora que quiser. -Uma idéia veio-lhe à mente e ele olhou de novo para ela- Minha entrada súbita provocou a saída de alguém pela janela?
– Não. Mas eu podia estar me trocando.
– Realmente, seria uma grande desgraça se eu entrasse aqui e não encontrasse minha esposa pronta para dormir. -disse, rindo- Onde está meu servo?
– Tu nunca vens tão cedo, ele deve estar ocupado com outras coisas.
Ele sentou-se numa poltrona, para ter os sapatos descalçados.
– Se não estivesses com a camisa tão branca, eu pediria que me tirasses os sapatos.
Ela deu uma gargalhada e se aproximou dele.
– Curt, meu marido, tens um senso de humor invejável. Quem neste mundo pensaria em pedir tal coisa a uma condessa de nascimento?
– Tu és a minha esposa.
– E as funções de esposa são diferentes das funções de um servo.
Um rapaz abriu a porta como se tivesse passado os últimos minutos correndo, e entrou, indo logo abaixar-se em frente ao conde para tirar-lhe os sapatos.
– Por onde andavas?
– Perdoai, senhor, eu… eu me distraí um instante e…, quando procurei por vós, me disseram que tínheis saído do salão. Podeis acreditar, senhor, eu vim correndo.
Curt sorriu, lembrando-se de uma cena parecida, que tinha acontecido na tarde do mesmo dia.
– Estás perdoado, garoto. Sei de tua dedicação e reconheço tua lealdade.
A condessa passou ao outro cômodo enquanto Curt, ajudado pelo servo, preparou-se para dormir. Usando uma camisa de leito branca comprida como a da esposa, Curt entrou no quarto e encontrou sua mulher sentada na cama, com as pernas sob as cobertas. Ele se sentou na mesma posição que ela, beijou-lhe a testa e deitou-se de costas para ela.
– Curt.
– O que foi? -ele não se mexeu.
– É verdade que vamos voltar a Legrant?
Ele sentou-se novamente e olhou para ela.
– Quem te disse isso?
– Dizem que, depois das audiências, o rei te chamou em reservado e te expulsou da corte.
– Quem disse isso?
– Todos diziam. Eu não quero voltar para lá, Curt. Tu sabes, eu-
– Lisbet, nós não vamos voltar a Legrant.
– Então, tudo o que dizem… É tudo mentira?
– Alguém está tramando contra mim. Alguém que não aprova minha influência sobre o rei. Tu sabes, Lisbet, ele não toma decisões sem antes me consultar.
– É tudo mentira, Curt?
Ele olhou para os próprios pés, escondidos sob as cobertas, e respondeu:
– Eu me atrasei para as audiências. Ele me pediu que prestasse mais atenção aos horários.
– Ou teríamos que voltar a Legrant.
– Ele disse: “ou volta a Legrant e abandona o cargo ou torna-te mais responsável”. Eu serei responsável.
– Que bom. Assim vou poder dormir tranquila.
Ele se virou novamente de costas e se deitou.
– Curt.
– O que foi agora?
– Vais dormir?
– Se deixares.
– Todos os homens ainda estão lá embaixo, conversando e bebendo. Tu vieste antes da hora costumeira. Eu pensei…
– Pensaste…? -ele virou a cabeça até vê-la.
– Pensei que tivesses vindo mais cedo por minha causa.
Ele riu e se virou na cama, e segurou a mão dela.
– Minha querida Lisbet, preciso ser mais responsável a partir de amanhã. -ele beijou-lhe a mão- Deixa-me descansar, ou teremos que voltar a Legrant.
Ele fechou os olhos para dormir e ela não chamou mais.
— “ —
O rei entrou no gabinete, seguido pelo secretário. Alguém esperava por ele.
– O que fazes aqui?
O outro curvou-se respeitosamente.
– Aguardo Vossa Majestade.
– Para que?
– Para dizer-vos que, quando for de vossa conveniência, tenho já prontas a apresentar-vos as contas dos impostos dos servos.
– Pensei que tivesses vindo despedir-te.
– É uma grande honra para mim servir ao Reino, senhor. Nem mesmo a oportunidade de zelar pelos bens de minha família é o bastante para afastar-me de meus deveres.
– Então resolveste ser responsável.
– Nunca fui irresponsável. Se faltei a alguns compromissos foi por acreditar na competência de meus companheiros de ministério e na vossa real sabedoria.
– Ousas me ofender, Legrant?
– Majestade, palavras de elogio vos ofendem?!
– Eu já aprendi a perceber teu tom de ironia. Zombas de teu rei?
– Por Deus, senhor, não! Se eu não acreditasse realmente em vossa capacidade, eu nunca me permitiria ficar ausente. Se vós não fosseis inteligente e capaz, eu estaria sempre a vosso lado, e faria todo o possível para que vós proclamásseis como vossas as minhas decisões.
– Sim, tuas palavras têm lógica. E, pelo que conheço de ti, pensas assim realmente. -ele se sentou à mesa- Vamos ver logo as contas. Depois… depois quero tratar de outro assunto.
Verificados os impostos, o rei dispensou o secretário para falar a sós com Curt. O rei indicou-lhe uma cadeira do outro lado da mesa, e Curt sentou-se.
– Achas mesmo que devo me casar? -ele se debruçou sobre a mesa.
– Sim, deveis casar e ter filhos: o Reino precisa de herdeiros.
O rei riu:
– Mal fui coroado e já pensas em quem me sucederá? -ele encostou.
– Senhor, sois o único com o sangue real de Durpoin. Vossa família governa nosso povo desde que existimos. Vós sois o último de uma linhagem. Quando vosso pai morreu, alguns traidores tentaram matar-vos para roubar-vos a coroa e o trono.
– Eu me lembro.
– Por isso vos mandei à Dinamarca, enquanto prendia os traidores aqui.
– Se eu estou hoje aqui, devo-te muito.
– Quem tem poder tem sempre inimigos. É muito fácil matar-se um homem e tomar-se posse da herança dele, se não há um herdeiro. Mas, se há um herdeiro, alguém cuidará dele, até que receba a herança que lhe cabe.
– Se eu morresse, -ele colocou a mão sobre o braço do outro- cuidarias de meus filhos?
– Sim -ele colocou a mão sobre a mão que o segurava- Como cuidei de ti.
Os dois trocaram um sorriso de agradecimento e afeição paternal e o rei soltou o conde.
– Essa… essa princesa…
– Tens algum amor no coração, Karl?
– Amor? Não… Quero dizer… -ele baixou os olhos e corou- Eu nem sei o que é amor…
Curt riu:
– Isso é normal em tua idade.
– Vais me dizer o que é? ou vais me deixar à minha própria sorte?
– Amor, Karl? Amor é quando tu olhas para uma moça e a achas a mais linda do mundo. E tu desejas que o mundo acabe, para que tu nunca mais precises sair de perto dela. -disse, sorrindo.
– Então isso é amor.
– Sim. -o sorriso morreu-lhe- A separação é dolorosa e apenas a esperança de um reencontro te mantém vivo…
– Isso te entristece…
Curt forçou um sorriso:
– Aos poucos, Lisbet deixou de ser tão bela. O mundo nunca acabou e minha dor é aproximar-me dela sabendo que não a amo mais. -ele afugentou as tristezas- Mas amor não é tudo num casamento. Às vezes, amor é o que menos importa. Tu amas alguém, Karl?
– Se amor é o que dizes,… não.
– Ótimo. Então não sofrerás para escolher uma esposa. De que princesa falavas?
– Da andaluza. -ele sorriu e seus olhos brilharam de uma forma diferente- Ela é bonita.
– Tens uma dívida para com o rei da Dinamarca: ele te acolheu quando eras perseguido.
– As filhas dele são velhas demais para mim.
– Ele é um rei poderoso.
– Curt, elas são velhas demais.
– Ora, um ano ou dois-
– Não. A mais nova delas tem dez anos mais que eu.
– Dez? Não foi o que o Embaixador da Dinamarca disse.
– Eu era um menino e elas já eram adultas. Ela tem trinta e um anos, Curt. Ela mesma me disse, um dia, em segredo. Eu não vou me casar com uma mulher que não tem mais condições de ser mãe.
– Trinta anos? -ele sorriu com malícia- Aos trinta anos uma mulher ainda pode ter filhos.
– Não. Eu quero a andaluza.
Curt respirou fundo enquanto pensava:
– E a princesa russa? Temos interesse em estreitar as relações de amizade com os russos.
– Eu quero a andaluza.
– Há muitas mulheres bonitas no mundo, Karl.
– Eu sei. Mas é que ela…
– É mais bonita do que todas as outras? -ele sorriu significativamente.
– Estou agindo como um tolo -desabafou- deixando-me levar pelo que sinto.
– Não. A andaluza era minha próxima alternativa. Se gostas dela, manda os embaixadores.
O rei sorriu, aliviado.
– Que bom que concordas, Curt. Eu tive medo de que… de que me convencesses a escolher outra.
– Se me conhecesses realmente, saberias que eu nunca faria isso. Tu és o rei, tu decides pelo reino. Tu és um homem, tu decides por tua vida. Se tu achas que ela será boa esposa para ti, boa mãe para teus filhos e boa rainha para teus súditos, eu não tenho direito de te dizer outra coisa que não: casa-te com ela.
– Achas… achas que devo me aconselhar com mais alguém?
– Só se alguma dúvida paira em tua cabeça. Mas, se estás decidido, envia os embaixadores com presentes. Manda-lhe ouro e pedras preciosas, para que ela saiba que se casará com um rei poderoso.
– Sim, é o que farei. -ele se levantou e deu a volta na mesa para chegar até a porta mas parou, foi até Curt e segurou-lhe a mão entre as suas- Meu pai faria por mim tanto quanto tu fazes?
– Não. Ele faria mais, porque era um grande homem, e porque era teu pai.
– Desde que ele morreu, tu tens sido meu pai, Curt.
– Apenas cumpro minha obrigação, Majestade.
– Não. Todos me protegeram, quando eu era um menino. Todos me aconselham, agora que sou rei. Mas só tu me tratas como se fosses meu pai. Não temes dizer o que pensas, mesmo que isso me ofenda. Tua arrogância nos aproxima, Legrant. -ele apertou a mão de Curt entre as suas e mudou de assunto- Vou mandar os embaixadores. -ele soltou Curt e saiu andando rápido, deixando as portas abertas.
Curt acompanhou-o com os olhos, vendo-o afastar-se, e murmurou:
– Criança tola…
Ele apoiou a cabeça no encosto da cadeira em que estava sentado e lembrou-se de há quase dez anos atrás, quando o rei Ludwig – pai de Karl – tinha morrido. Se Karl soubesse… se ele pudesse saber o que o mantivera vivo…
– Ele me agradeceria por existir, e depois me odiaria. Se ele soubesse que apenas o meu poder o manteve vivo…
Sim, morto o rei, o jovem príncipe era o herdeiro. Traidores desejaram matar o príncipe mas, sem um herdeiro legítimo, como se escolheria o futuro rei? Um dentre os traidores, por certo. Mas não. Morto o príncipe, Curt Legrant seria aclamado o novo rei. Os traidores concordaram que não valeria a pena sujar as mãos de sangue e ter por rei um que não pertencia ao grupo. Era preciso matar Curt Legrant primeiro. Mas não é fácil matar um homem como é fácil matar um menino. Isso manteve Karl vivo até ter idade para receber a coroa. Havia um herdeiro, e Curt cuidara dele até que ele recebeu a herança que lhe cabia.
– Podia ser tudo meu… Ah, se não houvesse um herdeiro…
– Agora tens hábito de falar sozinho, Legrant? -um homem entrou no gabinete.
– Duvier? Eu… estava pensando alto.
– Pensando em herdeiros.
– Sim: nosso rei decidiu casar-se.
– Já não era sem tempo! Que princesa ele escolheu? A russa, por certo.
– Não. Ele escolheu a princesa Isabel de Andaluzia.
– Da Andaluzia? Não podes estar falando sério.
– Estou. -Curt levantou e foi até a janela- Ele é jovem, Duvier, é natural que sonhe com amor.
– Amor? -disse com desprezo- Como pode alguém amar uma… uma negra?
Curt olhou para Duvier e curvou-se ao ver quem estava à porta:
– Majestade.
Duvier virou-se, rápido, e também curvou-se.
– O que foi que disseste, Duvier? O que disseste sobre Isabel de Andaluzia?
– Senhor, eu… -ele não tinha coragem de olhar para o rei.
– Repete, Duvier. -ele se aproximou do ministro.
– Eu… eu…
– Ele não tem coragem, Majestade. -Curt explicou.
– Chamaste-a de negra.
– Senhor, eu…
– Nunca mais usa essa palavra para ofendê-la. Porque ela é negra e linda.
– Majestade, -Curt interrompeu- mouros não são exatamente negros, e ela é descendente de mouros.
– Preferes ver meu sangue misturado ao de uma eslava, Duvier?
– E-eu… eu…
O rei olhou para o chão.
– Estavas errado, Legrant, devo ouvir a todos. -ele olhou para Curt- Manda chamar meus ministros: quero uma reunião.
– A que horas eles devem se apresentar?
– Agora. Não quero esperar mais de dez minutos.
Curt saiu andando rápido, para dar ordem de reunir todos os ministros sem demora, e voltou ao gabinete. O rei olhava pela janela, enquanto esperava que todos se apresentassem. Duvier se aproximou de Curt e disse-lhe ao ouvido:
– Não acredito que tenhas feito isso. Eu ainda vou descobrir que motivos te fizeram preferir essa mestiça para ser nossa rainha.
– Pensas que fui eu quem quis? -disse, surpreso, em voz baixa- Duvier, ele não é mais um menino. Ela é uma mulher atraente, encheu os olhos dele.
– Tu o manipulas sempre, pensas que é um segredo?
– Nunca mais repitas isso. -ele se ofendeu- Ele é orgulhoso, pode se ofender se ouvir tal mentira.
– E eu ouvi. -o rei disse, sem se mexer.
– Majestade, eu… -Duvier começou- eu não queria dizer isso…
O rei virou-se de frente para os dois. Um terceiro ministro chegou apressado, cumprimentou o rei e entrou.
– Agelin, Duvier me acusa de não ter vontade própria. Tu concordas?
Agelin olhou para Duvier e para Legrant, tentando inteirar-se da situação, e voltou a olhar para o rei.
– Não, Majestade.
– Quem toma as decisões?
– Vossa Majestade.
O quarto ministro chegou, cumprimentou o rei e entrou.
– Rogier, quem manda no rei?
Sem entender nada, Rogier olhou para os três companheiros, e novamente para o rei.
– Majestade, não compreendo.
– Correm boatos de que um dos ministros me manipula. Quero que me digas o nome dele.
– Senhor, eu não sei…
Os dois últimos ministros encontraram-se na porta do gabinete, cumprimentaram o rei e entraram.
– Senhores, estou investigando uma traição. Um dentre vós é tão vil que sua própria existência me repugna. Aquele que disser a verdade terá minha proteção real, e minha misericórdia. Chegou aos meus ouvidos a acusação de que um dentre vós toma decisões por mim, me manipula. Quero saber quem é.
Os seis ministros ficaram em silêncio, alguns sem entender completamente o que estava acontecendo, outros sem coragem de acusar.
– Chalier, tu me manipulas?
– Não, senhor!
– Sabes quem o faz?
– Não, senhor.
– Agelin, -ele se aproximou do ministro- tu és o mais velho de todos. Tu sabes tudo o que acontece: tua experiência te permite ver além das aparências. Diz o nome de quem me manipula.
– Senhor… -ele fazia que “não” com a cabeça, sem saber o que dizer.
– Tu sabes quem é, Duvier? -ele se virou bruscamente.
Duvier apenas olhou para o rei, mas não respondeu.
– Tu, Legrant. Diz quem me manipula.
– Majestade,… -ele tinha os olhos baixos- dentre todos os vossos covardes e hipócritas ministros, só um teria forças para vos manipular. Um que não é nem covarde, nem hipócrita.
– Quem?
– Eu mesmo. Mas, para depor por minha inocência, tenho vossa augusta pessoa. Minha tranquilidade, senhor, é que vós sabeis que eu não vos manipulo. Minha vontade nunca prevaleceu sobre a vossa. Se meus conselhos são úteis…
– Majestade -um dos ministros se encheu de coragem para chamar.
– Sim, Pralan.
– As palavras são inapropriadas -ele mantinha os olhos na direção do chão- mas a acusação é válida.
– Explica.
– É sabido por todos que o Conde Legrant exerce influência sobre vós.
– Exerce influência… -ele olhou para todos os seis- Uma de vossas funções é me aconselhar.
– Sempre dais preferência aos conselhos dele.
O rei riu e caminhou até a mesa.
– Vê, Legrant, tua culpa é dar-me só bons conselhos.
– Se calúnias são o preço de minha competência, Majestade, eu pagarei contente. -ele mal segurava um sorriso cínico.
– Mas não foi para isso que chamei todos aqui. Foi para avisar-vos de que eu resolvi: vou me casar.
– Com a n… -Duvier murmurou, e engoliu o resto.
– O que disseste, Duvier?
– Nada, senhor.
O rei abriu uma gaveta da mesa, de dentro da qual tirou pequenas tábuas pintadas e emolduradas.
– Cinco reinos apresentaram-me suas princesas: o da Dinamarca, o da Andaluzia, o da Rússia, o da Escócia e o de Veneza. São cinco belas jovens, de reinos distantes e de raças estrangeiras. Quero que me aconselheis qual delas devo desposar.
– Rússia -Duvier disse logo.
– Vossa Majestade tem uma dívida junto à Dinamarca. -Agelin lembrou.
– Uma aliança com a Rússia seria proveitosa. -Chalier disse.
– Sim, Majestade, a princesa russa é a mais indicada -Rogier disse.
– Sim, a russa. -Pralan disse.
Todos calaram, esperando pela palavra de Legrant, que não veio.
– Diz tua escolha, Legrant.
– Majestade, vós já escolhestes uma, minha opinião pouco importa.
– Diz, quero ouví-la.
– Vossa Majestade deve se casar com aquela que escolheu.
– Tua opinião, Legrant. -o rei insistiu.
Legrant pensou um pouco.
– Se a dinamarquesa tem a idade que dissestes, a russa.
– Por quê? -o rei separou uma das tábuas e olhou a figura pintada- Por que quereis que eu me case com essa mulher pálida e fria? -ele jogou o quadro ao chão- Eu não quero. Não quero nenhuma destas. -ele jogou mais três quadros ao chão e segurou com cuidado o quinto e mostrou aos seis- É ela que eu quero.
A surpresa tomou conta dos quatro que só então recebiam a notícia e eles tentaram interceder contra. O rei passou por eles, abraçado ao quadro, em direção à porta. Dali, virou-se para o interior do cômodo.
– Amanhã quero que os ourives do reino me apresentem as mais belas e mais ricas jóias que conseguirem confeccionar, com ouro e pedras preciosas: quero escolher um presente para enviar à minha noiva. Agelin, providencia cartas de amizade para serem enviadas aos outros reinos e, Chalier, os embaixadores que vão à Andaluzia devem ser escoltados: não quero que meus presentes sejam roubados pelo caminho.
Os seis curvaram-se respeitosamente e o rei saiu.
– Por que a andaluza, Legrant? -Duvier atacou logo.
– Eu não sei. O que faz um homem se apaixonar por uma mulher?
– Tu o aconselhaste. Tu o induziste a escolhê-la.
– O rei não é influenciável como pensais. Ele buscou meu conselho, sim, mas não ouviu nada do que eu disse. Pensais que não intercedi por Catarina da Rússia? Eu o fiz. E também por Ana da Dinamarca. Mas ele dizia sem parar que queria a andaluza.
– Uma moura.
– Senhores, somos franco-germânicos. Tanto os mouros quanto os eslavos são de raça diferente da nossa. Se nosso futuro rei tem que ter sangue mestiço, deixai que Karl decida que mulher ele quer.
– É assim mesmo que pensas, Legrant?
– Se houvesse possibilidade de uma princesa francesa, ou germânica, ou helvética ou mesmo austríaca, eu tentaria influenciá-lo, apelando, sim, para a pureza da raça. Mas as alternativas são poucas e, na verdade, nenhuma me agrada. Os dois são jovens. Se ele está apaixonado por ela, deixai que ela o faça feliz.
– Basta ele estar feliz, Curt?
– Ela é européia e é uma princesa. Ela saberá ser nossa rainha. Sim, Pralan, basta ele estar feliz.
– A decisão está tomada -Agelin, o mais velho, tomou a palavra- e cabe a nós cumprir a vontade de nosso rei. Temos deveres a cumprir, senhores, para tornar o desejo dele realidade.
Os outros concordaram e todos saíram para providenciar tudo o que seria necessário para o futuro noivado… e para o casamento do rei de Durpoin.

 

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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

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