O processo de Ser – trecho

 
  
Capítulo I
 
Viver entre a montanha e o rio. A que impera nos céus, e o que escorre pela terra. A fortaleza e a suavidade, e eu aqui, entre ambos, elemento de ligação entre eles e da identidade deles.
– Vem Euryanthe!
A cachorra não se mexeu.
– Vem, Euryanthe, a neve não está alta.
Ela pareceu ter entendido e foi até seu dono. Eles caminharam juntos mais alguns metros, montanha acima, e, a certa altura, ele parou e olhou em redor.
– Vê como está tudo branco?
Ela não respondeu. A neve cobria os tornozelos dele e a companheira parecia estar com frio. Ainda assim, ele sentou-se no chão e abraçou-a.
– Nossa casa lá embaixo parece tão pequena… Como a distância muda as pessoas: aquela é Tatiana. Parece tão sem importância daqui… -ele olhou a figura que estava perto da casa- Ela está nos procurando. Vamos descer, Euryanthe.
Ele levantou-se e os dois desceram rápido. Tatiana estava perto da margem do rio e, quando viu o irmão se aproximando, gritou-lhe:
– Ilya, venha rápido!
Ele correu e parou ao lado dela.
– O que foi?
– Ali -ela apontou o rio- Ele vai morrer. -disse, preocupada e olhou para Ilya.
Rápido, ele entregou a ela o agasalho, as luvas e o chapéu e pulou na água gelada para salvar o estranho. Alcançou-o e levou-o até a margem. Quando saiu da água, sentiu seu corpo congelar. O outro estava desacordado e ele o reconheceu:
– É um dos soldados que esteve em nossa casa há alguns dias. -ele levantou-se- Vamos entrar: estou morrendo de frio.
– E deixá-lo aqui?
– Tatiana, ele é um soldado.
– É um ser humano!
Ilya pensou um pouco e resolveu carregar o outro para dentro da casa. Lá dentro, deitou-o perto da lareira e começou a tirar-lhe a roupa.
– Tatiana, apanhe uma toalha.
Ela atendeu e voltou, trazendo duas.
– Deixe que eu cuide dele: tire essas roupas molhadas antes que adoeça.
Ele fez que não ouviu. Jogou uma toalha sobre os ombros e, com a outra, começou a secar o corpo gelado do estranho.
– Apanhe um cobertor bem grosso, Tatiana.
Ela novamente atendeu rápido e eles cobriram o que estava ao lado da lareira. Ilya tirou a camisa, as botas e meias e se enrolou no outro cobertor que Tatiana trouxera.
– Está gelado, Ilya… Venha pra perto do fogão esquentar-se. -ela puxou-o pelo braço.
– Ele vai morrer.
– Você acha?
Os dois observaram o estranho e Ilya explicou:
– Olhe como ele treme. Com a noite vem o frio… Ele não vai conseguir recuperar o calor em tempo.
Ela deu ao irmão uma caneca com chá quente, de que ele tomou alguns goles.
– Vá lá pra cima, vista-se e enfie-se debaixo das cobertas, se não quiser ficar doente.
Ele devolveu-lhe a caneca vazia e fez o que ela disse.
Mais tarde, ela levou-lhe o jantar no quarto.
– Já está mais quente?
– Completamente. Se tivesse me chamado, eu teria ido lá embaixo.
– Não queria que se resfriasse.
– Não trouxe nada para Euryanthe?
– Ela está aqui?
– Ela esquentou meus pés.
Ilya levantou o cobertor e a cachorra pulou para o chão.
– Ilya, sabe que mamãe não gosta que ela suba na cama.
– Ela não precisa ficar sabendo. E, sem Euryanthe, eu não teria esquentado tão rápido.
Tatiana entregou-lhe a bandeja e ele tomou a sopa antes que esfriasse.
– O estranho?
– Continua do mesmo jeito. Tive que colocar um travesseiro debaixo da cabeça dele, ou ele a quebraria de tanto se bater no chão.
– Enquanto ele estiver tremendo, é porque o corpo está reagindo. Quando ele cansar…
Ele já tinha terminado de comer. Ela pegou a bandeja e ía sair.
– Vem, Euryanthe, vem jantar.
– Tatiana, quando você for dormir, me avise.
– Para que?
– Eu vou descer e cuidar de manter o fogo na lareira. O aquecimento normal será pouco para ele.
– Eu posso colocar lenha na lareira antes de dormir.
– Se for muito, vai queimá-lo. Se for pouco, não vai durar a noite inteira.
– Está bem, virei chamá-lo.
Tatiana saiu e fechou a porta. Desceu a escada seguida por Euryanthe e deu-lhe comida.
Ilya não podia passar a noite inteira acordado. Ela também não. Então o justo seria que dividissem a função. Tatiana lavou a louça e sentou-se junto à lareira com uma cesta de costura nas mãos. Se ficasse ocupada, pensou, o sono custaria mais a chegar. Resistiu duas ou três horas além da que estava acostumada. O estranho estava tremendo menos. Estaria já cansando? Tatiana tocou nele e sentiu que ele estava quente. Talvez o frio agora fosse por dentro. O coração dele batia forte e apressado e a respiração era angustiante.
– Eu acho que ele está com febre. Ilya tem razão: se o frio não o matar, o calor o fará. É pena…
Ela levantou-se e verificou que todas as janelas e a porta estavam bem fechadas. Acendeu uma vela e disse a Euryanthe:
– Fique aqui e faça companhia a Ilya, está bem?
Tatiana subiu ao outro andar carregando uma vela acesa e uma apagada, entrou no quarto de Ilya e acordou-o. Acendeu a outra vela, deixou uma com ele e entrou no seu quarto.
Ilya desceu caminhando devagar e sentou-se numa poltrona junto à lareira.
– Vai ser uma longa noite, Euryanthe.
Ele abriu um livro e comecou a ler. De vez em quando, olhava para o estranho, para ver se ele melhorava ou piorava de vez. Lá fora, a noite era branca de neve e vento frio. O silêncio era interompido apenas pelo crepitar da lenha no fogo.
A noite passou tranqüila e, quando desceu, pela manhã, Tatiana encontrou todos dormindo.
– Ilya, acorde.
Ele abriu os olhos e espreguiçou-se.
– Acabei dormindo…
– Ele parece melhor hoje.
– Dê-me um pouco de chá: estou com frio.
Os dois tomaram chá e ela encheu outra caneca.
– Será que ele consegue beber?
– Tente.
Tatiana abaixou-se junto ao estranho e tocou nele. Ele respirou fundo e se mexeu mas não abriu os olhos. Ela levantou a cabeça dele e colocou-lhe a caneca nos lábios. Aos poucos e com dificuldade, ele bebeu tudo.
– Como se sente? -ela falou com ele.
Ele abriu os olhos e fitou-a longamente.
– Ainda sente frio? -ela insistiu.
Ele negou com um gesto de cabeça.
– Não consegue falar?
Ele repetiu o gesto e deixou a cabeça cair para trás.
– Você está com febre. Vou arrumar uma cama para você.
– Qual? -Ilya perguntou.
– Aquela cama velha no último quarto. Está fechado há meses: vou ter que abrir a janela um pouco e deixar arejar. Depois que eu tiver arrumado, você o leva para lá.
Ilya pensou um pouco e concordou com a cabeça e Tatiana levantou-se para fazer o que dissera.
– Não. -Ilya interrompeu- Deixe que eu abra a janela e tire a poeira do colchão. Fique aqui e prepare alguma coisa: estou com fome.
Ela voltou e Ilya subiu. Tatiana colocou mais lenha no fogão e pensou o que colocar nas panelas. Logo um cheiro bom de comida encheu a casa.
– Você deve estar com fome. -ela comentou.
Ele concordou com a cabeça e perguntou com dificuldade:
– Qual o seu nome?
– Tatiana Mikhailovna. -ela olhou para ele.
– Agradeço… por minha vida.
– Qual o seu nome?
– Piotr Ivanovich.
– O que fazia ontem no rio, Piotr Ivanovich?
– Eu… caí. Não sei como, eu me desequilibrei e caí.
– Seus amigos soldados não o socorreram?
– Eu não estava com eles.
Ela se encheu de medo e perguntou em voz baixa:
– Você é um desertor?
Ele hesitou um instante mas confirmou com a cabeça.
– Então estamos em perigo enquanto você estiver conosco. Ilya tinha razão: devíamos tê-lo deixado morrer.
– Ele pensa assim, você, não. Por isso, esperei que ele saísse para agradecer a você. Não lembro das palavras mas lembro da sua voz convencendo-o a me salvar. A você eu devo a minha vida.
– Eu não teria pulado na água.
– Ele também não, se você não o tivesse convencido a fazê-lo.
– Não diga a Ilya que é um desertor. E, se os soldados vierem procurar você, vou jurar que não sabia o que você é.
– Eu juro que farei tudo que estiver a meu alcance para não causar-lhes aborrecimentos.
Ele sentou-se mas, como não estava vestido, o frio o fez deitar-se novamente. Tatiana voltou a atenção às panelas e Ilya voltou ao primeiro andar.
– Não pensei que houvesse tanta poeira naquele quarto! De lá ouvi vozes. Estavam conversando?
– Nosso hóspede já consegue falar.
– E sobre o que conversavam?
– Nós nos apresentamos -o estranho respondeu- e eu agradeci a ela por vocês terem salvado minha vida.
– Eu sou Ilya Mikhailovich. Quem é você e o que fazia dentro do rio ontem?
– Sou Piotr Ivanovich. Eu caí no rio.
– Não achou quem o socorresse?
– Meus companheiros não me viram cair. Eu me afastei deles um instante, eles não devem ter notado minha ausência até a noite.
– Se procurarem por você…
– Diremos a verdade: eu caí no rio e vocês me salvaram. Não haverá problemas.
– É o que eu francamente espero.
– Ilya, as roupas dele não estão secas.
– Mesmo que estivessem, eu não permitiria que as usasse: não quero um soldado na minha casa. Você é maior do que eu, vou ver se meu pai tem alguma roupa que lhe sirva.
– O almoço está quase pronto.
Ilya foi até o quarto do pai e voltou com algumas peças de roupa.
– Aqui estão. Tatiana, vá colocar um lençol naquela cama.
Ela atendeu e Piotr vestiu-se antes que ela voltasse. Pouco depois, os três sentaram-se à mesa. Ilya sentou-se no lugar do pai, Tatiana à sua direita e Piotr em frente a ela. Faziam a refeição em silêncio e, antes que terminassem, a porta se abriu e um casal entrou. Os filhos correram a abraçá-los e Piotr levantou-se.
– Parece que temos visitas. -ele olhava fixamente para Piotr.
Ilya se aproximou de Piotr com o pai e apresentou-os.
– Ele estava se afogando e eu o tirei do rio.
– Pelo que sou eternamente grato.
– Ah, pai, as roupas que ele está usando são suas.
– Eu já tinha percebido. Meus filhos estão cuidando bem de você?
– Salvaram minha vida.
– Enquanto estiver aqui, sinta-se como em sua casa.
– Obrigado.
– Sente-se, pai, e coma antes que esfrie. -Tatiana colocou o prato em frente a ele, sobre a mesa.
Os cinco sentaram-se, uns para começar, outros para terminar a refeição.
Quando terminaram, levantaram-se os quatro e as mulheres tiraram os pratos de cima da mesa. Piotr cruzou os braços sobre a mesa e apoiou neles a cabeça.
– Sente-se mal? -a dona da casa perguntou.
Ele não se moveu, apenas disse:
– A cabeça me pesa e eu sinto frio.
– Está com febre. Venha, você precisa descansar.
Tatiana disse isso, pegou o cobertor que estava em frente à lareira e conduziu Piotr pelo braço até o quarto que preparara para ele. Fechou a janela, enquanto ele deitava na cama e se cobria.
– É simples mas… -ela disse, referindo-se ao quarto.
– Acolhedor. E quente.
– Tente dormir. Vou pedir à mamãe que faça um chá para baixar sua febre.
– Só posso agradecer.
Tatiana saiu.
 
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Posted on: 1 de março de 2009Mônica Cadorin

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