OS DIÁLOGOS

Estive lendo Álvares de Azevedo e Ernest Hemingway (livros de contos que estavam na estante há anos, quase esquecidos) e descobri que sou mesmo neurótica pela correta indicação de quem fala nos diálogos. É um cuidado que eu sempre tenho e que recomendo a outros escritores, e que eles, autores consagrados, não têm. Como os famosos e imortais são eles, a errada devo ser eu, por me preocupar com um detalhe com que os grandes figurões não se preocupam.
Bem, chamar de neurose deve ser exagerado porque eu tenho motivos muito justos e racionais para desejar sempre saber quem está falando: para mim, cada personagem tem uma voz e um modo de falar particular e, se eu não souber quem está falando, não posso atribuir essas características àquela frase. E ler todas as frases com a mesma voz é realmente maçante.

Achei Hemingway brilhante na narrativa. Ele descreve, ele envolve, ele cativa. Mas achei os diálogos fracos e vazios. Achei que não acrescentaram nada à história e que, talvez, textos apenas narrativos poderiam ter sido mais agradáveis de se ler (isso porque adoro ler diálogos). Eu lia os diálogos e pensava “e daí? Para que essa personagem disse isso? O que essa fala esclareceu ou valorizou?” E aí meio que entendo porque muitas pessoas elogiam os diálogos das minhas personagens: eles me ajudam a construir a caracterização das personagens e trazem informações importantes sobre a visão de mundo daquela personagem e, por extensão, da época em que a personagem vive. Meus diálogos têm emoção, têm drama, têm conflitos; é nos diálogos que a relação humana acontece. E eu gosto disso. Então acho que vou continuar neurótica nesse aspecto.

Posted on: 21 de maio de 2015Mônica Cadorin