OS FEIOS

Não gosto de personagens deslumbrantemente bonitas. Lembro que, quando comecei a escrever, todo mundo era príncipe ou princesa, e minha mãe chamou à atenção a inconveniência dessa coincidência. Imaginário de contos de fadas começa a criar assim. Aos poucos, fui conseguindo fincar os pés no chão (pelo menos um pouco) e começar a inventar personagens que são pessoas comuns. E pessoas comuns não são nem feias nem bonitas; são simplesmente comuns. Aprendi a colocar a beleza das personagens não nelas mesmas, mas nos olhos de quem as vê. Então tenho poucas personagens realmente bonitas – nem me ocorre o nome de nenhuma para citar aqui. Quando vou descrever as personagens, acabo falando de poucos detalhes, só do que realmente faz diferença para a história. Porque não importa se a personagem tem olho castanho ou azul: ela enxerga do mesmo jeito. Me prendo mais em cores do que em formas, e na maneira como as personagens usam seus atributos físicos – por exemplo, cabelo curto ou comprido, solto ou preso. Mas se isso for importante para a história, se ajudar a compor a personalidade da personagem.
Minha “feia” mais famosa é Inês, tida por feia inclusive pelo pai, pelos filhos e por ela mesma, mas cuja aparência muito encanta Fernão, o marido. Na verdade, é o que importa: que a beleza esteja nos olhos da pessoa certa.
Posted on: 21 de março de 2015Mônica Cadorin

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