“Quando você diz manuscrito, você diz a mão mesmo?”

Interessante a pergunta que Ricardo Bruch fez ao comentar o texto NOVIDADES NO BLOG, depois de um passeio pelo “Blog de Apoio” (desativado), onde eu informo de cada história o número de páginas manuscritas. É engraçado pensar como hoje o computador faz parte da nossa vida de tal forma que parece inconcebível que alguém escreva a mão, com papel e caneta.
 
Sim, eu escrevo tudo a mão. Escrevi a mão todas as 160 páginas de O maior de todos todas as 376 páginas de O canhoto e todas as 895 páginas de Construir a terra, conquistar a vida. Escrever a mão faz parte do meu método, além de muitas vezes ser a única alternativa que tenho.
 
Uma vez eu resolvi escrever direto no computador. Foi em História da vingança do cavaleiro bretão. Eu simplesmente sentei diante da tela em branco e comecei a digitar e construir a história. A cada releitura, eu fazia alterações, e foi quando me dei conta da desvantagem de escrever direto no computador: perdi para sempre os textos anteriores às correções. Algumas vezes eu imprimi, para ler e corrigir no papel, e só então passar para o computador – gastei muito papel e tinta para imprimir sempre a mesma coisa, e acabei guardando todas as impressões, numa tentativa de salvar alguma informação sobre o processo de construção da história.
 
Quando escrevo a mão, fica tudo lá, gravado no papel. Se troco uma palavra, a anterior está ali, riscada mas disponível se eu quiser voltar a ela. Vendo o texto manuscrito, eu consigo refazer meu raciocínio, lembrar o motivo que me levou a cada uma das alterações, sejam acréscimos, cortes, mudanças. O meu processo de escrita fica todo gravado no papel. Como só uso papel de rascunho, muitas vezes uso o verso da história para observações da própria história, ou até da minha vida, e é interessante rever isso também, anos depois. Lembro que eu anotei, por exemplo, que escrevi o nascimento de Miguel, o primeiro filho de Duarte, no dia de São Miguel (29 de setembro). Não tenho nenhuma anotação extra feita em História da vingança do cavaleiro bretão.
 
Comecei a escrever minhas histórias em 1985, quando o computador pessoal ainda era desconhecido no Brasil (pelo menos eu nunca tinha ouvido falar nele). Tínhamos máquina de escrever em casa, mas eu sempre escrevi mais rápido com caneta e papel do que datilografando. Dessa forma, o método foi construído com o raciocínio manuscrito.
 
Há ainda uma outra questão para eu preferir o processo manuscrito: posso carregar e sacar papel e caneta em qualquer lugar que eu estiver. Consigo escrever até no metrô cheio, e dentro do elevador. Não sou do tipo que precisa de um ambiente ideal para conseguir escrever: preciso só de caneta e papel para registrar minhas idéias. Então o papel acaba sendo também mais prático e facilita meu trabalho.
 
Conforme expliquei aqui no texto sobre meu método, depois que a história foi toda manuscrita, ela fica guardada numa caixa de arquivo, ou numa pasta, em local de difícil acesso (para eu não ficar relendo), amadurecendo. Depois de um ano, ela é relida e reavaliada. Caso eu a considere boa, eu mesma digito tudo no computador, fazendo às vezes reparos, correções e acréscimos, tanto no papel quanto no computador. Então o manuscrito é definitivamente guardado e as eventuais alterações posteriores passam a ser feitas somente nesse texto digitado, que vai sendo polido e melhorado até chegar sua vez de virar livro e ser publicado.
 
Os textos do blog também são primeiro manuscritos. Depois vão para um editor de texto no computador e dali para o blog, na data escolhida. Até serem publicados, os manuscritos ficam andando na minha bolsa para cima e para baixo, sendo lidos, relidos e alterados. O texto digitado também anda comigo num pen-drive mas eu não tenho como acessá-lo dentro do transporte público – daí o papel ser mais prático. Quando publico um texto no blog, anoto a data da publicação no texto digitado e, como o processo de escrita neste caso não importa, jogo fora o manuscrito.
Posted on: 1 de novembro de 2009Mônica Cadorin

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