ROMANCE EM PROSA DO CAVALEIRO DE NOVA GÁLIA

Quando eu era criança, gostava de colecionar figurinhas. Sempre gostei de ver imagens (não me admira ter estudado história da arte). Cansado de gastar dinheiro com álbuns que nunca se completavam e que muitas vezes não acrescentavam nada à minha formação, meu pai me deu todos os selos repetidos dele, para que eu os soltasse do papel, organizasse e começasse a minha própria coleção. Passei alguns meses nessas atividades e, além de uma coleção para mim, ainda separei uma coleção para meu irmão mais novo. Depois desse tempo, perdi o interesse nas coleções de figurinhas, como meu pai tinha calculado. Eram muitos selos repetidos, tanto em diversidade como em quantidade. De um mesmo selo comum, às vezes havia mais de cem. Eram agora todos meus, repetidos, que eu podia trocar e aumentar minha coleção, que não se limitava mais a um livro ilustrado mas abrangia o mundo.

Mas para que estou contando essa historinha? É que foi um selo que me ensinou o alfabeto cirílico russo. Era um selo comemorativo e o mesmo texto vinha escrito em inglês e em russo: “visita do general-secretário Leonid Ilytch Brejnev aos EUA”. Ajudou-me o fato de que, em russo, as palavras visita, general e secretário têm raiz latina, então são muito parecidas com as palavras em português. Assim eu aprendi o que significam as letras cirílicas. Depois conheci uma moça que estudava russo e ela me deu uma cópia da correspondência entre as letras romanas e russas, confirmando muito do que eu já sabia e ensinando letras que eu não conhecia.

Tudo isso para contar que, em julho de 1989, quando comecei a escrever meu primeiro romance de cavalaria, eu estava ansiosa para praticar o alfabeto russo que eu tinha acabado de aprender. Então Romance em Prosa foi toda escrita em português, mas com o alfabeto russo. Desta forma, nem um russo consegue lê-la, pois não entende as palavras nem a gramática, nem um brasileiro consegue lê-la, pois não consegue decifrar o código e chegar às palavras e à gramática. Na época, eu morava no bairro de Santa Teresa, e sempre subia de bonde. Na estação terminal da Carioca, os passageiros se organizam em fila para subirem nos bondes, e é uma fila para cada banco. Ficamos, portanto, muito próximos uns dos outros e a indiscrição é inevitável. Era muito engraçado estar na fila, ver as pessoas olhando para o papel escrito sem conseguir entender nada. As pessoas me olhavam com estranheza ao me verem escrever aqueles signos esquisitos com naturalidade e destreza, mas nunca ninguém me interpelou para perguntar ou comentar o assunto.

Não me lembro o motivo, mas o fato é que a escrevi em papel pequeno de caderno, frente e verso, o que contraria a metodologia que eu vinha construindo. E a outra curiosidade foi em relação à caneta. Como eu sempre usei a mesma caneta para todos os fins, é comum a carga acabar no meio de uma história, pelo menos uma vez. Isso é um transtorno, porque nem sempre tenho uma caneta de reserva para tirar da cartola, assim de repente, E às vezes fico com a impressão de que gastei três ou quatro canetas com a história, quando na verdade uma inteira teria dado conta. Então separei uma caneta Faber Castel só para escrever a história. Por dentro dela coloquei um papel escrito “só para Haliwain” (Haliwain é o nome da personagem principal), naturalmente escrito em cirílico, para que não houvesse risco de que eu confundisse canetas e usos. Como eu supunha, a mesma caneta escreveu toda a história e ainda sobrou. Está guardada na minha coleção de canetas acabadas, como se fosse uma bonita caneta de carga ou com algum diferencial estético, quando seu único valor reside no uso que lhe foi dado.

Cheguei a pensar em fazer uma continuação para Haliwain, mas não consigo nem terminar de escrever Aventuras dos Cavaleiros Cantores, então é melhor não inventar moda.

Posted on: 21 de julho de 2010Mônica Cadorin

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