A bela e a fera

LIVROS QUE MARCARAM MINHA VIDA

É difícil chegar a uma lista resumida de todos os livros que foram importantes na minha vida, pois cada um marca de alguma forma, seja com um “adorei”, seja com um “não gostei”, seja com um “não consigo ler até o fim”. É claro que, a essa altura da vida, eu não me lembro mais de todas as tramas e de todas as personagens que já encontrei nos livros, mas tenho ainda a lembrança do sentimento que alguns livros me provocaram. Como este é um blog para falar de literatura, vou destacar apenas alguns livros que eu considero importantes para o meu processo de criação e escrita.

Sempre que me perguntam por livros marcantes, o primeiro que me vem à mente é O morro dos ventos uivantes de Emily Bronté. É uma história em que não é possível o final feliz que sempre se espera. Heathcliff, o protagonista, é um mau-caráter redimido por sua paixão quase doentia, o que o torna cativante e adorável. É um dos poucos livros que li várias vezes, e cada vez que leio renovo minha paixão a Heathcliff e Cahty e ao turbilhão de emoções que preenchem o livro.

Importante também foi Sem família de Hector Malot, que conta a trajetória de Remígio, uma história de perdas, com final feliz só mesmo lá no final, e personagens secundárias cativantes: mamãe Barberin, Vitale, Capi, Mattia, Lisa. Foi talvez quem me ensinou a tratar com carinho também as personagens secundárias, e sempre acenar com a esperança no final feliz, por mais tristes que sejam os acontecimentos do início e do meio da história.

Não posso deixar de citar Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár, uma história sem meninas. Acostumada aos romances em que sempre havia personagens masculinas e femininas, tanto principais como secundárias, e em geral um par romântico, foi algo que me marcou muito: é possível fazer uma história interessante sem romance (embora eu sempre tenha o par romântico nas minhas histórias). Ainda me lembro de Nemecsek repetindo em delírio “eu lutei pela pátria, eu morri pela pátria”. Mas já não lembro que final teve esse bravo e frágil herói.

“Nascera com o dom de rir e a idéia de que a humanidade é louca”. Assim começa Scaramouche, de Rafael Sabatini, o livro que me ensinou a fazer romance histórico. Costumo dizer que tudo o que sei sobre Revolução Francesa e seus desdobramentos eu aprendi com Scaramouche. Sabatini intrinca sua história fictícia de tal forma na história real que faz André Louis Moreau participar de todos os momentos importantes da história da França daqueles anos. É algo que geralmente tento fazer nos meus livros também.

Lord of the flies (O senhor das moscas), de William Golding, talvez não teria sido marcante, se não tivesse sido analisado no curso de formação de professores do Ibeu. É muito importante entender as ferramentas que o autor usa para construir seu texto. Assim aprendemos o que está disponível para ser usado. Com Golding, aprendi como usar deus-ex-machina, caracterização por detalhes, intensificação da ação, clímax, de maneira que consiga passar a mensagem da forma que quero.

E não posso deixar de citar algumas obras de meu querido José de Alencar: Cinco minutos – um romance curto, e não um conto longo; Encarnação (precursor de outras obras com o mesmo tema: Rebecca, de Daphne du Maurier e A sucessora, de Carolina Nabuco); A pata da gazela; O guarani; O tronco do ipê – todos meus favoritos. Aprendi também com O sertanejo e com O gaúcho que não gosto de descrições longas, mas de diálogos, que também servem para se fazer descrições, de uma forma mais leve e interessante.

Mas antes de ler tudo isso, meu imaginário foi formado por contos infantil, principalmente os de Hans Christian Andersen, em especial A sereiazinha, Polegarzinha, O soldadinho de chumbo, O rouxinol do imperador, Os cisnes selvagens; os recolhidos e compilados pelos Irmãos Grimm, com destaque para Cinderela, Rapunzel, A bela adormecida, Branca de Neve; e também A bela e a fera, de Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve.

Os livros mais importantes na minha trajetória de escritora são esses, e como eles participaram da minha formação. Os livros importantes na minha vida de leitora formam uma listagem muito maior, e seria objeto de várias postagens. Vamos deixar para outro momento.

RELEITURAS

É preciso reconhecer que muitas vezes não é possível ter todas as idéias originais. Muitas vezes, faço releituras de obras que já existem – livros, músicas, filmes, tele-novelas. Naturalmente não pretendo imitar as obras originais, mas justamente experimentar finais diferentes, mudar o ambiente, alterar aspectos de caracterização das personagens. É algo que comecei a fazer ainda em 1986, e é uma prática que me rendeu 28 histórias, das quais são sobreviventes Nem tudo que brilha…, Amor de redenção e o Ciclo de Kerdeor (Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do cavaleiro bretão, Aventuras dos Cavaleiros Cantores). É interessante que muitas vezes o nome da história é também o nome da obra em que foi inspirada – sinal de que quis manter a referência com o original. Vou citar aqui apenas as histórias descartadas, uma vez que a explicação das histórias sobreviventes já foi feita em textos próprios.

Baseadas em filmes, tenho: 1) Viagem à lenda da concha, de 1986, como os filmes juvenis da época, em que grupos de crianças e adolescentes vivem aventuras. Há também uma certa inspiração no livro Viagem ao centro da terra, de Jules Verne; 2) O circo, de 1987, inspirado em Trapézio, de Carol Reed; 3) Luzes da cidade, de 1995, como a de Charles Chaplin; 4) Nunca te vi, de 1988, como o filme de David Hugh Jones; 5) Simultaneidade, de 1995, é baseada em Uma noite alucinante, de Sam Raimi, que eu gravei por engano e assisti em FastForward, procurando o filme que eu queria ter gravado, e baseada em Alone in the Dark, jogo para computador, numa versão para DOS ou Windows 3.1, que eu conheci em 1993.
 
Baseada em livros, tenho: 1) Alan e as sete brancas-de-neve, de 1986, numa inversão subversiva do conto infantil; 2) Gêmeos, de 1987, inspirado em Os irmãos corsos, de Alexandre Dumas; 3) Rebecca, de 1987, inspirada no livro homônimo de Daphne du Maurier; 4) Crime e Castigo, de 1991, com um final diferente para a trama de Fiodor Dostoiewsky; 5) Senhora, de 1993, como a de José de Alencar; 6) A megera domada, de 1996, baseada em William Shakespeare; 7) A Bela e a Fera me rendeu duas versões, uma em 1996 e outra em 1997. Alterei a caracterização da Fera e a ambientação da história. Gosto do resultado, mas ainda não o bastante para escrever; 8) Europe também tem duas versões, uma de 1994 e outra de 2003, e a fonte é o conto Europe, de Henry James, com uma pitada do filme Como água para chocolate, de Alfonso Arau; 9) Solitário, de 2003, é inspirada na história de Santo Onofre, contada por Eça de Queiroz; 10) Luz, de 1988, se inspirava em David Copperfield, de Charles Dickens; 11) A casa bem assombrada, de 1989; Chuva, de 1986 e A morte não basta, de 1992 são todas baseadas em O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë.
 
Baseadas em música, tenho 1) Virgem do templo, de 1996, baseada na ópera Norma, de Vincenzo Bellini; 2) I drove all night, de 1994, como o clipe da música de Roy Orbison; 3) Dona, de 1994, inspirada na canção do grupo Roupa Nova.
 
Baseadas em arte, tenho 1) Desastres da guerra, de 1997, inspirada na série de gravuras de Francisco de Goya y Lucientes.
 
Muitas vezes, faço essa opção de utilizar uma ideia de outra pessoa para passar o tempo, como uma brincadeira; outras vezes, estou mesmo testando se consigo fazer diferente com a mesma qualidade do que já foi feito (e consagrado). A verdade é que eu invento muito mas escrevo pouco: sou muito crítica com o que faço. Se não fico 100% satisfeita, a história acaba descartada ou, com sorte, fica suspensa, esperando eu modificar até considerar boa.