À procura

TEXTOS NOVOS, IDEIAS VELHAS

Nos últimos seis anos, tenho tido poucas ideias novas para escrever histórias. O que tenho feito é retrabalhar ideias antigas e escrevê-las (ou não). Alguns textos são sobre ideias que já foram escritas em algum momento (À procura, O canhoto, Não é cor-de-rosa); outros, sobre ideias que ainda não tinham tido um bom desenvolvimento (De mãos dadas) e que, por isso, ainda não tinham virado texto. Quando a ideia é boa e eu consigo dar corpo e consistência a ela, torna-se um texto bom (O canhotoNão é cor-de-rosa, é cedo para falar de De mãos dadas) mas, quando falta a consistência, mesmo a ideia sendo boa, o texto não se sustenta (À procura).

É interessante pensar que estou retomando ideias de vinte, vinte e cinco anos atrás para escrever, por falta de ideias novas. Às vezes a impressão que tenho é de que tive um boom criador no início da carreira e esse momento passou. Talvez eu já tenha inventado tudo o que podia; talvez eu tenha tido todas as ideias logo no começo e não tenha me restado mais nenhuma. Fica aquela sensação de “será que minha capacidade para ter ideias acabou? E se eu nunca mais tiver uma ideia nova? Como vou continuar escrevendo se não consigo mais ter ideias para novas histórias?” Às vezes penso em entrar em crise por causa disso, mas há tanta coisa interessante ainda por aproveitar que acho que vou deixar para me desesperar mais pra frente, quando as boas ideias já tidas acabarem, e eu não tiver mais nenhuma boa ideia nova. Isso deve levar ainda uns bons anos afinal, se apenas 10% de todas as 309 ideias que registrei na minha tabela forem boas o bastante para se tornarem texto, e considerando que já escrevi apenas vinte bons textos (sobreviventes), ainda me restam onze ideias para trabalhar, desenvolver e escrever. Como ultimamente tenho levado mais de um ano para escrever cada história, tenho “combustível” para quase vinte anos de trabalho. E a verdade é que não faz diferença se tive a ideia da trama há um mês ou há vinte anos: o “filho” é meu do mesmo jeito.

DESCARTADOS

Neste texto comemorativo dos meus 27 anos de carreira literária, quero pegar um viés diferente. Em vez de falar nas ideias que deram certo, nos textos que viraram livros, vou falar nas ideias que não se tornaram histórias, e nos textos que foram descartados.
 
Pois é, nem tudo são flores na carreira artística. Ninguém consegue ser brilhante todo o tempo. Não se pode acertar todas. Cerca de 90% do que se produz serve apenas como exercício para não se errar de novo mais para frente. Só 10% (no meu caso, menos) de tudo o que se cria realmente merece ter prosseguimento e vir a público.
 
Sendo a época de fechar mais um ciclo (aniversário), posso fazer minhas contas e estatísticas: ao longo de 27 anos, tive 309 ideias (começos ou meios ou finais ou temas), das quais apenas 139 consegui desenvolver até o final (são histórias realmente) – ou seja, praticamente 45% de todas as ideias realmente se tornaram história com começo, meio e fim. Quando eu comecei a escrever, eu escrevia tudo o que eu inventava, sem me preocupar se depois conseguiria dar prosseguimento à ideia. Isso me fez ter muitos textos simplesmente começados, às vezes um punhado de páginas, uma cena, uma página, um parágrafo. É algo que poderia ter me desanimado, ter me feito questionar se eu de fato era capaz de levar uma narrativa até o fim, mas eu tinha tantas idéias novas todos os dias que considerava que em algum momento a inspiração para dar continuidade a todos os textos surgiria, talvez por mágica, talvez como um sopro das Musas. Acho que nem preciso dizer que todos esses textos incompletos, todas essas idéias que não renderam histórias estão devidamente descartados. Infelizmente, em algum momento eu rasguei algumas coisas, e hoje me arrependo, pois entre esses textos incipientes estava, por exemplo, o registro da primeira ideia de Rosinha, a história que hoje estou escrevendo. Então, embora eu tenha na memória que a estrutura básica foi mantida, como eu retomo muito certos temas, já não tenho certeza se a Rosinha de hoje realmente guarda vínculos com a Rosinha original, ou se misturei a estrutura com alguma outra história pelo caminho que tinha o mesmo tema (por exemplo, Espera e Raio de Sol).
 
Foram 139 histórias inventadas, mas não escrevi todas. Não basta a ideia ter um final, é preciso que eu goste dele, que eu considere que é uma história que vale a pena ser escrita. Também é preciso tempo para escrever. Então, são apenas 59 histórias que se tornaram texto – ou seja, 42% de todas as histórias inventadas e 19% de todas as idéias que já tive.
 
Escrever bem não é tarefa fácil. É preciso dar consistência à caracterização das personagens, descrever o ambiente, contextualizar, seguir a estrutura pré-estabelecida, criar bons diálogos, construir personagens interessantes, contar bem a história, redigir um texto coerente, não abusar do deus-ex-machina, utilizar as palavras e expressões corretamente, desenvolver cada cena no tamanho adequado, para citar só alguns aspectos. Então não é porque o texto está escrito que vou sair procurando editora para publicar. Tive sorte por perceber que era necessário apontar todos os defeitos e inconsistências dos textos e descartar tudo o que eu não considerasse próximo ao “perfeito” na época da análise. É por isso que, de tudo o que foi escrito, somente 19 textos permanecem, estou escrevendo um e pretendo escrever mais dois. Para efeito de estatística, vamos considerar que, pela minha experiência acumulada, essas três histórias que estou escrevendo ou vou escrever ficarão boas e serão sobreviventes (não, a minha experiência não garante que os textos ficarão bons. Só a avaliação posterior poderá julgar). Então, são 22 textos sobreviventes – ou seja, 37% das histórias escritas sobrevivem, o que equivale a quase 16% das histórias criadas, e 7% de tudo o que eu já inventei.
 
E que histórias são essas, que foram descartadas? Em geral, ideias bobas mas também ideias interessantes que eu não sei como desenvolver. Às vezes me vem à cabeça uma cena, ou um tema, e eu registro, para ver se acontece alguma coisa. Às vezes misturo idéias já tidas e invento uma coisa nova (Construir a terra, conquistar a vida é um exemplo de sobrevivente a partir de duas idéias descartadas). Pode dar certo ou não. Quero citar uns exemplos de histórias descartadas que me vêm à mente agora: a história de Juliana que pegou carona na garupa da bicicleta de André, na Ilha de Paquetá (escrita); a história de Roberto, que entrou de penetra numa festa grã-fina e saiu dela com o compromisso de dar uma festa igual (Champagne – não escrita); a história de Miguel, que comprou Alice para ser sua esposa (Tudo que o dinheiro pode comprar – escrita e quase publicada); a primeira história, que tentei reestruturar e reescrever duas vezes, sem sucesso (Sahara – escrita); Mosteiro (escrita), que se tornou O canhoto; Idade Média (escrita), que se tornou Primeiro a honra; Simultaneidade (não escrita), que fala de um rapaz que vive no presente e no passado ao mesmo tempo; Bonzinho mau-caráter, que já tem cinco versões inventadas e nenhuma escrita. Bem, são muitas e não vou conseguir citar nem as principais todas aqui. A última história que descartei foi À procura (romance), que era reescrita de À procura (conto), também escrita.
 
O descarte pode acontecer a qualquer momento. Há histórias que são descartadas logo após serem inventadas, pois é uma ideia que na hora não consigo levar adiante. Outras são descartadas depois de prontas, pois acho que não vale a pena escrever. Nesses dois casos, na verdade, estou descartando idéias e projetos. Ultimamente, como esse descarte preliminar ficou mais freqüente, é mais difícil descartar histórias escritas. Mas do que eu escrevi no início, pouco restou: foram descartadas em alguma avaliação posterior à escrita. As histórias estão sempre em risco de serem descartadas, até que eu as mande para a gráfica, como aconteceu com Tudo que o dinheiro pode comprar, que foi descartada quando eu preparava os arquivos para a gráfica. O limite entre a vida e a morte é bastante tênue, e as histórias estão sempre sendo reanalisadas e reavaliadas, então a morte paira sobre elas constantemente. Por isso chamo as boas histórias de sobreviventes: elas vêm escapando com sucesso de todas as avaliações.
 
Não tenho pena de descartar o que não considero perfeito. Sei como é fácil criar, como é fácil escrever. Então estou buscando mais do que isso: escrever bem, tramas sem furos, personagens interessantes, linguagem apropriada, contextualização conforme a necessidade da trama. Exigente como sou, tenho 19 textos sobreviventes. É mais do que um para cada dois anos de carreira. Hoje sei que o polimento do texto é mais demorado do que a escrita, então na verdade me considero bastante produtiva. A fila de publicação é que demora a andar, mas estou cuidando disso e logo anunciarei o lançamento de meu oitavo livro, A noiva trocada, em produção independente.
 
Chego aos 27 anos com uma maturidade que eu não imaginava alcançar quando comecei. É muito bom olhar para trás e ver o que foi construído. E essas histórias descartadas, em vez de serem fracassos, como poderia parecer à primeira vista, são na verdade o chão que eu piso, a escada que me faz progredir. Elas são as mestras que, se não ensinaram como fazer, ao menos ensinaram como não fazer, o que pode ser até mais produtivo e eficiente. Fica então minha homenagem a esses degraus que eu pisei, a esse caminho trilhado, cheio de sucessos que sobrevivem e de sucessos descartados.

SEGUNDO ANIVERSÁRIO

Obrigada a vocês, meus Seguidores, e a todos os meus leitores fiéis: Escrever para mim completa dois anos de vida. Está sendo muito bom para mim ter esse espaço para refletir sobre minha experiência e poder contar a todo mundo, caso sirva para reflexão de outros escritores. Imagino que também deve ser interessante para quem conhece meus romances saber como foram criados e o que me motivou a caracterizar as personagens desta ou daquela forma.
 
O número de seguidores e visitantes vem crescendo (desta vez, vou poupar vocês das estatísticas), e é muito bom poder fazer contato com pessoas que eu não conheceria de outra forma.
 
No primeiro ano, falei de questões mais abrangentes, cuidei de apresentar a mim e a minhas histórias. No segundo ano, aprofundei algumas questões, apresentei meu inconsciente tanto quanto consigo acessá-lo. Para este terceiro ano que se inicia, pretendo fazer textos mais didáticos – tanto quanto é possível se ensinar alguma coisa a alguém – abordando problemas comuns na escrita e soluções que encontrei. São questões que sempre aparecem nos fóruns e comunidades de que participo, de forma que são assuntos sobre os quais tenho refletido bastante ultimamente, e achei que será boa ideia partilhar com todos os meus visitantes as reflexões que tenho feito de uma forma mais privada. Este ano também vocês poderão acompanhar o processo de escrita de meu romance (ainda sem título) que eu chamo de Rosinha, o nome da personagem que me veio em sonho. Propositadamente comecei a escrever hoje, inaugurando o novo ano com meu já nem tão novo projeto.
 
Não pretendo publicar a história aqui à medida que for escrevendo pois, conforme já contei, meu método é bastante rígido e o texto só pode ser mostrado depois da primeira avaliação, que só acontece um ano depois de eu terminar de escrever. Inclusive, só textos APROVADOS (sobreviventes) nessa primeira avaliação são digitados. O que pretendo contar aqui é mesmo sobre o processo de escrever – as ideias, as pesquisas, as dificuldades, as alterações ao projeto original, as retiradas, os acréscimos. É algo que só agora terei oportunidade de fazer, pois comecei o blog depois que já tinha terminado O canhoto, e À procura era uma história curta, uma tentativa de re-escrita, que inclusive não deu certo. Rosinha tem mais chances de dar certo, porque está mais próxima do tipo de história que eu costumo contar, com conflitos sociais e não psicológicos (eu-comigo, como era o caso em À procura); com uma série de eventos a contar, num largo correr de anos. A história começa no século XIX, com a vinda dos imigrantes italianos para o Brasil, mas eu só me aproximo para detalhar em 1913, e a história termina em 1928. Então tenho muito a contar, do jeito que eu gosto.
 
Será um ano de trabalho intenso e, portanto, de muita satisfação, e vocês poderão acompanhar tudo aqui mesmo, sempre nos dias 1, 11 e 21.

EDIÇÃO EXTRA

Pensei muito, li muitas vezes À procura, e cheguei à conclusão do que fazer com ela. Se eu não acho ótima, se não me empolga, mesmo que esteja bem estruturada, bem contextualizada e bem escrita, não merece viver. Então, emoções de lado, está descartada. De qualquer forma, essas classificações “sobrevivente”, “suspensa” e “descartada” não são fixas, mas as histórias podem transitar entre elas com certa flexibilidade. Então, mesmo descartada hoje, pode me empolgar daqui a uns anos e voltar à vida.

Quanto a O Além, digitei inteira em dois dias. Há trechos a melhorar, informações a acrescentar, mas eu achei mais fácil ter a história inteira linear para poder trabalhar. O manuscrito está cheio de emendas, algumas com um parágrafo, outras com duas páginas, e isso dificulta muito a minha leitura e compreensão global da história. Agora, que ela está passada a limpo, vou conseguir fazer os ajustes que quero.

Essas são as novidades.

NOTÍCIAS DE INÍCIO DE ANO

Depois de passar quase um ano digitando O Canhoto, finalmente terminei. Fiz apenas ajustes mínimos que nem vale a pena mencionar. A história, que eu terminei de escrever em maio de 2009, continua me agradando, e eu continuo achando-a boa literariamente.
Então chegou a hora de rever À procura, que terminei de escrever em novembro de 2009. Para minha tristeza, a história não me emocionou, não me satisfez. Fiquei com uma sensação de “mas é isso?” e “o que vou fazer com isso?”. Depois de tanta pesquisa, de tanta elaboração geológica e psicológica, a história não deu certo. Costumo ser bastante rigorosa e insensível para descartar o que não me agrada mas desta vez deu pena. Por outro lado, ela já estava descartada antes. Reescrever foi apenas uma tentativa de fazê-la voltar à vida em outro “corpo”. Mas a impressão que me ficou foi de que a história que eu tenho para contar em À procura não vale a pena ser contada. E fiquei pensando: já descartei histórias melhores, que me deram trabalho e pelas quais eu tenho carinho. Não vai ser À procura que vai me fazer burlar minha regra ou rever meu critério. Por outro lado, ela está bem construída e bem escrita, as personagens são consistentes e verossímeis. Na verdade, não sei o que fazer com ela. Cada vez que leio tenho uma impressão diferente, e eu queria duas impressões consecutivas iguais para poder decidir. O tempo dirá.
A próxima história a retomar é O Além. Já reli e percebi que preciso intensificar algumas sensações para torná-las mais vívidas e trazer o leitor mais para dentro, fazê-lo andar comigo, ver o que eu vi e sentir o que eu senti. É muito difícil para mim escrever em primeira pessoa: a restrição de ponto de vista acaba restringindo a minha narração. Mas os problemas de O Além são possíveis de solucionar, com um pouco mais de imersão e esforço descritivo. Vou fazer os ajustes necessários e depois digitá-la.
Na outra ponta do trabalho, estou preparando o lançamento de Primeiro a honra, e finalizando a produção editorial de A noiva trocada. Quando tiver datas e horários, avisarei aqui. Depois virá Construir a terra, conquistar a vida, com suas 800 páginas divididas em três tomos. É um projeto ambicioso, e estou pensando seriamente em pedir patrocínio. Se alguém que paga imposto de renda quiser contribuir com minha causa, apresente-se!
Bem, isto é o que tenho feito este ano, e o que pretendo fazer nos próximos meses. 2011 será um ano cheio de acontecimentos!

HISTÓRIAS COM MUITAS E POUCAS PERSONAGENS

Outro dia, anotei na minha listagem geral alguns nomes de personagens que estavam faltando em O canhoto. Então tive a ideia de fazer este texto, para refletir se há diferença de tratamento entre histórias com poucas personagens e histórias com algumas personagens principais, várias personagens secundárias e muitas personagens coadjuvantes e figurantes. E também descobrir o que para mim são muitas e poucas personagens.
 
Naturalmente, os contos e histórias curtas têm menos personagens. E naturalmente também, a história com mais personagens é Construir a terra, conquistar a vida, pois são 25 anos e uma cidade inteira envolvida em 895 páginas manuscritas. São ao todo 72 personagens, incluindo as pessoas reais (jesuítas e governantes que têm alguma fala), divididos em 10 grupos. Tentei contar o número de famílias, mas fica confuso, pois as famílias de Duarte e Fernão, ao longo da história, vão se misturando a outras famílias, com o casamento dos filhos, que se tornam também novas famílias. Então Maria, por exemplo, no início pertence à família de Duarte, e João pertence à família de Manoel Machado mas, ao se casarem, se tornam uma terceira família. Diante disso, cada pessoa representa uma família, ao mesmo tempo que cada casal forma uma família. É mais simples dizer que é muita gente e muitas famílias se entrelaçando, como acontece também na vida real.
 
Acho que a primeira história que escrevi foi a mais sintética de todas, embora, pela estrutura, não fosse um conto. Havia apenas o casal protagonista e o antagonista. Três personagens e as areias do deserto. Não tenho nada mais minimalista.
 
A Nova Camelot, que se tornou A volta dos cavaleiros da Távola Redonda, que se tornou O sonho de Richard e que hoje está descartada tem a peculiaridade de ter personagens duplas, uma vez que cada uma é ela mesma e o cavaleiro que foi, e eles agem às vezes como um, às vezes como outro, às vezes como os dois juntos. Comecei com 9 personagens duplas + 2 simples (Richard e Artus), passei para 18 duplas + 5 simples (Richard, Artus e os magos) para terminar com 12 duplas + 4 simples (Richard, Artus e os magos).
 
Quando escrevi Mosteiro, tinha 21 personagens, organizados em 5 núcleos familiares. Dessas 21, 4 são as mais importantes (Michel a principal e mais 3 secundárias). Ao re-escrever e transformá-la em O canhoto, o número de personagens aumentou para 38 e mais duas personagens ganharam importância. Algumas famílias e grupos sociais também se desenvolveram, chegando ao número de oito.
 
Outra história com muitas personagens é O maior de todos, com o número de 36. Afinal, toda a corte está envolvida, há nobres e povo, ministros, traidores, crianças que nascem.
 
Sempre que há muitas personagens, a maioria delas não é desenvolvida. A verdade é que não dá para se trabalhar bem com mais de 10 personagens importantes, pelo menos não em menos de 500 páginas (Construir a terra, conquistar a vida tem 14 personagens importantes e 895 páginas para resolver a vida de todos). Personagens importantes têm aspecto físico, características psicológicas e emocionais, problemas a resolver, conflitos próprios. Quando estou escrevendo a história, vou criando personagens à medida que vou precisando delas, sem pensar no número, e vou desenvolvendo-as quando necessário. Histórias com mais conflitos pedem mais personagens. Por outro lado, histórias com mais personagens me possibilitam criar mais conflitos. No fim, uma coisa gera a outra, às vezes uma precede, às vezes outra, sem regra fixa.
 
Mas percebi que esse número alto de personagens (mais de 30) é exceção, pois a maioria das histórias sobreviventes tem menos. Como em geral tenho um casal protagonista, acabo ficando com apenas esses dois núcleos familiares e mais um ou dois grupos sociais (ambiente de trabalho, amigos, antagonista, comunidade social, etc). É o que acontece em Não é cor-de-rosa, O Aro de Ouro, Primeiro a honra, Vingança, O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, Amor de redenção.
 
Em O processo de Ser, tenho só um grupo familiar e alguns amigos – já que um dos temas é o isolamento e a vida interior. Em Nem tudo que brilha… também fui bem sintética, com o casal protagonista, um amigo, dois empregados e a casa misteriosa com seus antigos moradores já falecidos. À procura (descartada após a publicação deste texto) também é interessante por ter apenas cinco personagens, todos com a mesma importância, todos igualmente desenvolvidos (tudo bem, o guia tem um mistério a mais a desvendar) e eles são um grupo profissional e não familiar. De mãos dadas vem nascendo com três núcleos familiares centrais e até agora 10 personagens. Quando eu escrever, provavelmente precisarei de outras e, ao desenvolver as que já existem, o número de personagens importantes (atualmente uma principal e duas secundárias) deve aumentar também.
 
Então, em geral escrevo histórias com menos de 30 personagens no total – tramas simples, sem muitos entrelaçamentos, que se resolvem em 100 ou 200 páginas A4 manuscritas. Mas são justamente as histórias com mais de 30 personagens, mais complexas, mais difíceis de gerenciar – pois é necessário cuidar da gradação de importância entre as personagens principais e entre essas e as secundárias – que são as mais gostosas de se escrever.

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?

Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, De mãos dadas, O processo de Ser, O Além.
 
Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha…, que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.
 
Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.
 
E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Não é cor-de-rosa, Pelo poder ou pela honra, À procura.
 
Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

NOVOS PROJETOS

Este ano, estou envolvida com muita coisa ao mesmo tempo, e está difícil dar conta de tudo. Além do meu trabalho com o Patrimônio Nacional, meu ganha-pão, e da minha vida pessoal, em que me desdobro em atender a todos os meus papéis sociais dentro da família, tenho que cuidar da minha carreira literária. Estou inscrita em algumas comunidades e participo delas sempre que posso. Tenho também uma lista de blogs de amigos e de pessoas que conheci pela Internet e que eu gosto de acompanhar, além das redes sociais do Orkut, Facebook e Twitter [eu falei Orkut? ops, sinais de velhice rsrsrsrs]. É tanta coisa que acabo tendo que reduzir minha participação. Este mês de outubro, estou revendo todas essas minhas inserções na Internet e reduzindo ao essencial, para que eu possa ser mais ativa em menos coisas. Não adianta apenas estar inscrita, é preciso usar e tirar bom proveito.
 
Estou também, desde maio, cuidando da publicação do meu sétimo romance – Primeiro a honra: finalizando o texto, cuidando dos registros, contato com editora, análise de custos, etc. Vamos ver se consigo lançar mês que vem (estou dizendo isso desde junho).
 
E Nicolaas, que saiu da pasta em abril e eu ainda estou digitando, devagar, quando tenho tempo. Já consegui passar da página 100, mas são ao todo 376 páginas, então tenho ainda muito o que digitar. Quando eu acabar, provavelmente será hora de começar a digitar À procura e O Além.
 
Tenho dois livros em ponto de fazer as pesquisas prévias e começar a escrever. Um é a história de Didier (ainda sem título), que vou fazer a quatro mãos com uma amiga. Estou esperando ela me passar as informações sobre as personagens e a estrutura da trama para estudar o contexto histórico e começar a escrever. Outro é Rosinha (também sem título), que já foi citada aqui. Falta-me pesquisar o contexto histórico para situar minha história dentro dele. Mas eu sei que, se eu começar a escrever, todo o resto se tornará secundário, então é algo que não posso fazer agora. A prioridade é a publicação, para que a fila ande – terminei de escrever Construir a terra, conquistar a vida em 2002, e ainda não chegou a vez dela. Então, dada a escassez de tempo, tenho que adiar a minha escrita. Enquanto isso, vou repetindo as cenas-chave à exaustão, testando possibilidades diferentes, marcando gestos e falas que devem ser mantidos.
 
É engraçado pensar que não tenho tempo para o que deveria ser minha atividade principal. Mas, dada a importância da literatura no país, e minhas circunstâncias financeiras pessoais, não tenho condições de terceirizar os serviços, então tenho que eu mesma revisar meus textos, diagramar, registrar, imprimir, divulgar, distribuir – coisas que, se eu fosse famosa, teria uma editora inteira para fazer para mim. Um parêntesis: perceberam que não inclui a digitação entre esses serviços que podem ser terceirizados? É que essa tarefa eu faço questão de fazer, como espaço para uma reescrita possível.
 
Então, enquanto eu não esquematizar (e cumprir) minhas participações na Internet, enquanto a publicação de Primeiro a honra não sair e eu não acabar de digitar Nicolaas, não posso nem pensar em voltar a escrever. Bem, pelo menos a parte da criação eu estou exercitando…

QUANTO TEMPO ENTRE TERMINAR UMA HISTÓRIA E COMEÇAR OUTRA?

A resposta a essa pergunta é muito simples: algumas horas, não mais do que um dia. Sou viciada em criar, então, assim que termino uma história já começo a pensar em outra. Sou como aquele fumante que acende um cigarro no outro: não há intervalo nem pausa.
 
Mas isso não quer dizer que escrevo todo o tempo. Esse intervalo de escrita tem sido maior, chegando a dois anos entre terminar de escrever uma história e começar a escrever outra. Nesse período de “descanso”, trabalho histórias novas mentalmente , retomo idéias antigas, procurando alguma que valha a pena escrever. Em março do ano passado, terminei de escrever O canhoto. Em novembro, re-escrevi À procura. Desde então, venho repassando duas histórias que acho boas: Rosinha (1986), tentando acertar um final interessante dentro dos objetivos que quero; e Amnésia (2004), tentando estruturar os eventos, construir a trama e melhorar a caracterização das personagens. Como podem ver, vou me preocupar com o título depois. Caso eu resolva escrever alguma das duas, haverá ainda etapas de pesquisa e planejamento, especialmente no caso de Rosinha, que se passa em São Paulo, no início do século XX – é preciso escolher uma data mais exata e ter informações para contextualizar.
 
Há anos atrás, esse tempo de pausa me angustiava. Eu ficava especulando se seria capaz de escrever novamente. A seqüência ponto final – assinatura – data me causava um vazio mental momentâneo, a sensação de “acabou”, que é ao mesmo tempo de alegria infinita pela conclusão e angústia de fim. Será que algum dia terei outra boa idéia? Será que conseguirei escrever com as melhores palavras? E se isso nunca mais acontecer, como vou viver sem criar e sem escrever? Eu considerava que tinha o compromisso de ter sempre boas idéias e escrever todas elas. Aos poucos, fui aprendendo que não é possível ser brilhante toda vez, e que é melhor não perder tempo escrevendo o que não é excelente. Desde então, tenho histórias que são meros passatempo, uma trama boba, cuja função é apenas me ajudar a dormir. Em geral, uso um conjunto fechado de personagens (inspiradas nas minhas velhas bonecas de papel), e mudo a caracterização, o ambiente e a trama. Chamo essas histórias de exercícios de criação, e não tenho pretensão de escrevê-las. São elas que preenchem meu tempo entre uma história boa e outra. Às vezes uma delas se desenvolve bem, chega ao fim, me agrada, e eu resolvo escrevê-la. Foi o que aconteceu com O destino pelo vão de uma janela, Difícil conquista (1991, descartada), Um dia, depois (1991, descartada), Amor maior que o amor, Tudo que o dinheiro pode comprar, À procura. Algumas são razoáveis, e talvez eu retome algum dia, para aperfeiçoá-las e escrevê-las, como Bonzinho mau-caráter (na versão de 2009), Um campo verde (1993), A Bela e a Fera (na versão de 1996).
 
Então atualmente estou curtindo também esse tempo de pausa de escrita, aproveitando para preparar as publicações, escrever textos para o blog, participar das comunidades de literatura. Considero que tudo isso é tão importante para minha carreira quanto criar e escrever. E hoje eu sei que eu vou conseguir criar novamente, e escrever como quero. Sei que meu inconsciente está trabalhando mesmo (e principalmente) sem eu sentir, e vai se manifestar quando estiver pronto, quando for a hora certa.

EDIÇÃO DE ANIVERSÁRIO – 1 ANO

Hoje faz exatamente um ano que comecei este blog. Em um ano, muita coisa mudou, idéias tomaram corpo, mas a essência continuou a mesma, e o Blog continua sendo um espaço para eu expor meu modo de trabalho, histórias das minhas histórias, como funciona meu processo de criação e construção dos elementos dos romances, e curiosidades em geral relacionadas a esses itens.

No meio do caminho, criei um segundo espaço, para conter informações básicas sobre as histórias, de forma que eu não precisasse repetir tudo cada vez que citasse a história. E recentemente ocupei um terceiro espaço para fazer a divulgação (e a venda) dos livros que tenho publicados. Os preços informados cobrem meus custos. Acho que não vou ficar rica vendendo livros… [editado: atualizei os links para esses outros espaços, uma vez que, atualmente, todos estão organizados neste site]

Quando comecei com o blog, escrevia dois ou três textos por semana, o que me deixava sempre com uma boa reserva, caso alguma semana ficasse sem assunto. Mas no final de 2009, enquanto re-escrevia À procura, parei de produzir textos para o Blog – mas não parei de publicá-los – de maneira que minhas reservas se esgotaram e tenho que confessar que minhas idéias para novos textos também estão mais escassas. Portanto, se alguém tiver alguma sugestão a dar, alguma pergunta a fazer, não se acanhe.

Nas próximas semanas, pretendo criar mais vínculos entre os três blogs [obs.: já está tudo vinculado no site, inclusive em pesquisa de Tags], para que eles se intercomuniquem mais, e o leitor tenha mais facilidade em passear por todos eles, envolvendo-se mais profundamente com a minha obra e o meu mundo pessoal. Assim, poderá ir do texto à sinopse, ao livro, ler um trecho da história, ver outros textos que se referem a essa história, tudo de forma simples e integrada.

Agradeço a meus leitores habituais, aos leitores esporádicos e a todos que em algum momento andaram por aqui, lendo, comentando, aproveitando de alguma forma o que eu tenho a dizer.