Estácio de Sá

OUTRO ANIVERSÁRIO DE NOVO

Hoje faz exatamente 450 anos que a Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada pelo bravo Estácio de Sá, acompanhado de outros portugueses corajosos, incluindo nesse grupo também alguns Jesuítas. É uma data memorável para todos os cariocas e para todos os que moram aqui e, porque não?, para todos os que, mesmo sem terem nascido nem estarem morando, são também encantados com a beleza desta parte do mundo que, segundo Fernão Cardim, “tem uma Bahia que bem parece que a pintou o supremo pintor e architecto do mundo Deus Nosso Senhor. E assim é cousa formosíssima e a mais aprasível que há em todo o Brasil” (Tratados da terra e gente do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: USP, 1980. p. 170).
 
E hoje faz também 423 anos que minha história Construir a terra, conquistar a vida acabou (conforme contei aqui). Tudo bem, foi um longo dia 1/3 que só terminou na tarde do dia 2/3. Tempo psicológico é assim: o referencial é a pessoa que está passando pela experiência, e não o relógio, ou qualquer outra forma de medição do tempo. A grande sequência final da história começa no dia 1/3, quando Duarte e sua grande família – que, além de toda a família de Fernão, a essa altura inclui também filhos e netos – aproveitam o dia festivo para um passeio (piquenique) à região do Rio Carioca, onde, ainda nos idos de 1567, Duarte conheceu Ayraci. A história termina assim, no piquenique. Ali todas as pontas são amarradas, tudo é solucionado. E a sequência se estende noite adentro – ninguém dorme – e segue pelo dia seguinte. Então, se ninguém dormiu, o dia 1/3 não acabou. Ele entrou pelo dia 2/3 e incorporou-o.
 
Então eu, no meu delírio autoral, sempre fico achando que as comemorações civis e religiosas desse dia, até hoje, de alguma forma rememoram e celebram o que aconteceu naquele dia 1/3/1592. Assim seja, Duarte! Que seu nome fique gravado para sempre junto dos bravos heróis portugueses que deixaram sua terra para virem construir nosso Rio de Janeiro. Como você previu, sempre que alguém (eu) fala “Estácio de Sá”, também fala “Duarte Correia”, herói da cidade. E assim será, enquanto o aniversário da cidade for dia primeiro de março.

OUTRO ANIVERSÁRIO

Hoje é o dia em que comemoramos o aniversário da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que completa 448 anos de ocupação portuguesa permanente. A história dos primeiros anos de vida da cidade é marcada por heroísmo e persistência de um grupo de bravos que teimaram em manter o lugar sob o domínio do rei português. Adversidades não faltaram, fosse a presença dos franceses, os ataques dos índios tamoios, o terreno formado por lagoas e charcos, a falta de gente para povoar, os poucos recursos disponíveis para trabalhar a terra e fazê-la produzir. Eles passaram por cima das dificuldades e construíram uma cidade que se tornou uma das mais bonitas e importantes do Brasil, conhecida no mundo todo, embora ainda haja muitos problemas a resolver – hoje, problemas de outras ordens.
E foi nessa data tão marcante para a história da cidade que eu escolhi acabar a história Construir a terra, conquistar a vida. Ela podia ter acabado em qualquer dia, mas eu quis que o último evento da história coincidisse com o aniversário da cidade, um dia de festa e alegria. Então, enquanto todos comemoram os 448 anos da cidade do Rio de Janeiro, eu me lembro de que faz 421 anos que aconteceu o último evento da história (que é claro que eu não vou contar).
Estou fazendo a última revisão do texto, que tem 844 páginas digitadas em tamanho A4 (ainda estou chegando na metade). É muito interessante rever um texto que eu acabei de escrever a dez anos atrás (como contei aqui), e que faz tempo que não leio inteiro assim. Fico pensando “fosse hoje, escreveria diferente”. Mas é bom ver as personagens agindo, os eventos históricos acontecendo, os problemas surgindo e sendo resolvidos. Nos 25 anos em que se desenrola a história (de 1567 a 1592), tanta coisa acontece na vida da cidade e na vida das personagens… e é bom o sentimento de que personagens minhas estão no grupo dos bravos portugueses que fizeram os primeiros dias da cidade. Duarte lutou ao lado de Estácio de Sá e depois ele e Fernão lutaram ao lado de Salvador de Sá. E, além de defenderem a cidade, também a povoaram com seus filhos e netos. Construíram a terra e tiveram portanto direito de conquistarem uma vida melhor para si e para seus descendentes.
Salve Primeiro de Março, início e fim para muitas histórias, tanto reais como fictícias.

QUANTO DETALHAR

Muito importante na hora de construir a verossimilhança de um romance histórico é incluir na ficção fatos históricos reais, de maneira que as personagens fictícias participem e sejam afetadas pelos eventos históricos. Dessa forma, a história da personagem parece possível de ter acontecido de verdade, e o leitor acaba acreditando que a ficção é real. Acho que isso é um ponto positivo num romance histórico.

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, eu não tinha essa consciência, e meus primeiros romances, embora tenham as características da ambientação escolhida, não se apegam a esse tipo de pormenor. As personagens moram naquela cidade, ou naquela região, mas não naquela rua específica, naquela casa específica, em que o sol entra pelas janelas de manhã. Eu só comecei a me preocupar com isso quando fui buscar o passado da minha cidade, para escrever Uma antiga história de amor no Largo do Machado, e tinha que fazer minhas personagens andarem pelas ruas que existiam na época, e verem os prédios que havia na época. Em 146 anos (o lapso de tempo entra a data da história – 1845 – e o ano em que eu estava – 1991), a cidade do Rio de Janeiro mudou muito, com aterros, construções e expansão, e eu tinha uma cidade muito diferente para apresentar.

Mesmo assim, a história real era passiva, era um cenário a ser visitado, e não um redemoinho que carregasse minhas personagens em sua passagem. Foi somente em Construir a terra, conquistar a vida que as coisas começaram a se entrelaçar, pois Duarte veio para o Rio de Janeiro para lutar contra os franceses, na batalha que ficou conhecida com o nome de Uruçumirim. Duarte viu Estácio de Sá cair atingido pela flecha que o acertou no rosto; Duarte foi ao enterro de Estácio de Sá; Duarte construiu sua casa nova no Morro do Descanso, no terreno que Mem de Sá lhe cedeu. Depois, quando os franceses voltaram, e estavam em Cabo Frio, Duarte foi atrás deles, enquanto seus filhos patrulhavam a praia. Tudo o que aconteceu na cidade teve a participação efetiva de minhas personagens. Tenho muito orgulho do que consegui realizar.

O canhoto também tem esse entrelaçamento, inclusive com a participação de pessoas que existiram de verdade, e o principal evento de que minhas personagens participam é a Terceira Cruzada. Não é toda história que pede esse tipo de trabalho. Alguns romances são mais fechados, e uma ambientação básica já cumpre seu papel. Em outros romances, entretanto, a cidade, com sua história e geografia, também é personagem, e a narrativa fica mais aberta a interferências da realidade. Minha história atual é assim. Já inclui a Greve Geral de 1917, e informações sobre a Grande Guerra, em que o Brasil ingressou em 1918. Faltava contar a Gripe Espanhola, também em 1918, mas achei que a narrativa estava meio arrastada, e eu estava demorando muito para avançar, então resumi o episódio da Gripe em um parágrafo e entrei feliz em 1919, contando sobre o novo emprego de Toni. Mas, cada vez que eu relia, me batia um desconforto de pensar “parece que a Gripe foi só isso, e não a tragédia que foi”. Uma amiga minha resumiu meu sentimento “Você já passou pela Gripe Espanhola e nenhum personagem seu morreu? Não pode”. De fato, não pode. Se as personagens foram para as ruas na Greve Geral de 1917, se estão pagando caro pela comida por causa da Grande Guerra, elas também precisam pegar Gripe Espanhola. Então voltei para contar como minhas personagens enfrentaram uma das maiores epidemias da época, que vitimou mais de 35 mil pessoas em todo o Brasil, incluindo Rodrigues Alves, o presidente eleito, que morreu em janeiro de 1919, antes de ser empossado para seu segundo mandato. Mas quem matar? Quem poupar? Já me apeguei às personagens secundárias que se destacam mais, e não tem graça matar quem não tem importância, pois não fará falta na história. Também é preciso decidir se Toni será infectado ou não, e como a doença progrediria nele, que é a personagem principal. Muitas questões a definir, em nome da verdade do texto.
 
Então, de posse do conhecimento dos eventos históricos da época escolhida, é preciso detalhar todos os grandes momentos, que marcaram aquela época. Mas detalhar não é escrever uma página contando o que foi o evento e seus desdobramentos – podemos deixar isso para os livros de não-ficção. Detalhar, no romance histórico, significa envolver as personagens no evento, jogá-las no turbilhão, para que elas vivam aquilo e deem à ficção uma aparência de realidade histórica.

ASTROLOGIA, ACUPUNTURA E OUTROS “BICHOS”

Sempre acho tentador tentar descobrir, pelas características, pelo comportamento e pelos gestos, qual o signo das minhas personagens. Nunca o resultado é satisfatório. Como não penso nisso ao construir as personagens, elas acabam tendo características de vários signos – ou de nenhum em especial. Como uma coisa leva a outra, minhas personagens não fazem aniversário. Melhor dizendo, elas envelhecem e fazem anos, sim, mas eu não conto o dia e o mês. Às vezes, eu digo apenas que alguém nasceu no verão ou no outono, mas isso significa pouco para determinar um signo. Uma pequena exceção pode ser feita às personagens que nascem durante as histórias, que às vezes têm uma data de nascimento mais exata. Até para o horóscopo chinês é difícil definir, pois o ano chinês é diferente do nosso ano ocidental. Minhas personagens em geral têm ano de nascimento mas, como não sei se nasceram no início, no meio ou no final do ano, não posso enquadrá-las corretamente no horóscopo chinês. Definir signos para as personagens é uma forma de classificá-las, além de caracterizá-las.
 
Jorge Luís Borges tem um conto chamado Congresso do mundo, em que as personagens representam categorias de pessoas, e uma personagem pode representar mais de uma categoria ao mesmo tempo. É uma ideia que acho interessante, e que encaixa bem na minha maneira de pensar e organizar as informações por padrões. Assim, Duarte, por exemplo, representa os portugueses que vivem no Brasil, os degredados, os que se casam com índias, os que têm filhos mestiços, os que vivem no Rio de Janeiro, os que moram no Morro do Castelo, os que lutaram com Estácio de Sá em 1567, e tantas outras categorias que expressam suas características e seus feitos.
 
Nos últimos três anos, venho me envolvendo com a medicina tradicional chinesa (MTC), pois resolvi tratar meus problemas de saúde com acupuntura. Como eu gosto de perguntar e meu acupunturista gosta de explicar, venho aprendendo muito com ele, e por minha conta, fazendo leituras complementares. Tenho usado a MTC para auto-conhecimento, compreendendo como meus problemas de saúde física e emocional estão entrelaçados, o que se torna chave para resolvê-los (pela acupuntura). Levo para meu acupunturista auto-análises de personalidade que o ajudam a escolher os pontos para o tratamento. Minhas análises se baseiam muito nos aspectos emocionais e psicológicos, e eu gosto de analisar também familiares próximos, e chego a conclusões de “tratamento”: Fulana precisa tonificar o rim para melhorar a auto-estima. Beltrano é muito ansioso, é preciso dispersar a energia do baço. Cicrano está com excesso de yang no fígado, por isso está tão nervoso. Então, há algumas semanas, meu acupunturista me emprestou o livro Acupuntura e psicologia, de Yves Requena, que traz, entre outras explicações, uma descrição das cinco constituições e dos seis temperamentos da MTC. Achei muito interessante confirmar que tenho constituição Metal, com um pouco de Terra e de Água. Agora estou lendo sobre os temperamentos e, sem sentir, comecei a associar características dos temperamentos a minhas personagens. Então pensei que posso usar essas características na hora de compor as personagens. Assim, a classificação não será óbvia – como é atribuir às personagens um signo – e eu terei um parâmetro de comportamento físico, intelectual, emocional e psicológico para me guiar, além de algumas características físicas, o que pode até facilitar meu trabalho de composição. É algo que vou experimentar na próxima história que eu criar, quando partir do zero em todos os aspectos. Até lá, já terei organizado as informações e terei estudado-as e compreendido a estrutura principal de cada temperamento, para conseguir criar personagens que se encaixem bem (não pretendo fazer personagens-protótipos) nas características. Ou será que todas as minhas personagens, passadas e futuras, estão para sempre fadadas a ter temperamento Yang Ming como eu?

TIPOS DE MORTES

Sim, vou falar de novo nas mortes que acontecem nas minhas histórias, já que são mesmo muitas. Considerando apenas as histórias que escrevi (em número de 51), tenho 19 histórias em que ninguém morre, e 32 histórias em que morre pelo menos uma pessoa. Ao todo, são 113 mortes. A história que contabiliza o maior número de mortes é O maior de todos, o que não me impressiona, por ser uma história em que há traição e tentativa de golpe de estado, e por estar situada na época da Peste Negra (16 mortes). É interessante que Construir a terra, conquistar a vida, com 895 páginas, tem apenas 13 mortes (proporcionalmente muito menos do que O maior de todos, que tem 160 páginas). Quando eu fui contar quantas pessoas morriam em cada história (sim, tenho esta e outras informações em uma tabela), percebi que há três categorias de mortos:

1) personagens fictícias que morrem durante a história – são minhas criações que morrem por necessidade da trama. Ao todo, são 65 mortes dessa categoria. De todas as 51 histórias que escrevi, há apenas uma personagem que não precisava morrer mas que eu quis matar, justificando que “a morte não leva só quem deve morrer”. Sempre choro ao reler esse capítulo de O maior de todos. Este é, portanto, meu único “assassinato”, pois eu podia ter poupado essa personagem e não o fiz.

2) personagens fictícias que morrem antes da história começar – são pais, mães, irmãos, ancestrais, amigos das personagens que estão agindo na história, e que são citados por elas, e têm alguma importância na condição da personagem, ou no desenrolar da trama. São ao todo 41 mortes nessa categoria. Por exemplo, os pais de Duarte (Construir a terra, conquistar a vida) que, ao morrerem, deixaram-no desamparado, o que o impeliu à vida de furtos; o Velho Araújo (Tudo que o dinheiro pode comprar), que fez Miguel ser egocêntrico e arrogante e, ao morrer, deixou-lhe uma vultuosa herança.

3) pessoas reais que morrem durante a história – embora essas mortes sejam contadas por mim e façam parte da história – às vezes a ponto de determinar eventos fictícios posteriores – não sou responsável por elas, pois a pessoa morreu de qualquer jeito, salvá-las não está a meu alcance, e não fui eu que as matei, mas a vida. Ao todo, são sete: o Conde de Flandres (O canhoto), que morre durante a Terceira Cruzada; e os governantes e jesuítas de Construir a terra, conquistar a vida: Estácio de Sá, Mem de Sá, o rei Dom Sebastião, o rei Dom Henrique, Araribóia, o Padre Manoel da Nóbrega.

Podemos concluir, portanto, que o grande número de mortes nas minhas histórias não é responsabilidade minha apenas, mas dessa lei da vida, que diz que todos os que estão vivos morrem um dia.