Ferramentas

FERRAMENTA

Alguém consegue imaginar um cirurgião – recém-formado que seja – declarando que gosta muito do que faz mas que não sabe usar muito bem um bisturi? Como confiar num dentista que comete grandes erros com a broca? Quem encomendaria a confecção de um armário a um marceneiro que se atrapalha para usar a serra? O mínimo que se espera de um profissional é que saiba utilizar suas ferramentas de trabalho. O bisturi é ferramenta do cirurgião; a broca é ferramenta do dentista; a serra é ferramenta do marceneiro. Da mesma forma, a língua é ferramenta do escritor. Como aceitar que escritores – iniciantes que sejam – não saibam usar muito bem o português? Ou que cometam grandes erros gramaticais? As editoras fazem revisão? Sim, mas os revisores devem corrigir os deslizes que passaram despercebidos. Não é função dos revisores reescrever frases inteiras, nem reestruturar o texto, para que faça sentido. Afinal, como fica a questão da autoria? Reescrever tem tanto valor quanto escrever. Ser escritor não é apenas inventar excelentes histórias; é principalmente trabalhar a linguagem para contar essas histórias. Quem inventa bem é inventor. Para ser escritor, é preciso escrever bem. A língua, as palavras, com sua sintaxe e semântica, são nossa ferramenta principal, a matéria prima com que construímos universos, reconstruímos épocas, e contamos as histórias de nossos protagonistas.
Dúvidas existem (sempre!) Deslizes acontecem. Ninguém consegue saber tudo, aplicar todas as regras corretamente todas as vezes. Para isso, existem os dicionários e gramáticas, e até os revisores das editoras. O trabalho de escrever, revisar, corrigir o texto tem que ser do escritor. Só a mãe (ou o pai) da criança conhece seu DNA, e deixará o texto como ele deve ser.

Então, caros colegas, vamos estudar a língua pátria, nosso amado português, para que saibamos fazer textos que, lapidados e polidos, brilhem como diamantes.

DEUS EX-MACHINA

Já usei essa expressão algumas vezes em textos publicados aqui, e já me perguntaram o que significa, então resolvi explicar o que é e aproveitar para comentar como uso essa ferramenta.
 
Deus-ex-machina é uma expressão em latim que quer dizer mais ou menos “uma divindade saindo de um dispositivo”. Descontextualizado, não faz mesmo sentido. Precisamos saber um pouco da história da Grécia clássica e seu Teatro. A tragédia – a grande forma – contava especialmente histórias mitológicas, de deuses, semideuses e heróis. A história dizia que o herói enfrentava incontáveis dificuldades até o sucesso final. Muitas vezes, vencia os desafios sozinho mas, outras vezes, precisava de ajuda divina. Então surgia no palco uma estrutura e, de dentro dela, saía algum deus, para ajudar o herói em seu problema. Fazer uma estrutura descer do céu ou brotar da terra sempre requer uma boa engenharia para construir um artefato e fazê-lo mover-se sozinho na direção certa – esse conjunto é o que se chama machina. Portanto, deus-ex-machina é o momento da tragédia grega em que deus sai do artefato de engenharia para interferir definitivamente no destino do herói. Por ser um deus, ele age ignorando as leis da física, da química e da biologia, e também está acima das leis e da moral, e segue uma ética própria, que nem sempre é a ética dos humanos.
 
Em literatura, chamamos de deus-ex-machina o momento em que o escritor cria um evento improvável para alcançar o resultado de que precisa para dar continuidade à história. Em geral, por estar agindo como um deus, ele passa por cima das leis da natureza e produz milagres. É aquela chuva que cai bem na hora e deixa o mocinho e a mocinha presos em algum lugar, para que percebam que estão apaixonados; é a distração do vilão que faz o mocinho vencê-lo; é a cura milagrosa de doenças, etc. É bem fácil identificar quando esse artifício está sendo usado, pois o leitor fica com uma sensação de “trapaça”, e pensa logo “essa chuva caiu bem na hora, hein!”, ou “nunca que o vilão vai cometer um erro primário desses”, ou “nossa, que sorte isso acontecer”, ou “ah, é claro que a mocinha tinha que estar ali para o mocinho encontrá-la”. São eventos injustificáveis, às vezes inverossímeis, mas totalmente necessários para que a história aconteça conforme os planos do autor. É importante que se diga que é um recuso possível, permitido, mas que deve ser usado com parcimônia, pois o exagero de deus-ex-machina numa história compromete a verossimilhança. É uma espécie de ato de desespero do autor: quando nada mais vai funcionar, apela-se para o deus-ex-machina.
 
Eu faço o possível para não abusar do recurso, pois, como já disse, ele mina a verossimilhança que me custa tanto construir. Ainda assim, às vezes é inevitável para que as personagens tenham o destino que lhes cabe. Há deus-ex-machina quando Estienne acredita que Ninette não é quem diz ser. Há deus-ex-machina na forma como Marie conhece Jacques. E também nas coincidências entre Isabel e Cecília; na ausência do pai de Caty quando Alex vai procurá-lo; na posição de Isabel de Durpoin enquanto Lisbet Legrant avista o arqueiro; no sono excessivo de Assunción; no não-reconhecimento de que Rodrigo é Mário. Não tinha jeito, eu precisava desses eventos para continuar a história.
 
E tenho, em Amor de redenção, um caso de diabolus-ex-machina (o termo é invenção minha). Chamo assim porque quem apareceu não veio para ajudar, mas era necessário para manter Ágila vivo até encontrar Camila. O próprio fato de Ágila atravessar os séculos vivo é inverossímil, mas a motivação da história (que contei aqui) exigia tal coisa, e essa espécie de deus-ex-machina foi o meio que encontrei para compor a personagem com todas as características necessárias.
 
Percebi que uso bastante o recurso do deus-ex-machina, mas procuro fazer de forma que pareça natural, e que o leitor considere uma “coincidência providencial”, e não uma apelação, ou uma “forçação de barra”. Meus deus-ex-machina costumam ser possíveis dentro da realidade da ficção criada e, portanto, verossímeis.

LEITMOTIVEN

Ontem reli o último capítulo de uma das minhas histórias de final trágico, em que a personagem principal morre no final. Chorei com lágrimas e soluços, como quem perde a pessoa mais importante em sua vida. É verdade que também chorei muito quanto escrevi, mas já foi há tanto tempo que eu acreditava que o vínculo estivesse mais tênue, e eu fosse me entristecer com lágrimas apenas, não com choro convulsivo. Minha reação emocional significa que a história ainda me agrada, pois reagi como gostaria que os leitores reagissem. Percebi que isso aconteceu não porque ainda estou envolvida emocionalmente com a história e as personagens, mas porque usei corretamente os leitmotiven para trazer de volta à lembrança do leitor certos momentos significativos do passado das personagens.

Leitmotif é uma palavra em alemão que significa “motivo condutor”. O grande nome do leitmotif na música erudita é Wilhelm Richard Wagner (1813-1883). Ele criava motivos musicais (por exemplo, trechos melódicos) para representar suas personagens e temas importantes dos dramas musicais que escrevia. Então, se a personagem está se referindo, por exemplo, ao ouro do Reno, a orquestra ou o próprio cantor estará repetindo o motivo musical (leitmotif) que se refere ao ouro do Reno.

Na minha história, nesse último capítulo, as personagens repetem falas passadas, que se referem a outros momentos, felizes e infelizes da vida de todos eles, fazendo o leitor lembrar do passado, em confronto com o presente, e construindo assim o sentimento de tristeza e perda que eu quero provocar. É um capítulo que retoma o passado e projeta o futuro, sem perder de vista a realidade trágica do presente. Acho que consegui amarrar todas as pontas que ainda estavam soltas, resolvendo, pelo menos em termos de expectativa, a vida de todas as personagens que ficaram. A última palavra do livro é “morte”, porque esse é o fim inexorável de todos nós, habitantes de corpos frágeis feitos de matéria orgânica sujeita à degeneração.

SÍMBOLOS

Desde as mitologias antigas, a literatura é carregada de simbologias. Personagens representam forças da natureza, acontecimentos são eventos cósmicos. Minhas histórias não são mitologias mas também são cheias de símbolos. Alguns eu acrescento conscientemente mas a grande maioria é de símbolos inconscientes. Todas as histórias têm alguma relação com o momento que estou vivendo, com meus dramas pessoais e problemas que tenho que resolver. Hoje, depois de alguns anos de análise psicológica, sou capaz de identificar alguns símbolos logo depois que eles aparecem mas outros eu só compreendo anos depois, com muita análise da estrutura da história e caracterização das personagens, e compreendendo muito bem o momento que eu estava vivendo quando escrevi. Um grande número de símbolos permanecem inacessíveis a mim, mesmo depois de todo esse trabalho. Algumas vezes eu consigo identificar que tal elemento é um símbolo, mas não consigo compreender o que ele significa.

É importante destacar que os símbolos não são óbvios. Casar não significa casar; matar não significa matar; personagens masculinas não são necessariamente homens reais; personagens femininas não são necessariamente mulheres reais. A troca de sexo, inclusive, é muito comum, além da mudança de papel social. Dessa forma, meu pai pode se tornar o patrão, minha prima pode se tornar o irmão, meu irmão pode se tornar a mãe, e também meu pai pode se tornar o pai, minha avó pode se tornar a irmã, e todas as possibilidades imagináveis. Eu mesma posso ser a personagem principal masculina ou feminina – às vezes alternadamente, ou simultaneamente as duas – além de estar diluída em todas as outras personagens, sejam homens, mulheres ou crianças.

Há casos também em que uma personagem simboliza várias coisas ao mesmo tempo. Em relação a uma personagem, representa uma pessoa; em relação a outra personagem, representa outra pessoa. Cada função e/ou cada papel da personagem se refere a uma pessoa real diferente, aglutinadas numa personagem que tem papéis sociais diferentes e se relaciona com várias outras personagens.

Fiz este texto propositadamente sem citar nenhum exemplo, fosse de personagem, situação ou história. Essa é a graça de escrever: despejo no papel meu inconsciente sob disfarces simbólicos tão complexos que o leitor só percebe a construção, a literatura, e não tem acesso pleno ao meu EU. Explicar aqui algumas simbologias retiraria delas a magia, e considero exposição excessiva. Seria não apenas me despir mas despir minha alma das máscaras que ela usa para se proteger, e isso é algo que não posso fazer publicamente. Contente-se o leitor em observar pela rótula da porta. Penetrar meu inconsciente é privilégio exclusivo de amigos muito próximos.

ALGUMAS QUESTÕES DE ESTILO

Primeira postagem do ano e eu deixei passar o dia combinado… Férias são um problema… Mas vamos falar de estilo.

Segundo Mário Quintana, “estilo é a deficiência que faz um sujeito escrever sempre do mesmo jeito”. É verdade. De tanto repetir os procedimentos, eles viram fórmulas e configuram um estilo. Por fim, só sabemos escrever dessa forma, que acaba se tornando mais fácil, pela prática. Então aprimorar meu estilo próprio é descobrir minhas deficiências e investir nelas; e encontrar a forma que me é mais simples, fácil e prazerosa. Mesmo quando tento implementar mudanças na forma de escrever, quando percebo, estou fazendo do jeito que sempre faço. Por causa deste blog, tenho refletido sobre meus processos, e chegou a hora de apontar alguns hábitos que configuram aspectos que podem ser considerados estilo. Perdoem-me os críticos literários e especialistas, se meu linguajar não é técnico nem correto: nunca estudei análise literária formalmente: minha experiência é empírica, de leitora amadora.

Quero levantar alguns pontos característicos:

1) os inícios: gosto de jogar o leitor de para-quedas no meio da ação. Quando o livro começa, a história já começou e o leitor “pega o bonde andando”, e tem que rapidamente inteirar-se do que está acontecendo. Foi assim em O destino pelo vão de uma janela: “De repente, um vulto entra pela janela do quarto da jovem”; em O maior de todos: “O conde ia apressado pelos corredores escuros do castelo”; em Primeiro a honra: “Em prantos, a jovem entrou no quarto da amiga”; em Construir a terra, conquistar a vida: “O prisioneiro foi retirado da cela imunda”; em A noiva trocada: “O carro sacudia na estrada esburacada”. O início de O canhoto também é assim, com Nicolaas fugindo para esconder-se no quarto, seguido por sua mãe.

2) descrição física das personagens: as descrições são curtas e contam só as características mais expressivas das personagens: o que as faz diferentes das outras pessoas. Também não gosto de fazer um parágrafo para descrever a personagem: me faz lembrar as redações da escola, que eu odiava fazer. Prefiro que as características da personagem apareçam em algum diálogo ou no meio de uma cena, ou quando significam alguma coisa para o desenvolvimento da história. Por exemplo: em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Fernão têm cada um seu parágrafo próprio com a descrição de sua aparência (eu estava tentando ter um estilo diferente) mas Inês, por exemplo, é descrita num diálogo em que suas características estavam sendo criticadas e defendidas. Dos irmãos mestiços, sabemos que um é o mais branco dos irmãos; outro, o mais moreno deles; um tem traços portugueses e cor indígena, mas os detalhes dessas misturas não é contado: cada leitor imagine como quiser. Em O canhoto: de Nicolaas só sabemos a cor dos olhos e cabelos, e que é canhoto. Ainda assim, essas informações são dadas ao longo das 376 páginas manuscritas. Ester não é descrita, nem Juan Miguel, nem Robrecht, e também sabemos pouco sobre Maurits, as personagens que rodeiam Nicolaas mais de perto. É algo que terei que rever quando for digitar essa história, e descrever as personagens um pouco mais: elas também não podem ser tão pobres em descrição. É preciso dar pistas para que o leitor possa formar a imagem das personagens, para que elas adquiram corpo e existência física concreta. A pintura que faço das personagens não é um quadro renascentista, em que os fios de cabelo são desenhados um a um, tudo em detalhes, mas está mais próximo de um quadro impressionista, em que algumas poucas pinceladas dão uma visão geral da personagem, deixando espaço para que o leitor use sua imaginação e seu conhecimento do mundo para completar a descrição.

3) descrição psicológica das personagens: os aspectos psicológicos das personagens eu absolutamente não descrevo, para não rotulá-las. Pelo que elas pensam, dizem e fazem, e pela forma como se movem e agem é possível ao leitor perceber se a personagem é calma, agitada, alegre, melancólica, neurótica, nervosa, medrosa, insegura, etc. Às vezes, alguma personagem rotula outra, mas fica a critério do leitor aceitar a opinião dessa personagem ou ter a sua própria. Fernão, por exemplo, diz que Duarte tem bom senso mas talvez o leitor ache que as ações de Duarte não sejam tão sensatas assim e prefira caracterizá-lo de outra forma. Willem diz que Maurits é subversivo mas Nicolaas o acha admirável. Cabe ao leitor escolher se concorda com um dos dois ou se tem opinião diversa. O que não pode é eu, enquanto escritora e “mãe” de todos eles dizer o que penso deles: o leitor acreditaria sem refletir e todo meu trabalho de dizer em linhas e entrelinhas se tornaria inútil.

4) tempo da narração: faço a narração no passado, contando o que as personagens disseram e fizeram. Acho mais tranqüilo e confortável. Quando eu comecei a escrever, misturava narração no presente e no passado, conforme o tipo de cena: passado para cenas calmas, presente para cenas tensas e de ação. Com a prática, acho que aprendi a criar tensão e ação mesmo usando o tempo passado, então só em O destino pelo vão de uma janela essa mistura permaneceu: quando fui publicar, não quis que o texto perdesse suas características originais.

5) clichês: entrei em pânico quando me disseram que eu usava muitos clichês. Tive que rever o que eu já tinha escrito e o que estava escrevendo, para encontrá-los e eliminá-los, tanto quanto possível. Desde então, tenho sido muito mais cuidadosa para nem produzi-los. Prefiro não fazer uma imagem a fazer um clichê. Nesse ponto me ajudou muito o Blog do Romance, que não existe mais, ao disponibilizar listagens de clichês usados por outros autores em suas obras. Ao ver a falha apontada no outro, me corrigi. É interessante que eu usava os clichês simplesmente por não saber que são clichês, e que isso empobrecia a minha escrita. Uma vez com a consciência do erro, ficou mais fácil evitá-lo.

6) ação: minha narrativa tem por base os diálogos. É neles que as personagens são nomeadas. Antes da pessoa ser citada, ela não tem nome; é apenas “um vulto” (Gustave) que entra pela janela do quarto “da jovem”(Marie); “o prisioneiro”(Duarte) que tem as mãos amarradas para trás; “o conde” (Legrant) que vai apressado pelos corredores escuros do castelo; “a jovem” (Rosala) que entra chorando no quarto “da amiga” (Constance).

É nos diálogos também que eu construo os conflitos, e que as características psicológicas das personagens se expressam. É claro que as personagens não ficam todo tempo falando. Elas também se movem, andam, pensam em silêncio, brigam, correm, etc, e isso é narrado sem diálogos. Considerando essa minha predileção por diálogos, posso dizer que meu estilo tem algo de teatral, por se basear em cenas de interação entre as personagens, mediada pela fala. O Prof. Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, apontou isso quando viu um trecho de Construir a terra, conquistar a vida, ressaltando que o grande mestre do diálogo é Shakespeare, um autor que eu naturalmente não pretendo ombrear.

Bem, devo ter deixado de discorrer sobre algum aspecto de análise estilística, que não me ocorre agora. Se meus leitores apontarem meus esquecimentos, terei prazer em complementar as informações.

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: “o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar”. As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história. [editado: minha tabela não considerou a mudança do calendário Juliano para o calendário Gregoriano, então as informações não estão mais corretas. Já corrigi as datas nas histórias. Atualmente, consulto um calendário perpétuo para saber em que dia da semana cada ano da história começou. Agradeço a minha amiga e historiadora da arte Tamara Quírico, que me mostrou essa falha.]

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

A ESCOLHA DOS TEMAS

Em geral, minhas personagens veem seus desejos pessoais entrarem em conflito com as normas sociais. Além disso, há ainda questões como vingança, relações de trabalho, relações de poder, solidão, subversão, realidade utópica, isolamento, valores pessoais, luta por um ideal, amor verdadeiro, o ciclo da vida, falsas aparências, que aparecem isoladamente ou associados um com os outros.

Nenhum desses temas foi escolhido conscientemente. Eles foram aparecendo à medida que a história ia se desenvolvendo. Escrever é uma forma de sublimar desejos e de resolver problemas do inconsciente. Quando eu começo a escrever, não sei ainda que temas serão abordados, que problemas pessoais irei resolver. O processo é completamente inconsciente. Minha personagens, os eventos, os feitos são todos símbolos do meu inconsciente projetados na ficção. Ultimamente já estou conseguindo perceber o motivo de algumas escolhas, e às vezes faço interferências conscientes mas não a ponto de poder considerar qualquer escolha como fato intencionalmente consciente.

FLASHBACK

É um recurso que não costumo usar. Prefiro usar a sequência cronológica e contar os eventos do mais antigo para o mais recente. Usei apenas duas vezes, sendo que, em Nem tudo que brilha…, o flashback se resume a um diálogo curto para explicar como o casal combinou adquirir a casa em que moram.

Flashback verdadeiro então só fiz em Amor de redenção, quando escrevi um capítulo inteiro para contar fatos do passado que explicam a fixação de Ágila por Camila. Aliás, esta é uma história temporalmente interessante, porque foi a única vez que a história passou por mim. Ela começa no passado, passa pelo presente e só termina no futuro. Foi assim: comecei a escrever no final de maio, e fiz a primeira cena acontecer no início de maio. O capítulo II é o flashback, que acontece no século VI. Depois eu volto para o presente, e vou contando linearmente. Mas houve uma hora – as férias de julho de Camila, que contei em dois parágrafos, em que a história passou à minha frente: eu estava no mês de junho e Camila já estava de volta às aulas em agosto. Lembro que, a certa altura, perguntei a um colega de trabalho: “você acha que no dia 14 de agosto vai chover?” É claro que ele me olhou sem entender nada e educadamente respondeu “não sei”. É que nós estávamos vivendo no mês de junho, mas a história já estava acontecendo no mês de agosto. E, como é uma história de longa duração, eu a projetei para o futuro, contando resumidamente o que acontecerá às personagens durante os anos seguintes, pois é no futuro que o conflito de Ágila será realmente resolvido. Então hoje a história, embora terminada no papel, ainda está acontecendo.