Gustave Doré

O ALÉM

De novo estou escrevendo direto aqui, o que é exceção no meu processo.

Conforme tinha planejado, estou escrevendo mais este sonho que tive. Neste caso, não foi possível criar uma história em cima, então estou me limitando a detalhar tanto quanto possível ambientação, e o sentimento característico de cada um dos ambientes. Estou procurando acrescentar algumas personagens, na tentativa de incrementar as experiências e construir cenas.

Minha intenção era escrever em terceira pessoa, que eu prefiro, até porque tenho mais experiência assim (todas as minhas histórias, à exceção de História do Mundo, são em terceira pessoa). Como é uma história que se passa em locais imaginários, pensei em fazer como fiz Labirinto Vital, que também se passa fora da realidade (e é escrita em terceira pessoa).

Mas, neste caso, o uso da narração em primeira pessoa dá a noção de uma experiência vivida. Além disso, Dante Alighieri escreveu a Divina Comédia em primeira pessoa. Então acabei me decidindo mesmo pela primeira pessoa. Como o sonho foi meu, a história é de fato eu contando o que vi e o que senti.
 
Outra escolha que tive que fazer foi quanto ao nome das personagens principais: eu e meu marido que, na época do sonho, era meu namorado. Seria o caso de usar nossos nomes reais? nomes fictícios? Ou nenhum nome? Optei pela experiência do Labirinto Vital, em que as personagens não tem nenhum nome. Cheguei a tentar deixar o sexo indefinido por toda a história, mas logo tive que usar um adjetivo que varia conforme o gênero, e assim denunciei que a personagem principal é mulher.
 
Quanto às descrições das personagens, novamente me guiei pela Comédia, em que as personagens não são descritas, mas apenas a situação em que estão.
 
Talvez devesse dizer uma palavra para explicar o que me levou a escrever esse sonho depois de tanto tempo; a escrever um conto depois que abandonei a forma e passei a me dedicar exclusivamente ao romance.
 
Fiquei muito impressionada com o sentimento de verdade do sonho. Sinto como se o tivesse vivido de verdade. Então sempre conto às pessoas, quando surge uma oportunidade. Eu o introduzo assim: “Já te contei do dia em que eu visitei o Céu e o Inferno?” A curiosidade das pessoas me convence a repetir toda a história. Então um dia, minha amiga Tamara, doutora em Juízo Final, comentou que eu apresentava uma visão interessante, diferente da visão tradicional do catolicismo, e diferente do proposto por Dante Alighieri. Como ela também é artista plástica, podíamos fazer uma dobradinha semelhante a Dante Alighieri e Gustave Doré. Gostei da ideia de ter esse sonho tão significativo não apenas registrado numa forma final escrita, mas também bem ilustrado. O exercício de descrever tudo do que vi e senti – sem inventar em cima disso – é interessante e bastante enriquecedor. Está sendo muito difícil transformar em palavras o que vi e senti. E, mais ainda, trazer o leitor para viver a experiência comigo – algo que a primeira pessoa consegue melhor do que a terceira, então tenho que aproveitar a oportunidade. É muito difícil descrever o Céu em toda sua plenitude, com o horizonte infinito. É muito difícil descrever o Inferno em sua angústia e sofrimento. Mas, como eu não desisto, em algumas semanas venho aqui contar como ficou depois de pronto.

ACABEI À PROCURA!

Foi no dia 5/2/2010. Cheguei a 43 páginas, e não encontrei mais nenhum ponto em que pudesse fazer mais algum acréscimo. Está tudo devidamente explicado e desenvolvido; a história do guia voltou a seu lugar de destaque, e o final que era do conto continuou fazendo sentido no romance.
 
O romance ficou com aquela estrutura que usei também em A noiva trocada e Vingança: um primeiro capítulo de introdução, em que são apresentados o ambiente, as personagens e o problema; a partir do segundo capítulo, o ambiente muda, se fecha, e as personagens estão isoladas para que possam resolver os conflitos sem interferência do mundo exterior; no final, o retorno ao mundo exterior, ou indicação disso, e a solução dos problemas. O tempo é curto e o espaço é restrito como num conto, mas as personagens e os conflitos são mais desenvolvidos, como no romance.
 
Agora é hora de encaixotá-la por um ano, atualizar os registros e tabelas (como uma certidão de nascimento), e também fazer alterações aqui no Blog (sai da lista de contos e vai para a fila de impressão de romances). E depois lançar-me ao outro projeto: transformar História do Mundo em romance. Este será mais fácil, porque não há compromisso com o número de páginas, pois é uma história que acaba mas não tem fim.
 
Em março, fará um ano que terminei O Canhoto. Como não o encaixotei logo, posso demorar um pouco mais a retomá-la – o tempo que estiver escrevendo História do Mundo. É hora de reler, reavaliar e, se ela passar nos testes, digitar e começar a preparar a publicação. Acho que terei trabalho para o ano todo.
 
p.s. : antes de me dedicar a História do Mundo, vou escrever O Além, a partir de um sonho que tive, em que eu visitava o Inferno e o Céu. Se ficar bom, a ideia é uma amiga minha artista plástica fazer as ilustrações e depois a gente publicar, seguindo o caminho de Dante Alighieri e Gustave Doré. Muita pretensão?