História do mundo

DESCARTEI

Resolvi finalmente descartar o conto História do Mundo. Passou bastante tempo suspenso e eu não encontrei como solucionar seus problemas estruturais. Descartar sempre dói, é uma espécie de última alternativa, quando nada mais funciona. Ao mesmo tempo que o clima é de morte, cabe a frase de Lavoisier: “nada se perde”. Os temas abordados permanecerão na minha mente e talvez venham a ser re-elaborados e retrabalhados em outra história.
 
Essas categorias “sobrevivente”, “suspensa”, “descartada” são muito flexíveis, e as histórias passam de uma a outra facilmente. Basta eu querer escrever para ser “sobrevivente”; basta eu desistir de escrever para ser “descartada”. Quando eu gosto mas há algo que não consigo resolver, fica “suspensa”. Se eu leio e gosto, é “sobrevivente”; se eu leio e não gosto, é “descartada”. Como estou sempre revendo meus textos e minhas listagens, as histórias têm muitas chances de movimentação até chegarem à publicação, quando se tornam de fato VIVAS.
 
Há uma outra história oscilando entre a vida e a morte: Um dia, depois. Considerando meu espírito crítico atual, vou continuar concordando com o contista que me convenceu a parar de escrever contos, pois um conto precisa de uma trama – não basta uma cena, mesmo que esteja bem-feita – e vou manter essa história descartada. Desta forma, me restam apenas dois contos: O cisne e Labirinto vital, já que O Além terá tratamento diferenciado, sendo publicado com ilustrações. Pelas características deles, não devem ser descartados. Mas também não posso fazer um livro com apenas dois contos curtos. Por isso resolvi juntá-los aos poemas e a outros textos curtos em prosa, que eu chamo de “peças curtas”, porque não são poemas, não são contos, não são crônicas. Todos são narrativos e contam uma história curta, ou são o pensamento de alguma personagem, ou algum tipo de depoimento pessoal ou desabafo. Difícil descrever. Em geral, são escritos em primeira pessoa (“Eu agonizava sobre o leito”, “Eu nasci sob essa árvore”, “Nascemos no mesmo dia, na mesma hora”, etc) ou é alguém falando com esse “eu” (“Vá se despir de tudo e volte para mim”), ou ainda uma descrição de cena (“Cercada pelo fogo, a vida se faz fora daqui”, “Com que coragem tu te atira na aurora!”). Há também dois diálogos, duas cenas, portanto, mas que não configuram um conto por não haver enredo, nem tempo, nem espaço, nem caracterização das personagens. Utilizei a forma de diálogo para apresentar idéias minhas. Começam assim:
 
1) “- Estou deprimida –ela diz ao companheiro.
– Por quê? –pergunta preocupado.
– Minha vida está no fim e eu não morri. Tanto que eu queria… Vou morrer frustrada por não ter morrido.”
 
2) “- Trouxe seu chá.
– Tem gosto?
– Provavelmente.
– Então não quero. Cansei desse prazer fútil. Agora descobri que o prazer que quero é o da cessação.”
 
São idéias meio malucas, concordo, mas eu prefiro dizer que são cenas surrealistas, alegóricas, simbólicas. Expressam o que eu penso? Não, expressam o que eu pensei quando as criei. Nem sempre eu concordo com minhas personagens. Não preciso concordar. Não preciso acreditar nos sentimentos e nas idéias que eu ponho no papel. De fato, a única coisa em que eu realmente acredito é na existência real das minhas personagens fictícias. Quando eu digo “Duarte morava aqui” ou “Nicolaas passou por essa cidade”, eu preciso de alguns segundos para lembrar de que eles nunca viveram de verdade e que é por isso que os livros de História da Civilização não registram os nomes deles nem o que eles fizeram.
 
Descartar uma história, qualquer que seja, é doloroso e emocionalmente complicado, mas também é bom, porque é um peso que eu tiro da minha cabeça; é uma coisa a menos com que preciso me preocupar, um problema a menos para resolver. Sei que meu inconsciente continua trabalhando nos temas e, se for necessário, eles vão reaparecer em outra história, ou os problemas serão solucionados e eu saberei como reescrever a mesma história. Não há dificuldade que meu inconsciente não saiba resolver, com sonhos e processos simbólicos, então é melhor deixar ele resolver sozinho, em vez de ficar tentando encontrar uma solução consciente e racional.

COMO TER UM ESTILO DE ESCRITA PRÓPRIO?

Este é um tema sugerido por pessoas que chegam ao blog utilizando ferramentas de busca.

Acho muito difícil alguém que escreve não ter um estilo próprio. Cada pessoa tem seu jeito de contar uma história – ou então está fazendo pastiche. É claro que somos influenciados pelos autores que gostamos de ler mas estilo é a forma como cada um se expressa, desde a escolha dos temas, a composição das personagens, a estrutura da história, até as palavras que escolhe escrever, o tamanho das frases, a linguagem. Então, para ter seu próprio estilo, um escritor precisa escrever bastante.

Num segundo momento, está o desenvolvimento do estilo: aprimorar a forma de escrever. Para conseguir isso, o escritor precisa ter consciência de seu estilo (por exemplo, os aspectos que eu destaquei neste texto aqui). Sabendo como cada item é construído, torna-se possível trabalhar melhor cada um. Também é possível perceber como outros autores fazem, e avaliar se é uma característica desejável.

É preciso analisar os próprios textos, entender como foram construídos e como se dá seu processo pessoal de criação. É preciso auto-crítica para perceber o que se faz bem e o que é preciso melhorar. Nessa hora, pode ser boa a opinião de um escritor mais experiente, que terá mais facilidade em perceber e apontar esses aspectos. Assim, um texto com problemas pode ser corrigido e até mesmo re-escrito – eu faço isso o tempo todo, como contei neste outro texto e também recentemente, com todo o processo de transformação de À procura e História do Mundo.

O desenvolvimento do estilo é um processo contínuo, infinito, pois o autor sempre pode encontrar algo que queira melhorar e investir nisso.

BOAS NOTÍCIAS

Neste final de março e início de abril, aconteceram coisas boas na minha vida literária.
 Primeiro, terminei de escrever O Além. Ficou com 10 páginas manuscritas ao todo. Acho que consegui dar unidade e coerência às cenas, e, no fim, passa despercebido o limite entre o que eu de fato vi e senti no meu sonho e os eventos e sensações que acrescentei para descrever melhor o que aconteceu no sonho. A história está agora bem guardada numa pasta polionda, em cima do meu armário, junto com À procura, de onde só sairá daqui a pelo menos seis meses, para a próxima avaliação.
Embora eu tivesse oficialmente desistido de retomar História do Mundo agora, por causa dos problemas que contei aqui em 11/3/2010, não tinha parado de pensar nela. Toda noite, quando deitava para dormir, eu me perguntava: “se fose para escrever uma história nova com esses elementos, o que eu faria?” Mas sempre dormia antes de encontrar a resposta. Então, um dia desses, tive uma idéia. Ainda estou testando para ver se funciona até o fim, mas talvez eu tenha encontrado uma trama para minha história que estava inconsistente.
Esta semana, aproveitei os dois dias em que tive que ficar em casa por causa do alagamento total da cidade e tirei O Canhoto da caixa onde ele dormiu por 12 meses. Levei a tarde de um dia e a manhã do outro para ler toda a história. Chorei nas partes tristes, ri dos trechos engraçados, revivi o suspense dos momentos de revelação. Ou seja, continuo considerando-a uma boa história. É hora, então, de digitar todas as 376 páginas e mais os enxertos já feitos. Provavelmente vou mexer muito pouco no que está escrito, nesta fase, porque não encontrei nada que precise ser modificado. Há umas expressões a padronizar, como o nome das línguas que as personagens falam, e as nacionalidades. Ah, preciso também detalhar a descrição das personagens mais importantes e dar traços das menos importantes. É o que há de mais complexo a fazer, mas até já sei onde incluir as frases.
E, por fim, estou cuidando dos trâmites burocráticos para os registros legais da minha próxima publicação: Primeiro a honra. Será meu primeiro “trabalho solo”, pois serei eu a fazer tudo, da diagramação à impressão e distribuição, uma vez que a minha editora fechou e, para falar a verdade, não consigo confiar em outra editora.

MEUS AMIGOS NAS HISTÓRIAS

Olhando retrospectivamente, é engraçado pensar que coloquei algumas amigas como personagens das minhas histórias. Isso aconteceu quatro vezes, sendo que duas vezes a pedido da própria amiga.

A primeira vez foi em 1985, na história Princesa do Mar. Eu contei a minha amiga Gisela sobre a história e ela me pediu para ser incluída nela. Deixei-a também escolher o nome e as características da personagem que seria seu par-romântico. Hoje, esta história está descartada.

A segunda vez foi em 1993, na história Amor maior que o amor. Eu tinha uma cena em que a mocinha estava esperando suas amigas chegarem. Para não ter o trabalho de criar duas ou três personagens que eu não ia usar novamente, coloquei minhas amigas Cláudia, Márcia, Nadja e Rita na cena, cada uma com suas características reais, seu jeito de agir e falar. Depois que estava feito, contei a elas e elas se reconheceram na minha descrição e gostaram de participar dessa minha história que hoje está descartada.

A terceira vez foi no mesmo ano de 1993, em História do mundo, em que eu incluí minha amiga Luciana. As características da Luciana personagem e da Luciana real não são as mesmas, mas o relacionamento entre a Luciana personagem e Cristina é como o entre a Luciana real e eu.

Finalmente, em 2003 atendi ao pedido de minha amiga Ana Cláudia e a incluí como personagem em Amor de redenção. Também a pedido dela, a personagem se chama apenas Ana. Mas, da verdadeira Ana, só aproveitei a descrição física e o nome, pois a Ana-personagem é mais infantil do que a Ana-real. Mas talvez minha amiga tenha sido assim quando tinha a idade da personagem.

Nas quatro vezes, as minhas amigas são amigas da personagem principal feminina, o que não quer dizer que eu esteja retratada nessa personagem principal, mais do que nas outras personagens. Na verdade, eu sou todas as personagens de todas as histórias, exceto essas que são reais, sejam pessoas que eu conheço ou pessoas ilustres da história universal.

HISTÓRIA DO MUNDO

Enquanto dou os retoques finais nO Além, já estou elaborando o que terei que refazer em História do Mundo. Um dia desses, remexi meus certificados de participação em concursos literários e encontrei uma avaliação feita a esse conto. Eu lembrava que o avaliador tinha identificado uma das características – o motivo que me faz manter essa história sobrevivente, mas não lembrava da avaliação inteira. Ao reler, mais atentamente, levei um susto: o avaliador dizia que os diálogos conduzem a história mas não são brilhantes. Não são brilhantes? Mas uma das minhas características é ter meus diálogos elogiados! Logo percebi que tinha que rever, então, todos os diálogos, e melhorá-los, para manter minha “fama”.
 
O conto é formado basicamente por três cenas, em que acontecem os diálogos. Procurei ver os assuntos que eram tratados nas três conversas, e descobri onde está o problema: o assunto é irrelevante. Nas minhas histórias, eu uso os diálogos para construir a personalidade das personagens, contar fatos anteriores relevantes, e fazer a trama andar. Em História do Mundo, as personagens estão simplesmente conversando “abobrinhas”. Talvez por isso eu não ganhei aquele concurso… Bem, problema identificado, bastava refazer os diálogos, certo? Ainda não. Os diálogos fracos são reflexo de uma trama fraca. Percebi que não existe uma história em História do Mundo. Não há um fio condutor. O trabalho de re-escrita, então, vai me dar ainda mais trabalho, pois tenho que começar do início: da idéia geradora. Será preciso pegar essa idéia, juntar as personagens que já inventei, a estrutura das três cenas, e de fato inventar uma trama que aglutine e carregue isso tudo. Muito mais difícil do que simplesmente incrementar e descrever – que eu achei que seria minha tarefa neste momento.
 
Se por um lado, é desgastante ter todo esse trabalho, por outro é bom saber que uma história que era ruim – e eu ainda não tinha percebido – terá outra chance de ficar boa. Quando eu tiver inventado a trama, talvez precise de mais personagens e mais cenas, para explicar e desenvolver tudo; então a transformação de conto em romance poderá deixar de ser problema.

O ALÉM

De novo estou escrevendo direto aqui, o que é exceção no meu processo.

Conforme tinha planejado, estou escrevendo mais este sonho que tive. Neste caso, não foi possível criar uma história em cima, então estou me limitando a detalhar tanto quanto possível ambientação, e o sentimento característico de cada um dos ambientes. Estou procurando acrescentar algumas personagens, na tentativa de incrementar as experiências e construir cenas.

Minha intenção era escrever em terceira pessoa, que eu prefiro, até porque tenho mais experiência assim (todas as minhas histórias, à exceção de História do Mundo, são em terceira pessoa). Como é uma história que se passa em locais imaginários, pensei em fazer como fiz Labirinto Vital, que também se passa fora da realidade (e é escrita em terceira pessoa).

Mas, neste caso, o uso da narração em primeira pessoa dá a noção de uma experiência vivida. Além disso, Dante Alighieri escreveu a Divina Comédia em primeira pessoa. Então acabei me decidindo mesmo pela primeira pessoa. Como o sonho foi meu, a história é de fato eu contando o que vi e o que senti.
 
Outra escolha que tive que fazer foi quanto ao nome das personagens principais: eu e meu marido que, na época do sonho, era meu namorado. Seria o caso de usar nossos nomes reais? nomes fictícios? Ou nenhum nome? Optei pela experiência do Labirinto Vital, em que as personagens não tem nenhum nome. Cheguei a tentar deixar o sexo indefinido por toda a história, mas logo tive que usar um adjetivo que varia conforme o gênero, e assim denunciei que a personagem principal é mulher.
 
Quanto às descrições das personagens, novamente me guiei pela Comédia, em que as personagens não são descritas, mas apenas a situação em que estão.
 
Talvez devesse dizer uma palavra para explicar o que me levou a escrever esse sonho depois de tanto tempo; a escrever um conto depois que abandonei a forma e passei a me dedicar exclusivamente ao romance.
 
Fiquei muito impressionada com o sentimento de verdade do sonho. Sinto como se o tivesse vivido de verdade. Então sempre conto às pessoas, quando surge uma oportunidade. Eu o introduzo assim: “Já te contei do dia em que eu visitei o Céu e o Inferno?” A curiosidade das pessoas me convence a repetir toda a história. Então um dia, minha amiga Tamara, doutora em Juízo Final, comentou que eu apresentava uma visão interessante, diferente da visão tradicional do catolicismo, e diferente do proposto por Dante Alighieri. Como ela também é artista plástica, podíamos fazer uma dobradinha semelhante a Dante Alighieri e Gustave Doré. Gostei da ideia de ter esse sonho tão significativo não apenas registrado numa forma final escrita, mas também bem ilustrado. O exercício de descrever tudo do que vi e senti – sem inventar em cima disso – é interessante e bastante enriquecedor. Está sendo muito difícil transformar em palavras o que vi e senti. E, mais ainda, trazer o leitor para viver a experiência comigo – algo que a primeira pessoa consegue melhor do que a terceira, então tenho que aproveitar a oportunidade. É muito difícil descrever o Céu em toda sua plenitude, com o horizonte infinito. É muito difícil descrever o Inferno em sua angústia e sofrimento. Mas, como eu não desisto, em algumas semanas venho aqui contar como ficou depois de pronto.

ACABEI À PROCURA!

Foi no dia 5/2/2010. Cheguei a 43 páginas, e não encontrei mais nenhum ponto em que pudesse fazer mais algum acréscimo. Está tudo devidamente explicado e desenvolvido; a história do guia voltou a seu lugar de destaque, e o final que era do conto continuou fazendo sentido no romance.
 
O romance ficou com aquela estrutura que usei também em A noiva trocada e Vingança: um primeiro capítulo de introdução, em que são apresentados o ambiente, as personagens e o problema; a partir do segundo capítulo, o ambiente muda, se fecha, e as personagens estão isoladas para que possam resolver os conflitos sem interferência do mundo exterior; no final, o retorno ao mundo exterior, ou indicação disso, e a solução dos problemas. O tempo é curto e o espaço é restrito como num conto, mas as personagens e os conflitos são mais desenvolvidos, como no romance.
 
Agora é hora de encaixotá-la por um ano, atualizar os registros e tabelas (como uma certidão de nascimento), e também fazer alterações aqui no Blog (sai da lista de contos e vai para a fila de impressão de romances). E depois lançar-me ao outro projeto: transformar História do Mundo em romance. Este será mais fácil, porque não há compromisso com o número de páginas, pois é uma história que acaba mas não tem fim.
 
Em março, fará um ano que terminei O Canhoto. Como não o encaixotei logo, posso demorar um pouco mais a retomá-la – o tempo que estiver escrevendo História do Mundo. É hora de reler, reavaliar e, se ela passar nos testes, digitar e começar a preparar a publicação. Acho que terei trabalho para o ano todo.
 
p.s. : antes de me dedicar a História do Mundo, vou escrever O Além, a partir de um sonho que tive, em que eu visitava o Inferno e o Céu. Se ficar bom, a ideia é uma amiga minha artista plástica fazer as ilustrações e depois a gente publicar, seguindo o caminho de Dante Alighieri e Gustave Doré. Muita pretensão?

TRANSFORMAR CONTOS EM ROMANCES

Este é o projeto que tenho para dois dos meus contos: História do mundo e À procura. Parecia uma tarefa fácil, já que, como disse aqui em 11/11/2009, a única diferença entre meus contos e meus romances é o número de páginas, e não a estrutura. Acontece que há uma série de outros elementos que são menos desenvolvidos nos meus contos – daí o menor número de páginas. Por isso mesmo parecia fácil: bastaria descrever a ambientação, desenvolver melhor a caracterização das personagens, acrescentar alguns diálogos para confirmar as informações e pronto: o conto tinha virado romance. Parecia fácil…
 
Aproveitando que não estou envolvida em nenhum projeto de criação e escrita, pensei executar logo essa tarefa, e resolver a vida das duas histórias que acabam ficando no limbo. Foi quando descobri que essa transformação não é nada fácil. Percebi que, se não descrevi o ambiente, nem as personagens, é porque esses elementos não são importantes e, na verdade, eu nem sei direito onde a história se passa, nem qual o aspecto físico das personagens. Então não é uma questão de desenvolver: em alguns casos é preciso criar!!
 
Quando estava revisando o texto sobre os TÍTULOS, percebi que não constavam os contos e resolvi inclui-los. E foi explicando o título de À procura que eu encontrei o gancho para desenvolver a caracterização das personagens: a procura individual de cada um. De repente eu vi as personagens interagindo novamente, cada qual conforme seu objetivo pessoal. Foi como uma luz que se acendesse, e eu peguei uma folha em branco para registrar a idéia – anotar o que cada um procura.
 
Preciso também situar melhor o local da expedição, com o nome da cidade, nome da gruta – ou das grutas, conforme o local que vou escolher. Então, sabendo exatamente onde a história se passa, poderei acrescentar características regionais às personagens, como entonações e vocabulário.
 
E não bastará acrescentar as partes novas no texto que já existe: será preciso reescrever, como fiz com O canhoto. É claro que a sequência de eventos é a mesma, e vou aproveitar todo texto que puder – afinal, o original não é um texto descartado (ruim) – mas o trabalho será realmente de reescrita.

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.
 
Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.
 
O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.
 
O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.
 
Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do cavaleiro bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.
 
Nem tudo que brilha… foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.
 
O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.
 
O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.
 
Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.
 
Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.
 
A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.
 
Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.
 
Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.
 
Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].
 
O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.
 
Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do cavaleiro bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.
 
Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:
 
Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.
 
História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.
 
Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.
 
O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.
 
À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.

ONDE ESTÃO OS CONTOS?

Pois é, percebi que algumas vezes eu citei aqui alguns contos (História do mundo, À procura) mas eles não estão listados nem especificados em lugar nenhum, só aparecendo no Blog de Apoio. Então resolvi inaugurar uma lista com os contos [editado: aqui no site não há listas, então procure pelos contos nas TAGS], que passa a figurar após a lista de Romances na fila de publicação, e fazer este texto explicando porque meu aparente descaso por eles.

Já comentei neste blog que não me preocupo com a forma a priori, e chamo todas as minhas narrativas pelo nome genérico de história. Então meu critério mais forte para determinar se uma história é conto ou romance acaba sendo o número de páginas, em vez de ser a estrutura em si (o que é errado). Se o conflito é rapidamente resolvido, a história é um conto; se demora mais, é romance. O reduzido número de personagens, a restrição de tempo e espaço, a linearidade da trama acabam sendo uma consequência do reduzido número de páginas, em vez de ser seu determinante.
 
Na única vez que submeti meus contos à analise de um contista profissional, ouvi críticas que poderiam ter me desestimulado. Mas, como ele viu qualidades nos capítulos dos meus romances que leu, eu perguntei a ele “então você acha melhor eu parar de fazer contos e ficar escrevendo só romances?” Com um sorriso meio sem jeito, meio “graças a Deus você entendeu rápido”, ele concordou. Desde então, não fiz mais contos, nem pretendo mais fazê-los. Dois deles, inclusive (História do mundo À procura), eu quero ver se consigo desenvolver mais e transformar em romances. Os outros poucos sobreviventes, vou publicar num volume junto com duas pequenas cenas e alguns textos em prosa que escrevi e que, por não terem personagens estruturados, nem uma trama definida, mas serem divagações em forma de ficção narrativa, eu considerava poesia em prosa.
 
Textos curtos têm necessariamente que ser brilhantes todo o tempo. Não há espaço para erros. Um romance não precisa ser todo excelente, é possível se manter a qualidade apesar de alguns erros. Talvez por isso eu não sirva para ser contista. Desde que me mostraram que não sei fazer bons contos, mas meus romances se salvam, está sendo mais fácil focar no que eu sei fazer melhor e me aprimorar nisso. Assim como foi um pouco frustrante descobrir que não sou contista, e que o mundo agradecerá se eu parar de fazer contos, foi importante saber que meu caminho é o romance, e é onde devo investir e buscar aperfeiçoamento.