Labirinto Vital

26 ANOS

Ainda me lembro da primeira história que escrevi: “Uma noite na fazenda”. Eu era criança: devia ter uns 8 ou 10 anos. Foi um sonho que eu tive e quis escrever. É claro que ficou sem pé nem cabeça, mas tinha que começar de alguma forma. Escrevi como desenhava: por brincadeira. Semanas ou meses depois, resolvi escrever outra coisa e saí pela casa com caneta e papel na mão procurando um tema, até que vi um desenho de morangos numa travessa da minha mãe, e inventei os “Morangos de ouro”, outra historinha boba mas que já tinha um fio condutor, o que lhe dava pé e cabeça, pois tinha personagens, ambiente e trama. Depois disso, o processo se inverteu, e não era mais eu que procurava as histórias mas elas é que me encontravam, que foi o que aconteceu quando vi um grupo de formigas caminhando disciplinadamente enfileiradas e, não longe dessas, uma solitária, perdida fora da fileira, e fiquei imaginando porque ela teria se separado das companheiras. Assim nasceu Amélia, “A formiguinha distraída”. Eu era criança e escrevia histórias para crianças. Logo chegou a pré-adolescência e o desejo de escrever uma “história adulta”: rapaz pobre e moça rica se conhecem e se apaixonam mas o pai dela não permite o namoro, então ela foge de casa e procura abrigo com a família do rapaz. Eu tinha 13 anos. Não escrevi, não dei nome, e a história ficou esquecida muito tempo. Tudo isso aconteceu numa espécie de pré-história da minha carreira, como indícios do que depois viria a aflorar com força e veemência.
 
O período “histórico” da minha carreira começa como a história da humanidade: quando começam a ser produzidos os documentos escritos, ou seja, quando eu comecei a registrar informações sobre as histórias (uma ficha como uma certidão de nascimento), além de escrevê-las. Nessa época também, inventar a história (elaborar) se tornou tão importante quanto escrevê-la, ou seja, as certidões de nascimento e óbito falavam tanto da história quanto ela mesma – a minha Tabela Geral, que tem todas as informações principais, exceto o resumo.
 
Foi em abril de 1985 que o período histórico começou, quando eu novamente resolvi escrever um sonho que tive, mas achei bom mudar algumas coisas, acrescentar detalhes, elaborar as cenas e uma trama que conduzisse os eventos. Escrevi a história e criei uma tabela para anotar as informações que considerei principais: nome das personagens, local e época em que acontece, nome da história, mês de criação. É por isso que eu sei que isso aconteceu em abril, mas infelizmente na época não me importei de anotar o dia exato.
 
Os primeiros anos foram de criação e escrita desenfreada, como uma explosão de vida que eu não conseguia (nem queria) conter. Escrevia todas as ideias, mesmo que depois não soubesse como continuar, escrevia as ideias boas e as medianas, e pensava em publicar tudo, como se todas merecessem.
 
Já não me lembro do evento que desencadeou o fato (talvez as análises estéticas da faculdade de história da arte) mas em 1989 eu resolvi ler meus textos criticamente e jogar fora (metaforicamente) o que eu mesma não considerasse excelente. Meus textos mais antigos tinham só quatro anos mas eu e minha escrita tínhamos amadurecido, meu processo de criação e escrita estava mais definido e consistente, e alguns textos não me satisfaziam mais. Reli um por um, anotando todos os problemas, desde coisas simples como inconsistência de alguma fala ou cena a questões de estrutura e caracterização. Todas as histórias que tinham pelo menos 20 problemas medianos ou um problema estrutural insolúvel (quase todas) foram descartadas (guardadas numa caixa de arquivo) e foi quando eu entendi que precisava incluir a leitura crítica com distanciamento temporal no meu procedimento: algo que hoje se chama “guardar a história por um ano e avaliar em seguida”. Desde então, isso se tornou uma prática costumeira e bastante proveitosa. Continuo inventando muita coisa mas não escrevo tudo. Percebi que não adianta começar a escrever sem a certeza de chegar ao final, então hoje só começo a escrever depois que tenho a história toda inventada, quando já aprovei o começo, o meio e o fim e acho que vale a pena escrever.
Outro aspecto que eu vi desenvolver durante esse tempo foi o detalhamento da ambientação e da caracterização das personagens. Hoje eu faço muito mais pesquisa e recrio a realidade daquela sociedade muito melhor do que no início, quando muitas vezes nem me preocupava com esse “detalhe”.
 
Se eu fosse dividir minha carreira em fases, diria que são quatro ao todo:
 
1ª Fase – 1985-1987 – de Sahara a Mosteiro. Características: escrever como se estivesse contando a história oralmente – o registro escrito é suporte de memória para a minha fala – interesse em contar a história. Foco nos eventos (trama). Caracterização e ambientação não são importantes. Pesquisa histórica incipiente. Diálogos fracos. Todas as idéias são escritas, mesmo que não formem uma história com princípio, meio e fim. Foram criadas nesta fase O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser (mas foram escritas na segunda fase);
 
2ª fase – 1988-1994 – de Mosteiro a O maior de todos. Características: fortalecimento dos diálogos como ferramenta auxiliar para contar a história. A narração perde o tom verbal e se torna texto escrito, numa busca por valor literário. Preocupação com caracterização. Início de pesquisa histórica para construir a ambientação. Leitura crítica dos textos da primeira fase e início da leitura crítica para todos os textos. Desta fase sobrevivem Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, O cisne, Labirinto vital, Pelo poder ou pela honra, História da vingança do cavaleiro bretão, O aro de ouro, Aventuras dos Cavaleiros Cantores, Nem tudo que brilha…
 
3ª fase – 1994-1996 – de O maior de todos a Construir a terra, conquistar a vida. Características: maior elaboração racional da história. A escrita só tem início quando a estrutura está pronta e estão definidos princípio e fim, e os principais eventos entre um e outro – parei de escrever as boas ideias e comecei a só escrever as melhores histórias completas. Uso de diálogos para contar a história e para construção da caracterização psicológica e emocional das personagens. Descrição mais detalhada. Ambientação consistente: a história acontece naquele tempo definido com as características daquele tempo, e não mais simplesmente “no presente” ou “na Idade Média”. Pesquisa do contexto histórico, econômico, social, religioso e cultural para situar as personagens no ambiente escolhido. Desta fase sobrevivem O maior de todos e Primeiro a honra.
 
4ª fase – 1996-2011 – de Construir a terra, conquistar a vida ao presente. Características: preocupação com caracterização e ambientação. Uso dos diálogos para expressão de sentimentos, pensamentos e visão de mundo das personagens. Uso de pessoas reais quando possível. Profunda pesquisa de história (incluindo biografias e história das disciplinas científicas e artísticas), geografia, economia, cultura, arte, psicologia, filosofia, religião, às vezes engenharia, astronomia e matemática – num esforço para reconstrução de uma época passada ou presente. Personagens menos idealizadas e mais próximas às pessoas reais – sentem fome, ficam doentes, precisam tomar banho, usam as instalações sanitárias disponíveis em sua época. São desta fase Construir a terra, conquistar a vida, A noiva trocada, Vingança, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas, O Além.
 
É fácil concluir que as histórias mais recentes são literariamente melhores do que as mais antigas (ainda bem!) mas isso não é motivo para desprezar as que foram escritas nas primeiras fases, pois a avaliação definitiva acontece antes da publicação, quando eventuais problemas ainda são corrigidos (ou a história é descartada), e todas foram publicadas já durante a quarta fase.
 
Resumi aqui o que aconteceu nos últimos 26 anos. Agora vamos ver como serão os próximos 25, os próximos 30, 50, 70 anos – já que não pretendo parar de escrever tão cedo.

LABIRINTO VITAL

Este conto é uma alegoria. Fala simbolicamente da vida, da morte, dos relacionamentos interpessoais, da busca do sentido da vida, do papel da arte e do artista na construção do conhecimento humano. Não me lembro mais de onde veio a idéia de escrever um texto desses, pois não é o tipo de história característica do meu estilo. Talvez influência de Jorge Luís Borges, pelas falas aparentemente sem sentido, e encontros plenos de significado, quando as personagens concluem o que é óbvio para elas mas esse óbvio permanece obscuro para o leitor; pelos reflexos; pelo branco de diferentes tons; pelo final que se constrói somente na imaginação do leitor.

As personagens deste conto não têm nome, e o ambiente, por ser metafórico (labirinto), não existe no mundo em que nós vivemos. O tempo poderia ser psicológico, uma vez que absolutamente não é cronológico, se não fosse também totalmente simbólico.

Em resumo, é uma história bastante peculiar, em que não me importa o desenvolvimento das personagens, mas as idéias que pretendo transmitir.

DESCARTEI

Resolvi finalmente descartar o conto História do Mundo. Passou bastante tempo suspenso e eu não encontrei como solucionar seus problemas estruturais. Descartar sempre dói, é uma espécie de última alternativa, quando nada mais funciona. Ao mesmo tempo que o clima é de morte, cabe a frase de Lavoisier: “nada se perde”. Os temas abordados permanecerão na minha mente e talvez venham a ser re-elaborados e retrabalhados em outra história.
 
Essas categorias “sobrevivente”, “suspensa”, “descartada” são muito flexíveis, e as histórias passam de uma a outra facilmente. Basta eu querer escrever para ser “sobrevivente”; basta eu desistir de escrever para ser “descartada”. Quando eu gosto mas há algo que não consigo resolver, fica “suspensa”. Se eu leio e gosto, é “sobrevivente”; se eu leio e não gosto, é “descartada”. Como estou sempre revendo meus textos e minhas listagens, as histórias têm muitas chances de movimentação até chegarem à publicação, quando se tornam de fato VIVAS.
 
Há uma outra história oscilando entre a vida e a morte: Um dia, depois. Considerando meu espírito crítico atual, vou continuar concordando com o contista que me convenceu a parar de escrever contos, pois um conto precisa de uma trama – não basta uma cena, mesmo que esteja bem-feita – e vou manter essa história descartada. Desta forma, me restam apenas dois contos: O cisne e Labirinto vital, já que O Além terá tratamento diferenciado, sendo publicado com ilustrações. Pelas características deles, não devem ser descartados. Mas também não posso fazer um livro com apenas dois contos curtos. Por isso resolvi juntá-los aos poemas e a outros textos curtos em prosa, que eu chamo de “peças curtas”, porque não são poemas, não são contos, não são crônicas. Todos são narrativos e contam uma história curta, ou são o pensamento de alguma personagem, ou algum tipo de depoimento pessoal ou desabafo. Difícil descrever. Em geral, são escritos em primeira pessoa (“Eu agonizava sobre o leito”, “Eu nasci sob essa árvore”, “Nascemos no mesmo dia, na mesma hora”, etc) ou é alguém falando com esse “eu” (“Vá se despir de tudo e volte para mim”), ou ainda uma descrição de cena (“Cercada pelo fogo, a vida se faz fora daqui”, “Com que coragem tu te atira na aurora!”). Há também dois diálogos, duas cenas, portanto, mas que não configuram um conto por não haver enredo, nem tempo, nem espaço, nem caracterização das personagens. Utilizei a forma de diálogo para apresentar idéias minhas. Começam assim:
 
1) “- Estou deprimida –ela diz ao companheiro.
– Por quê? –pergunta preocupado.
– Minha vida está no fim e eu não morri. Tanto que eu queria… Vou morrer frustrada por não ter morrido.”
 
2) “- Trouxe seu chá.
– Tem gosto?
– Provavelmente.
– Então não quero. Cansei desse prazer fútil. Agora descobri que o prazer que quero é o da cessação.”
 
São idéias meio malucas, concordo, mas eu prefiro dizer que são cenas surrealistas, alegóricas, simbólicas. Expressam o que eu penso? Não, expressam o que eu pensei quando as criei. Nem sempre eu concordo com minhas personagens. Não preciso concordar. Não preciso acreditar nos sentimentos e nas idéias que eu ponho no papel. De fato, a única coisa em que eu realmente acredito é na existência real das minhas personagens fictícias. Quando eu digo “Duarte morava aqui” ou “Nicolaas passou por essa cidade”, eu preciso de alguns segundos para lembrar de que eles nunca viveram de verdade e que é por isso que os livros de História da Civilização não registram os nomes deles nem o que eles fizeram.
 
Descartar uma história, qualquer que seja, é doloroso e emocionalmente complicado, mas também é bom, porque é um peso que eu tiro da minha cabeça; é uma coisa a menos com que preciso me preocupar, um problema a menos para resolver. Sei que meu inconsciente continua trabalhando nos temas e, se for necessário, eles vão reaparecer em outra história, ou os problemas serão solucionados e eu saberei como reescrever a mesma história. Não há dificuldade que meu inconsciente não saiba resolver, com sonhos e processos simbólicos, então é melhor deixar ele resolver sozinho, em vez de ficar tentando encontrar uma solução consciente e racional.

O ALÉM

De novo estou escrevendo direto aqui, o que é exceção no meu processo.

Conforme tinha planejado, estou escrevendo mais este sonho que tive. Neste caso, não foi possível criar uma história em cima, então estou me limitando a detalhar tanto quanto possível ambientação, e o sentimento característico de cada um dos ambientes. Estou procurando acrescentar algumas personagens, na tentativa de incrementar as experiências e construir cenas.

Minha intenção era escrever em terceira pessoa, que eu prefiro, até porque tenho mais experiência assim (todas as minhas histórias, à exceção de História do Mundo, são em terceira pessoa). Como é uma história que se passa em locais imaginários, pensei em fazer como fiz Labirinto Vital, que também se passa fora da realidade (e é escrita em terceira pessoa).

Mas, neste caso, o uso da narração em primeira pessoa dá a noção de uma experiência vivida. Além disso, Dante Alighieri escreveu a Divina Comédia em primeira pessoa. Então acabei me decidindo mesmo pela primeira pessoa. Como o sonho foi meu, a história é de fato eu contando o que vi e o que senti.
 
Outra escolha que tive que fazer foi quanto ao nome das personagens principais: eu e meu marido que, na época do sonho, era meu namorado. Seria o caso de usar nossos nomes reais? nomes fictícios? Ou nenhum nome? Optei pela experiência do Labirinto Vital, em que as personagens não tem nenhum nome. Cheguei a tentar deixar o sexo indefinido por toda a história, mas logo tive que usar um adjetivo que varia conforme o gênero, e assim denunciei que a personagem principal é mulher.
 
Quanto às descrições das personagens, novamente me guiei pela Comédia, em que as personagens não são descritas, mas apenas a situação em que estão.
 
Talvez devesse dizer uma palavra para explicar o que me levou a escrever esse sonho depois de tanto tempo; a escrever um conto depois que abandonei a forma e passei a me dedicar exclusivamente ao romance.
 
Fiquei muito impressionada com o sentimento de verdade do sonho. Sinto como se o tivesse vivido de verdade. Então sempre conto às pessoas, quando surge uma oportunidade. Eu o introduzo assim: “Já te contei do dia em que eu visitei o Céu e o Inferno?” A curiosidade das pessoas me convence a repetir toda a história. Então um dia, minha amiga Tamara, doutora em Juízo Final, comentou que eu apresentava uma visão interessante, diferente da visão tradicional do catolicismo, e diferente do proposto por Dante Alighieri. Como ela também é artista plástica, podíamos fazer uma dobradinha semelhante a Dante Alighieri e Gustave Doré. Gostei da ideia de ter esse sonho tão significativo não apenas registrado numa forma final escrita, mas também bem ilustrado. O exercício de descrever tudo do que vi e senti – sem inventar em cima disso – é interessante e bastante enriquecedor. Está sendo muito difícil transformar em palavras o que vi e senti. E, mais ainda, trazer o leitor para viver a experiência comigo – algo que a primeira pessoa consegue melhor do que a terceira, então tenho que aproveitar a oportunidade. É muito difícil descrever o Céu em toda sua plenitude, com o horizonte infinito. É muito difícil descrever o Inferno em sua angústia e sofrimento. Mas, como eu não desisto, em algumas semanas venho aqui contar como ficou depois de pronto.

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.
 
Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.
 
O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.
 
O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.
 
Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do cavaleiro bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.
 
Nem tudo que brilha… foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.
 
O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.
 
O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.
 
Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.
 
Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.
 
A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.
 
Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.
 
Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.
 
Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].
 
O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.
 
Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do cavaleiro bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.
 
Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:
 
Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.
 
História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.
 
Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.
 
O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.
 
À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.