O Além

QUASE 30

Eu tinha planejado publicar hoje um texto falando sobre como foi que eu cheguei à dedicação ao romance histórico. Escrevi duas páginas inteiras para ao final concluir que eu não “cheguei” ao romance histórico. Não é o único tipo de romance que eu escrevo, nem o que eu mais escrevo. Nunca foi e não acredito que venha a ser, porque não estou fechada a outros tipos de romance, nem mesmo a outros gêneros. A qualquer momento posso escrever uma história ambientada na atualidade (como meus dois projetos a escrever assim que eu acabar De mãos dadasAmnésia e a História de Rodrigo), posso escrever um conto (como O Além, escrito em 2010) e – quem sabe? – até um poema. Não posso nem mesmo dizer que o romance histórico é o que eu gosto mais de escrever porque, se assim fosse, eu não escreveria outras coisas – digamos que sou mesmo hedonista quando o assunto é literatura. O que acontece é que meus últimos romances escritos e publicados por acaso são históricos, então eles ficam mais presentes na memória.

Depois de toda essa reflexão, decidi comemorar meus 29 anos de carreira com este texto curto, sem históricos longos, sem estatísticas. Quanto mais o tempo passa, mais prazerosamente se torna o escrever, então feliz aniversário para mim!

TRAJETÓRIA

Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, eu fazia um pouco de quase tudo – romances, contos, crônicas, poemas livres. Saía escrevendo sem me preocupar com gêneros, que eram definidos depois: ficou em verso, é poema; ficou curto, é conto; ficou maiorzinho, é romance; ficou curto e tem relação com a realidade, é crônica. Como eu não sabia aplicar as formas características de cada gênero, o critério era assim, bem simplório mesmo. Mas, com o passar dos anos, à medida em que eu ia aprendendo a usar as formas, eu fui abandonando uns gêneros, e outros foram me abandonando. A crônica foi a primeira, porque não levo jeito para falar da realidade. Depois foi a poesia, porque versos livres facilmente se tornam prosa. O último que eu deixei de lado foi o conto, quando eu percebi que não sei usar bem as características formais dele. Também era necessário focar para aperfeiçoar. E assim, me sobrou escrever romances. É claro que não estou proibida de escrever outros gêneros – outro dia mesmo, escrevi O Além em forma de conto – mas meu cérebro vem se programando ao longo dos anos para pensar em forma de romance.
 
Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, o texto não era para ser lido, mas apenas um roteiro para que eu soubesse contar a história. Era simplesmente uma narração dos eventos, sem descrições, sem diálogos. Então, às vezes, aconteciam coisas assim: “eles conversaram a noite toda e resolveram se casar”; ou assim : “Sílvia ligou para Charles e eles combinaram de se encontrarem no Shopping. Passearam, foram ao cinema, lancharam e Charles deixou Sílvia em casa” (o verdadeiro não é exatamente assim mas é bem parecido); e a grande pérola é uma cena de Sahara, onde está escrito apenas “cena do balcão ou noite da sacada” para resumir uma das cenas mais importantes de toda a história; nela havia ações e diálogos fundamentais para o desenvolvimento da trama e, depois de 28 anos, obviamente não lembro mais dos detalhes para contar como foi essa cena. Com a experiência, percebi que o texto tinha que “ficar de pé sozinho”, e que tinha que funcionar para leitura de outras pessoas, então fui acrescentando descrições e diálogos, além de detalhes à narração. Nunca fui boa para escrever descrições estáticas, além de achar a leitura delas cansativa. Gosto de descrever ação, e contar o que as pessoas estão conversando, então foi o que busquei desenvolver e aperfeiçoar. Além disso, é no encontro e na conversa que as relações humanas acontecem, e são elas que me interessa mostrar. Hoje é difícil alguém pegar um livro meu sem comentar imediatamente “nossa, quantos diálogos!” No começo, essa observação me assustava um pouco, e eu ficava pensando “puxa, será que focar nos diálogos é errado?” mas hoje vejo como um elogio: meu estilo é facilmente identificado. É uma característica que venho desenvolvendo na minha escrita: a capacidade de dar todas as informações necessárias ao leitor durante as conversas das personagens. Meus diálogos vêm ganhando consistência e conteúdo, e se tornam fundamentais para a história. Toda vez que não tenho como montar um diálogo para dar a informação, e preciso dá-la pelo narrador, fico com a impressão de estar sendo didática e maçante. Prefiro ouvir a voz das personagens, em vez do chato do narrador. Dessa forma, não estou mais contando a história daquelas personagens, mas mostrando o que está acontecendo com elas. Fica mais visual. Acho mais eficiente e mais agradável. Penso que meus leitores concordam comigo.
 
Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, queria mudar os rumos da literatura nacional e ser imortal  da Academia Brasileira de Letras. O tempo me mostrou que há espaço no mundo para todo tipo de contador de histórias, e todos eles têm sua importância. A experiência me fez reconhecer que há muitos escritores melhores do que eu mudando os rumos da literatura nacional, e que pertencer à ABL não é a única glória do mundo. Hoje quero apenas contar minhas histórias do meu jeito, e encontrar leitores para elas. Gosto de ter feedback, inclusive para ouvir “não gostei” e “queria um final diferente” e o recente “esse deus-ex-machina que você usou ficou muito forçado”. É bom saber que as pessoas leem com atenção, se apegam às personagens, e criam expectativas de final.
 
Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, tinha medo de que fosse só uma fase, e que as ideias acabassem um dia. Hoje sei que é uma fase, sim, mas uma fase bem longa, que já dura 28 anos, e que ainda vai durar a vida toda.

26 ANOS

Ainda me lembro da primeira história que escrevi: “Uma noite na fazenda”. Eu era criança: devia ter uns 8 ou 10 anos. Foi um sonho que eu tive e quis escrever. É claro que ficou sem pé nem cabeça, mas tinha que começar de alguma forma. Escrevi como desenhava: por brincadeira. Semanas ou meses depois, resolvi escrever outra coisa e saí pela casa com caneta e papel na mão procurando um tema, até que vi um desenho de morangos numa travessa da minha mãe, e inventei os “Morangos de ouro”, outra historinha boba mas que já tinha um fio condutor, o que lhe dava pé e cabeça, pois tinha personagens, ambiente e trama. Depois disso, o processo se inverteu, e não era mais eu que procurava as histórias mas elas é que me encontravam, que foi o que aconteceu quando vi um grupo de formigas caminhando disciplinadamente enfileiradas e, não longe dessas, uma solitária, perdida fora da fileira, e fiquei imaginando porque ela teria se separado das companheiras. Assim nasceu Amélia, “A formiguinha distraída”. Eu era criança e escrevia histórias para crianças. Logo chegou a pré-adolescência e o desejo de escrever uma “história adulta”: rapaz pobre e moça rica se conhecem e se apaixonam mas o pai dela não permite o namoro, então ela foge de casa e procura abrigo com a família do rapaz. Eu tinha 13 anos. Não escrevi, não dei nome, e a história ficou esquecida muito tempo. Tudo isso aconteceu numa espécie de pré-história da minha carreira, como indícios do que depois viria a aflorar com força e veemência.
 
O período “histórico” da minha carreira começa como a história da humanidade: quando começam a ser produzidos os documentos escritos, ou seja, quando eu comecei a registrar informações sobre as histórias (uma ficha como uma certidão de nascimento), além de escrevê-las. Nessa época também, inventar a história (elaborar) se tornou tão importante quanto escrevê-la, ou seja, as certidões de nascimento e óbito falavam tanto da história quanto ela mesma – a minha Tabela Geral, que tem todas as informações principais, exceto o resumo.
 
Foi em abril de 1985 que o período histórico começou, quando eu novamente resolvi escrever um sonho que tive, mas achei bom mudar algumas coisas, acrescentar detalhes, elaborar as cenas e uma trama que conduzisse os eventos. Escrevi a história e criei uma tabela para anotar as informações que considerei principais: nome das personagens, local e época em que acontece, nome da história, mês de criação. É por isso que eu sei que isso aconteceu em abril, mas infelizmente na época não me importei de anotar o dia exato.
 
Os primeiros anos foram de criação e escrita desenfreada, como uma explosão de vida que eu não conseguia (nem queria) conter. Escrevia todas as ideias, mesmo que depois não soubesse como continuar, escrevia as ideias boas e as medianas, e pensava em publicar tudo, como se todas merecessem.
 
Já não me lembro do evento que desencadeou o fato (talvez as análises estéticas da faculdade de história da arte) mas em 1989 eu resolvi ler meus textos criticamente e jogar fora (metaforicamente) o que eu mesma não considerasse excelente. Meus textos mais antigos tinham só quatro anos mas eu e minha escrita tínhamos amadurecido, meu processo de criação e escrita estava mais definido e consistente, e alguns textos não me satisfaziam mais. Reli um por um, anotando todos os problemas, desde coisas simples como inconsistência de alguma fala ou cena a questões de estrutura e caracterização. Todas as histórias que tinham pelo menos 20 problemas medianos ou um problema estrutural insolúvel (quase todas) foram descartadas (guardadas numa caixa de arquivo) e foi quando eu entendi que precisava incluir a leitura crítica com distanciamento temporal no meu procedimento: algo que hoje se chama “guardar a história por um ano e avaliar em seguida”. Desde então, isso se tornou uma prática costumeira e bastante proveitosa. Continuo inventando muita coisa mas não escrevo tudo. Percebi que não adianta começar a escrever sem a certeza de chegar ao final, então hoje só começo a escrever depois que tenho a história toda inventada, quando já aprovei o começo, o meio e o fim e acho que vale a pena escrever.
Outro aspecto que eu vi desenvolver durante esse tempo foi o detalhamento da ambientação e da caracterização das personagens. Hoje eu faço muito mais pesquisa e recrio a realidade daquela sociedade muito melhor do que no início, quando muitas vezes nem me preocupava com esse “detalhe”.
 
Se eu fosse dividir minha carreira em fases, diria que são quatro ao todo:
 
1ª Fase – 1985-1987 – de Sahara a Mosteiro. Características: escrever como se estivesse contando a história oralmente – o registro escrito é suporte de memória para a minha fala – interesse em contar a história. Foco nos eventos (trama). Caracterização e ambientação não são importantes. Pesquisa histórica incipiente. Diálogos fracos. Todas as idéias são escritas, mesmo que não formem uma história com princípio, meio e fim. Foram criadas nesta fase O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser (mas foram escritas na segunda fase);
 
2ª fase – 1988-1994 – de Mosteiro a O maior de todos. Características: fortalecimento dos diálogos como ferramenta auxiliar para contar a história. A narração perde o tom verbal e se torna texto escrito, numa busca por valor literário. Preocupação com caracterização. Início de pesquisa histórica para construir a ambientação. Leitura crítica dos textos da primeira fase e início da leitura crítica para todos os textos. Desta fase sobrevivem Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, O cisne, Labirinto vital, Pelo poder ou pela honra, História da vingança do cavaleiro bretão, O aro de ouro, Aventuras dos Cavaleiros Cantores, Nem tudo que brilha…
 
3ª fase – 1994-1996 – de O maior de todos a Construir a terra, conquistar a vida. Características: maior elaboração racional da história. A escrita só tem início quando a estrutura está pronta e estão definidos princípio e fim, e os principais eventos entre um e outro – parei de escrever as boas ideias e comecei a só escrever as melhores histórias completas. Uso de diálogos para contar a história e para construção da caracterização psicológica e emocional das personagens. Descrição mais detalhada. Ambientação consistente: a história acontece naquele tempo definido com as características daquele tempo, e não mais simplesmente “no presente” ou “na Idade Média”. Pesquisa do contexto histórico, econômico, social, religioso e cultural para situar as personagens no ambiente escolhido. Desta fase sobrevivem O maior de todos e Primeiro a honra.
 
4ª fase – 1996-2011 – de Construir a terra, conquistar a vida ao presente. Características: preocupação com caracterização e ambientação. Uso dos diálogos para expressão de sentimentos, pensamentos e visão de mundo das personagens. Uso de pessoas reais quando possível. Profunda pesquisa de história (incluindo biografias e história das disciplinas científicas e artísticas), geografia, economia, cultura, arte, psicologia, filosofia, religião, às vezes engenharia, astronomia e matemática – num esforço para reconstrução de uma época passada ou presente. Personagens menos idealizadas e mais próximas às pessoas reais – sentem fome, ficam doentes, precisam tomar banho, usam as instalações sanitárias disponíveis em sua época. São desta fase Construir a terra, conquistar a vida, A noiva trocada, Vingança, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas, O Além.
 
É fácil concluir que as histórias mais recentes são literariamente melhores do que as mais antigas (ainda bem!) mas isso não é motivo para desprezar as que foram escritas nas primeiras fases, pois a avaliação definitiva acontece antes da publicação, quando eventuais problemas ainda são corrigidos (ou a história é descartada), e todas foram publicadas já durante a quarta fase.
 
Resumi aqui o que aconteceu nos últimos 26 anos. Agora vamos ver como serão os próximos 25, os próximos 30, 50, 70 anos – já que não pretendo parar de escrever tão cedo.

EDIÇÃO EXTRA

Pensei muito, li muitas vezes À procura, e cheguei à conclusão do que fazer com ela. Se eu não acho ótima, se não me empolga, mesmo que esteja bem estruturada, bem contextualizada e bem escrita, não merece viver. Então, emoções de lado, está descartada. De qualquer forma, essas classificações “sobrevivente”, “suspensa” e “descartada” não são fixas, mas as histórias podem transitar entre elas com certa flexibilidade. Então, mesmo descartada hoje, pode me empolgar daqui a uns anos e voltar à vida.

Quanto a O Além, digitei inteira em dois dias. Há trechos a melhorar, informações a acrescentar, mas eu achei mais fácil ter a história inteira linear para poder trabalhar. O manuscrito está cheio de emendas, algumas com um parágrafo, outras com duas páginas, e isso dificulta muito a minha leitura e compreensão global da história. Agora, que ela está passada a limpo, vou conseguir fazer os ajustes que quero.

Essas são as novidades.

NOTÍCIAS DE INÍCIO DE ANO

Depois de passar quase um ano digitando O Canhoto, finalmente terminei. Fiz apenas ajustes mínimos que nem vale a pena mencionar. A história, que eu terminei de escrever em maio de 2009, continua me agradando, e eu continuo achando-a boa literariamente.
Então chegou a hora de rever À procura, que terminei de escrever em novembro de 2009. Para minha tristeza, a história não me emocionou, não me satisfez. Fiquei com uma sensação de “mas é isso?” e “o que vou fazer com isso?”. Depois de tanta pesquisa, de tanta elaboração geológica e psicológica, a história não deu certo. Costumo ser bastante rigorosa e insensível para descartar o que não me agrada mas desta vez deu pena. Por outro lado, ela já estava descartada antes. Reescrever foi apenas uma tentativa de fazê-la voltar à vida em outro “corpo”. Mas a impressão que me ficou foi de que a história que eu tenho para contar em À procura não vale a pena ser contada. E fiquei pensando: já descartei histórias melhores, que me deram trabalho e pelas quais eu tenho carinho. Não vai ser À procura que vai me fazer burlar minha regra ou rever meu critério. Por outro lado, ela está bem construída e bem escrita, as personagens são consistentes e verossímeis. Na verdade, não sei o que fazer com ela. Cada vez que leio tenho uma impressão diferente, e eu queria duas impressões consecutivas iguais para poder decidir. O tempo dirá.
A próxima história a retomar é O Além. Já reli e percebi que preciso intensificar algumas sensações para torná-las mais vívidas e trazer o leitor mais para dentro, fazê-lo andar comigo, ver o que eu vi e sentir o que eu senti. É muito difícil para mim escrever em primeira pessoa: a restrição de ponto de vista acaba restringindo a minha narração. Mas os problemas de O Além são possíveis de solucionar, com um pouco mais de imersão e esforço descritivo. Vou fazer os ajustes necessários e depois digitá-la.
Na outra ponta do trabalho, estou preparando o lançamento de Primeiro a honra, e finalizando a produção editorial de A noiva trocada. Quando tiver datas e horários, avisarei aqui. Depois virá Construir a terra, conquistar a vida, com suas 800 páginas divididas em três tomos. É um projeto ambicioso, e estou pensando seriamente em pedir patrocínio. Se alguém que paga imposto de renda quiser contribuir com minha causa, apresente-se!
Bem, isto é o que tenho feito este ano, e o que pretendo fazer nos próximos meses. 2011 será um ano cheio de acontecimentos!

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?

Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, De mãos dadas, O processo de Ser, O Além.
 
Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha…, que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.
 
Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.
 
E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Não é cor-de-rosa, Pelo poder ou pela honra, À procura.
 
Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

DESCARTEI

Resolvi finalmente descartar o conto História do Mundo. Passou bastante tempo suspenso e eu não encontrei como solucionar seus problemas estruturais. Descartar sempre dói, é uma espécie de última alternativa, quando nada mais funciona. Ao mesmo tempo que o clima é de morte, cabe a frase de Lavoisier: “nada se perde”. Os temas abordados permanecerão na minha mente e talvez venham a ser re-elaborados e retrabalhados em outra história.
 
Essas categorias “sobrevivente”, “suspensa”, “descartada” são muito flexíveis, e as histórias passam de uma a outra facilmente. Basta eu querer escrever para ser “sobrevivente”; basta eu desistir de escrever para ser “descartada”. Quando eu gosto mas há algo que não consigo resolver, fica “suspensa”. Se eu leio e gosto, é “sobrevivente”; se eu leio e não gosto, é “descartada”. Como estou sempre revendo meus textos e minhas listagens, as histórias têm muitas chances de movimentação até chegarem à publicação, quando se tornam de fato VIVAS.
 
Há uma outra história oscilando entre a vida e a morte: Um dia, depois. Considerando meu espírito crítico atual, vou continuar concordando com o contista que me convenceu a parar de escrever contos, pois um conto precisa de uma trama – não basta uma cena, mesmo que esteja bem-feita – e vou manter essa história descartada. Desta forma, me restam apenas dois contos: O cisne e Labirinto vital, já que O Além terá tratamento diferenciado, sendo publicado com ilustrações. Pelas características deles, não devem ser descartados. Mas também não posso fazer um livro com apenas dois contos curtos. Por isso resolvi juntá-los aos poemas e a outros textos curtos em prosa, que eu chamo de “peças curtas”, porque não são poemas, não são contos, não são crônicas. Todos são narrativos e contam uma história curta, ou são o pensamento de alguma personagem, ou algum tipo de depoimento pessoal ou desabafo. Difícil descrever. Em geral, são escritos em primeira pessoa (“Eu agonizava sobre o leito”, “Eu nasci sob essa árvore”, “Nascemos no mesmo dia, na mesma hora”, etc) ou é alguém falando com esse “eu” (“Vá se despir de tudo e volte para mim”), ou ainda uma descrição de cena (“Cercada pelo fogo, a vida se faz fora daqui”, “Com que coragem tu te atira na aurora!”). Há também dois diálogos, duas cenas, portanto, mas que não configuram um conto por não haver enredo, nem tempo, nem espaço, nem caracterização das personagens. Utilizei a forma de diálogo para apresentar idéias minhas. Começam assim:
 
1) “- Estou deprimida –ela diz ao companheiro.
– Por quê? –pergunta preocupado.
– Minha vida está no fim e eu não morri. Tanto que eu queria… Vou morrer frustrada por não ter morrido.”
 
2) “- Trouxe seu chá.
– Tem gosto?
– Provavelmente.
– Então não quero. Cansei desse prazer fútil. Agora descobri que o prazer que quero é o da cessação.”
 
São idéias meio malucas, concordo, mas eu prefiro dizer que são cenas surrealistas, alegóricas, simbólicas. Expressam o que eu penso? Não, expressam o que eu pensei quando as criei. Nem sempre eu concordo com minhas personagens. Não preciso concordar. Não preciso acreditar nos sentimentos e nas idéias que eu ponho no papel. De fato, a única coisa em que eu realmente acredito é na existência real das minhas personagens fictícias. Quando eu digo “Duarte morava aqui” ou “Nicolaas passou por essa cidade”, eu preciso de alguns segundos para lembrar de que eles nunca viveram de verdade e que é por isso que os livros de História da Civilização não registram os nomes deles nem o que eles fizeram.
 
Descartar uma história, qualquer que seja, é doloroso e emocionalmente complicado, mas também é bom, porque é um peso que eu tiro da minha cabeça; é uma coisa a menos com que preciso me preocupar, um problema a menos para resolver. Sei que meu inconsciente continua trabalhando nos temas e, se for necessário, eles vão reaparecer em outra história, ou os problemas serão solucionados e eu saberei como reescrever a mesma história. Não há dificuldade que meu inconsciente não saiba resolver, com sonhos e processos simbólicos, então é melhor deixar ele resolver sozinho, em vez de ficar tentando encontrar uma solução consciente e racional.

NOVOS PROJETOS

Este ano, estou envolvida com muita coisa ao mesmo tempo, e está difícil dar conta de tudo. Além do meu trabalho com o Patrimônio Nacional, meu ganha-pão, e da minha vida pessoal, em que me desdobro em atender a todos os meus papéis sociais dentro da família, tenho que cuidar da minha carreira literária. Estou inscrita em algumas comunidades e participo delas sempre que posso. Tenho também uma lista de blogs de amigos e de pessoas que conheci pela Internet e que eu gosto de acompanhar, além das redes sociais do Orkut, Facebook e Twitter [eu falei Orkut? ops, sinais de velhice rsrsrsrs]. É tanta coisa que acabo tendo que reduzir minha participação. Este mês de outubro, estou revendo todas essas minhas inserções na Internet e reduzindo ao essencial, para que eu possa ser mais ativa em menos coisas. Não adianta apenas estar inscrita, é preciso usar e tirar bom proveito.
 
Estou também, desde maio, cuidando da publicação do meu sétimo romance – Primeiro a honra: finalizando o texto, cuidando dos registros, contato com editora, análise de custos, etc. Vamos ver se consigo lançar mês que vem (estou dizendo isso desde junho).
 
E Nicolaas, que saiu da pasta em abril e eu ainda estou digitando, devagar, quando tenho tempo. Já consegui passar da página 100, mas são ao todo 376 páginas, então tenho ainda muito o que digitar. Quando eu acabar, provavelmente será hora de começar a digitar À procura e O Além.
 
Tenho dois livros em ponto de fazer as pesquisas prévias e começar a escrever. Um é a história de Didier (ainda sem título), que vou fazer a quatro mãos com uma amiga. Estou esperando ela me passar as informações sobre as personagens e a estrutura da trama para estudar o contexto histórico e começar a escrever. Outro é Rosinha (também sem título), que já foi citada aqui. Falta-me pesquisar o contexto histórico para situar minha história dentro dele. Mas eu sei que, se eu começar a escrever, todo o resto se tornará secundário, então é algo que não posso fazer agora. A prioridade é a publicação, para que a fila ande – terminei de escrever Construir a terra, conquistar a vida em 2002, e ainda não chegou a vez dela. Então, dada a escassez de tempo, tenho que adiar a minha escrita. Enquanto isso, vou repetindo as cenas-chave à exaustão, testando possibilidades diferentes, marcando gestos e falas que devem ser mantidos.
 
É engraçado pensar que não tenho tempo para o que deveria ser minha atividade principal. Mas, dada a importância da literatura no país, e minhas circunstâncias financeiras pessoais, não tenho condições de terceirizar os serviços, então tenho que eu mesma revisar meus textos, diagramar, registrar, imprimir, divulgar, distribuir – coisas que, se eu fosse famosa, teria uma editora inteira para fazer para mim. Um parêntesis: perceberam que não inclui a digitação entre esses serviços que podem ser terceirizados? É que essa tarefa eu faço questão de fazer, como espaço para uma reescrita possível.
 
Então, enquanto eu não esquematizar (e cumprir) minhas participações na Internet, enquanto a publicação de Primeiro a honra não sair e eu não acabar de digitar Nicolaas, não posso nem pensar em voltar a escrever. Bem, pelo menos a parte da criação eu estou exercitando…

BOAS NOTÍCIAS

Neste final de março e início de abril, aconteceram coisas boas na minha vida literária.
 Primeiro, terminei de escrever O Além. Ficou com 10 páginas manuscritas ao todo. Acho que consegui dar unidade e coerência às cenas, e, no fim, passa despercebido o limite entre o que eu de fato vi e senti no meu sonho e os eventos e sensações que acrescentei para descrever melhor o que aconteceu no sonho. A história está agora bem guardada numa pasta polionda, em cima do meu armário, junto com À procura, de onde só sairá daqui a pelo menos seis meses, para a próxima avaliação.
Embora eu tivesse oficialmente desistido de retomar História do Mundo agora, por causa dos problemas que contei aqui em 11/3/2010, não tinha parado de pensar nela. Toda noite, quando deitava para dormir, eu me perguntava: “se fose para escrever uma história nova com esses elementos, o que eu faria?” Mas sempre dormia antes de encontrar a resposta. Então, um dia desses, tive uma idéia. Ainda estou testando para ver se funciona até o fim, mas talvez eu tenha encontrado uma trama para minha história que estava inconsistente.
Esta semana, aproveitei os dois dias em que tive que ficar em casa por causa do alagamento total da cidade e tirei O Canhoto da caixa onde ele dormiu por 12 meses. Levei a tarde de um dia e a manhã do outro para ler toda a história. Chorei nas partes tristes, ri dos trechos engraçados, revivi o suspense dos momentos de revelação. Ou seja, continuo considerando-a uma boa história. É hora, então, de digitar todas as 376 páginas e mais os enxertos já feitos. Provavelmente vou mexer muito pouco no que está escrito, nesta fase, porque não encontrei nada que precise ser modificado. Há umas expressões a padronizar, como o nome das línguas que as personagens falam, e as nacionalidades. Ah, preciso também detalhar a descrição das personagens mais importantes e dar traços das menos importantes. É o que há de mais complexo a fazer, mas até já sei onde incluir as frases.
E, por fim, estou cuidando dos trâmites burocráticos para os registros legais da minha próxima publicação: Primeiro a honra. Será meu primeiro “trabalho solo”, pois serei eu a fazer tudo, da diagramação à impressão e distribuição, uma vez que a minha editora fechou e, para falar a verdade, não consigo confiar em outra editora.

EXPERIÊNCIA E CARREIRA

É engraçado pensar que este mês (não lembro nem anotei o dia) completo 25 anos de carreira literária. Em abril de 1985, quando escrevi aquele sonho, que se tornou minha primeira história, não pensava que chegaria aqui. Mas cheguei. E, graças a tudo pelo que passei, atingi uma maturidade que eu não tinha quando comecei. A conclusão parece óbvia, mas é essa maturidade, não só de vida mas também de prática literária, que me faz ter clareza do meu processo, e me torna capaz de orientar colegas menos experientes.

Fico muito lisonjeada com os comentários que as pessoas – muitas das vezes, colegas de literatura – têm feito sobre meu trabalho, aqui no blog e nas comunidades literárias de que participo. Dizem que aprendem com meus textos, que se encantam com o que escrevo, que a narrativa está tão bem feita que nada há a observar e corrigir. Minha primeira reação é sempre de “calma, que é isso, não é bem assim: sou apenas uma escritora iniciante”. Mas depois “cai a ficha”, e eu lembro de todo meu percurso para chegar aqui e acredito que os elogios não são exagerados, pois de fato eu sei algumas coisas e me aperfeiçoei ao longo desses anos. É pena que o mercado editorial tenha outros olhos, e as editoras grandes, que poderiam divulgar bem meu nome e meu trabalho, continuem fechadas para mim, pois continuo sendo uma ilustre desconhecida do público em geral.
 
Pode parecer pedante eu chamar de carreira literária esses 25 anos de escrita que tenho. Mas é uma prerrogativa do ofício – sim, a literatura é mais ofício do que profissão, no sentido de que não é regulamentada, não há formação específica nem mercado de trabalho formal. Então, assim como me auto-intitulo escritora ou romancista, também me dou ao direito de auto-intitular minha trajetória de “carreira”. É algo que só os artistas podem fazer. Não é um diploma, nem um certificado ou declaração que dizem que alguém é compositor musical, ou artista plástico, ou cineasta, ou ator, ou escritor. Cursos podem ajudar a aperfeiçoar mas não bastam. Pessoas com cursos e títulos podem não se considerar artistas, assim como pessoas sem curso nenhum podem ser artistas e fazer bons trabalhos. Descobri isso na faculdade de Educação Artística, quando uma colega, cuja produção, na época, eu considerava medíocre, assinou um texto se intitulando “artista plástica”. Eu e outros colegas, indignados, nos perguntávamos “quem disse que ela é artista plástica?” A resposta era óbvia: ela mesma. E quem éramos nós, meros aprendizes também, para dizer que não? Foi quando decidi que começaria a me chamar de “escritora” assim que publicasse o primeiro livro – pois o que vale neste mundo não é escrever, é publicar, é disponibilizar publicamente um objeto para uso do público (desculpem a redundância, mas, neste caso, me parece inevitável).
 
Comecei minha carreira escrevendo poemas, contos, crônicas, romances curtos (menos de 100 páginas manuscritas), romances longos (acima de 100 páginas manuscritas). Hoje escrevo apenas romances longos, e eventualmente algum romance curto acontece. Mas sempre romances.
 
Foi importante mas também dolorosa essa escolha, porque significou fechar portas. Quando se escolhe uma coisa, ao mesmo tempo se “des-escolhe” todas as outras. Mas é importante ter um foco, para que o aperfeiçoamento seja mais fácil e, muitas vezes, possível. Primeiro, fiz uma opção pela prosa, abandonando a poesia, que passou a acontecer esporadicamente, só em momentos de grande emoção e inspiração. Na verdade, minha produção poética se concentra nos anos de 1990 a 1992. Depois disso, só fiz 2 poesias em 1993, uma poesia em 1994, 1996, 1997 e 1998 e, desde então, mais nenhuma. Mais ou menos na mesma época, abandonei a crônica, por perceber que as histórias inventadas que eu faço têm mais consistência do que as histórias que têm vínculo com a realidade, além de serem muito mais fáceis de se fazer. Oficialmente só parei de fazer contos em 2004, quando um contista me mostrou os defeitos dos meus contos, mas eu já tinha parado com a produção em 1996, data do último conto (À procura). Depois disso, as duas histórias mais curtas já foram romances curtos, e não mais contos. Mesmo sem escrever contos desde 1996, eu ainda me considerava romancista e contista, o que só acabou em 2004, quando eu resolvi não escrever mais contos, e investir só no romance. No início, minha preocupação era: “e se eu tiver uma idéia curta?” Mas logo percebi que eu não tinha mais idéias curtas há muito tempo, e que isso não seria problema. Mesmo À procura pôde ser desenvolvida e se tornou um romance curto.
 
De fato, desde Construir a terra, conquistar a vida, quando eu resolvi contar praticamente toda a vida da personagem principal, e também de seus descendentes (a idéia de gerações, conforme contei neste texto aqui), o que me rendeu 895 páginas, mesmo minhas idéias curtas, de histórias que acontecem em pouco tempo e num mesmo lugar, têm rendido pelo menos romances curtos (Vingança e A noiva trocada). Se o conflito for um pouco mais complicado de resolver, lá vou eu passando das 100 páginas (Não é cor-de-rosa e Amor de redenção). Desde o início, o que eu mais gosto de fazer são os romances, em que eu tenho espaço para fazer meus diálogos, onde as características psicológicas das personagens e os conflitos se desenvolvem e se apresentam ao leitor, então essas escolhas, no fim, não foram tão sofridas assim, e eu nunca me arrependi por elas, nem tive “recaídas” de voltar a escrever nas formas abandonadas (exceto por O Além, que é um conto, mas esse é um caso especial). Mesmo dentro dessa escolha por contar histórias longas, eu podia ter escolhido escrever peças teatrais ou roteiros para cinema e TV. Mas eu me decidi mesmo pelo romance, pela arte na palavra escrita. Por mais que meus textos tenham muitos diálogos, como no teatro, e, às vezes, a descrição da cena seja meio cinematográfica, escolhi me expressar com palavras, não com imagens.
 
Ah, antes que me esqueça, quero esclarecer um pequeno detalhe. Quando se fala em 25 anos de carreira, a primeira impressão pode ser de que se trata de uma pessoa de meia idade. Mas a arte nos permite começar bem jovens, de forma que conseguimos fazer bodas de carreira sem contar muitos aniversários. Este ano, além dos 25 anos de carreira, comemoro 10 anos de casamento e 40 anos de vida, embora minha aparência faça muitas pessoas julgarem que tenho menos idade.
 
Recentemente, mudei o critério de numeração de minhas histórias, e resolvi numerar também quando retomo uma idéia para retrabalhá-la, pois isso facilita encontrar todas. Antes, se a história de número 33, por exemplo, fosse retomada anos depois, após a história 170, ela manteria o número 33, em vez de receber o número 171. Isso dificultava muito encontrar as retomadas, pois podiam estar em qualquer lugar das 23 páginas de registros. Agora, a nova versão da história 33, se vier depois da história 170, tem o número 171, e uma referência de que é versão da história 33. A história que mais foi retomada não tem título mas eu chamo de “Bonzinho mau-caráter” (adoro falsas aparências!) e aparece nas posições 114, 197, 267 e 298. Por causa dessa renumeração, o número de histórias aumentou, em relação ao que citei neste texto aqui, pois todas as retomadas, que não contavam como histórias novas, agora contam. Então, ao final de 25 anos, tenho 306 histórias criadas, sendo que 137 são completas. Isso dá uma média de 12,24 histórias criadas por ano e 5,48 histórias completas por ano. Esse número é alto porque sou viciada em criar histórias, e não durmo se não inventar um pedaço de alguma coisa. Para quem gosta de imagens (como eu, por exemplo), fiz um gráfico com o número de histórias ano a ano (clique na imagem para ver melhor).
 
 
 
O saldo numérico desses 25 anos é este: 306 histórias criadas; 136 histórias completas; 23 histórias sobreviventes, que se organizam em 6 livros publicados, 9 livros a publicar e 3 histórias em desenvolvimento.
 
Agradeço à literatura pela companhia durante esses 25 anos, pelos bons momentos que passamos (todos!!), pelos amores e aventuras que vivemos juntas.
 
Agradeço a minhas amigas de adolescência, que tiveram a paciência de ler minhas histórias quando eu ainda não sabia escrever bem, em especial à Cláudia, que teve que ler todas as primeiras e opinar sobre elas. Até hoje, não posso nem falar o nome da primeira, porque ela pede, desesperada: “não me faça lembrar dessa história! É horrível! É a pior história que você escreveu! Você ainda não a jogou fora? Joga no lixo! Vamos falar de outra coisa?”
 
Agradeço especialmente à minha amiga Luciana, que leu muitas, mas conhece todas desde a fase de criação, pelas nossas horas de conversa sem fim, em que eu conto o que fiz e como a história vai prosseguir, e muitas vezes leio para ela em voz alta alguns trechos. Lembro que eu tinha uma história com fantasmas, que eu contei a ela de noite. A mãe dela entrou no quarto e nos assustou. Depois ela não conseguiu dormir direito. Lembro também como era difícil acompanhar quem era quem na “história dos tatás”, como é conhecida entre nós. São muitas lembranças das horas de conversa com essa amiga paciente tão querida.
 
Agradeço também aos amigos eu já me conheceram na fase dos livros publicados, e vêm prestigiando meu trabalho, lendo os livros e opinando. É muito importante para o autor ter retorno de seu trabalho, inclusive aquele “não gostei”, que muita gente tem medo de dizer mas que eu gosto de ouvir, porque às vezes meu objetivo é mesmo chocar o leitor e tirá-lo da zona de conforto.
 
E agradeço a todos os que leem meus textos no blog e nas comunidades – amigos que a literatura, com a ajuda da tecnologia, está trazendo para mim. É mesmo uma boa e inseparável amiga, a literatura.