O cisne

26 ANOS

Ainda me lembro da primeira história que escrevi: “Uma noite na fazenda”. Eu era criança: devia ter uns 8 ou 10 anos. Foi um sonho que eu tive e quis escrever. É claro que ficou sem pé nem cabeça, mas tinha que começar de alguma forma. Escrevi como desenhava: por brincadeira. Semanas ou meses depois, resolvi escrever outra coisa e saí pela casa com caneta e papel na mão procurando um tema, até que vi um desenho de morangos numa travessa da minha mãe, e inventei os “Morangos de ouro”, outra historinha boba mas que já tinha um fio condutor, o que lhe dava pé e cabeça, pois tinha personagens, ambiente e trama. Depois disso, o processo se inverteu, e não era mais eu que procurava as histórias mas elas é que me encontravam, que foi o que aconteceu quando vi um grupo de formigas caminhando disciplinadamente enfileiradas e, não longe dessas, uma solitária, perdida fora da fileira, e fiquei imaginando porque ela teria se separado das companheiras. Assim nasceu Amélia, “A formiguinha distraída”. Eu era criança e escrevia histórias para crianças. Logo chegou a pré-adolescência e o desejo de escrever uma “história adulta”: rapaz pobre e moça rica se conhecem e se apaixonam mas o pai dela não permite o namoro, então ela foge de casa e procura abrigo com a família do rapaz. Eu tinha 13 anos. Não escrevi, não dei nome, e a história ficou esquecida muito tempo. Tudo isso aconteceu numa espécie de pré-história da minha carreira, como indícios do que depois viria a aflorar com força e veemência.
 
O período “histórico” da minha carreira começa como a história da humanidade: quando começam a ser produzidos os documentos escritos, ou seja, quando eu comecei a registrar informações sobre as histórias (uma ficha como uma certidão de nascimento), além de escrevê-las. Nessa época também, inventar a história (elaborar) se tornou tão importante quanto escrevê-la, ou seja, as certidões de nascimento e óbito falavam tanto da história quanto ela mesma – a minha Tabela Geral, que tem todas as informações principais, exceto o resumo.
 
Foi em abril de 1985 que o período histórico começou, quando eu novamente resolvi escrever um sonho que tive, mas achei bom mudar algumas coisas, acrescentar detalhes, elaborar as cenas e uma trama que conduzisse os eventos. Escrevi a história e criei uma tabela para anotar as informações que considerei principais: nome das personagens, local e época em que acontece, nome da história, mês de criação. É por isso que eu sei que isso aconteceu em abril, mas infelizmente na época não me importei de anotar o dia exato.
 
Os primeiros anos foram de criação e escrita desenfreada, como uma explosão de vida que eu não conseguia (nem queria) conter. Escrevia todas as ideias, mesmo que depois não soubesse como continuar, escrevia as ideias boas e as medianas, e pensava em publicar tudo, como se todas merecessem.
 
Já não me lembro do evento que desencadeou o fato (talvez as análises estéticas da faculdade de história da arte) mas em 1989 eu resolvi ler meus textos criticamente e jogar fora (metaforicamente) o que eu mesma não considerasse excelente. Meus textos mais antigos tinham só quatro anos mas eu e minha escrita tínhamos amadurecido, meu processo de criação e escrita estava mais definido e consistente, e alguns textos não me satisfaziam mais. Reli um por um, anotando todos os problemas, desde coisas simples como inconsistência de alguma fala ou cena a questões de estrutura e caracterização. Todas as histórias que tinham pelo menos 20 problemas medianos ou um problema estrutural insolúvel (quase todas) foram descartadas (guardadas numa caixa de arquivo) e foi quando eu entendi que precisava incluir a leitura crítica com distanciamento temporal no meu procedimento: algo que hoje se chama “guardar a história por um ano e avaliar em seguida”. Desde então, isso se tornou uma prática costumeira e bastante proveitosa. Continuo inventando muita coisa mas não escrevo tudo. Percebi que não adianta começar a escrever sem a certeza de chegar ao final, então hoje só começo a escrever depois que tenho a história toda inventada, quando já aprovei o começo, o meio e o fim e acho que vale a pena escrever.
Outro aspecto que eu vi desenvolver durante esse tempo foi o detalhamento da ambientação e da caracterização das personagens. Hoje eu faço muito mais pesquisa e recrio a realidade daquela sociedade muito melhor do que no início, quando muitas vezes nem me preocupava com esse “detalhe”.
 
Se eu fosse dividir minha carreira em fases, diria que são quatro ao todo:
 
1ª Fase – 1985-1987 – de Sahara a Mosteiro. Características: escrever como se estivesse contando a história oralmente – o registro escrito é suporte de memória para a minha fala – interesse em contar a história. Foco nos eventos (trama). Caracterização e ambientação não são importantes. Pesquisa histórica incipiente. Diálogos fracos. Todas as idéias são escritas, mesmo que não formem uma história com princípio, meio e fim. Foram criadas nesta fase O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser (mas foram escritas na segunda fase);
 
2ª fase – 1988-1994 – de Mosteiro a O maior de todos. Características: fortalecimento dos diálogos como ferramenta auxiliar para contar a história. A narração perde o tom verbal e se torna texto escrito, numa busca por valor literário. Preocupação com caracterização. Início de pesquisa histórica para construir a ambientação. Leitura crítica dos textos da primeira fase e início da leitura crítica para todos os textos. Desta fase sobrevivem Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, O cisne, Labirinto vital, Pelo poder ou pela honra, História da vingança do cavaleiro bretão, O aro de ouro, Aventuras dos Cavaleiros Cantores, Nem tudo que brilha…
 
3ª fase – 1994-1996 – de O maior de todos a Construir a terra, conquistar a vida. Características: maior elaboração racional da história. A escrita só tem início quando a estrutura está pronta e estão definidos princípio e fim, e os principais eventos entre um e outro – parei de escrever as boas ideias e comecei a só escrever as melhores histórias completas. Uso de diálogos para contar a história e para construção da caracterização psicológica e emocional das personagens. Descrição mais detalhada. Ambientação consistente: a história acontece naquele tempo definido com as características daquele tempo, e não mais simplesmente “no presente” ou “na Idade Média”. Pesquisa do contexto histórico, econômico, social, religioso e cultural para situar as personagens no ambiente escolhido. Desta fase sobrevivem O maior de todos e Primeiro a honra.
 
4ª fase – 1996-2011 – de Construir a terra, conquistar a vida ao presente. Características: preocupação com caracterização e ambientação. Uso dos diálogos para expressão de sentimentos, pensamentos e visão de mundo das personagens. Uso de pessoas reais quando possível. Profunda pesquisa de história (incluindo biografias e história das disciplinas científicas e artísticas), geografia, economia, cultura, arte, psicologia, filosofia, religião, às vezes engenharia, astronomia e matemática – num esforço para reconstrução de uma época passada ou presente. Personagens menos idealizadas e mais próximas às pessoas reais – sentem fome, ficam doentes, precisam tomar banho, usam as instalações sanitárias disponíveis em sua época. São desta fase Construir a terra, conquistar a vida, A noiva trocada, Vingança, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas, O Além.
 
É fácil concluir que as histórias mais recentes são literariamente melhores do que as mais antigas (ainda bem!) mas isso não é motivo para desprezar as que foram escritas nas primeiras fases, pois a avaliação definitiva acontece antes da publicação, quando eventuais problemas ainda são corrigidos (ou a história é descartada), e todas foram publicadas já durante a quarta fase.
 
Resumi aqui o que aconteceu nos últimos 26 anos. Agora vamos ver como serão os próximos 25, os próximos 30, 50, 70 anos – já que não pretendo parar de escrever tão cedo.

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?

Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, De mãos dadas, O processo de Ser, O Além.
 
Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha…, que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.
 
Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.
 
E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Não é cor-de-rosa, Pelo poder ou pela honra, À procura.
 
Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

SEGREDOS NAS HISTÓRIAS

Às vezes eu me vejo em situações complicadas na hora de escrever esses textos que publico aqui. Percebi que cito mais umas histórias do que outras, e estou tentando equilibrar essas contas mas não é tão simples como pensei.

É muito mais fácil falar de histórias longas, romances de mais de 200 páginas, pois são histórias com mais personagens, mais eventos, mais temas trabalhados, mais assunto para falar. Tratar de contos é difícil, pelas próprias características do conto: poucas personagens, trama simples, ambientação simples. Acabo não tendo muito o que dizer. Há histórias também que eu tenho que ter cuidado ao me referir, pois têm segredos que eu não gostaria de revelar antes da hora. É o caso de O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha…, O Cisne, O maior de todos, Vingança. Mesmo quando a história não tem grandes segredos, os caminhos da trama não devem ser contados em detalhes para não tirar do leitor a surpresa de descobrir certas coisas junto (ou antes!) da personagem. Então também por isso eu cito mais umas histórias do que outras. Pelo poder ou pela honra, por exemplo, é um problema para mim, pois há certos detalhes na caracterização das personagens que são decisivos na disputa entre os irmãos. Mantenho o mistério na página 1 mas começo a dar as informações a partir da página 2. Então, se eu for falar da história em geral, vou acabar revelando alguns segredos, e o trabalho que tive para ir entregando as informações em doses homeopáticas terá sido em vão. Então eu cito pouco essa história não por não gostar dela, mas porque eu não quero entregar os segredos que eu inventei para ela. O que posso dizer é que é uma história confusa, como o momento que eu estava vivendo. Consegui decifrar alguns símbolos, que me fizeram entender como o meu inconsciente sentiu aquele ano de 1993. E é só o que posso falar dela. O máximo de detalhes que posso contar já está na sinopse da história e no pequeno trecho que disponibilizei.

Enquanto isso, fico eu aqui inventando textos genéricos, que falam mais do processo do que das histórias em si, para não contar os segredos que minhas personagens guardam com tanto empenho.

O CISNE

Esse conto é uma fábula, uma fantasia, um conto-de-fadas, sei lá. Não se parece com as coisas que eu escrevo, que têm o pé no chão, contexto histórico, tempo cronológico. Não. O cisne se passa em algum lugar, num tempo passado indefinido. Em dois parágrafos o menino vira homem e logo depois está cercado de filhos. É uma história cheia de símbolos. Alguns eu compreendo; outros, não. É uma história simples e ingênua, mas rica em significados.

Tudo começou com um sonho que eu não lembro mais. Havia um menino e cisnes voando. O menino era triste porque não conhecia sua mãe. Eu quis ajudá-lo e escrevi a história.

Há algum tempo atrás, eu tinha vários contos para publicar um livro. Mas eles vão morrendo com o passar dos anos, à medida que eu vou percebendo suas inconsistências (escrever contos não é o meu forte). O cisne vem sobrevivendo pois, por suas características de conto-de-fadas, não há nele inconsistências, apenas símbolos. Meu projeto de publicação para ele, hoje, agrupa-o com outro conto, os textos de prosa poética e as poesias – todos sobreviventes de um processo de seleção rígido.

É difícil falar das características de um conto sem estragar as surpresas da história. Então paro por aqui.

DESCARTEI

Resolvi finalmente descartar o conto História do Mundo. Passou bastante tempo suspenso e eu não encontrei como solucionar seus problemas estruturais. Descartar sempre dói, é uma espécie de última alternativa, quando nada mais funciona. Ao mesmo tempo que o clima é de morte, cabe a frase de Lavoisier: “nada se perde”. Os temas abordados permanecerão na minha mente e talvez venham a ser re-elaborados e retrabalhados em outra história.
 
Essas categorias “sobrevivente”, “suspensa”, “descartada” são muito flexíveis, e as histórias passam de uma a outra facilmente. Basta eu querer escrever para ser “sobrevivente”; basta eu desistir de escrever para ser “descartada”. Quando eu gosto mas há algo que não consigo resolver, fica “suspensa”. Se eu leio e gosto, é “sobrevivente”; se eu leio e não gosto, é “descartada”. Como estou sempre revendo meus textos e minhas listagens, as histórias têm muitas chances de movimentação até chegarem à publicação, quando se tornam de fato VIVAS.
 
Há uma outra história oscilando entre a vida e a morte: Um dia, depois. Considerando meu espírito crítico atual, vou continuar concordando com o contista que me convenceu a parar de escrever contos, pois um conto precisa de uma trama – não basta uma cena, mesmo que esteja bem-feita – e vou manter essa história descartada. Desta forma, me restam apenas dois contos: O cisne e Labirinto vital, já que O Além terá tratamento diferenciado, sendo publicado com ilustrações. Pelas características deles, não devem ser descartados. Mas também não posso fazer um livro com apenas dois contos curtos. Por isso resolvi juntá-los aos poemas e a outros textos curtos em prosa, que eu chamo de “peças curtas”, porque não são poemas, não são contos, não são crônicas. Todos são narrativos e contam uma história curta, ou são o pensamento de alguma personagem, ou algum tipo de depoimento pessoal ou desabafo. Difícil descrever. Em geral, são escritos em primeira pessoa (“Eu agonizava sobre o leito”, “Eu nasci sob essa árvore”, “Nascemos no mesmo dia, na mesma hora”, etc) ou é alguém falando com esse “eu” (“Vá se despir de tudo e volte para mim”), ou ainda uma descrição de cena (“Cercada pelo fogo, a vida se faz fora daqui”, “Com que coragem tu te atira na aurora!”). Há também dois diálogos, duas cenas, portanto, mas que não configuram um conto por não haver enredo, nem tempo, nem espaço, nem caracterização das personagens. Utilizei a forma de diálogo para apresentar idéias minhas. Começam assim:
 
1) “- Estou deprimida –ela diz ao companheiro.
– Por quê? –pergunta preocupado.
– Minha vida está no fim e eu não morri. Tanto que eu queria… Vou morrer frustrada por não ter morrido.”
 
2) “- Trouxe seu chá.
– Tem gosto?
– Provavelmente.
– Então não quero. Cansei desse prazer fútil. Agora descobri que o prazer que quero é o da cessação.”
 
São idéias meio malucas, concordo, mas eu prefiro dizer que são cenas surrealistas, alegóricas, simbólicas. Expressam o que eu penso? Não, expressam o que eu pensei quando as criei. Nem sempre eu concordo com minhas personagens. Não preciso concordar. Não preciso acreditar nos sentimentos e nas idéias que eu ponho no papel. De fato, a única coisa em que eu realmente acredito é na existência real das minhas personagens fictícias. Quando eu digo “Duarte morava aqui” ou “Nicolaas passou por essa cidade”, eu preciso de alguns segundos para lembrar de que eles nunca viveram de verdade e que é por isso que os livros de História da Civilização não registram os nomes deles nem o que eles fizeram.
 
Descartar uma história, qualquer que seja, é doloroso e emocionalmente complicado, mas também é bom, porque é um peso que eu tiro da minha cabeça; é uma coisa a menos com que preciso me preocupar, um problema a menos para resolver. Sei que meu inconsciente continua trabalhando nos temas e, se for necessário, eles vão reaparecer em outra história, ou os problemas serão solucionados e eu saberei como reescrever a mesma história. Não há dificuldade que meu inconsciente não saiba resolver, com sonhos e processos simbólicos, então é melhor deixar ele resolver sozinho, em vez de ficar tentando encontrar uma solução consciente e racional.

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.
 
Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.
 
O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.
 
O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.
 
Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do cavaleiro bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.
 
Nem tudo que brilha… foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.
 
O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.
 
O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.
 
Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.
 
Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.
 
A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.
 
Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.
 
Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.
 
Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].
 
O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.
 
Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do cavaleiro bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.
 
Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:
 
Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.
 
História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.
 
Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.
 
O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.
 
À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.