O processo de Ser

Os romances que estão na fila de impressão estão prontos para serem publicados?

Na verdade, não. Eles estão apenas escritos e aprovados em avaliações sucessivas. Somente quando chega a vez daquele texto ser publicado é que eu dou a ele a forma definitiva. É quando verifico principalmente se a contextualização foi feita a contento, e se as descrições de personagens e locais existem e aparecem na hora certa. Nessa fase do trabalho com o texto, ainda posso retirar falas – e até cenas inteiras que me incomodam, e acrescentar detalhes, falas e cenas inteiras. Só o que não está mais sujeito a mudança é a estrutura da história e a caracterização das personagens. Também não costumo nem incluir nem retirar personagens.
 
As personagens de Primeiro a honra, por exemplo, só foram descritas agora, enquanto preparo a publicação. Já percebi também (e até já disse aqui) que terei o mesmo trabalho quando for a vez de O canhoto. Outro dia, reli trechos de Não é cor-de-rosa e me assustei ao encontrar uma observação de que, em certo ponto, deve entrar o trecho com a descrição da fábrica. A fábrica é o cenário principal da história e eu não o descrevi! Preciso voltar a esse texto, porque também não lembro se descrevi direito as personagens. São todas questões que eu resolverei quando for a hora de publicar essa história.
 
Às vezes, a complementação necessária consiste em apenas acrescentar um parágrafo para situar o local e a época, como aconteceu em O maior de todos. Às vezes, é necessário dar mais consistência às personagens e suas questões pessoais, como foi com O destino pelo vão de uma janela.
 
A história que mais mudou nessa fase de preparação para publicação foi O processo de Ser. Em 1986, quando a inventei, eu tive acesso a pouco material sobre a cidade e a região, como são as pessoas e a vida naquele canto do mundo. Então, quando fui publicar, fiz nova pesquisa e consegui mais informações, que me permitiram fazer alterações importantes que enriqueceram a história. Troquei a religiosidade ortodoxa russa por expressões folclóricas do local: a festa do verão, em vez de ser a Páscoa, passou a ser o Ysyakh. Acentuei a questão do frio com informações sobre a luz. Considerei também que o sentimento de gratidão de Piotr não estava bem explicado, então praticamente acrescentei uma cena inteira após uma cena que já existia, em que esse assunto era abordado de forma muito superficial. Mudei também umas falas e gestos aqui e ali, por falas e gestos mais maduros – em 2003, quando publiquei, eu não tinha mais os 16 anos de quando criei, nem os 19 anos de quando escrevi.
 
Então, de fato, minhas histórias só estão realmente prontas quando se tornam livros. E, mesmo assim, às vezes acontece de eu lembrar de uma cena e pensar em algo para melhorá-la. Aí eu lembro “Ah, já publiquei, deixa pra lá”. Enquanto a gráfica não liga as máquinas, eu me dou o direito de ainda tentar melhorar os meus textos.
 

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.
 
Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.
 
O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.
 
O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.
 
Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do cavaleiro bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.
 
Nem tudo que brilha… foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.
 
O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.
 
O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.
 
Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.
 
Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.
 
A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.
 
Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título. [Editado: sim, pensei em outro título na hora de publicar. O livro vai se chamar Reparação]
 
Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido. [Editado: essa história foi descartada em 2018, antes de ser publicada.]
 
Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto]. [Editado: essa história foi descartada em 2018, antes de ser publicada.]
 
O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato de ele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título. Na hora de publicar, quem sabe mudo também.
 
Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do cavaleiro bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.
 
Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:
 
Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação. [Editado: essa história foi descartada].
 
História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal. [Editado: essa história foi descartada].
 
Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.
 
O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.
 
À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram. [Editado: essa história também foi descartada].

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: “o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar”. As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história. [editado: minha tabela não considerou a mudança do calendário Juliano para o calendário Gregoriano, então as informações não estão mais corretas. Já corrigi as datas nas histórias. Atualmente, consulto um calendário perpétuo para saber em que dia da semana cada ano da história começou. Agradeço a minha amiga e historiadora da arte Tamara Quírico, que me mostrou essa falha.]

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

O PROCESSO DE SER

Um dia, em 1986, eu sonhei que um homem caia num rio gelado e era salvo da morte por um outro homem, e ele queria demonstrar gratidão, embora o salvador insistisse em que não era necessário. Quando acordei, escrevi um texto sobre o valor da gratidão, mas fiquei revendo a queda e o salvamento e quis escrever o sonho. Comecei então a procurar, no meu velho Atlas, rios grandes e gelados, em que pudesse situar a história. Acabei descobrindo Verkhoyansk, às margens do rio Yana, a cidade mais fria do mundo. Achei que seria frio e branco o suficiente e situei a história ali.

A pesquisa prévia foi muito superficial, pois o material impresso a que eu podia ter acesso era escasso. Somente em 2002, quando eu fui prepará-la para a publicação, é que eu consegui textos e figuras para servirem de base a uma melhor contextualização da trama. Por ser uma história intimista, que trata justamente de solidão, não precisei mexer em alguns aspectos fundamentais, mas apenas ajustar a luz e as estações.

A grande emoção foi encontrar a cidade e imagens dela. Quando eu escrevi, eu nem tinha certeza se a cidade de fato existia, ou se era apenas um termômetro no meio do nada. Eu estava completamente no escuro do inverno ártico…

Lembro quando instalamos o Google Earth em casa. Depois de vermos o Rio de Janeiro e outras cidades que meu marido escolheu, ele me perguntou: “e agora, para onde vamos?” e eu respondi sem nem pensar duas vezes: “Verkhoyansk”. Foi emocionante ver o porte da cidade, as ruas, o telhado das construções – embora toda a região estivesse em baixa definição. Havia uma cidade, havia ruas, havia construções por onde minhas personagens podiam andar.

Depois encontrei o blog de um italiano descrevendo com fotos e textos a viagem dele de Moscou a Ysyakh (capital da Yakutia, onde fica Verkhoyansk) e dali à minha tão desejada Verkhoyansk. Foi fantástica a aproximação em etapas e, de repente, a foto com a cidade à beira do rio, vista das montanhas. Foi como se eu estivesse realmente chegando em Verkhoyansk.

Encontrei também imagens bem interessantes num site de fotos do Ártico. Todas essas informações foram extremamente valiosas na re-contextualização da história. Mas a essência permaneceu a mesma, e O processo de Ser continua sendo a história mais intimista, e a mais auto-biográfica do momento em que eu estava vivendo, em que os símbolos não são tão obscuros.

ANIMAIS

Para não dizer que não tenho nenhuma personagem animal, tenho duas: Euryanthe e Juba.

Euryanthe é uma cachorra da raça Husky Siberiano companheira de Ilya, no romance O processo de Ser. Ela fica no limite entre um animal muito inteligente e uma pessoa no corpo de um animal. Acho que não sei compor personalidades animais… Com isso, ela não é apenas o cachorro de estimação de Ilya, mas se torna mesmo uma companheira inseparável – e, neste caso especial, a única companheira possível, na vida e na morte. Ela é personagem componente da história, figura na lista de personagens da minha planilha e, sem ela, a história tomaria outros rumos ou nem seria possível. Ela funciona como uma espécie de consciência de Ilya, um elo de ligação entre o mundo interior de Ilya e a vida lá fora.

Juba é um mico-leão-dourado, amigo de Fernão, no romance Construir a terra, conquistar a vida. Diferente de Euryanthe, Juba é um elemento dispensável na história. Sua personalidade é ser um animal silvestre e a presença dele não provoca nenhuma alteração da trama. Na verdade, houve um momento em que eu simplesmente esqueci que o tinha incluído na história, então achei melhor contar que ele tinha ido embora. Eu o inventei porque achei que seria legal alguém ter um animal de estimação e eu gosto muito dessa nossa espécie ameaçada de extinção. A acolhida e adoção do mico por Fernão pode ser encarada como um desejo meu de preservação dessa espécie.

ESCREVER SONHOS

É uma prática comum. Assim nasceram várias histórias. Algumas são sobreviventes e três estão publicadas: O processo de Ser, O Aro de Ouro e O maior de todos. Naturalmente, a história é maior do que o sonho, que se torna mera ideia inicial, e que pode aparecer descrito em qualquer parte da história. No Processo de Ser, ele aparece logo no início, o salvamento da primeira cena, e as atitudes de Piotr durante toda a história. No Aro de Ouro, é o final, compreendendo as três cenas do final (mas há no final também cenas e detalhes que não estavam no sonho). No Maior de todos, o sonho é o ponto de virada no desenvolvimento da trama, o motivo que leva Legrand a sair da Corte.
 
Das histórias que estão na fila de impressão, somente uma foi baseada num sonho: Vingança. Nela, o sonho foi o fato gerador do desejo de vingança, que é contado quase no final da história.
 
Alguns sonhos permanecem em suspenso, e um dia ainda vou escrever algumas das histórias que eles me inspiraram. Gosto particularmente de Doze figuras de bronze – me falta o nome e a característica para todas elas – e de uma que eu chamo de “morto que volta”, que eu queria situar no Brasil colonial mas que só parece caber na Europa medieval. Gosto também de Desencontro, uma proposta diferente da minha prática: em vez de contar como as duas personagens principais se encontram, eu conto como elas vivem em desencontro, mesmo quando estão juntas. Outra história, que eu chamo de “Rosinha”, só se tornou interessante quando eu reinventei, alterando completamente o final, em relação ao sonho que a inspirou. Mesmo assim, ainda tenho dúvidas quanto ao final já inventado, por isso não a escrevi [editado: já escrevi Rosinha, e ficou com o título de De mãos dadas].
 
Um grande número de histórias baseadas em sonhos foram escritas e descartadas – inclusive aquela primeira, de 1985, que deu origem ao vício de escrever, e outras foram descartadas sem nem chegarem a ser escritas. Como eu tenho o hábito de voltar ao que já tenho criado para reinventar, até conseguir algo que valha a pena ser escrito e depois publicado, senti a necessidade de registrar o resumo da estrutura criada, às vezes até com alguma frase mais marcante de narração ou de alguma personagem, para que eu não precise confiar na minha memória, que já não consegue guardar tanta coisa.
 
É importante frisar que a história inspirada num sonho não é o sonho em si. O sonho é apenas o fato gerador, como pode ser uma cena ocorrida na rua, no ônibus, em casa; uma ideia ao se ler um livro ou assistir a um filme.