Organização

O FIM, ENFIM

Foi no dia 1/11/2014 que eu terminei de escrever De mãos dadas. Foram ao todo três anos e cinco meses de dedicação para escrever 787 páginas numeradas, que totalizam 810 páginas, em LXIII capítulos. Cabe uma explicação: essa diferença entre número de páginas numeradas e número de páginas total acontece porque enxertos não têm numeração de página. Um enxerto colocado, por exemplo, na página 20 é a página 20*. Se for um enxerto muito longo, a contagem fica 20*p.1, 20*p.2, 20*p.3, etc – ou 20a, 20b, 20c, etc, sem que se altere a numeração das páginas seguintes (21, 22, …) Então, no final, um texto com 50 páginas numeradas mais três páginas de enxerto tem, na verdade, 53 páginas, sendo que três não estão na sequência da numeração. No fim, a numeração oficial é 810: é a que eu considero para todas as minhas tabelas e cálculos.
O resultado foi bastante inesperado. Quando eu comecei a escrever, achava que em um ano e 200 páginas eu resolvia toda a história. Que ilusão! O projeto era grandioso demais e eu não percebi. Eu só me dei conta de que tinha perdido o controle quando percebi que precisei de 40 páginas para contar como Toni passou pela Revolução Paulista de 1924. Eu já estava na página 284! E foi quando eu percebi que estava lidando com um novo “gigantinho”, alguém para dar o braço a Construir a terra, conquistar a vida em tamanho e em tempo de escrita. Isso eu acertei: De mãos dadas é a segunda história em tamanho e em tempo de escrita, ficando atrás apenas de Construir a terra, conquistar a vida, com 895 páginas e 6 anos. No final, os números são os seguintes:
– data inicial: 1/6/2011
– data final: 1/11/2014
– tempo total: 1249 dias (3 anos e 5 meses)
– número de páginas numeradas: 787
– número de páginas total: 810
– número de páginas por dia: 0,6
De outro lado, um dado fundamental que não dá pra medir em números: satisfação imensa de ter passado três anos e cinco meses participando da vida de Toni, assistindo as dificuldades e conquistas do rapaz ambicioso que, aos 13 anos, decidiu mudar seu destino.
Toni agora ficará um ano fechado dentro de uma caixa, esperando eu esquecer o que escrevi, para poder ler com olhos mais isentos, com “olhar de leitor”. Essa será a primeira avaliação, e só depois dela – se Toni passar, é claro – é que vou inclui-lo na fila de publicação, e começar a pensar em digitação.
Foi uma experiência bastante interessante vir aqui no blog regularmente compartilhar com vocês minha caminhada durante a construção da história. Foram postagens com notícias do andamento da trama, problemas que tive, soluções que encontrei, análises e reflexões. Vocês puderam acompanhar quase em tempo real o processo de construção de um romance. Pensar sobre o que estou escrevendo – no momento em que estou escrevendo – me ajuda a tomar consciência do meu processo de criação e essa é uma forma de valorizar os aspectos positivos e tentar eliminar os fatores que me bloqueiam e atrasam. Espero que vocês também tenham apreciado trilhar esse caminho junto comigo. É algo que eu pretendo fazer sempre que estiver escrevendo um livro – e meu próximo projeto é a história de Rodrigo, ainda sem título.

Livro acabado, página virada, passamos ao próximo. Toni agora só no final do ano.

VOLTA AO BLOG

Eis que começa o ano de 2015. O blog esteve desativado desde setembro, porque eu não estava conseguindo dar conta de todos os meus compromissos – afinal, eu tenho muitas vidas além da literatura. Mesmo na literatura, escrever romances é mais importante do que escrever textos para o blog então, na hora de escolher, sacrifiquei o blog.
Pode parecer que é mais fácil escrever para o blog do que escrever romances, mas apenas no quesito “tamanho do texto”. Os textos que publico aqui passam pelo mesmo processo de elaboração que uso para escrever meus romances: criação, estruturação, planejamento, redação, releituras, revisões, reescritas, avaliações; e ele precisa ficar de lado uns cinco dias antes da última avaliação para finalmente ser publicado. Seria inconsequente de minha parte simplesmente abrir a página do blog, digitar o que me vem à cabeça no momento e apertar o botão “publicar”. Imagino que para muitos blogueiros o procedimento seja esse mas eu faço as coisas conforme as minhas limitações e tenho consciência de que meu primeiro rascunho definitivamente não é um texto finalizado. Não invejo quem escreve e logo publica: cada um tem seu processo e capacidades próprias. E, se eu não tenho talento para escrever um texto muito bom logo de primeira, ao menos tenho talento para melhorá-lo durante o processo que termina com a publicação.
Durante esses três meses em que fiquei sem o compromisso de tentar publicar alguma coisa aqui, pude organizar as atividades do blog para este ano. Ajudou muito ter acabado de escrever De mãos dadas (assunto do texto do dia 11/1), que liberou meu tempo de escrita para a produção de textos para publicar aqui.
Este ano vou aplicar ao blog e à página no Facebook algumas sugestões que colhi em textos de marketing. Espero, desta forma, divulgar melhor meus livros. Então, este ano teremos promoções exclusivas, e-books, descontos nos livros impressos. Mas só para quem realmente me seguir de perto. As promoções e novidades serão para meus seguidores do Facebook (siga-me aqui) e para e-mails cadastrados (cadastre-se aqui). Assim, continuo com meu sistema de três publicações mensais no blog, e consigo fazer as ações de marketing. Uma coisa não vai interferir na outra.
Este ano finalmente vou mesmo lançar Construir a terra, conquistar a vida, em e-book e livro impresso. Assim que tiver data, eu aviso a vocês.
Então a agenda para este ano ficará assim:
Dias 1, 11 e 21 – publicação no blog
Dia 10 – lançamento de e-book e promoção de livros impressos (aviso por e-mail e Facebook)
 
E Feliz Ano Novo para todos nós!!

FASES

Interessante analisar comparativamente a estrutura das histórias, procurando se há um padrão – se eu sigo uma fórmula pessoal. É verdade que não costumo me prender a dogmas, dicas, fórmulas, quando estou inventando, mas isso não quer dizer que não os esteja usando, mesmo que inconscientemente. Tive um professor na faculdade de Educação Artística que costumava dizer algo como “inconscientemente não é ignorantemente”, para dizer que, mesmo que o artista não faça escolhas conscientes, mesmo que não saiba explicar suas escolhas, ele sabe muito bem que está escolhendo o que é mais apropriado para sua obra. Então resolvi fazer mais uma tabela, para verificar quantas fases distintas cada história tem, e onde está o clímax de cada uma delas. Descobri que posso dividir a grande maioria em três fases (7 histórias) e que, nessas, o clímax está na terceira fase. Em outras 5 histórias, há duas fases, com o clímax na segunda fase e apenas duas histórias não consegui dividir em fases, pois a ação segue num continuum sem interrupção.
Não estou chamando de “fases” as divisões estruturais necessárias a um romance: apresentação, desenvolvimento, clímax, conclusão. Estou dividindo apenas o desenvolvimento. A apresentação necessariamente faz parte da primeira fase e o clímax com a conclusão estão na última, seja ela a segunda ou a terceira, ou a mesma primeira com que a história começou. O que marca essa divisão em fases são pontos de virada determinantes, que fazem a história dar uma guinada e mudar de rumo. Não são pontos de virada de comprometimento da personagem principal com seu objetivo, mas justamente quando a personagem muda de planos.
 
Vamos exemplificar:
1)     De mãos dadas:
Fase 1 – fazenda, apresentação das personagens, apresentação dos objetivos, Toni vai para São Paulo, trabalha e ganha dinheiro, dificuldades (Fase “Toni”).
Fase 2 – Letícia chega com dinheiro e uma proposta, Letícia influencia a vida de Toni, Letícia se afasta de Toni (Fase “Letícia”).
Fase 3 – Toni tenta se manter e organizar a vida, Toni volta à fazenda. As coisas não acontecem como ele esperava, e ele precisa redescobrir sua própria identidade e objetivos. Clímax e conclusão. (Fase “Rosa”).
 
2)     O canhoto:
Fase 1 –  apresentação das personagens, apresentação do problema, Ten Duinen, Maurits, casa do pai (Fase “Bruges”).
Fase 2 – Aachen, Antwerpen, Gênova, conhece Miguel, Cruzada (Fase “Exílio”).
Fase 3 – volta a Bruges. As coisas estão diferentes do que ele esperava e ele precisa organizar novamente sua vida. Clímax e conclusão (Fase “Bruges”).
 
Em seis histórias de três fases, a estrutura é mais ou menos como essas que apresentei: a personagem de alguma forma volta a suas origens na terceira fase, mas tudo está diferente: o ambiente, as pessoas, e ela mesma, que amadureceu durante os eventos da primeira e da segunda fases. São assim O destino pelo vão de uma janela, O maior de todos, Primeiro a honra, Não é cor-de-rosa, e as já citadas O canhoto e De mãos dadas. Apenas uma história com três fases é diferente, a ponto de, num primeiro momento, eu ter considerado que havia apenas uma fase: Construir a terra, conquistar a vida. Mas há marcadamente três momentos na história. Um primeiro, em que Duarte e Fernão lutam para se estabelecerem na terra nova. Na segunda fase, já de alguma forma estabelecidos, é preciso manter o que foi conquistado, e preparar a próxima geração para não ter que enfrentar os mesmos problemas. Depois, na terceira fase, é hora dos filhos também decidirem seus rumos, e conquistarem suas vidas. Na terceira fase também ficam o clímax e a conclusão.
 
Nas histórias com duas fases, o que acontece é um contraponto, uma espécie de duelo entre duas personagens, dois temas, duas questões. Na primeira fase, prevalece um deles e, no segundo, prevalece o segundo, encaminhando para a conclusão. Um exemplo é A noiva trocada, em que Inês prevalece na primeira fase e, troca desfeita, a segunda fase pertence a Assunción. Também têm duas fases Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha… e Amor de redenção. Em todas essas, há apenas um ponto de corte, de mudança de rumo na história.
 
E não consegui dividir em partes O processo de Ser nem Vingança. São histórias curtas, lineares, sem contrapontos, sem pontos de virada dramáticos. É um fluxo apenas, um encadeamento que vai somente numa direção, da apresentação ao clímax e à conclusão.
 
As mais intensas são provavelmente as histórias com três fases, inclusive porque nelas o protagonista volta ao ponto inicial modificado por sua jornada e percebe que não existe retorno, mas somente uma caminhada sempre em frente, sempre construindo coisas novas, mesmo que aparentemente sobre o que já foi um dia. Assim também é a nossa vida: sempre em frente. A repetição da rotina é apenas uma abstração da nossa mente controladora, e não existe na realidade. Cada dia é um novo dia.

DESCARTEI

Resolvi finalmente descartar o conto História do Mundo. Passou bastante tempo suspenso e eu não encontrei como solucionar seus problemas estruturais. Descartar sempre dói, é uma espécie de última alternativa, quando nada mais funciona. Ao mesmo tempo que o clima é de morte, cabe a frase de Lavoisier: “nada se perde”. Os temas abordados permanecerão na minha mente e talvez venham a ser re-elaborados e retrabalhados em outra história.
 
Essas categorias “sobrevivente”, “suspensa”, “descartada” são muito flexíveis, e as histórias passam de uma a outra facilmente. Basta eu querer escrever para ser “sobrevivente”; basta eu desistir de escrever para ser “descartada”. Quando eu gosto mas há algo que não consigo resolver, fica “suspensa”. Se eu leio e gosto, é “sobrevivente”; se eu leio e não gosto, é “descartada”. Como estou sempre revendo meus textos e minhas listagens, as histórias têm muitas chances de movimentação até chegarem à publicação, quando se tornam de fato VIVAS.
 
Há uma outra história oscilando entre a vida e a morte: Um dia, depois. Considerando meu espírito crítico atual, vou continuar concordando com o contista que me convenceu a parar de escrever contos, pois um conto precisa de uma trama – não basta uma cena, mesmo que esteja bem-feita – e vou manter essa história descartada. Desta forma, me restam apenas dois contos: O cisne e Labirinto vital, já que O Além terá tratamento diferenciado, sendo publicado com ilustrações. Pelas características deles, não devem ser descartados. Mas também não posso fazer um livro com apenas dois contos curtos. Por isso resolvi juntá-los aos poemas e a outros textos curtos em prosa, que eu chamo de “peças curtas”, porque não são poemas, não são contos, não são crônicas. Todos são narrativos e contam uma história curta, ou são o pensamento de alguma personagem, ou algum tipo de depoimento pessoal ou desabafo. Difícil descrever. Em geral, são escritos em primeira pessoa (“Eu agonizava sobre o leito”, “Eu nasci sob essa árvore”, “Nascemos no mesmo dia, na mesma hora”, etc) ou é alguém falando com esse “eu” (“Vá se despir de tudo e volte para mim”), ou ainda uma descrição de cena (“Cercada pelo fogo, a vida se faz fora daqui”, “Com que coragem tu te atira na aurora!”). Há também dois diálogos, duas cenas, portanto, mas que não configuram um conto por não haver enredo, nem tempo, nem espaço, nem caracterização das personagens. Utilizei a forma de diálogo para apresentar idéias minhas. Começam assim:
 
1) “- Estou deprimida –ela diz ao companheiro.
– Por quê? –pergunta preocupado.
– Minha vida está no fim e eu não morri. Tanto que eu queria… Vou morrer frustrada por não ter morrido.”
 
2) “- Trouxe seu chá.
– Tem gosto?
– Provavelmente.
– Então não quero. Cansei desse prazer fútil. Agora descobri que o prazer que quero é o da cessação.”
 
São idéias meio malucas, concordo, mas eu prefiro dizer que são cenas surrealistas, alegóricas, simbólicas. Expressam o que eu penso? Não, expressam o que eu pensei quando as criei. Nem sempre eu concordo com minhas personagens. Não preciso concordar. Não preciso acreditar nos sentimentos e nas idéias que eu ponho no papel. De fato, a única coisa em que eu realmente acredito é na existência real das minhas personagens fictícias. Quando eu digo “Duarte morava aqui” ou “Nicolaas passou por essa cidade”, eu preciso de alguns segundos para lembrar de que eles nunca viveram de verdade e que é por isso que os livros de História da Civilização não registram os nomes deles nem o que eles fizeram.
 
Descartar uma história, qualquer que seja, é doloroso e emocionalmente complicado, mas também é bom, porque é um peso que eu tiro da minha cabeça; é uma coisa a menos com que preciso me preocupar, um problema a menos para resolver. Sei que meu inconsciente continua trabalhando nos temas e, se for necessário, eles vão reaparecer em outra história, ou os problemas serão solucionados e eu saberei como reescrever a mesma história. Não há dificuldade que meu inconsciente não saiba resolver, com sonhos e processos simbólicos, então é melhor deixar ele resolver sozinho, em vez de ficar tentando encontrar uma solução consciente e racional.