Ouro do Reno

LEITMOTIVEN

Ontem reli o último capítulo de uma das minhas histórias de final trágico, em que a personagem principal morre no final. Chorei com lágrimas e soluços, como quem perde a pessoa mais importante em sua vida. É verdade que também chorei muito quanto escrevi, mas já foi há tanto tempo que eu acreditava que o vínculo estivesse mais tênue, e eu fosse me entristecer com lágrimas apenas, não com choro convulsivo. Minha reação emocional significa que a história ainda me agrada, pois reagi como gostaria que os leitores reagissem. Percebi que isso aconteceu não porque ainda estou envolvida emocionalmente com a história e as personagens, mas porque usei corretamente os leitmotiven para trazer de volta à lembrança do leitor certos momentos significativos do passado das personagens.

Leitmotif é uma palavra em alemão que significa “motivo condutor”. O grande nome do leitmotif na música erudita é Wilhelm Richard Wagner (1813-1883). Ele criava motivos musicais (por exemplo, trechos melódicos) para representar suas personagens e temas importantes dos dramas musicais que escrevia. Então, se a personagem está se referindo, por exemplo, ao ouro do Reno, a orquestra ou o próprio cantor estará repetindo o motivo musical (leitmotif) que se refere ao ouro do Reno.

Na minha história, nesse último capítulo, as personagens repetem falas passadas, que se referem a outros momentos, felizes e infelizes da vida de todos eles, fazendo o leitor lembrar do passado, em confronto com o presente, e construindo assim o sentimento de tristeza e perda que eu quero provocar. É um capítulo que retoma o passado e projeta o futuro, sem perder de vista a realidade trágica do presente. Acho que consegui amarrar todas as pontas que ainda estavam soltas, resolvendo, pelo menos em termos de expectativa, a vida de todas as personagens que ficaram. A última palavra do livro é “morte”, porque esse é o fim inexorável de todos nós, habitantes de corpos frágeis feitos de matéria orgânica sujeita à degeneração.