Pelo poder ou pela honra

O ANTI-HERÓI

Estou há tempo ensaiando para falar desse tipo de protagonista. Andei pesquisando conceitos e exemplos mas não encontrei muita informação conclusiva. Todos preferem falar do herói, aquele sujeito sem graça que abarca todas as qualidades da face da terra e que salva o mundo todos os dias. O anti-herói, perto do herói, é asqueroso e desprezível. Tenho uma queda pelos desamparados, talvez por isso prefira os anti-heróis.
Todos os meus protagonistas são anti-heróis. Não que sempre lhes falte caráter (característica apontada como necessária para alguns conceituadores) mas eles têm uma série de defeitos: sentem medo, sentem raiva destrutiva (e não a indignação mobilizante dos heróis), têm dúvidas, erram, choram, caem, pedem desculpas; são muitas vezes gananciosos, interesseiros, falsos, mentirosos, inescrupulosos, embora confiáveis, amorosos, fiéis a seus ideais. Por isso, pode acontecer de eles serem confundidos com antagonistas – como eu mesma fiz, analisando a personagem Curt Legrant neste texto. Na verdade, ele é o protagonista da história mas, por ser um anti-herói, ele acaba parecendo antagonista de Karl. O mesmo acontece com Ninette, que é, sim, protagonista de sua história. Dessa forma, Karl e Estienne ficam mesmo com o papel de co-protagonistas, na função de “pequenos” (ver texto sobre Grande e pequeno) e, na verdade, eles também são antagonistas, pois impedem Curt e Ninette de alcançarem o poder que almejam.

O anti-herói está mais próximo da pessoa real do que o herói. E eu gosto das pessoas reais, que têm defeitos e problemas. Acho que construir anti-heróis me ajuda a dar verossimilhança à história, pois a vida no passado (o que eu gosto de fazer) não era um conto-de-fadas, mas vida de verdade, de pessoas humanas como nós.

ROMANCE DE ÉPOCA

Um alerta do Google me levou ao site Ler é o melhor lazer, de minha xará, para ver o texto que ela publicou explicando a diferença entre romance histórico e romance de época. Segundo ela, ambos são escritos no presente, com ambientação no passado, mas um romance é histórico quando há fatos históricos citados no romance; e um romance é de época quando não cita os fatos históricos mas se propõe apenas a reconstruir a realidade e a visão de mundo daquela época.

É claro que fiquei curiosa para classificar meus romances e cheguei a uma conclusão: de todos os meus romances ambientados no passado, são romances históricos Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Construir a terra, conquistar a vida, O canhoto, De mãos dadas; e são romances de época O destino pelo vão de uma janela, Primeiro a honra, A noiva trocada, Vingança, Não é cor-de-rosa. O capítulo II de Amor de redenção, que acontece no passado, estaria também na classificação de romance histórico. [obs.: estou sempre revisando essas classificações e não concordo mais com essa]
Interessante perceber o equilíbrio dessa divisão (seis romances históricos; cinco romances de época). Acho que meus romances de época têm uma leveza maior, provavelmente pela falta de compromisso com os eventos registrados pela história. Por outro lado, a presença dos eventos históricos na trama dá maior verdade e dramaticidade a meus romances históricos. Qual eu gosto mais de fazer? Os dois. Adoro a complexidade que a presença dos fatos reais dá aos romances históricos e também adoro o desafio de contextualizar os romances de época sem usar os fatos históricos. Se a trama estiver no passado, a história já me agrada. Não que eu não goste de ambientar romances no presente; mas o passado tem um sabor especial para mim.
Outra coisa que achei interessante foi que, para mim, os dois tipos requerem a mesma qualidade e quantidade de pesquisa e trabalho de contextualização. Usar ou não fatos e personalidades reais não é decisão minha, mas necessidade da trama.
De mãos dadas não era para ser um romance histórico. Não é como O canhoto, que tem já na sinopse que “Nicolaas participa da Terceira Cruzada”. Mas eu não posso ver uma revolução acontecendo em São Paulo que já ponho o pacato Toni sofrendo seus efeitos. Foi assim na Greve Geral de 1917 e na Revolução Paulista de 1924. Ainda bem que acabo a história em 1928, porque era bem capaz dele se ver forçado a combater na Revolução Constitucionalista de 1932. 

AMBIENTES

Renato Mesquita, meu colega do fórum Escreva Seu Livro (desativado) que está lendo todos os meus livros chamou minha atenção para os ambientes às vezes restritos onde ponho minhas personagens para interagir. É uma observação curiosa, pois uma das características do gênero romance é a pluralidade de ambientes.

No meu texto comemorativo de 26 anos de carreira, contei como é possível dividir minha trajetória em quatro fases, e as características de cada uma. Um dos diferenciais para essa divisão é justamente o trabalho da ambientação. As duas histórias da primeira fase – O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser – realmente acontecem num ambiente bastante restrito: a residência da personagem e seus arredores, sendo que as cenas que acontecem na residência predominam. O mesmo se pode dizer das histórias da segunda fase – Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha… Nesses casos, o ambiente é como uma personagem figurante, pouco detalhada e pouco importante.
Quando chega a terceira fase – O maior de todos e Primeiro a honra – o ambiente começa a se expandir, os “arredores” tornam-se importantes e o espaço passa a ser trabalhado com mais detalhamento. Em O maior de todos, o castelo e a vila são macro-ambientes com pequeninas sub-divisões: os cômodos no castelo; a casa e as ruas na vila. Primeiro a honra tem três grandes focos: Orléans, Paris, Soissons, que marcam momentos importantes na história. Só Paris tem sub-divisões: a casa e a floresta. É o ambiente se tornando personagem secundária.
A quarta fase é curiosa pois, ao mesmo tempo que começa com Construir a terra, conquistar a vida, em que a cidade e seus eventos são personagens importantes também, tem A noiva trocada e Vingança com ambientes restritos. Não é sem motivo: essas duas histórias seguem uma estrutura que as aproxima do conto, gênero que tem por característica os ambientes restritos. Amor de redenção acontece na Espanha e no Brasil e, mesmo quando para no Rio de Janeiro, há pelo menos dois ambientes bastante importantes, sem contar os “arredores”. Não é cor-de-rosa é um pouco restrita também, embora haja o mundo de Caty e o mundo de Alex, a fábrica, a casa, o trem, a praça. O canhoto é desvario, nesse quesito de ambiente. Quase fico cansada só de pensar em por quantos lugares Nicolaas passou pois ele saiu de Bruges para a Terra Santa, tendo morado ainda em Antwerpen, Aachen e Gênova. De mãos dadas é difícil de analisar, porque ainda estou escrevendo mas há dois macro-ambientes – São Carlos e São Paulo – cada um com seus ambientes menores, bastante trabalhados, pois Toni é do tipo que vai do Tatuapé a Perdizes andando sem nem ao menos se cansar, então os muitos lugares de São Paulo são bastante presentes. A fazenda vai aparecer em detalhes na fase 3, em que Toni transitará pela casa dos pais, pela Casa Grande, pelo cafezal, além dos passeios com Rosa. Alcancei a pluralidade de ambientes que pede o romance.
Penso que venho desenvolvendo minha habilidade em explorar os recursos cênicos dos ambientes por onde andam minhas personagens. É um caminho longo e ainda incompleto. Mas estou aprendendo.

FASES

Interessante analisar comparativamente a estrutura das histórias, procurando se há um padrão – se eu sigo uma fórmula pessoal. É verdade que não costumo me prender a dogmas, dicas, fórmulas, quando estou inventando, mas isso não quer dizer que não os esteja usando, mesmo que inconscientemente. Tive um professor na faculdade de Educação Artística que costumava dizer algo como “inconscientemente não é ignorantemente”, para dizer que, mesmo que o artista não faça escolhas conscientes, mesmo que não saiba explicar suas escolhas, ele sabe muito bem que está escolhendo o que é mais apropriado para sua obra. Então resolvi fazer mais uma tabela, para verificar quantas fases distintas cada história tem, e onde está o clímax de cada uma delas. Descobri que posso dividir a grande maioria em três fases (7 histórias) e que, nessas, o clímax está na terceira fase. Em outras 5 histórias, há duas fases, com o clímax na segunda fase e apenas duas histórias não consegui dividir em fases, pois a ação segue num continuum sem interrupção.
Não estou chamando de “fases” as divisões estruturais necessárias a um romance: apresentação, desenvolvimento, clímax, conclusão. Estou dividindo apenas o desenvolvimento. A apresentação necessariamente faz parte da primeira fase e o clímax com a conclusão estão na última, seja ela a segunda ou a terceira, ou a mesma primeira com que a história começou. O que marca essa divisão em fases são pontos de virada determinantes, que fazem a história dar uma guinada e mudar de rumo. Não são pontos de virada de comprometimento da personagem principal com seu objetivo, mas justamente quando a personagem muda de planos.
 
Vamos exemplificar:
1)     De mãos dadas:
Fase 1 – fazenda, apresentação das personagens, apresentação dos objetivos, Toni vai para São Paulo, trabalha e ganha dinheiro, dificuldades (Fase “Toni”).
Fase 2 – Letícia chega com dinheiro e uma proposta, Letícia influencia a vida de Toni, Letícia se afasta de Toni (Fase “Letícia”).
Fase 3 – Toni tenta se manter e organizar a vida, Toni volta à fazenda. As coisas não acontecem como ele esperava, e ele precisa redescobrir sua própria identidade e objetivos. Clímax e conclusão. (Fase “Rosa”).
 
2)     O canhoto:
Fase 1 –  apresentação das personagens, apresentação do problema, Ten Duinen, Maurits, casa do pai (Fase “Bruges”).
Fase 2 – Aachen, Antwerpen, Gênova, conhece Miguel, Cruzada (Fase “Exílio”).
Fase 3 – volta a Bruges. As coisas estão diferentes do que ele esperava e ele precisa organizar novamente sua vida. Clímax e conclusão (Fase “Bruges”).
 
Em seis histórias de três fases, a estrutura é mais ou menos como essas que apresentei: a personagem de alguma forma volta a suas origens na terceira fase, mas tudo está diferente: o ambiente, as pessoas, e ela mesma, que amadureceu durante os eventos da primeira e da segunda fases. São assim O destino pelo vão de uma janela, O maior de todos, Primeiro a honra, Não é cor-de-rosa, e as já citadas O canhoto e De mãos dadas. Apenas uma história com três fases é diferente, a ponto de, num primeiro momento, eu ter considerado que havia apenas uma fase: Construir a terra, conquistar a vida. Mas há marcadamente três momentos na história. Um primeiro, em que Duarte e Fernão lutam para se estabelecerem na terra nova. Na segunda fase, já de alguma forma estabelecidos, é preciso manter o que foi conquistado, e preparar a próxima geração para não ter que enfrentar os mesmos problemas. Depois, na terceira fase, é hora dos filhos também decidirem seus rumos, e conquistarem suas vidas. Na terceira fase também ficam o clímax e a conclusão.
 
Nas histórias com duas fases, o que acontece é um contraponto, uma espécie de duelo entre duas personagens, dois temas, duas questões. Na primeira fase, prevalece um deles e, no segundo, prevalece o segundo, encaminhando para a conclusão. Um exemplo é A noiva trocada, em que Inês prevalece na primeira fase e, troca desfeita, a segunda fase pertence a Assunción. Também têm duas fases Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha… e Amor de redenção. Em todas essas, há apenas um ponto de corte, de mudança de rumo na história.
 
E não consegui dividir em partes O processo de Ser nem Vingança. São histórias curtas, lineares, sem contrapontos, sem pontos de virada dramáticos. É um fluxo apenas, um encadeamento que vai somente numa direção, da apresentação ao clímax e à conclusão.
 
As mais intensas são provavelmente as histórias com três fases, inclusive porque nelas o protagonista volta ao ponto inicial modificado por sua jornada e percebe que não existe retorno, mas somente uma caminhada sempre em frente, sempre construindo coisas novas, mesmo que aparentemente sobre o que já foi um dia. Assim também é a nossa vida: sempre em frente. A repetição da rotina é apenas uma abstração da nossa mente controladora, e não existe na realidade. Cada dia é um novo dia.

PROTAGONISTAS, ANTAGONISTAS E SEUS OBJETIVOS

Desde que inverti a relação entre Curt e Karl, venho pensando muito na questão dos objetivos de vida das personagens, e o que seria lícito para um protagonista. “Tomar o poder” é objetivo para um protagonista? Ou isso necessariamente se torna “impedir que alguém tenha poder”, jogando essa personagem para o papel de antagonista e elevando o “alguém” ao papel de protagonista? Essa questão acaba se desdobrando em “o mocinho pode ser o vilão da história?” E se, no final, o Bem vencer? Minha personagem principal será punida. De repente minha falta de finais felizes começa a fazer sentido: como meus protagonistas são na verdade antagonistas, e o Bem vence no final (minha formação ética não me deixa fazer diferente), minhas personagens acabam não tendo o final feliz que gostariam.

Sempre que a questão do poder – em geral apresentada como poder político – se apresenta, minha tendência é ficar do lado do contestador, do subversivo, do transgressor, e elevá-lo ao posto de personagem principal e ponto de vista da história. É esse transgressor que carrega toda a história, que conduz a trama, para, no final, entregar tudo àquele que tentou prejudicar – uma personagem frágil que só mostra sua força no final, justamente para subverter a classificação dos papéis e terminar como o protagonista que vence o antagonista.
 
É revoltante entregar o protagonismo a Karl e Estienne, por exemplo, quando o trabalho pesado de conduzir a trama foi de Curt e Ninette, lutando contra todo tipo de adversidade, lutando contra os inimigos de Karl e Estienne. E, de repente, só porque o poder pertence legalmente a Karl e Estienne, Curt e Ninette acabam sendo proscritos, e ocupando o lugar de antagonistas.

Preciso estudar melhor essa classificação de papéis para definir se meus “malvados” podem ser protagonistas, mesmo que objetivos que se opõem aos objetivos das personagens “boazinhas”.

MELHOR AMIGO OU INIMIGO

Minhas histórias não são do tipo que um herói vence inimigos. O conflito protagonista – antagonista não é óbvio. Há casos em que o antagonista é alguma circunstância, e não uma outra personagem. E, como não gosto também dessa visão simplista de bem x mal, costumo desconstruir a relação mocinho x vilão. Muitas vezes, o vilão é a pessoa em quem o mocinho pode confiar, não por ser a única alternativa, mas por ser a melhor. Em algum momento da trama, a pessoa que, de alguma forma, quer o mal para o protagonista se torna a pessoa em quem o protagonista pode realmente confiar. Algo como se o vilão dissesse “proteja-se apenas de mim, e eu o protejo do resto do mundo”. E há também a possibilidade da pessoa que quer o bem do protagonista, o amigo, por alguma fatalidade, acabar prejudicando e fazendo o mal, em geral, involuntariamente. Vamos falar de cada um em termos de “Caso 1” e “Caso 2”.

 
Caso 1 – inimigo de confiança
 
Acho que o típico inimigo de confiança é Curt Legrant. No meio de todo o conflito político, a única pessoa em quem Karl pode realmente confiar é Curt: o próximo na linha sucessória, e o homem cuja missão de vida é enfraquecer o poder do Rei. Talvez por Curt ter objetivos tão explícitos, Karl sabe o que esperar dele, como agir diante dele, e pode confiar a ele sua vida, pois a morte de Karl destrói o objetivo da vida de Curt. E Karl confia nele cegamente.
 
Fréderic e Ágila são do tipo “eu te projeto do mundo para que só eu lhe faça mal”. É uma proteção que sufoca, que faz mal, porque fragiliza e torna dependente. E, mesmo assim, Ninette e Camila veem neles a pessoa de confiança, a quem podem entregar a vida sem receios. Há uma cena em que Ninette diz “Será que eu só tenho você?” e Fréderic responde “Não sei se sou o único, mas pode sempre confiar em mim”. Há uma outra cena em que Ágila diz “Mas eu posso protegê-la de tudo. Você está assustada porque vivemos num mundo violento mas você sabe que não precisa ter medo de mim.” E é assim que Camila descreve o abraço de Ágila: “Os braços dele eram como uma muralha a envolvê-la e a protegê-la de tudo. Mas também era um abraço que a isolava do mundo, e criava um universo próprio, em que só eles dois existiam.” E Ninette confia em Fréderic, assim como Camila confia em Ágila.
 
Quando Alex sugere a Caty que visite a fábrica do pai dela, quer vingar-se dela por sentir-se humilhado pelo comportamento e pela atitude dela. Nessa hora, ele é um inimigo. Mas Caty sente que a proposta dele pode lhe trazer algum bem e segue a sugestão de Alex  Confia no que pensa que ele sente e o segue até a última consequência.
 
Da mesma forma, quando Jacques começa a contar a Marie eventos do passado, está agindo como inimigo dela, mesmo dizendo que lhe quer bem. Ele também é inimigo de Gustave, mas tanto Marie quanto Gustave permanecem inertes frente à influência dele. Apesar de tudo, Marie confia em Jacques – mais até do que em Gustave.
 
Caso 2 – amigo que faz mal
 
Nessa categoria, acho que um dos mais marcantes é Maurits, talvez o melhor amigo de Nicolaas. Por causa dessa amizade, Nicolaas enfrenta muitas dificuldades na vida, mas é uma amizade marcante, que segue firme até o fim da história. Maurits deseja bem a Nicolaas  mas, involuntariamente, faz mal.
 
Já comentei sobre Letícia e seu papel dúbio, sendo ao mesmo tempo quem ajuda Toni no objetivo imediato e quem o afasta da meta final. Ela é uma amiga, quer ajudar, mas acaba também fazendo mal.
 
Penso que tudo isso cabe no tema das falsas aparências, que acaba sendo constante nas minhas histórias, de uma forma ou de outra. Inimigos que fazem bem, amigos que fazem mal são subversões das caracterizações típicas. Gosto disso, de não saber o que esperar de uma personagem. Acho que é um ponto de interesse na história: construir personalidades complexas e, de certa forma, imprevisíveis.

TONI E AS MULHERES

Desde que chegou a São Paulo, Toni tem estado cercado por mulheres. Desde Dona Luizinha, que o hospedou em sua casa, e o trata como a um filho, até Júlia, que ainda não entrou na história mas será alguém com quem Toni terá um vínculo forte. Outras três são Janaína, Raquel e Letícia, amigas que em algum momento da trama têm atitudes importantes e decisivas. Há ainda Ana Paula, vilã declarada, e Nara, secundária que será de grande ajuda para Toni na terceira fase. Enquanto isso, embora ele more numa pensão com mais sete rapazes, o único amigo realmente é Luigi. Alberto também tem certa importância mas não chega a ser determinante.

Essa característica ainda não tinha sido tão notável em nenhuma outra história. Os amigos, em geral, são do mesmo sexo que o protagonista, pois acredito que há mais afinidade de amizade entre pessoas do mesmo sexo. Penso que, em geral, fazemos confidências íntimas a pessoas que compartilham conosco certos modos de ver e entender o mundo – e penso que essa é uma das diferenças fundamentais entre homem e mulher. Pares românticos não entram nessa conta, pois é outro tipo de relação. Cada história tem sua característica própria. O destino pelo vão de uma janela é marcada pelos companheiros de infância do protagonista Gustave: Marcel e Jacques. Em O processo de Ser, a personagem extra é Piotr, mesmo sexo de Ilya, e seu contraponto. Em Pelo poder ou pela honra, curiosamente (e eu não tinha parado para pensar nisso), a protagonista é mulher e as personagens determinantes são todas masculinas: Estienne, Fréderic, Jules, Pierre e Antoine – o mesmo que agora percebi na história de Toni, só que ao contrário. O aro de ouro e Amor de redenção não têm personagens extras determinando a história: tanto Lucas como Ágila constroem seu próprio destino, sem ajuda externa. Nem tudo que brilha… repete Pelo poder ou pela honra: protagonista feminina cercada de homens: Roberto, Marcos, Vicente, embora a personagem realmente determinante seja Cecília, mulher como a protagonista Isabel. O maior de todos é uma história de homens, e as mulheres são secundárias. Em Primeiro a honra, Rosala tem Constance, Berta, Adèle e Atilde a marcarem seu destino, mais do que Lanrose, Toulière e Archibald (pares românticos não contam). Em A noiva trocada, Henrique é ajudado por Pedro, Amândio e Miguel. A grande marca de Construir a terra, conquistar a vida é a amizade entre Duarte e Fernão. Rodrigo, de Vingança, não tem amigos, pois é um vingador. Em Não é cor-de-rosa, Caty tem as amigas Lúcia e Isabel, com quem troca confidências. Nicolaas é exagerado como Toni, no sentido de ser cercado por personagens que interferem em seu destino, mas são todos homens: o pai François, o irmão Robrecht, os amigos Maurits e Miguel, o abade do mosteiro de Ten Duinen, Irmão Willem, o Conde de Flandres, Laurent, os Filhos de Flandres. A única mulher de maior expressão (ressalto de novo que Ester não conta) é a mãe Hannelore.
 
Penso que essa diferenciação reflete as diferentes questões e temas abordados nas histórias: quando o tema é mais intimista, em que o conflito da personagem é com ela mesma, ou entre seus desejos e as normas sociais, há menos personagens externos determinantes; quando o tema é mais social e relacional, quando a personagem deseja construir na sociedade – ou, em outras palavras, apenas levar uma vida normal, ela sofre mais influência de outras pessoas. Mas o que faz eu escolher cercá-la de pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto é algo que ainda merece maior reflexão para que eu possa tentar chegar a uma resposta ao menos aceitável.

APOLOGIA RELIGIOSA

Estou lendo os primeiros capítulos de um dos livros de minha amiga literária Isie Fernandes e fiquei pensando que religião têm as personagens dela, pois sei que ela é evangélica. Será que todas as personagens dela são evangélicas só porque é a religião dela, ou ela consegue fazer personagens que acreditam em outras coisas? Bem, eu teria que ler as Obras Completas da autora para poder responder, mas seus livros ainda estão inéditos, então terei que adiar essa pesquisa.

A reflexão, porém, serviu para eu analisar a minha produção. Será que eu consigo caracterizar com convicção personagens que acreditam em coisas diferentes das quais eu acredito? Qual a religião das minhas personagens? Será que são todas católicas, só porque eu sou católica?

Bem, sim, a grande maioria das minhas personagens é católica, mas não por ser essa minha religião, e sim porque a maioria das minhas personagens vivem no mundo ocidental antes da Reforma de Lutero, Calvino e Henrique VIII. Estão nessa situação todas as personagens de O destino pelo vão de uma janela(883), Pelo poder ou pela honra (1415), O maior de todos (1348), A noiva trocada (1572), Construir a terra, conquistar a vida(1567-1592), O canhoto (1189-1193). Devo acrescentar que, até meados do século XX, a grande maioria da população brasileira era católica, e eu teria que elaborar alguma estratégia para ter personagens não-católicas (por exemplo, descendentes de alemães protestantes vivendo em colônias tradicionais). Portanto, também são católicas as personagens de Vingança (1899), Não é cor-de-rosa (1910) e De mãos dadas (1913-1928). Há nuances nessa religiosidade, desde Vingança  e O destino pelo vão de uma janela, em que esse aspecto é tão sem importância que nem citado, até O canhoto , em que a religião é tão importante que tenho monges e um mosteiro beneditino na história (e eu tive que estudar a Regra de São Bento para dar coerência ao comportamento e às atividades das personagens), passando por De mãos dadas Não é cor-de-rosa, em que as personagens vão à missa aos domingos.
Nas histórias ambientadas no presente (O processo de Ser, O aro de ouro, Nem tudo que brilha…, Amor de redenção), a questão religiosa não é mencionada, mas às vezes há aspectos de crenças citados – em Nem tudo que brilha…, as personagens se dividem entre quem acredita em reencarnação e quem não acredita. A questão da reencarnação, com personagens que acreditam e personagens que não acreditam, também está presente em Amor de redenção e, na fase que acontece no século V, todas as personagens são arianas, uma variante do catolicismo que foi declarada heresia no Concílio de Nicéia (325).

Minha grande personagem não-católica é Rudbert, que cultua ainda as divindades celtas, em companhia de Atilde, a vizinha feiticeira. É interessante, pois Primeiro a honra se passa na Europa após Cristo e antes da Reforma Protestante do século XVI mas há espaço para personagens pagãs, pois o século V é justamente de expansão do cristianismo pela Europa, então tenho na mesma história personagens cristãs recém-batizadas, e personagens que permanecem pagãs.

Após essa análise rápida, posso concluir que sou capaz de caracterizar bem personagens com crenças diferentes das minhas – a ponto de receber comentários de que eu estaria fazendo uma crítica ao cristianismo com a caracterização de Rudbert e Atilde.

Mas não nomeei este texto “Apologia” para falar da religião das personagens, e sim para falar da única vez em que a minha opinião religiosa prevaleceu. Procuro sempre deixar essas questões de fé em aberto, afinal minhas personagens têm direito de acreditar em coisas diferentes, e eu não tenho interesse em doutrinar o leitor. Então não fecho a questão se Rudbert está certo em seu paganismo, ou Rosala está certa em seu cristianismo; não decido se Roberto está certo em acreditar em reencarnação, ou se está certa Isabel em não acreditar. As personagens não argumentam, não tentam convencer o outro, mas respeitam a opinião diferente em silêncio. E, em Amor de redenção isso acontecia também – Ágila acreditando em reencarnação e Camila não acreditando. Mas, como essa é uma história em que o diabo aparece e contracena (o que já é suficiente para que seja uma história cristã, pois há religiões que não consideram a existência dessa entidade), precisei do meu repertório de crenças para combatê-lo. Camila é católica, Ágila é ariano, e é o poder do nome de Jesus Cristo que dá força ao casal para enfrentar o diabo. O sinal da cruz e a oração do Credo são as armas possíveis.

É claro que não fiz de caso pensado. Não pensei em fazer uma história doutrinadora – e espero não ter feito! Só recentemente percebi como a minha religião foi fundamental para o desenvolvimento da história. Penso que, nesse caso, as personagens – pelo menos Camila – teriam obrigatoriamente que ter a mesma religião que eu, pois é a que eu conheço melhor e cujas crenças eu saberia usar para o desfecho que eu queria. Então é a única história em que eu, através das personagens, defendo os conceitos em que eu acredito, especialmente na cena decisiva entre Ágila e Camila, em que ela fala dos Planos de Deus para a vida dele, e como a interferência do diabo atrapalhou isso, e mesmo assim Deus não o abandonou. É a fé inabalável de Camila que determina seu relacionamento com Ágila e, dessa forma, tudo o que acontece na história. É uma história realmente especial em vários aspectos, e este é apenas um deles.

TEMPO E DURAÇÃO

Acho interessante pensar em quanto tempo dura uma história. É uma informação que eu ainda não tinha tabelado. Sempre tenho a impressão de que minhas histórias duram dois anos, o tempo de que preciso para contar como o protagonista resolveu o principal conflito de sua vida. É claro que penso nas exceções, como A noiva trocada e Vingança, que duram menos, e Construir a terra, conquistar a vida e O canhoto, que duram mais. Mas, tabela feita, percebo que estou bastante enganada, e apenas uma história, num conjunto de 14, conta dois anos da vida do protagonista.
No extremo inferior da classificação quanto ao tempo de duração, tenho  A noiva trocada e Vingança, em que a trama inteira acontece em uma semana, basicamente no mesmo lugar e com poucas personagens, não muito desenvolvidas, o que dá a elas, inclusive, ares de conto longo (a terceira história com essas características era À procura, que foi descartada). Em Nem tudo que brilha…, não marquei, nem com estações nem datas, o tempo de duração, mas eu diria que tudo acontece em menos de um ano.

A grande maioria das histórias, na verdade, acontece no decorrer de um ano. O processo de Ser não tem o tempo marcado, mas eu diria que começa no outono de um ano e termina no outono do ano seguinte, o mesmo que acontece em Primeiro a honra – esta, sim, com a passagem de tempo bem definida pela troca das estações. O Aro de Ouro, por ser o tempo de uma experiência científica, também tem início e fim pré-delimitados, e a duração de um ano e mais uns poucos dias, para introdução e conclusão, que é o mesmo que acontece com Não é cor-de-rosa, que também dura alguns dias mais do que um ano. Amor de redenção é um caso totalmente à parte, pois, embora tenha a duração de um ano letivo – a divisão de tempo da vida de Camila, é uma história que se projeta para o futuro, e tem suas raízes num passado remoto. Então ela, de fato, começa em 585 e só termina em 2043. Como eu detalho apenas o ano de 2003, considero que ela também tem duração de um ano.
Contrariando a minha impressão inicial, há apenas uma história com a duração de dois anos: O maior de todos. Pelo poder ou pela honra não tem a passagem do tempo tão bem marcada, mas dura ao todo praticamente três anos, da Batalha de Azincourt até a solução final dos conflitos.
Os outros romances são mais longos, o que implica também em um maior número de páginas. O destino pelo vão de uma janela não chega a ter um número grande de páginas, apesar de seus nove anos de duração, pois tem um salto de cinco anos no meio da história.  O canhoto  dura sete anos, De mãos dadas dura 15 anos e  Construir a terra, conquistar a vida dura 25 anos. Essa longa duração faz com que todas essas histórias tenham mais de 300 páginas (De mãos dadas ainda não chegou a esse número, mas vai chegar, pois estou na página 125 e só agora a história vai começar. Tudo o que houve até agora foi introdução e preparação para este momento).

Então não sigo mesmo um padrão para a duração das histórias que conto. Aparentemente tenho preferência por tramas mais curtas, que possam ser resolvidas em mais ou menos um ano, mas não tenho medo das tramas de longa duração, nem dificuldade em desenvolver texto para contar tudo o que acontece nesse passar de anos. Curta ou longa duração, cada tipo tem uma função específica no meu inconsciente, e ambas são igualmente necessárias para meu desenvolvimento pessoal.

JORNADA DO HERÓI

Pesquisando daqui e dali, visitando blogs de meus amigos, encontrei referência a um certo tipo de estrutura, usado especialmente para contar histórias fantásticas, que se chama Jornada do Herói (explicações aqui e aqui). Nas minhas histórias, a Jornada está relacionada a situações de exílio, que expliquei aqui. Os elementos dessa Jornada do Herói, com as devidas adaptações ao meu estilo e ao tipo de trama que eu conto, estão nitidamente presentes em sete das minhas histórias: Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Primeiro a honra, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas.
 
Há duas diferenças importantes entre a Jornada do Herói e a estrutura dessas minhas histórias que de alguma forma acompanham esse modelo. Uma é a atuação do Mentor, que surge para encorajar o herói e entrar no mundo mágico. Nas minhas histórias, o Mentor em geral aparece depois que o herói já está fora de sua realidade, justamente para ajudá-lo a sair. E a segunda diferença, relacionada a essa primeira, é que minhas personagens não têm medo de enfrentar a Jornada, e não precisam de ajuda para entrar nesse “mundo mágico”- no meu caso, algum tipo de exílio – porque são jogadas dentro dele à força. Me faz lembrar da Divina Comédia, em que Dante de repente se vê na floresta escura (já é exílio) e Virgílio lhe aparece (Mentor) para guiá-lo até a nova realidade (Paraíso), embora passando pelos caminhos mais difíceis e sofridos (Inferno e Purgatório). É mais ou menos isso o que acontece nas minhas histórias: a personagem é forçada a algum tipo de exílio (ou por algum motivo o procura), onde encontra um Mentor para ajudá-la a amadurecer, resolver seus problemas e voltar.
 
Outro aspecto interessante de destacar é que nem sempre o herói da jornada é a personagem principal, como é o caso de O maior de todos, que tem Curt como personagem principal mas é Karl quem enfrenta a busca por si mesmo. Também é interessante o caso de Ninette, em Pelo poder ou pela honra, que supera a maior crise, enfrenta a morte, vence o medo mas perde o elixir. Quando fui ver se Nicolaas passava por essas etapas, tive dificuldade em definir os eventos de cada etapa e conclui que ele, na verdade, enfrenta três jornadas de uma só vez: uma de caráter religioso, com Maurits como Mentor e a superação do passado como Elixir; a segunda é pessoal, com Miguel como Mentor e a superação do sinistrismo como Elixir; a terceira é social, com Frans como Mentor e a Cruzada como Elixir. São três jornadas entrelaçadas, e as etapas de cada uma não acontecem ao mesmo tempo, mas cada uma em seu momento dentro de cada jornada.
 
É interessante pensar como essa estrutura está relacionada a uma espécie de inconsciente coletivo cultural uma vez que, mesmo sem buscar por ela, muitos escritores – eu inclusive – acabam por encontrá-la. Também é interessante que uma estrutura característica de romances de fantasia possa ser usada com sucesso em outros tipos de romances.