Pelo poder ou pela honra

DEUS EX-MACHINA

Já usei essa expressão algumas vezes em textos publicados aqui, e já me perguntaram o que significa, então resolvi explicar o que é e aproveitar para comentar como uso essa ferramenta.
 
Deus-ex-machina é uma expressão em latim que quer dizer mais ou menos “uma divindade saindo de um dispositivo”. Descontextualizado, não faz mesmo sentido. Precisamos saber um pouco da história da Grécia clássica e seu Teatro. A tragédia – a grande forma – contava especialmente histórias mitológicas, de deuses, semideuses e heróis. A história dizia que o herói enfrentava incontáveis dificuldades até o sucesso final. Muitas vezes, vencia os desafios sozinho mas, outras vezes, precisava de ajuda divina. Então surgia no palco uma estrutura e, de dentro dela, saía algum deus, para ajudar o herói em seu problema. Fazer uma estrutura descer do céu ou brotar da terra sempre requer uma boa engenharia para construir um artefato e fazê-lo mover-se sozinho na direção certa – esse conjunto é o que se chama machina. Portanto, deus-ex-machina é o momento da tragédia grega em que deus sai do artefato de engenharia para interferir definitivamente no destino do herói. Por ser um deus, ele age ignorando as leis da física, da química e da biologia, e também está acima das leis e da moral, e segue uma ética própria, que nem sempre é a ética dos humanos.
 
Em literatura, chamamos de deus-ex-machina o momento em que o escritor cria um evento improvável para alcançar o resultado de que precisa para dar continuidade à história. Em geral, por estar agindo como um deus, ele passa por cima das leis da natureza e produz milagres. É aquela chuva que cai bem na hora e deixa o mocinho e a mocinha presos em algum lugar, para que percebam que estão apaixonados; é a distração do vilão que faz o mocinho vencê-lo; é a cura milagrosa de doenças, etc. É bem fácil identificar quando esse artifício está sendo usado, pois o leitor fica com uma sensação de “trapaça”, e pensa logo “essa chuva caiu bem na hora, hein!”, ou “nunca que o vilão vai cometer um erro primário desses”, ou “nossa, que sorte isso acontecer”, ou “ah, é claro que a mocinha tinha que estar ali para o mocinho encontrá-la”. São eventos injustificáveis, às vezes inverossímeis, mas totalmente necessários para que a história aconteça conforme os planos do autor. É importante que se diga que é um recuso possível, permitido, mas que deve ser usado com parcimônia, pois o exagero de deus-ex-machina numa história compromete a verossimilhança. É uma espécie de ato de desespero do autor: quando nada mais vai funcionar, apela-se para o deus-ex-machina.
 
Eu faço o possível para não abusar do recurso, pois, como já disse, ele mina a verossimilhança que me custa tanto construir. Ainda assim, às vezes é inevitável para que as personagens tenham o destino que lhes cabe. Há deus-ex-machina quando Estienne acredita que Ninette não é quem diz ser. Há deus-ex-machina na forma como Marie conhece Jacques. E também nas coincidências entre Isabel e Cecília; na ausência do pai de Caty quando Alex vai procurá-lo; na posição de Isabel de Durpoin enquanto Lisbet Legrant avista o arqueiro; no sono excessivo de Assunción; no não-reconhecimento de que Rodrigo é Mário. Não tinha jeito, eu precisava desses eventos para continuar a história.
 
E tenho, em Amor de redenção, um caso de diabolus-ex-machina (o termo é invenção minha). Chamo assim porque quem apareceu não veio para ajudar, mas era necessário para manter Ágila vivo até encontrar Camila. O próprio fato de Ágila atravessar os séculos vivo é inverossímil, mas a motivação da história (que contei aqui) exigia tal coisa, e essa espécie de deus-ex-machina foi o meio que encontrei para compor a personagem com todas as características necessárias.
 
Percebi que uso bastante o recurso do deus-ex-machina, mas procuro fazer de forma que pareça natural, e que o leitor considere uma “coincidência providencial”, e não uma apelação, ou uma “forçação de barra”. Meus deus-ex-machina costumam ser possíveis dentro da realidade da ficção criada e, portanto, verossímeis.

GRANDE E PEQUENO

Vou tentar explicar neste texto esse conceito meu de personagens de tipo grande-pequeno. Quando uma história acontece na minha cabeça, às vezes o protagonista não vem sozinho, mas com uma outra personagem, que é seu oposto e ao mesmo tempo seu complemento. Não formam um casal, mas um par. Podem ser irmãos, amigos, oponentes, e em geral o grande tem necessidade de proteger o pequeno, o que pode gerar um sentimento de amor paternal (ou maternal) e filial. Na maioria das vezes, o grande é mais velho; tem biotipo alto, largo, forte; e temperamento decidido e altivo, enquanto o pequeno costuma ser mais novo; de biotipo estreito, magro, frágil; e temperamento retraído e inseguro, podendo também ter alguma doença que o debilita. Por terem esse conjunto de características é que eu os chamei de “grande” e “pequeno”. É claro que o grande tem seus momentos de fraqueza, e que o pequeno também sabe tomar decisões e se impor, senão eles não seriam personagens, mas tipos-clichês. Além dessas características descritivas, para fazerem parte dessa categoria, eles precisam estar no mesmo nível de importância na história: os dois principais ou os dois secundários. Em geral, quando duas personagens configuram grande-pequeno, é porque estão no mesmo nível. Também não basta terem as características de biotipo e temperamento, e estarem no mesmo nível de importância: eles precisam ser complementares, um ser o contraponto do outro, não no sentido de que um é baixo e outro alto; ou um é otimista e outro pessimista, mas num sentido mais amplo de que um apóia (dá sustentação a) o outro e, quando um não sabe o que fazer, são as características do outro que resolvem o problema.

Eu só percebi essa correspondência quando Alian conta a Karl sobre sua amizade com Pralan, e Karl percebe que sua relação com Curt acontece de forma semelhante. Só então pude começar a refletir sobre essa característica de algumas de minhas personagens. Essa história é bastante emblemática nesse sentido, pois, embora Curt tenha Lisbet e Karl tenha Isabel, as relações amorosas não são importantes, mas tudo gira em torno do conflito de poder entre o Conde e o Rei – o Grande e o Pequeno.

Também formam pares de grande-pequeno as personagens Fréderic e Estienne, de Pelo poder ou pela honra, Pedro e Luís Augusto, de uma história descartada sem nome; Anthony e Andrew, de O castelo mal-assombrado (descartada); Pedro e Augusto, de Difícil conquista (descartada); Daluvian e Denevole, de Aventuras dos Cavaleiros Cantores (que ainda não escrevi).

Rudbert e Ailan (Primeiro a honra) formam uma exceção à regra, por serem um par formado por um homem e uma mulher, mas num momento em que ela está disfarçada de homem. Quando o disfarce acaba, a configuração também desaparece.

Ayraci e Inês são o único par de grande-pequeno feminino, acompanhando um pouco Duarte e Fernão, que também são fortemente grande-pequeno (como Curt e Karl), numa relação de amizade que é sentida como se fosse sanguínea. Fernão foi inventado meio que para ser o pequeno de Duarte. Propositadamente ele é mais novo, mais estreito de ossatura e, no início da história, depende de Duarte para ter seu sustento e tomar decisões. Ele também tem características psicológicas e habilidades que Duarte não tem, para poder ser seu contraponto e seu complemento, o que também era meu objetivo para ele ao criá-lo.

Se explicar o que acontece e como acontece já me é difícil, nem vou me aventurar no campo do “por que”. Como tudo no meu processo de criação, o aparecimento da configuração grande-pequeno foge ao meu controle, pois sua origem está no meu inconsciente. Mesmo Fernão, que teve suas características escolhidas de uma forma mais planejada, podia não ter formado par com Duarte, no decorrer da ação, quando a personagem consolida suas características e toma as rédeas de seu destino. De qualquer forma, o “por que” não é importante para a criação, apenas complementa a análise posterior, e essa é obra da razão, que teima em querer explicações racionais para aspectos que simplesmente existem e independem de explicação para continuarem a existir.

26 ANOS

Ainda me lembro da primeira história que escrevi: “Uma noite na fazenda”. Eu era criança: devia ter uns 8 ou 10 anos. Foi um sonho que eu tive e quis escrever. É claro que ficou sem pé nem cabeça, mas tinha que começar de alguma forma. Escrevi como desenhava: por brincadeira. Semanas ou meses depois, resolvi escrever outra coisa e saí pela casa com caneta e papel na mão procurando um tema, até que vi um desenho de morangos numa travessa da minha mãe, e inventei os “Morangos de ouro”, outra historinha boba mas que já tinha um fio condutor, o que lhe dava pé e cabeça, pois tinha personagens, ambiente e trama. Depois disso, o processo se inverteu, e não era mais eu que procurava as histórias mas elas é que me encontravam, que foi o que aconteceu quando vi um grupo de formigas caminhando disciplinadamente enfileiradas e, não longe dessas, uma solitária, perdida fora da fileira, e fiquei imaginando porque ela teria se separado das companheiras. Assim nasceu Amélia, “A formiguinha distraída”. Eu era criança e escrevia histórias para crianças. Logo chegou a pré-adolescência e o desejo de escrever uma “história adulta”: rapaz pobre e moça rica se conhecem e se apaixonam mas o pai dela não permite o namoro, então ela foge de casa e procura abrigo com a família do rapaz. Eu tinha 13 anos. Não escrevi, não dei nome, e a história ficou esquecida muito tempo. Tudo isso aconteceu numa espécie de pré-história da minha carreira, como indícios do que depois viria a aflorar com força e veemência.
 
O período “histórico” da minha carreira começa como a história da humanidade: quando começam a ser produzidos os documentos escritos, ou seja, quando eu comecei a registrar informações sobre as histórias (uma ficha como uma certidão de nascimento), além de escrevê-las. Nessa época também, inventar a história (elaborar) se tornou tão importante quanto escrevê-la, ou seja, as certidões de nascimento e óbito falavam tanto da história quanto ela mesma – a minha Tabela Geral, que tem todas as informações principais, exceto o resumo.
 
Foi em abril de 1985 que o período histórico começou, quando eu novamente resolvi escrever um sonho que tive, mas achei bom mudar algumas coisas, acrescentar detalhes, elaborar as cenas e uma trama que conduzisse os eventos. Escrevi a história e criei uma tabela para anotar as informações que considerei principais: nome das personagens, local e época em que acontece, nome da história, mês de criação. É por isso que eu sei que isso aconteceu em abril, mas infelizmente na época não me importei de anotar o dia exato.
 
Os primeiros anos foram de criação e escrita desenfreada, como uma explosão de vida que eu não conseguia (nem queria) conter. Escrevia todas as ideias, mesmo que depois não soubesse como continuar, escrevia as ideias boas e as medianas, e pensava em publicar tudo, como se todas merecessem.
 
Já não me lembro do evento que desencadeou o fato (talvez as análises estéticas da faculdade de história da arte) mas em 1989 eu resolvi ler meus textos criticamente e jogar fora (metaforicamente) o que eu mesma não considerasse excelente. Meus textos mais antigos tinham só quatro anos mas eu e minha escrita tínhamos amadurecido, meu processo de criação e escrita estava mais definido e consistente, e alguns textos não me satisfaziam mais. Reli um por um, anotando todos os problemas, desde coisas simples como inconsistência de alguma fala ou cena a questões de estrutura e caracterização. Todas as histórias que tinham pelo menos 20 problemas medianos ou um problema estrutural insolúvel (quase todas) foram descartadas (guardadas numa caixa de arquivo) e foi quando eu entendi que precisava incluir a leitura crítica com distanciamento temporal no meu procedimento: algo que hoje se chama “guardar a história por um ano e avaliar em seguida”. Desde então, isso se tornou uma prática costumeira e bastante proveitosa. Continuo inventando muita coisa mas não escrevo tudo. Percebi que não adianta começar a escrever sem a certeza de chegar ao final, então hoje só começo a escrever depois que tenho a história toda inventada, quando já aprovei o começo, o meio e o fim e acho que vale a pena escrever.
Outro aspecto que eu vi desenvolver durante esse tempo foi o detalhamento da ambientação e da caracterização das personagens. Hoje eu faço muito mais pesquisa e recrio a realidade daquela sociedade muito melhor do que no início, quando muitas vezes nem me preocupava com esse “detalhe”.
 
Se eu fosse dividir minha carreira em fases, diria que são quatro ao todo:
 
1ª Fase – 1985-1987 – de Sahara a Mosteiro. Características: escrever como se estivesse contando a história oralmente – o registro escrito é suporte de memória para a minha fala – interesse em contar a história. Foco nos eventos (trama). Caracterização e ambientação não são importantes. Pesquisa histórica incipiente. Diálogos fracos. Todas as idéias são escritas, mesmo que não formem uma história com princípio, meio e fim. Foram criadas nesta fase O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser (mas foram escritas na segunda fase);
 
2ª fase – 1988-1994 – de Mosteiro a O maior de todos. Características: fortalecimento dos diálogos como ferramenta auxiliar para contar a história. A narração perde o tom verbal e se torna texto escrito, numa busca por valor literário. Preocupação com caracterização. Início de pesquisa histórica para construir a ambientação. Leitura crítica dos textos da primeira fase e início da leitura crítica para todos os textos. Desta fase sobrevivem Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, O cisne, Labirinto vital, Pelo poder ou pela honra, História da vingança do cavaleiro bretão, O aro de ouro, Aventuras dos Cavaleiros Cantores, Nem tudo que brilha…
 
3ª fase – 1994-1996 – de O maior de todos a Construir a terra, conquistar a vida. Características: maior elaboração racional da história. A escrita só tem início quando a estrutura está pronta e estão definidos princípio e fim, e os principais eventos entre um e outro – parei de escrever as boas ideias e comecei a só escrever as melhores histórias completas. Uso de diálogos para contar a história e para construção da caracterização psicológica e emocional das personagens. Descrição mais detalhada. Ambientação consistente: a história acontece naquele tempo definido com as características daquele tempo, e não mais simplesmente “no presente” ou “na Idade Média”. Pesquisa do contexto histórico, econômico, social, religioso e cultural para situar as personagens no ambiente escolhido. Desta fase sobrevivem O maior de todos e Primeiro a honra.
 
4ª fase – 1996-2011 – de Construir a terra, conquistar a vida ao presente. Características: preocupação com caracterização e ambientação. Uso dos diálogos para expressão de sentimentos, pensamentos e visão de mundo das personagens. Uso de pessoas reais quando possível. Profunda pesquisa de história (incluindo biografias e história das disciplinas científicas e artísticas), geografia, economia, cultura, arte, psicologia, filosofia, religião, às vezes engenharia, astronomia e matemática – num esforço para reconstrução de uma época passada ou presente. Personagens menos idealizadas e mais próximas às pessoas reais – sentem fome, ficam doentes, precisam tomar banho, usam as instalações sanitárias disponíveis em sua época. São desta fase Construir a terra, conquistar a vida, A noiva trocada, Vingança, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas, O Além.
 
É fácil concluir que as histórias mais recentes são literariamente melhores do que as mais antigas (ainda bem!) mas isso não é motivo para desprezar as que foram escritas nas primeiras fases, pois a avaliação definitiva acontece antes da publicação, quando eventuais problemas ainda são corrigidos (ou a história é descartada), e todas foram publicadas já durante a quarta fase.
 
Resumi aqui o que aconteceu nos últimos 26 anos. Agora vamos ver como serão os próximos 25, os próximos 30, 50, 70 anos – já que não pretendo parar de escrever tão cedo.

CLASSIFICAÇÃO LITERÁRIA

Muitas de minhas histórias são ambientadas no passado e, por isso, eu as considerava romance histórico, mas ainda não tinha encontrado uma definição que justificasse minha classificação. Ao contrário, encontrava definições que diziam que romance histórico é ficcionar a vida de pessoas que existiram de verdade – que é algo que eu absolutamente não faço. Então, um dia, encontrei, não sei mais como, a definição de Györg Lukács, que abarca os meus romances. Como ele é um filósofo e lingüista reconhecido internacionalmente, com diversos livros publicados e estudados, acho que posso confiar no que ele diz, e considerar acertadamente que o que eu escrevo são romances históricos pois, segundo Lukács, o romance histórico “exige não só a colocação da diegese em épocas históricas remotas, como uma estratégia narrativa capaz de reconstituir com minúcia os componentes sociais, axiológicos, jurídicos e culturais que caracterizam essas épocas”. Além disso, deve apresentar as seguintes características: “1) traça grandes painéis históricos, abarcando determinada época e um conjunto de acontecimentos; 2) a exemplo dos procedimentos típicos da escrita da História, organiza-se em observância a uma temporalidade cronológica dos acontecimentos narrados; 3) vale-se de personagens fictícias, puramente inventadas, na análise que empreendem dos acontecimentos históricos; 4) as personalidades históricas, quando presentes, são apenas citadas ou integram o pano de fundo das narrativas; 5) os dados e detalhes históricos são utilizados com o intuito de conferir veracidade à narrativa, aspecto que torna a História incontestável; 6) o narrador se faz presente, em geral, na terceira pessoa do discurso, numa simulação de distanciamento e imparcialidade, procedimento herdado igualmente do discurso da História”. (György Lukács. O romance histórico.)
 
Dessa forma, seriam romance histórico Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Primeiro a honra, A noiva trocada, Construir a terra, conquistar a vida, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas. Em Construir a terra, conquistar a vida e O canhoto, não apenas detalhei o ambiente histórico mas fiz minhas personagens participarem ativamente dos eventos históricos reais, e contracenarem com pessoas que existiram de verdade e isso dá às histórias uma consistência maior do que simplesmente uma boa contextualização. Em O destino pelo vão de uma janela e Vingança, que também são ambientadas no passado, a contextualização é mais superficial porque não é importante para o desenvolvimento da trama e isso faz que não possam ser consideradas romance histórico, pois lhes faltam o primeiro e o quinto itens. O processo de Ser, além do caráter absolutamente intimista, que por isso dispensou uma contextualização muito detalhada, se passa na época em que foi escrita (embora hoje já tenha se tornado passado). Considero que O Aro de Ouro é ficção científica, por acontecer numa realidade virtual e que Nem tudo que brilha… é terror, porque se baseia em Edgar Allan Poe. Amor de Redenção tem uma fase no passado, que seria romance histórico se tivesse se tornado toda a história, mas está ambientada na mesma época em que foi escrita – aliás, é uma história que se projeta para o futuro e que, portanto, ainda está em curso.
 
Percebo no mundo literário um certo tom pejorativo quando se fala em “romances de banca de jornal”, ou nos “romances água-com-açúcar”, conceitos que muitas vezes convergem no mesmo objeto. Às vezes o “romance de amor” se confunde com o “romance água-com-açúcar”. Talvez por isso eu considere que meus romances não têm características desses tipos de livro mas na verdade não me sinto em condições ideais para julgar. A única das minhas histórias que eu declaro ser “romance água-com-açúcar” é A noiva trocada. Em todas as outras, minha impressão é de que há temas e conflitos mais importantes do que a conquista do amor – embora muitas vezes esse seja o objetivo das personagens. Fico pensando se o amor não está presente apenas como uma última chance das personagens se sentirem felizes, depois de tudo por que passaram durante a história, e de todas as perdas que sofreram ao longo do percurso. Na verdade, não me preocupa que meus romances – inclusive os históricos – sejam considerados “água-com-açúcar”, mesmo que em tom pejorativo. O que me importa é que eu conto a história que eu quero, do jeito que eu quero. Não produzo para os críticos, mas para leitores reais, que gostam de boas histórias.

HISTÓRIAS COM MUITAS E POUCAS PERSONAGENS

Outro dia, anotei na minha listagem geral alguns nomes de personagens que estavam faltando em O canhoto. Então tive a ideia de fazer este texto, para refletir se há diferença de tratamento entre histórias com poucas personagens e histórias com algumas personagens principais, várias personagens secundárias e muitas personagens coadjuvantes e figurantes. E também descobrir o que para mim são muitas e poucas personagens.
 
Naturalmente, os contos e histórias curtas têm menos personagens. E naturalmente também, a história com mais personagens é Construir a terra, conquistar a vida, pois são 25 anos e uma cidade inteira envolvida em 895 páginas manuscritas. São ao todo 72 personagens, incluindo as pessoas reais (jesuítas e governantes que têm alguma fala), divididos em 10 grupos. Tentei contar o número de famílias, mas fica confuso, pois as famílias de Duarte e Fernão, ao longo da história, vão se misturando a outras famílias, com o casamento dos filhos, que se tornam também novas famílias. Então Maria, por exemplo, no início pertence à família de Duarte, e João pertence à família de Manoel Machado mas, ao se casarem, se tornam uma terceira família. Diante disso, cada pessoa representa uma família, ao mesmo tempo que cada casal forma uma família. É mais simples dizer que é muita gente e muitas famílias se entrelaçando, como acontece também na vida real.
 
Acho que a primeira história que escrevi foi a mais sintética de todas, embora, pela estrutura, não fosse um conto. Havia apenas o casal protagonista e o antagonista. Três personagens e as areias do deserto. Não tenho nada mais minimalista.
 
A Nova Camelot, que se tornou A volta dos cavaleiros da Távola Redonda, que se tornou O sonho de Richard e que hoje está descartada tem a peculiaridade de ter personagens duplas, uma vez que cada uma é ela mesma e o cavaleiro que foi, e eles agem às vezes como um, às vezes como outro, às vezes como os dois juntos. Comecei com 9 personagens duplas + 2 simples (Richard e Artus), passei para 18 duplas + 5 simples (Richard, Artus e os magos) para terminar com 12 duplas + 4 simples (Richard, Artus e os magos).
 
Quando escrevi Mosteiro, tinha 21 personagens, organizados em 5 núcleos familiares. Dessas 21, 4 são as mais importantes (Michel a principal e mais 3 secundárias). Ao re-escrever e transformá-la em O canhoto, o número de personagens aumentou para 38 e mais duas personagens ganharam importância. Algumas famílias e grupos sociais também se desenvolveram, chegando ao número de oito.
 
Outra história com muitas personagens é O maior de todos, com o número de 36. Afinal, toda a corte está envolvida, há nobres e povo, ministros, traidores, crianças que nascem.
 
Sempre que há muitas personagens, a maioria delas não é desenvolvida. A verdade é que não dá para se trabalhar bem com mais de 10 personagens importantes, pelo menos não em menos de 500 páginas (Construir a terra, conquistar a vida tem 14 personagens importantes e 895 páginas para resolver a vida de todos). Personagens importantes têm aspecto físico, características psicológicas e emocionais, problemas a resolver, conflitos próprios. Quando estou escrevendo a história, vou criando personagens à medida que vou precisando delas, sem pensar no número, e vou desenvolvendo-as quando necessário. Histórias com mais conflitos pedem mais personagens. Por outro lado, histórias com mais personagens me possibilitam criar mais conflitos. No fim, uma coisa gera a outra, às vezes uma precede, às vezes outra, sem regra fixa.
 
Mas percebi que esse número alto de personagens (mais de 30) é exceção, pois a maioria das histórias sobreviventes tem menos. Como em geral tenho um casal protagonista, acabo ficando com apenas esses dois núcleos familiares e mais um ou dois grupos sociais (ambiente de trabalho, amigos, antagonista, comunidade social, etc). É o que acontece em Não é cor-de-rosa, O Aro de Ouro, Primeiro a honra, Vingança, O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, Amor de redenção.
 
Em O processo de Ser, tenho só um grupo familiar e alguns amigos – já que um dos temas é o isolamento e a vida interior. Em Nem tudo que brilha… também fui bem sintética, com o casal protagonista, um amigo, dois empregados e a casa misteriosa com seus antigos moradores já falecidos. À procura (descartada após a publicação deste texto) também é interessante por ter apenas cinco personagens, todos com a mesma importância, todos igualmente desenvolvidos (tudo bem, o guia tem um mistério a mais a desvendar) e eles são um grupo profissional e não familiar. De mãos dadas vem nascendo com três núcleos familiares centrais e até agora 10 personagens. Quando eu escrever, provavelmente precisarei de outras e, ao desenvolver as que já existem, o número de personagens importantes (atualmente uma principal e duas secundárias) deve aumentar também.
 
Então, em geral escrevo histórias com menos de 30 personagens no total – tramas simples, sem muitos entrelaçamentos, que se resolvem em 100 ou 200 páginas A4 manuscritas. Mas são justamente as histórias com mais de 30 personagens, mais complexas, mais difíceis de gerenciar – pois é necessário cuidar da gradação de importância entre as personagens principais e entre essas e as secundárias – que são as mais gostosas de se escrever.

PERSONAGENS CARACTERÍSTICAS

Analisando o conjunto das minhas histórias, percebi que tenho grupos de personagens com uma mesma característica. Não que a personagem não tenha outras características, mas em alguns casos há uma mais marcante.
 
Tenho, por exemplo, personagens tipicamente vingadoras: Ailan, Linart, Rodrigo. São personagens que, por grande parte ou toda a história, têm por objetivo de vida a vingança. É interessante que Linart quer vingar a morte de seu irmão Rodreve, mas Ailan e Rodrigo querem se vingar de violências que sofreram, depois da qual trocaram de nome. Assim, Ailan quer vingar a violência que sofreu quando era Rosala e Rodrigo quer vingar o que sofreu quando era Mário. Como os três são os protagonistas, tenho que confessar que facilito um pouco a vida deles, permitindo que encontrem de novo as pessoas de quem querem se vingar. Se eles conseguem a vingança, não posso dizer, mas eu os ponho frente a frente com os inimigos, para o acerto de contas que, por coincidência, nos três casos, termina com pelo menos um morto. Há vingança e desejo de vingança em outras histórias também, mas nada que caracterize as personagens como nesses três casos.
 
A outra classe típica é a de personagens criminosas. Chamo-as assim porque erraram conscientemente. Sabiam que o que faziam era errado e fizeram assim mesmo. Também são três: Gustave, Ninette, Roberto. Essas três se destacam, não porque minhas outras personagens não cometam erros, mas porque o fizeram por vontade, de caso pensado. Tenho outras personagens que cometem crimes, mas são criminosos circunstanciais, e não calculados e intencionais como esses três. É bem verdade que a vingança também não é uma atitude que julgo correta mas, no caso dos três vingadores, eu considero que eles têm razão, e até o direito de se vingarem – tanto que escrevi as histórias, para dar a eles oportunidade de se vingarem. Então, embora os vingadores também sejam criminosos – pois a vingança que eles querem executar é crime e eles a buscam conscientemente, planejadamente – eles têm a minha indulgência, pois estão agindo contra culpados, não contra inocentes (embora ninguém seja de fato inocente, mas isso é assunto para outro texto). Criminosos, porém, não têm meu perdão, nem direito a um final feliz. Mesmo quando eles acreditam que ficaram impunes, na verdade perderam o que tinham, inclusive e especialmente a dignidade.
 
Há também três personagens cuja motivação é a luta pelo poder: Gustave, Ninette, Legrant. Por estarem em duas categorias, creio que seja fácil concluir que Gustave e Ninette não são muito louváveis em seus métodos para alcançar o poder. Legrant não precisa conquistar poder, pois já o tem. Seu desafio é mantê-lo. A partir dele, desenvolvi duas teorias: 1) “o que é não precisa ser provado”. Se ele a todo momento precisa provar que é poderoso é porque não o é de fato e apenas precisa manter a aparência e a ilusão na cabeça de todos, inclusive dele mesmo. 2) “manda mais o que mais se esconde”. Nem sempre o que parece poderoso é de fato o que controla tudo. Às vezes, estar à sombra dá à pessoa uma liberdade de ação que não teria se estivesse à frente, na luz. Daí a dinâmica de poder entre Curt e Karl, que alternam posições de luz e sombra e, consequentemente, de maior ou menor poder.
 
Cabe aqui a observação de que cada categoria tem três representantes por puro acaso, porque a classificação é bem posterior à caracterização e à escrita. A análise consciente vem sempre depois da criação inconsciente. Além disso, há outras personagens que se vingam, há outras personagens que cometem crimes, há outras personagens subversivas e ambiciosas. Aqui estou destacando apenas as mais características.
 
E finalmente há a classe de personagens subversivas. São mulheres, na maioria, desde Inês, que desobedece Fernão no século XVI e cozinha o que gosta de comer; até Marie, que busca a verdade, julga Gustave e pretende puni-lo, passando por Ayraci, Ester, Rosala, Caty, e quase todas as outras. Mas a personagem subversiva por excelência é Maurits (mais do que seu ancestral Maurice), que ousou desejar uma utopia e fazer seguidores. Mesmo sem memória e vivendo num mundo que não era o seu, o desejo permanecia vivo nele, influenciando suas ações. É uma subversão de mentalidade, de cunho social mas quase religiosa. A vida dele foi a serviço da subversão, que norteou suas escolhas e seu destino. Foi por causa da subversão que seu nome entrou para a História da Civilização (ops, esqueci que a História não registra as vidas e os feitos das minhas personagens, por mais reais que elas sejam).
 
Dá até pena listar essas categorias e pensar que destino todos eles tiveram: os vingadores, os criminosos, os ambiciosos, os subversivos, pois eu não acredito em finais felizes.

DE ONDE VÊM AS IDÉIAS?

Estava revendo minha listagem geral, onde estão registradas todas as 307 histórias criadas nos meus mais de 25 anos de carreira, e observei como as tramas são variadas, os locais de ambientação, as épocas escolhidas e eu mesma me perguntei: “caramba, de onde eu tiro tantas idéias diferentes?” Essa é uma pergunta que não é fácil responder. As idéias vêm de toda parte, e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Elas parecem já estar dentro de mim e, de repente, com o estímulo certo, elas brotam, como se explodissem, chegam à tona e se tornam reais. Essa resposta na verdade não resolve a questão, que passa a ser “que tipo de estímulo é o certo?” O que me faz juntar certos elementos e construir com eles uma história?

Bem, algumas idéias me vêm em sonhos. São sonhos reais, vívidos, que me impressionam de alguma forma e já vêm prontos – as personagens, os temas, a trama básica, indicações de ambientação. Meu trabalho é só organizar a estrutura, completar eventuais lacunas do que foi dado, acrescentar elementos secundários e acessórios (por exemplo, personagens secundárias, estação do ano, outros temas relacionados) e o escrever propriamente dito, que é quando tudo se entrelaça e a história nasce de fato. Esse processo aconteceu com O Aro de Ouro, O maior de todos, Vingança, Primeiro a honra, O cisne, De mãos dadas, O processo de Ser, O Além.
 
Às vezes é uma experiência significativa, num momento determinado. Um exemplo é Nem tudo que brilha…, que nasceu quando, após ler o conto O barril de amontilado, de Edgar Alan Poe, eu abri uma janela de madeira no prédio de aulas da Escola de Música da UFRJ e ela tinha sido fechada por fora com tijolos. Eu já estava envolvida com os emparedamentos de Poe, por isso foi muito impressionante para mim aquela janela emparedada. Então aconteceu a história do casal inocente que se envolve nos mistérios de uma casa, onde aconteceu um assassinato (eles não sabem). Aos poucos, eles vão se envolvendo com os fatos que descobrem e, de repente, a história da casa pode se repetir com eles. Como na Escola de Música, há pela casa janelas que não se abrem e estruturas misteriosas. Como em Poe, há, com as devidas adaptações, Montresor e Fortunato, claustrofobia, e uma espécie de vingança pelo não-feito.
 
Às vezes, a ideia vem porque fico pensando “como seria se”, ou “como teria sido para alguém viver tal situação”. Foi o que gerou, por exemplo, Construir a terra, conquistar a vida, que é a união de duas idéias. A primeira foi a conjectura “como teria sido a vida dos primeiros degredados portugueses que vieram para o Brasil?”A segunda ideia buscava imaginar “como deve ter sido para um europeu estar no Brasil, tão longe de sua terra e sua gente, com a perspectiva de nunca mais sair daqui?” Duarte nasceu para ter esses sentimentos e me dar as respostas às minhas indagações.
 
E há também os testes de possibilidades de combinação, em que eu invento as personagens, uma situação para elas se encontrarem e vou ajustando a caracterização à medida que vou vendo aonde os elementos me levam. Não deixam de ser o tipo “como seria se”, só de uma forma mais aberta. São assim A noiva trocada, Não é cor-de-rosa, Pelo poder ou pela honra, À procura.
 
Tudo isso são estopins de coisas que estão sempre em formação dentro de mim. Os temas são recorrentes, as questões abordadas são sempre as mesmas, expressas de formas diferentes, com roupagens diferentes mas a mesma essência. Então, na verdade, mesmo fazendo um texto detalhado, essa questão sobre de onde vêm as idéias não tem de fato uma resposta. Minha escrita não é a aplicação de uma fórmula pronta, mas é processo, é amadurecimento, é a expressão do meu eu e da minha vida.

SEGREDOS NAS HISTÓRIAS

Às vezes eu me vejo em situações complicadas na hora de escrever esses textos que publico aqui. Percebi que cito mais umas histórias do que outras, e estou tentando equilibrar essas contas mas não é tão simples como pensei.

É muito mais fácil falar de histórias longas, romances de mais de 200 páginas, pois são histórias com mais personagens, mais eventos, mais temas trabalhados, mais assunto para falar. Tratar de contos é difícil, pelas próprias características do conto: poucas personagens, trama simples, ambientação simples. Acabo não tendo muito o que dizer. Há histórias também que eu tenho que ter cuidado ao me referir, pois têm segredos que eu não gostaria de revelar antes da hora. É o caso de O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha…, O Cisne, O maior de todos, Vingança. Mesmo quando a história não tem grandes segredos, os caminhos da trama não devem ser contados em detalhes para não tirar do leitor a surpresa de descobrir certas coisas junto (ou antes!) da personagem. Então também por isso eu cito mais umas histórias do que outras. Pelo poder ou pela honra, por exemplo, é um problema para mim, pois há certos detalhes na caracterização das personagens que são decisivos na disputa entre os irmãos. Mantenho o mistério na página 1 mas começo a dar as informações a partir da página 2. Então, se eu for falar da história em geral, vou acabar revelando alguns segredos, e o trabalho que tive para ir entregando as informações em doses homeopáticas terá sido em vão. Então eu cito pouco essa história não por não gostar dela, mas porque eu não quero entregar os segredos que eu inventei para ela. O que posso dizer é que é uma história confusa, como o momento que eu estava vivendo. Consegui decifrar alguns símbolos, que me fizeram entender como o meu inconsciente sentiu aquele ano de 1993. E é só o que posso falar dela. O máximo de detalhes que posso contar já está na sinopse da história e no pequeno trecho que disponibilizei.

Enquanto isso, fico eu aqui inventando textos genéricos, que falam mais do processo do que das histórias em si, para não contar os segredos que minhas personagens guardam com tanto empenho.

PROTAGONISTAS E ANTAGONISTAS

Pela definição, protagonista é a personagem principal, o “mocinho”, o “herói”, o “bonzinho”, quem carrega a trama e conduz a história. É por ele que o leitor torce, para que ele chegue ao final feliz esperado. Antagonista é a personagem que se contrapõe à protagonista, criando empecilhos ao final feliz que a protagonista busca. É o “bandido”, o “vilão, o “malvado”.

Nas minhas histórias, em geral tenho um casal protagonista (o mocinho e seu par ou a mocinha e seu par). Às vezes tenho dois casais, quando são dois mocinhos (Duarte e Fernão; Curt e Karl) e seus pares. Mas o que posso dizer de meus antagonistas além de que não são óbvios? Muitas vezes os papéis se confundem, se invertem, se alternam. Minhas personagens vão além do rótulo de “bonzinho” e “malvado”. Em Pelo poder ou pela honra, Estienne e Fréderic são alternadamente o problema e a solução da disputa. Qual dos dois será o verdadeiro antagonista de Ninette?

Em O maior de todos, Curt e Karl são antagonistas um do outro, mas os dois juntos são os protagonistas da história. Nenhum dos dois é totalmente bom nem totalmente mau, nem sempre certos, nem sempre errados – como tudo na vida.

Achei bom o trabalho que fiz em O canhoto, ao falar de Hans Günter. Ele é herói e demônio, volta a ser herói, mostra-se um perdedor, um salvador, para, no fim, ser apenas humano.

E o que dizer quando o protagonista é o “vilão” da história, o “malvado”? É o que acontece em Vingança – como o próprio título já sugere. É interessante porque, se o protagonista é o vingador, então antagonistas são as vítimas, as pobres vítimas indefesas. De certa forma, é uma inversão, até que se conheçam os fatos que provocaram a vingança. Só então os “bonzinhos” vão para o lugar de protagonistas e os “mauzinhos” ficam no lugar de antagonistas, e o vingador pode ter esperança de perdão.

Já Ágila, em Amor de redenção, ocupa os dois lugares: é o protagonista da história, ao mesmo tempo em que age como antagonista de seu par e, portanto, de sua própria felicidade. Camila precisou assumir o lugar de protagonista para ajudar Ágila a decidir se chegaria ao final como seu par (protagonista) ou como antagonista.

Essa definição de papéis nunca é muito evidente porque muitos dos conflitos não são entre personagens, mas de uma personagem consigo mesma, ou entre personagem e meio social. E eu procuro sempre deixar as personagens sem todas as características definidas, para que os “bonzinhos” possam ter ataques de fúria, e os “mauzinhos” possam ter rompantes de generosidade. Procuro fazer minhas personagens imperfeitas e imprevisíveis, como são as pessoas de verdade; então fica difícil enquadrá-las nessas categorias fechadas.

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.
 
Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.
 
O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.
 
O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.
 
Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do cavaleiro bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.
 
Nem tudo que brilha… foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.
 
O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.
 
O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.
 
Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.
 
Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.
 
A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.
 
Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.
 
Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.
 
Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].
 
O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.
 
Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do cavaleiro bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.
 
Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:
 
Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.
 
História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.
 
Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.
 
O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.
 
À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.