Primeira Grande Guerra

QUANTO DETALHAR

Muito importante na hora de construir a verossimilhança de um romance histórico é incluir na ficção fatos históricos reais, de maneira que as personagens fictícias participem e sejam afetadas pelos eventos históricos. Dessa forma, a história da personagem parece possível de ter acontecido de verdade, e o leitor acaba acreditando que a ficção é real. Acho que isso é um ponto positivo num romance histórico.

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, eu não tinha essa consciência, e meus primeiros romances, embora tenham as características da ambientação escolhida, não se apegam a esse tipo de pormenor. As personagens moram naquela cidade, ou naquela região, mas não naquela rua específica, naquela casa específica, em que o sol entra pelas janelas de manhã. Eu só comecei a me preocupar com isso quando fui buscar o passado da minha cidade, para escrever Uma antiga história de amor no Largo do Machado, e tinha que fazer minhas personagens andarem pelas ruas que existiam na época, e verem os prédios que havia na época. Em 146 anos (o lapso de tempo entra a data da história – 1845 – e o ano em que eu estava – 1991), a cidade do Rio de Janeiro mudou muito, com aterros, construções e expansão, e eu tinha uma cidade muito diferente para apresentar.

Mesmo assim, a história real era passiva, era um cenário a ser visitado, e não um redemoinho que carregasse minhas personagens em sua passagem. Foi somente em Construir a terra, conquistar a vida que as coisas começaram a se entrelaçar, pois Duarte veio para o Rio de Janeiro para lutar contra os franceses, na batalha que ficou conhecida com o nome de Uruçumirim. Duarte viu Estácio de Sá cair atingido pela flecha que o acertou no rosto; Duarte foi ao enterro de Estácio de Sá; Duarte construiu sua casa nova no Morro do Descanso, no terreno que Mem de Sá lhe cedeu. Depois, quando os franceses voltaram, e estavam em Cabo Frio, Duarte foi atrás deles, enquanto seus filhos patrulhavam a praia. Tudo o que aconteceu na cidade teve a participação efetiva de minhas personagens. Tenho muito orgulho do que consegui realizar.

O canhoto também tem esse entrelaçamento, inclusive com a participação de pessoas que existiram de verdade, e o principal evento de que minhas personagens participam é a Terceira Cruzada. Não é toda história que pede esse tipo de trabalho. Alguns romances são mais fechados, e uma ambientação básica já cumpre seu papel. Em outros romances, entretanto, a cidade, com sua história e geografia, também é personagem, e a narrativa fica mais aberta a interferências da realidade. Minha história atual é assim. Já inclui a Greve Geral de 1917, e informações sobre a Grande Guerra, em que o Brasil ingressou em 1918. Faltava contar a Gripe Espanhola, também em 1918, mas achei que a narrativa estava meio arrastada, e eu estava demorando muito para avançar, então resumi o episódio da Gripe em um parágrafo e entrei feliz em 1919, contando sobre o novo emprego de Toni. Mas, cada vez que eu relia, me batia um desconforto de pensar “parece que a Gripe foi só isso, e não a tragédia que foi”. Uma amiga minha resumiu meu sentimento “Você já passou pela Gripe Espanhola e nenhum personagem seu morreu? Não pode”. De fato, não pode. Se as personagens foram para as ruas na Greve Geral de 1917, se estão pagando caro pela comida por causa da Grande Guerra, elas também precisam pegar Gripe Espanhola. Então voltei para contar como minhas personagens enfrentaram uma das maiores epidemias da época, que vitimou mais de 35 mil pessoas em todo o Brasil, incluindo Rodrigues Alves, o presidente eleito, que morreu em janeiro de 1919, antes de ser empossado para seu segundo mandato. Mas quem matar? Quem poupar? Já me apeguei às personagens secundárias que se destacam mais, e não tem graça matar quem não tem importância, pois não fará falta na história. Também é preciso decidir se Toni será infectado ou não, e como a doença progrediria nele, que é a personagem principal. Muitas questões a definir, em nome da verdade do texto.
 
Então, de posse do conhecimento dos eventos históricos da época escolhida, é preciso detalhar todos os grandes momentos, que marcaram aquela época. Mas detalhar não é escrever uma página contando o que foi o evento e seus desdobramentos – podemos deixar isso para os livros de não-ficção. Detalhar, no romance histórico, significa envolver as personagens no evento, jogá-las no turbilhão, para que elas vivam aquilo e deem à ficção uma aparência de realidade histórica.

PESQUISA HISTÓRICA

Precisei ir à Biblioteca Nacional no início do mês, então aproveitei que já estava lá para a pesquisa que eu precisava fazer para minha história atual. Ao se escrever romances ambientados no passado, o mais difícil – e também o mais interessante e desafiador – é saber detalhes históricos para usar no romance. Hoje em dia, com a Internet, é fácil descobrir a história da cidade em que o romance está ambientado, a geografia – inclusive com mapas históricos, e alguns aspectos da vida cotidiana, como festas e eventos culturais. Mas há certos pormenores que textos históricos não contam, e que somente uma pesquisa específica em fontes primárias (documentos da época) consegue resolver. Minha dificuldade no momento era quanto ao valor do dinheiro. Que a moeda no Brasil nas décadas de 1910 e 1920 era o Real (que as pessoas chamavam de “réis”) eu já sabia. Mas quanto valia, por exemplo, mil réis (R 1$000)? Quanto se recebia de salário? Quanto custava a cesta básica? Como Toni oscila entre empregado e desempregado, eu precisava ter certeza de quanto ele ganha e quanto gasta – até porque muitas vezes (por exemplo, quando ele é contratado para um novo emprego) preciso citar isso no texto.

Quando estudei sobre e Greve Geral de 1917, encontrei a informação de que um operário ganhava em média cinco mil réis (R 5$000). Achei que esse valor era por mês, o que fazia de R 1:000$000 (um conto de réis) uma fortuna. Mas eu tinha que ter certeza se minhas suposições eram corretas, então precisava de um tipo de documento da época que me situasse de uma forma mais segura.

Cheguei ao setor de periódicos da Biblioteca Nacional e perguntei como procurar o que eu precisava. A moça que me atendeu explicou: pelo título da publicação. Hein? Pelo título? Mas eu não faço ideia de qual é a publicação que me serve. Mas afinal o que eu quero? Jornais publicados em São Paulo em 1918 (arbitrei a data, considerando a Grande Guerra) que tenham classificados. Eu já tinha feito esse tipo de pesquisa para Tudo o que o dinheiro pode comprar, e achei uma boa estratégia para repetir. Na época, eu procurava a cotação do café para exportação, e ofertas de escravos à venda, para calcular a receita de Miguel, e quanto ele poderia dar de mesada a mulher, por exemplo. Desta vez também, a funcionária, experiente, logo se lembrou de algo e me trouxe três rolos de microfilme do jornal O Estado de São Paulo em 1918. Eu pulei todas as notícias e li apenas os classificados de algumas edições de janeiro e algumas edições de abril. É fantástico, pois encontrei anúncios de oferta de casas para vender e para alugar; roupas masculinas e roupas de cama, mesa e banho; vagas em pensões; e também ofertas de emprego, quando descobri que a informação de R 5$000 que eu tinha se referia à diária, e não a um salário mensal. Descobri também quanto custam ingressos para o cinema e para o teatro; livros, revistas, exemplares e assinatura do jornal. Com essas informações, pude calcular os salários de Toni em seus vários empregos, as despesas dele de estadia e alimentação, e também despesas avulsas, como roupas novas e diversão. É claro que arbitrei quanto custam as coisas que ele paga, mas com uma base de realidade sólida. Se a pensão do anúncio cobra entre R 70$000 e R 80$000 por mês, Dona Luizinha pode cobrar R 68$000; se cada refeição da pensão do anúncio custa cerca de R $600 (seiscentos réis), Dona Luizinha pode cobrar R $640 (seiscentos e quarenta réis, ou dois cruzados). Se uma loja chique cobra R 4$600 por uma camisa, Toni pode comprar numa loja popular por R 1$500. Bem, eu precisava também saber se ele teria sempre dinheiro para pagar suas contas, então montei uma tabela de receitas e despesas, e ajustei os salários e o tempo dele em cada emprego para que ele tenha – ou não – como pagar suas despesas entre 1915, ano em que ele chega em São Paulo, e 1922, quando ele receberá uma proposta de emprego imperdível, desde que… Não vou contar, né?

Faltava só uma informação, que não consegui encontrar nos classificados: o preço da passagem de trem para ele voltar para a casa dos pais em São Carlos. Ajudou-me a Internet, ao me jogar na página do governo do Estado de São Paulo, que já digitalizou documentos governamentais, inclusive do início do século XX, onde encontrei os decretos de aumento de preço. Então agora essa parte financeira está resolvida, e não preciso mais deixar buracos no texto, esperando pela informação. Agora é só organizar meu tempo, para poder escrever mais rápido.

SURPRESAS E IMPREVISTOS

Cheguei ao ano de 1918 e Toni está desempregado. Há uma guerra, e o Brasil se viu impelido a participar. Então imaginei que, no desespero, Toni gostaria de ir para a guerra, mesmo que fosse para morrer e… e por que ele não procuraria seguir a carreira militar, já que ele está procurando emprego em todo lugar? Só então me dei conta de que ele faz 18 anos justamente em 1918 e precisa se apresentar para o serviço militar obrigatório. Ele serve por um ano, depois não sai, e seus problemas de dinheiro e emprego estão resolvidos. Sim, é ótimo e perfeito… para ele! Para mim é péssimo, porque preciso dele desempregado em 1922 para o ponto de virada mais importante da história. Minha esperança era de que a obrigatoriedade do serviço militar fosse algo recente. Dessa forma, ele não teria que se apresentar e não correria o risco de resolver seus problemas assim. Pesquisei na Internet e o que foi que eu descobri? Que o serviço militar para todos os rapazes aos 18 anos existe no Brasil desde 1906 mas só se tornou obrigatório em 1918, justamente por causa da Grande Guerra. Eu não contava com esse tipo de imprevisto. Passo tanto tempo escrevendo sobre o passado remoto que esqueço das questões do passado mais recente, que ainda influenciam a vida atual. Então agora tenho que inventar um jeito dele ficar quite com suas obrigações junto ao Exército Brasileiro sem ir para a guerra, e sem se tornar militar de carreira. A questão da guerra até é mais fácil, porque o Brasil enviou poucos contingentes. Mas uma carreira militar para Toni está difícil evitar. Tenho que estudar mais sobre como era o serviço militar nessa época – e eu tenho parentes e amigos no Exército Brasileiro que talvez saibam do assunto para me ajudar – para salvar minha história do colapso. Se o ano de 1922 não for exatamente do jeito que eu planejei, a história perde o sentido e terá que ser descartada.
Mas por outro lado, é uma boa oportunidade de usar um deus-ex-machina. Vou estudar primeiro e depois decido o que fazer.

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 6 MESES

Ontem precisei procurar o nome de uma empresa específica, onde Toni está trabalhando, e me deparei com as expressões “triângulo central”, “antigo triângulo”, referentes à organização urbana de São Paulo. Fui pesquisar e acabei fazendo um estudo sobre geografia histórica de São Paulo – a fundação, urbanismo na época colonial, expansão urbana, os rios (hoje canalizados e alguns subterrâneos) Tamanduateí, Itororó, Saracura, Anhangabaú, além dos famosos Tietê e Pinheiros. Li também sobre os marcos urbanos centrais mais importantes desde a fundação e até o início do século XX: o Pátio do Colégio, o São Bento, a Sé, a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, os cafés, as tabernas, a Avenida Paulista com o Parque Villon, os bairros operários, e fui desenhando os contornos da cidade em 1917. Estou encantada com tudo o que estou descobrindo (e aprendendo) sobre a história e a geografia de São Paulo.
Na minha história, o ano de 1917 está chegando ao fim, e o Brasil acaba de entrar na Primeira Grande Guerra, enquanto Toni prossegue em sua luta pessoal por uma vida melhor. Na semana passada, organizei todos os fatos fictícios em ordem, e anotei tudo na minha tabela temporal. Ou seja, peguei aquela estrutura da história, da fase de elaboração, e inclui na tabela com os eventos da história de São Paulo e do Brasil. Então agora eu já sei quando cada coisa vai acontecer, quantos meses ele vai ficar em cada emprego, que emprego será. Está tudo organizado de forma que eu rapidamente consigo acessar as informações. Às vezes tenho vontade (mais do que necessidade) de imprimir os calendários desses anos, só para saber que dia da semana caiu cada evento, mas logo tento me convencer de que saber o dia da semana não é importante nesse caso. Mas, para um dos eventos, o dia da semana é importante, então provavelmente terei que consultar o calendário na hora de marcar o casamento.

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 4 MESES

Minha história ainda não tem título. Continuo chamando de Rosinha, embora Antonio tenha se tornado a personagem principal. Já tenho mais de 50 páginas escritas e já comecei a andar com alguns “apetrechos” na bolsa: mapas e quadro do tempo.
 
Eu não conheço São Paulo. Já andei por alguns pontos da cidade, mas não o bastante para dizer que sei onde ficam os bairros, os parques, as ruas, os marcos de referência. Bem, não sabia, porque imprimi alguns mapas para me auxiliarem a visualizar por onde Toni está andando. É a maravilha do Google Maps: diferentes níveis de aproximação (zoom) para que eu tenha mapas de ruas, de bairros, de região. São ao todo cinco, cada um em pelo menos duas folhas A4 coladas com fita de empacotamento. Até o final da história, conhecerei São Paulo melhor, pelo menos na área entre as Marginais (Barra Funda, Perdizes, Pinheiros, Vila Mariana) e até Tatuapé e Água Rasa. São os limites da região por onde Toni anda, procurando emprego. Até agora, ele está tendo dificuldades, mas sem maiores problemas.
 
Outra necessidade que senti foi de fazer um mapa temporal – um quadro de meses e anos – onde eu pudesse anotar, para consulta rápida, os principais eventos da história de São Paulo, do Brasil e do Mundo, para inclui-los na minha história. É um recurso que já usei em Construir a terra, conquistar a vida e que foi extremamente útil. Estou num momento bem interessante – os anos de 1917 e 1918 – quando a cidade de São Paulo viveu os três “G” que marcaram aquela geração: a Greve Geral de 1917; a Grande Guerra, na qual o Brasil ingressou em 1917; e a Gripe Espanhola, que chegou ao Brasil em 1918. É maravilhoso ter tantos eventos importantes para Toni participar. É uma forma simples e eficiente de dar verossimilhança à história e contextualizá-la. Então, à medida que vou lendo e pesquisando, vou preenchendo o quadro e usando as informações na história. É claro que nem todos os anos têm coisas legais para aproveitar. São momentos para aprofundar os problemas das personagens ou para dar uma “corridinha” com a narração, até outro momento interessante, seja pela história real ou pela história inventada.
 
Estou ansiosa para chegar logo ao próximo ponto de virada, que acontece daqui a alguns anos, quando Toni terá novamente uma escolha difícil a fazer (o nome dele foi escolhido com isso em mente, como contei aqui). São os melhores momentos, pois é quando o conflito interno da personagem explode, e conhecemos melhor seu caráter e sua personalidade. Mais um pouco e eu chego lá.