Revisão

FERRAMENTA

Alguém consegue imaginar um cirurgião – recém-formado que seja – declarando que gosta muito do que faz mas que não sabe usar muito bem um bisturi? Como confiar num dentista que comete grandes erros com a broca? Quem encomendaria a confecção de um armário a um marceneiro que se atrapalha para usar a serra? O mínimo que se espera de um profissional é que saiba utilizar suas ferramentas de trabalho. O bisturi é ferramenta do cirurgião; a broca é ferramenta do dentista; a serra é ferramenta do marceneiro. Da mesma forma, a língua é ferramenta do escritor. Como aceitar que escritores – iniciantes que sejam – não saibam usar muito bem o português? Ou que cometam grandes erros gramaticais? As editoras fazem revisão? Sim, mas os revisores devem corrigir os deslizes que passaram despercebidos. Não é função dos revisores reescrever frases inteiras, nem reestruturar o texto, para que faça sentido. Afinal, como fica a questão da autoria? Reescrever tem tanto valor quanto escrever. Ser escritor não é apenas inventar excelentes histórias; é principalmente trabalhar a linguagem para contar essas histórias. Quem inventa bem é inventor. Para ser escritor, é preciso escrever bem. A língua, as palavras, com sua sintaxe e semântica, são nossa ferramenta principal, a matéria prima com que construímos universos, reconstruímos épocas, e contamos as histórias de nossos protagonistas.
Dúvidas existem (sempre!) Deslizes acontecem. Ninguém consegue saber tudo, aplicar todas as regras corretamente todas as vezes. Para isso, existem os dicionários e gramáticas, e até os revisores das editoras. O trabalho de escrever, revisar, corrigir o texto tem que ser do escritor. Só a mãe (ou o pai) da criança conhece seu DNA, e deixará o texto como ele deve ser.

Então, caros colegas, vamos estudar a língua pátria, nosso amado português, para que saibamos fazer textos que, lapidados e polidos, brilhem como diamantes.

INTERMINÁVEL

Esse é o caso da revisão de Construir a terra, conquistar a vida. Já não acredito que conseguirei fazer a publicação este ano. Mas uma história que levou 10 anos gestando na minha mente; seis anos sendo escrita; um ano descansando; um ano sendo digitada; e dez anos esperando sua vez de ser publicada dificilmente seria revisada em apenas alguns meses. É muito bom ter contato com o texto, aperfeiçoá-lo, torná-lo mais bonito e verossímil. Não vou fazer uma revisão de qualquer jeito, só para publicar mais rápido, e os detalhes levam mais tempo do que o “grosso”. Nessa fase da revisão de acrescentar expressões arcaicas, não basta dar um comando para trocar todos os “muito” por “mui”. É preciso analisar caso a caso, se, naquela frase, naquele momento, o “mui” vai funcionar melhor do que o “muito”. Isso é demorado, mas o efeito final está me agradando muito. Acho mais bonito e convincente, em vez da personagem dizer “Teresa é uma moça muito bonita”, ela dizer “Teresa é uma moça mui formosa”. É esse tipo de detalhe e cuidado que estou tendo. Depois que acabar de trocar todas as palavras que quero, ainda será necessária uma nova leitura total, para verificar mais uma vez se os arcaísmos estão apropriados – afinal, não quero que uma palavra ou expressão, só por serem mais apropriadas para a época em que a história se situa, prejudique a leitura e o entendimento do leitor. Clareza para mim é sempre a prioridade.
Além do trabalho ser grande, o tempo que posso dedicar a essa atividade tem sido muito pequeno, apesar de ser minha prioridade. Diferente da História de Toni, que eu posso escrever em qualquer lugar, pois só preciso de caneta e papel, a revisão de Construir a terra, conquistar a vida requer que eu ligue meu computador de casa, algo que só tenho feito em algumas poucas horas do final de semana, pois tenho dado preferência às minhas sete ou oito horas de sono durante a semana; e há atividades de vida doméstica e familiar a cumprir durante o final de semana. O dia que eu ganhar na loteria e não precisar mais trabalhar, meus livros serão escritos e publicados muito mais rapidamente. Enquanto isso, só me resta ter paciência e tranquilidade para fazer as coisas com a rapidez que eu posso, que em geral fica aquém da rapidez que eu quero. Neste caso, a realidade não pode ser modificada, então o jeito é conformar-me a ela e atrasar alguns projetos.

ATIVIDADES

Estou relapsa nas publicações do blog? Pode ser. Mas prefiro pensar que estou cuidando de coisas mais importantes: a escrita de um livro e a publicação de outro. Como disse no texto publicado em 1/7 (por acaso o texto anterior, já que não publiquei outro depois), a preparação de Construir a terra, conquistar a vida está me dando um trabalho maior do que o previsto, para corrigir falhas acrescentar detalhes relevantes, harmonizar essas interferências atuais com o texto original. Ao mesmo tempo, a criação da história de Toni não para, e eu preciso escrever as partes que invento. Então me parece natural que eu não tenha tempo de produzir textos relevantes para o blog, e eu evito vir aqui fazer blá-blá-blá.
Por isso, meus leitores, tenham compreensão se vierem aqui e não houver nada novo para lerem: quer dizer que estou adiantando meus livros, preparando meus romances para sua apreciação.

REVISANDO CONSTRUIR A TERRA, CONQUISTAR A VIDA

Achei que seria mais fácil fazer a revisão de Construir a terra, conquistar a vida. Afinal, depois de dez anos lendo e relendo, era só conferir que estava tudo certo e pronto. Engano meu… Justamente pelo lapso de tempo, pude perceber quanta coisa há a corrigir e rever. Em primeiro lugar, em alguns momentos eu me perdia quanto a quem está falando, sempre que a conversa incluía mais de duas pessoas. Então, para poupar o leitor de ter que reler a página e tentar adivinhar que, pelas características da fala, deve ser tal personagem a falar, fui lá e marquei quem é que está falando. Às vezes ficou meio repetitivo o “ele disse / ela disse”, mas é melhor encher o texto de “disse” do que deixar o leitor sem informação. Gosto que meus textos sejam de fácil leitura, então é preciso dar informação, em vez de sonegá-la e deixar a conclusão a cargo da adivinhação do leitor.
Nesses dez anos entre acabar de escrever e revisar, pude ler outros livros sobre a época, e aprendi alguns truques de contextualização, que resolvi usar. Um exemplo é quanto a dinheiro. Quando Fernão começa a trabalhar, ele tem um salário, que ele vai mostrar à namorada, alegrando-se porque logo poderão casar e é claro que o valor é citado. Eu tinha arbitrado um valor muito abaixo dos salários que se praticava na época, então agora tive que dar um “aumento” a Fernão. Depois disso, é necessário fazer a correção em todas as 827 páginas em que essa referência pode acontecer – sim, 20 anos depois eles podem estar dizendo “lembra de quando você ganhava só duzentos réis?”, então todas as páginas precisam ser revisadas.
Depois veio a questão da situação no tempo. Eu só às vezes citava no texto o ano em que as coisas estavam acontecendo. Afinal, quando escrevi, eu usei uma tabela temporal e sabia perfeitamente em que ponto dela a história estava, e quando todos os eventos tinham acontecido. Agora, dez anos depois, sem a tabela (que é claro que não vai ser publicada junto com o livro), eu fiquei totalmente perdida, sem saber em que ano as personagens estavam fazendo tudo aquilo, quantos anos as crianças teriam. Significa que é necessário situar o tempo ano a ano, e foi o que eu fiz. Aí é claro que algumas cenas são irresistíveis, e eu acabei demorando mais para reler de novo.

Feito tudo isso, era hora de incluir alguns termos de época, que eu acabei não colocando quando escrevi para fazê-lo agora, na hora da revisão, pois faltava pesquisar melhor. Mas foi quando (já não me lembro de porque tive essa luz) resolvi puxar o índice, e descobri que minha história de 76 capítulos não tem o capítulo VIII (sim, minha numeração de capítulos é em algarismos romanos). Fosse o LXXIV, ou o LXVII, tudo bem: eu renumeraria todos os capítulos seguintes sem o menor problema. Mas era o capítulo VIII! Então revi a estrutura inicial e consegui dividir o capítulo X em dois, resolvendo a questão. Agora, finalmente, vou poder incluir os termos arcaicos, com muito critério, para que o uso deles não prejudique a leitura e a compreensão, e encerrar essa longa e trabalhosa revisão, para poder fazer a diagramação e depois a publicação.  Espero que o resultado fique bom, porque estou realmente me esmerando para fazer o melhor.

POR QUE UMA FILA DE PUBLICAÇÃO?

Há dois motivos para haver romances aguardando publicação. O primeiro – e o mais óbvio – é que eu comecei a escrever em 1985 mas só comecei a publicar em 2002. Na época, fiquei pensando se devia publicar primeiro a história mais antiga ou a mais recente e concluí que devia começar pelas mais antigas; que, se começasse pela mais recente, depois não ia querer publicar as mais antigas.

O outro motivo – que acaba sendo mais relevante, diante de todo meu processo de criação – é que não consigo acabar de escrever e publicar em seguida. Gosto que a história passe um tempo na gaveta, amadurecendo. Depois de um ano guardada, eu a leio com outra visão e outra maturidade, e faço um julgamento mais isento, menos emocional do que o julgamento que tenho quando estou escrevendo. Então a história escrita sempre tem que esperar pelo momento certo de ser publicada.

Sou bastante cuidadosa com essa questão do amadurecimento do texto. Gosto de ler e reler muitas vezes antes de publicar qualquer coisa. Os textos deste blog também têm fila de publicação. Vou escrevendo à medida que as idéias vêm, mas publico muitas vezes em outra ordem, conforme o assunto que eu queira divulgar naquele dia. Eu só comecei o blog quando já tinha uns cinco textos escritos. Escrevo em média 2 ou 3 textos por semana, e publico 3 textos por mês, o que me garante uma boa reserva, caso eu passe algumas semanas só revisando, sem escrever nada novo. Quando um texto é publicado, ela já foi lido e relido, reescrito, corrigido muitas vezes. Este texto, por exemplo, começou a ser escrito em 30 de agosto de 2009.