Revolução Constitucionalista de 1932

ROMANCE DE ÉPOCA

Um alerta do Google me levou ao site Ler é o melhor lazer, de minha xará, para ver o texto que ela publicou explicando a diferença entre romance histórico e romance de época. Segundo ela, ambos são escritos no presente, com ambientação no passado, mas um romance é histórico quando há fatos históricos citados no romance; e um romance é de época quando não cita os fatos históricos mas se propõe apenas a reconstruir a realidade e a visão de mundo daquela época.

É claro que fiquei curiosa para classificar meus romances e cheguei a uma conclusão: de todos os meus romances ambientados no passado, são romances históricos Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Construir a terra, conquistar a vida, O canhoto, De mãos dadas; e são romances de época O destino pelo vão de uma janela, Primeiro a honra, A noiva trocada, Vingança, Não é cor-de-rosa. O capítulo II de Amor de redenção, que acontece no passado, estaria também na classificação de romance histórico. [obs.: estou sempre revisando essas classificações e não concordo mais com essa]
Interessante perceber o equilíbrio dessa divisão (seis romances históricos; cinco romances de época). Acho que meus romances de época têm uma leveza maior, provavelmente pela falta de compromisso com os eventos registrados pela história. Por outro lado, a presença dos eventos históricos na trama dá maior verdade e dramaticidade a meus romances históricos. Qual eu gosto mais de fazer? Os dois. Adoro a complexidade que a presença dos fatos reais dá aos romances históricos e também adoro o desafio de contextualizar os romances de época sem usar os fatos históricos. Se a trama estiver no passado, a história já me agrada. Não que eu não goste de ambientar romances no presente; mas o passado tem um sabor especial para mim.
Outra coisa que achei interessante foi que, para mim, os dois tipos requerem a mesma qualidade e quantidade de pesquisa e trabalho de contextualização. Usar ou não fatos e personalidades reais não é decisão minha, mas necessidade da trama.
De mãos dadas não era para ser um romance histórico. Não é como O canhoto, que tem já na sinopse que “Nicolaas participa da Terceira Cruzada”. Mas eu não posso ver uma revolução acontecendo em São Paulo que já ponho o pacato Toni sofrendo seus efeitos. Foi assim na Greve Geral de 1917 e na Revolução Paulista de 1924. Ainda bem que acabo a história em 1928, porque era bem capaz dele se ver forçado a combater na Revolução Constitucionalista de 1932. 

PREOCUPAÇÕES “PÓSTUMAS”

Tenho estado preocupada com o futuro de Toni. Não com os eventos que eu vou contar, mas justamente com o que vai acontecer a ele depois que eu acabar a história. É muito fácil para mim dizer que a história acaba em 1928, colocar ponto final e partir para inventar outra coisa. A história acaba, mas não a vida dele. Será que a Grande Depressão, de 1929, vai atingi-lo de alguma forma? Será que ele vai perder dinheiro? Será que vai perder o emprego? Onde estará ele durante a Revolução Constitucionalista de 1932? Será que ele se sentirá impelido a participar de alguma forma? Será afetado, mesmo se ficar de fora (como aconteceu durante a Greve Geral de 1917)? Como serão seus filhos? Seus netos? Como será que ele vai ficar quando velho?

São dúvidas assim que povoam a minha mente. Mas Toni não é o primeiro, e provavelmente não será o último. O futuro das minhas personagens depois que a história acaba é sempre uma preocupação à parte, porque foge ao meu controle. Eu sei tudo o que vai acontecer com a personagem durante o período da história mas, em geral, não invento o que vai acontecer fora desse período. Às vezes sei algumas coisas – por exemplo, que a personagem não vai viver muito tempo mais; ou que os problemas que ela pensa que resolveu voltarão a atormentar; ou que o cônjuge querido não é perfeito como se desejava e há conflitos sérios à vista. Mas não fico detalhando esse tipo de evento, pois não vou contá-los a ninguém, então às vezes tenho certas angústias por não ter certeza do que vai acontecer a eles, nem quando, nem como.
 
Já aconteceu de eu pensar em fazer uma continuação da história, uma seqüência, num volume ou título separado – foi com Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, quando eu contaria como o bravo Haliwain se casou com a bela Adriane, como tiveram filhos, como a vida se tornou rotina e como, por fim, sendo protótipo de cavaleiro do ciclo arturiano, ele morreu bravamente em combate e, homenageando Tristão e Isolda, Adriane morreu de tristeza junto com ele. Quando tudo isso estava delineado e eu tinha a sequência de eventos, desisti: tanto esforço para escrever um livro só para contar que meu herói paladino é humano e morre? Achei que não seria justo para com ele e não levei a ideia adiante.
 
Outras duas vezes, eu consegui soluções diferentes: 1) em Amor de redenção mesmo sem detalhar, eu contei os eventos futuros mais relevantes – tanto que a história vai até 2047; 2) Construir a terra, conquistar a vida tem uma estrutura engraçada: os dois primeiros anos têm um ritmo, e depois de contá-los eu já poderia colocar ponto final e acabar ali a história. Mas ainda tinha tanto a contar, faltava nascer crianças, faltava decidir a vida de Fernão… então continuei, detalhando os eventos seguintes, escrevendo e contando: como nascem os filhos, como a vida se torna rotina, como a rotina muitas vezes é quebrada, como os filhos crescem, e se casam, e vêm os netos… Quando enfim pus o ponto final, o destino de todos já estava definido e, de certa forma, contado, então não havia nenhum resíduo a me angustiar.
 
Mas essas três histórias são exceção, e tiveram tratamento diferenciado. A regra mesmo é eu ficar me preocupando (inutilmente) com o futuro das minhas personagens, mesmo sabendo que, salvo raras exceções, a essa altura todos os problemas delas estão resolvidos, afinal estão mesmo todas mortas.