Sahara

TRAJETÓRIA

Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, eu fazia um pouco de quase tudo – romances, contos, crônicas, poemas livres. Saía escrevendo sem me preocupar com gêneros, que eram definidos depois: ficou em verso, é poema; ficou curto, é conto; ficou maiorzinho, é romance; ficou curto e tem relação com a realidade, é crônica. Como eu não sabia aplicar as formas características de cada gênero, o critério era assim, bem simplório mesmo. Mas, com o passar dos anos, à medida em que eu ia aprendendo a usar as formas, eu fui abandonando uns gêneros, e outros foram me abandonando. A crônica foi a primeira, porque não levo jeito para falar da realidade. Depois foi a poesia, porque versos livres facilmente se tornam prosa. O último que eu deixei de lado foi o conto, quando eu percebi que não sei usar bem as características formais dele. Também era necessário focar para aperfeiçoar. E assim, me sobrou escrever romances. É claro que não estou proibida de escrever outros gêneros – outro dia mesmo, escrevi O Além em forma de conto – mas meu cérebro vem se programando ao longo dos anos para pensar em forma de romance.
 
Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, o texto não era para ser lido, mas apenas um roteiro para que eu soubesse contar a história. Era simplesmente uma narração dos eventos, sem descrições, sem diálogos. Então, às vezes, aconteciam coisas assim: “eles conversaram a noite toda e resolveram se casar”; ou assim : “Sílvia ligou para Charles e eles combinaram de se encontrarem no Shopping. Passearam, foram ao cinema, lancharam e Charles deixou Sílvia em casa” (o verdadeiro não é exatamente assim mas é bem parecido); e a grande pérola é uma cena de Sahara, onde está escrito apenas “cena do balcão ou noite da sacada” para resumir uma das cenas mais importantes de toda a história; nela havia ações e diálogos fundamentais para o desenvolvimento da trama e, depois de 28 anos, obviamente não lembro mais dos detalhes para contar como foi essa cena. Com a experiência, percebi que o texto tinha que “ficar de pé sozinho”, e que tinha que funcionar para leitura de outras pessoas, então fui acrescentando descrições e diálogos, além de detalhes à narração. Nunca fui boa para escrever descrições estáticas, além de achar a leitura delas cansativa. Gosto de descrever ação, e contar o que as pessoas estão conversando, então foi o que busquei desenvolver e aperfeiçoar. Além disso, é no encontro e na conversa que as relações humanas acontecem, e são elas que me interessa mostrar. Hoje é difícil alguém pegar um livro meu sem comentar imediatamente “nossa, quantos diálogos!” No começo, essa observação me assustava um pouco, e eu ficava pensando “puxa, será que focar nos diálogos é errado?” mas hoje vejo como um elogio: meu estilo é facilmente identificado. É uma característica que venho desenvolvendo na minha escrita: a capacidade de dar todas as informações necessárias ao leitor durante as conversas das personagens. Meus diálogos vêm ganhando consistência e conteúdo, e se tornam fundamentais para a história. Toda vez que não tenho como montar um diálogo para dar a informação, e preciso dá-la pelo narrador, fico com a impressão de estar sendo didática e maçante. Prefiro ouvir a voz das personagens, em vez do chato do narrador. Dessa forma, não estou mais contando a história daquelas personagens, mas mostrando o que está acontecendo com elas. Fica mais visual. Acho mais eficiente e mais agradável. Penso que meus leitores concordam comigo.
 
Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, queria mudar os rumos da literatura nacional e ser imortal  da Academia Brasileira de Letras. O tempo me mostrou que há espaço no mundo para todo tipo de contador de histórias, e todos eles têm sua importância. A experiência me fez reconhecer que há muitos escritores melhores do que eu mudando os rumos da literatura nacional, e que pertencer à ABL não é a única glória do mundo. Hoje quero apenas contar minhas histórias do meu jeito, e encontrar leitores para elas. Gosto de ter feedback, inclusive para ouvir “não gostei” e “queria um final diferente” e o recente “esse deus-ex-machina que você usou ficou muito forçado”. É bom saber que as pessoas leem com atenção, se apegam às personagens, e criam expectativas de final.
 
Quando eu comecei a escrever, em abril de 1985, tinha medo de que fosse só uma fase, e que as ideias acabassem um dia. Hoje sei que é uma fase, sim, mas uma fase bem longa, que já dura 28 anos, e que ainda vai durar a vida toda.

DESCARTADOS

Neste texto comemorativo dos meus 27 anos de carreira literária, quero pegar um viés diferente. Em vez de falar nas ideias que deram certo, nos textos que viraram livros, vou falar nas ideias que não se tornaram histórias, e nos textos que foram descartados.
 
Pois é, nem tudo são flores na carreira artística. Ninguém consegue ser brilhante todo o tempo. Não se pode acertar todas. Cerca de 90% do que se produz serve apenas como exercício para não se errar de novo mais para frente. Só 10% (no meu caso, menos) de tudo o que se cria realmente merece ter prosseguimento e vir a público.
 
Sendo a época de fechar mais um ciclo (aniversário), posso fazer minhas contas e estatísticas: ao longo de 27 anos, tive 309 ideias (começos ou meios ou finais ou temas), das quais apenas 139 consegui desenvolver até o final (são histórias realmente) – ou seja, praticamente 45% de todas as ideias realmente se tornaram história com começo, meio e fim. Quando eu comecei a escrever, eu escrevia tudo o que eu inventava, sem me preocupar se depois conseguiria dar prosseguimento à ideia. Isso me fez ter muitos textos simplesmente começados, às vezes um punhado de páginas, uma cena, uma página, um parágrafo. É algo que poderia ter me desanimado, ter me feito questionar se eu de fato era capaz de levar uma narrativa até o fim, mas eu tinha tantas idéias novas todos os dias que considerava que em algum momento a inspiração para dar continuidade a todos os textos surgiria, talvez por mágica, talvez como um sopro das Musas. Acho que nem preciso dizer que todos esses textos incompletos, todas essas idéias que não renderam histórias estão devidamente descartados. Infelizmente, em algum momento eu rasguei algumas coisas, e hoje me arrependo, pois entre esses textos incipientes estava, por exemplo, o registro da primeira ideia de Rosinha, a história que hoje estou escrevendo. Então, embora eu tenha na memória que a estrutura básica foi mantida, como eu retomo muito certos temas, já não tenho certeza se a Rosinha de hoje realmente guarda vínculos com a Rosinha original, ou se misturei a estrutura com alguma outra história pelo caminho que tinha o mesmo tema (por exemplo, Espera e Raio de Sol).
 
Foram 139 histórias inventadas, mas não escrevi todas. Não basta a ideia ter um final, é preciso que eu goste dele, que eu considere que é uma história que vale a pena ser escrita. Também é preciso tempo para escrever. Então, são apenas 59 histórias que se tornaram texto – ou seja, 42% de todas as histórias inventadas e 19% de todas as idéias que já tive.
 
Escrever bem não é tarefa fácil. É preciso dar consistência à caracterização das personagens, descrever o ambiente, contextualizar, seguir a estrutura pré-estabelecida, criar bons diálogos, construir personagens interessantes, contar bem a história, redigir um texto coerente, não abusar do deus-ex-machina, utilizar as palavras e expressões corretamente, desenvolver cada cena no tamanho adequado, para citar só alguns aspectos. Então não é porque o texto está escrito que vou sair procurando editora para publicar. Tive sorte por perceber que era necessário apontar todos os defeitos e inconsistências dos textos e descartar tudo o que eu não considerasse próximo ao “perfeito” na época da análise. É por isso que, de tudo o que foi escrito, somente 19 textos permanecem, estou escrevendo um e pretendo escrever mais dois. Para efeito de estatística, vamos considerar que, pela minha experiência acumulada, essas três histórias que estou escrevendo ou vou escrever ficarão boas e serão sobreviventes (não, a minha experiência não garante que os textos ficarão bons. Só a avaliação posterior poderá julgar). Então, são 22 textos sobreviventes – ou seja, 37% das histórias escritas sobrevivem, o que equivale a quase 16% das histórias criadas, e 7% de tudo o que eu já inventei.
 
E que histórias são essas, que foram descartadas? Em geral, ideias bobas mas também ideias interessantes que eu não sei como desenvolver. Às vezes me vem à cabeça uma cena, ou um tema, e eu registro, para ver se acontece alguma coisa. Às vezes misturo idéias já tidas e invento uma coisa nova (Construir a terra, conquistar a vida é um exemplo de sobrevivente a partir de duas idéias descartadas). Pode dar certo ou não. Quero citar uns exemplos de histórias descartadas que me vêm à mente agora: a história de Juliana que pegou carona na garupa da bicicleta de André, na Ilha de Paquetá (escrita); a história de Roberto, que entrou de penetra numa festa grã-fina e saiu dela com o compromisso de dar uma festa igual (Champagne – não escrita); a história de Miguel, que comprou Alice para ser sua esposa (Tudo que o dinheiro pode comprar – escrita e quase publicada); a primeira história, que tentei reestruturar e reescrever duas vezes, sem sucesso (Sahara – escrita); Mosteiro (escrita), que se tornou O canhoto; Idade Média (escrita), que se tornou Primeiro a honra; Simultaneidade (não escrita), que fala de um rapaz que vive no presente e no passado ao mesmo tempo; Bonzinho mau-caráter, que já tem cinco versões inventadas e nenhuma escrita. Bem, são muitas e não vou conseguir citar nem as principais todas aqui. A última história que descartei foi À procura (romance), que era reescrita de À procura (conto), também escrita.
 
O descarte pode acontecer a qualquer momento. Há histórias que são descartadas logo após serem inventadas, pois é uma ideia que na hora não consigo levar adiante. Outras são descartadas depois de prontas, pois acho que não vale a pena escrever. Nesses dois casos, na verdade, estou descartando idéias e projetos. Ultimamente, como esse descarte preliminar ficou mais freqüente, é mais difícil descartar histórias escritas. Mas do que eu escrevi no início, pouco restou: foram descartadas em alguma avaliação posterior à escrita. As histórias estão sempre em risco de serem descartadas, até que eu as mande para a gráfica, como aconteceu com Tudo que o dinheiro pode comprar, que foi descartada quando eu preparava os arquivos para a gráfica. O limite entre a vida e a morte é bastante tênue, e as histórias estão sempre sendo reanalisadas e reavaliadas, então a morte paira sobre elas constantemente. Por isso chamo as boas histórias de sobreviventes: elas vêm escapando com sucesso de todas as avaliações.
 
Não tenho pena de descartar o que não considero perfeito. Sei como é fácil criar, como é fácil escrever. Então estou buscando mais do que isso: escrever bem, tramas sem furos, personagens interessantes, linguagem apropriada, contextualização conforme a necessidade da trama. Exigente como sou, tenho 19 textos sobreviventes. É mais do que um para cada dois anos de carreira. Hoje sei que o polimento do texto é mais demorado do que a escrita, então na verdade me considero bastante produtiva. A fila de publicação é que demora a andar, mas estou cuidando disso e logo anunciarei o lançamento de meu oitavo livro, A noiva trocada, em produção independente.
 
Chego aos 27 anos com uma maturidade que eu não imaginava alcançar quando comecei. É muito bom olhar para trás e ver o que foi construído. E essas histórias descartadas, em vez de serem fracassos, como poderia parecer à primeira vista, são na verdade o chão que eu piso, a escada que me faz progredir. Elas são as mestras que, se não ensinaram como fazer, ao menos ensinaram como não fazer, o que pode ser até mais produtivo e eficiente. Fica então minha homenagem a esses degraus que eu pisei, a esse caminho trilhado, cheio de sucessos que sobrevivem e de sucessos descartados.

26 ANOS

Ainda me lembro da primeira história que escrevi: “Uma noite na fazenda”. Eu era criança: devia ter uns 8 ou 10 anos. Foi um sonho que eu tive e quis escrever. É claro que ficou sem pé nem cabeça, mas tinha que começar de alguma forma. Escrevi como desenhava: por brincadeira. Semanas ou meses depois, resolvi escrever outra coisa e saí pela casa com caneta e papel na mão procurando um tema, até que vi um desenho de morangos numa travessa da minha mãe, e inventei os “Morangos de ouro”, outra historinha boba mas que já tinha um fio condutor, o que lhe dava pé e cabeça, pois tinha personagens, ambiente e trama. Depois disso, o processo se inverteu, e não era mais eu que procurava as histórias mas elas é que me encontravam, que foi o que aconteceu quando vi um grupo de formigas caminhando disciplinadamente enfileiradas e, não longe dessas, uma solitária, perdida fora da fileira, e fiquei imaginando porque ela teria se separado das companheiras. Assim nasceu Amélia, “A formiguinha distraída”. Eu era criança e escrevia histórias para crianças. Logo chegou a pré-adolescência e o desejo de escrever uma “história adulta”: rapaz pobre e moça rica se conhecem e se apaixonam mas o pai dela não permite o namoro, então ela foge de casa e procura abrigo com a família do rapaz. Eu tinha 13 anos. Não escrevi, não dei nome, e a história ficou esquecida muito tempo. Tudo isso aconteceu numa espécie de pré-história da minha carreira, como indícios do que depois viria a aflorar com força e veemência.
 
O período “histórico” da minha carreira começa como a história da humanidade: quando começam a ser produzidos os documentos escritos, ou seja, quando eu comecei a registrar informações sobre as histórias (uma ficha como uma certidão de nascimento), além de escrevê-las. Nessa época também, inventar a história (elaborar) se tornou tão importante quanto escrevê-la, ou seja, as certidões de nascimento e óbito falavam tanto da história quanto ela mesma – a minha Tabela Geral, que tem todas as informações principais, exceto o resumo.
 
Foi em abril de 1985 que o período histórico começou, quando eu novamente resolvi escrever um sonho que tive, mas achei bom mudar algumas coisas, acrescentar detalhes, elaborar as cenas e uma trama que conduzisse os eventos. Escrevi a história e criei uma tabela para anotar as informações que considerei principais: nome das personagens, local e época em que acontece, nome da história, mês de criação. É por isso que eu sei que isso aconteceu em abril, mas infelizmente na época não me importei de anotar o dia exato.
 
Os primeiros anos foram de criação e escrita desenfreada, como uma explosão de vida que eu não conseguia (nem queria) conter. Escrevia todas as ideias, mesmo que depois não soubesse como continuar, escrevia as ideias boas e as medianas, e pensava em publicar tudo, como se todas merecessem.
 
Já não me lembro do evento que desencadeou o fato (talvez as análises estéticas da faculdade de história da arte) mas em 1989 eu resolvi ler meus textos criticamente e jogar fora (metaforicamente) o que eu mesma não considerasse excelente. Meus textos mais antigos tinham só quatro anos mas eu e minha escrita tínhamos amadurecido, meu processo de criação e escrita estava mais definido e consistente, e alguns textos não me satisfaziam mais. Reli um por um, anotando todos os problemas, desde coisas simples como inconsistência de alguma fala ou cena a questões de estrutura e caracterização. Todas as histórias que tinham pelo menos 20 problemas medianos ou um problema estrutural insolúvel (quase todas) foram descartadas (guardadas numa caixa de arquivo) e foi quando eu entendi que precisava incluir a leitura crítica com distanciamento temporal no meu procedimento: algo que hoje se chama “guardar a história por um ano e avaliar em seguida”. Desde então, isso se tornou uma prática costumeira e bastante proveitosa. Continuo inventando muita coisa mas não escrevo tudo. Percebi que não adianta começar a escrever sem a certeza de chegar ao final, então hoje só começo a escrever depois que tenho a história toda inventada, quando já aprovei o começo, o meio e o fim e acho que vale a pena escrever.
Outro aspecto que eu vi desenvolver durante esse tempo foi o detalhamento da ambientação e da caracterização das personagens. Hoje eu faço muito mais pesquisa e recrio a realidade daquela sociedade muito melhor do que no início, quando muitas vezes nem me preocupava com esse “detalhe”.
 
Se eu fosse dividir minha carreira em fases, diria que são quatro ao todo:
 
1ª Fase – 1985-1987 – de Sahara a Mosteiro. Características: escrever como se estivesse contando a história oralmente – o registro escrito é suporte de memória para a minha fala – interesse em contar a história. Foco nos eventos (trama). Caracterização e ambientação não são importantes. Pesquisa histórica incipiente. Diálogos fracos. Todas as idéias são escritas, mesmo que não formem uma história com princípio, meio e fim. Foram criadas nesta fase O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser (mas foram escritas na segunda fase);
 
2ª fase – 1988-1994 – de Mosteiro a O maior de todos. Características: fortalecimento dos diálogos como ferramenta auxiliar para contar a história. A narração perde o tom verbal e se torna texto escrito, numa busca por valor literário. Preocupação com caracterização. Início de pesquisa histórica para construir a ambientação. Leitura crítica dos textos da primeira fase e início da leitura crítica para todos os textos. Desta fase sobrevivem Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, O cisne, Labirinto vital, Pelo poder ou pela honra, História da vingança do cavaleiro bretão, O aro de ouro, Aventuras dos Cavaleiros Cantores, Nem tudo que brilha…
 
3ª fase – 1994-1996 – de O maior de todos a Construir a terra, conquistar a vida. Características: maior elaboração racional da história. A escrita só tem início quando a estrutura está pronta e estão definidos princípio e fim, e os principais eventos entre um e outro – parei de escrever as boas ideias e comecei a só escrever as melhores histórias completas. Uso de diálogos para contar a história e para construção da caracterização psicológica e emocional das personagens. Descrição mais detalhada. Ambientação consistente: a história acontece naquele tempo definido com as características daquele tempo, e não mais simplesmente “no presente” ou “na Idade Média”. Pesquisa do contexto histórico, econômico, social, religioso e cultural para situar as personagens no ambiente escolhido. Desta fase sobrevivem O maior de todos e Primeiro a honra.
 
4ª fase – 1996-2011 – de Construir a terra, conquistar a vida ao presente. Características: preocupação com caracterização e ambientação. Uso dos diálogos para expressão de sentimentos, pensamentos e visão de mundo das personagens. Uso de pessoas reais quando possível. Profunda pesquisa de história (incluindo biografias e história das disciplinas científicas e artísticas), geografia, economia, cultura, arte, psicologia, filosofia, religião, às vezes engenharia, astronomia e matemática – num esforço para reconstrução de uma época passada ou presente. Personagens menos idealizadas e mais próximas às pessoas reais – sentem fome, ficam doentes, precisam tomar banho, usam as instalações sanitárias disponíveis em sua época. São desta fase Construir a terra, conquistar a vida, A noiva trocada, Vingança, Amor de redenção, Não é cor-de-rosa, O canhoto, De mãos dadas, O Além.
 
É fácil concluir que as histórias mais recentes são literariamente melhores do que as mais antigas (ainda bem!) mas isso não é motivo para desprezar as que foram escritas nas primeiras fases, pois a avaliação definitiva acontece antes da publicação, quando eventuais problemas ainda são corrigidos (ou a história é descartada), e todas foram publicadas já durante a quarta fase.
 
Resumi aqui o que aconteceu nos últimos 26 anos. Agora vamos ver como serão os próximos 25, os próximos 30, 50, 70 anos – já que não pretendo parar de escrever tão cedo.

HISTÓRIAS COM MUITAS E POUCAS PERSONAGENS

Outro dia, anotei na minha listagem geral alguns nomes de personagens que estavam faltando em O canhoto. Então tive a ideia de fazer este texto, para refletir se há diferença de tratamento entre histórias com poucas personagens e histórias com algumas personagens principais, várias personagens secundárias e muitas personagens coadjuvantes e figurantes. E também descobrir o que para mim são muitas e poucas personagens.
 
Naturalmente, os contos e histórias curtas têm menos personagens. E naturalmente também, a história com mais personagens é Construir a terra, conquistar a vida, pois são 25 anos e uma cidade inteira envolvida em 895 páginas manuscritas. São ao todo 72 personagens, incluindo as pessoas reais (jesuítas e governantes que têm alguma fala), divididos em 10 grupos. Tentei contar o número de famílias, mas fica confuso, pois as famílias de Duarte e Fernão, ao longo da história, vão se misturando a outras famílias, com o casamento dos filhos, que se tornam também novas famílias. Então Maria, por exemplo, no início pertence à família de Duarte, e João pertence à família de Manoel Machado mas, ao se casarem, se tornam uma terceira família. Diante disso, cada pessoa representa uma família, ao mesmo tempo que cada casal forma uma família. É mais simples dizer que é muita gente e muitas famílias se entrelaçando, como acontece também na vida real.
 
Acho que a primeira história que escrevi foi a mais sintética de todas, embora, pela estrutura, não fosse um conto. Havia apenas o casal protagonista e o antagonista. Três personagens e as areias do deserto. Não tenho nada mais minimalista.
 
A Nova Camelot, que se tornou A volta dos cavaleiros da Távola Redonda, que se tornou O sonho de Richard e que hoje está descartada tem a peculiaridade de ter personagens duplas, uma vez que cada uma é ela mesma e o cavaleiro que foi, e eles agem às vezes como um, às vezes como outro, às vezes como os dois juntos. Comecei com 9 personagens duplas + 2 simples (Richard e Artus), passei para 18 duplas + 5 simples (Richard, Artus e os magos) para terminar com 12 duplas + 4 simples (Richard, Artus e os magos).
 
Quando escrevi Mosteiro, tinha 21 personagens, organizados em 5 núcleos familiares. Dessas 21, 4 são as mais importantes (Michel a principal e mais 3 secundárias). Ao re-escrever e transformá-la em O canhoto, o número de personagens aumentou para 38 e mais duas personagens ganharam importância. Algumas famílias e grupos sociais também se desenvolveram, chegando ao número de oito.
 
Outra história com muitas personagens é O maior de todos, com o número de 36. Afinal, toda a corte está envolvida, há nobres e povo, ministros, traidores, crianças que nascem.
 
Sempre que há muitas personagens, a maioria delas não é desenvolvida. A verdade é que não dá para se trabalhar bem com mais de 10 personagens importantes, pelo menos não em menos de 500 páginas (Construir a terra, conquistar a vida tem 14 personagens importantes e 895 páginas para resolver a vida de todos). Personagens importantes têm aspecto físico, características psicológicas e emocionais, problemas a resolver, conflitos próprios. Quando estou escrevendo a história, vou criando personagens à medida que vou precisando delas, sem pensar no número, e vou desenvolvendo-as quando necessário. Histórias com mais conflitos pedem mais personagens. Por outro lado, histórias com mais personagens me possibilitam criar mais conflitos. No fim, uma coisa gera a outra, às vezes uma precede, às vezes outra, sem regra fixa.
 
Mas percebi que esse número alto de personagens (mais de 30) é exceção, pois a maioria das histórias sobreviventes tem menos. Como em geral tenho um casal protagonista, acabo ficando com apenas esses dois núcleos familiares e mais um ou dois grupos sociais (ambiente de trabalho, amigos, antagonista, comunidade social, etc). É o que acontece em Não é cor-de-rosa, O Aro de Ouro, Primeiro a honra, Vingança, O destino pelo vão de uma janela, Pelo poder ou pela honra, Amor de redenção.
 
Em O processo de Ser, tenho só um grupo familiar e alguns amigos – já que um dos temas é o isolamento e a vida interior. Em Nem tudo que brilha… também fui bem sintética, com o casal protagonista, um amigo, dois empregados e a casa misteriosa com seus antigos moradores já falecidos. À procura (descartada após a publicação deste texto) também é interessante por ter apenas cinco personagens, todos com a mesma importância, todos igualmente desenvolvidos (tudo bem, o guia tem um mistério a mais a desvendar) e eles são um grupo profissional e não familiar. De mãos dadas vem nascendo com três núcleos familiares centrais e até agora 10 personagens. Quando eu escrever, provavelmente precisarei de outras e, ao desenvolver as que já existem, o número de personagens importantes (atualmente uma principal e duas secundárias) deve aumentar também.
 
Então, em geral escrevo histórias com menos de 30 personagens no total – tramas simples, sem muitos entrelaçamentos, que se resolvem em 100 ou 200 páginas A4 manuscritas. Mas são justamente as histórias com mais de 30 personagens, mais complexas, mais difíceis de gerenciar – pois é necessário cuidar da gradação de importância entre as personagens principais e entre essas e as secundárias – que são as mais gostosas de se escrever.

RE-ESCREVER, REINVENTAR

São coisas que eu faço o tempo todo. Há vários tipos de re-escrever e reinventar:
 
1) reinventar a história que estou escrevendo – revejo cenas e falas à procura do texto que expressa melhor o que quero dizer. Faço isso o tempo todo, e só paro quando o livro vai para a gráfica.
 
2) re-escrever o que estou escrevendo – reparos e ajustes durante todo o processo, que só termina de fato com a publicação.
 
3) reinventar uma história descartada – eu vou testando possibilidades de alteração nas caracterizações, no ambiente e na estrutura da história. Em geral, estou procurando um final que me agrade, para que eu possa pensar em escrever. Cada vez que retomo uma história faço um registro novo por causa da data de criação. Quando são significativas as alterações de estrutura, conto-a como uma nova história. Alterações de ambientação e/ou caracterização não configuram uma nova história.
 
Tentei reinventar aquela primeira história, de 1985, por duas vezes (total de três versões, portanto) sem sucesso. Tenho carinho por ela, por ter sido a primeira, mas tive que me convencer de que realmente nada se salva nela.
 
4) re-escrever uma história descartada – de repente percebi que era uma prática recorrente. Re-escrever pode significar simplesmente mudar o texto, mantendo a estrutura básica e uma caracterização e ambientação mínimas, ou às vezes trazendo a história para o aqui e agora – o que seria o re-escrever propriamente dito, que aconteceu em O canhoto, como contei neste texto aqui, mas pode significar também inspirar-me numa história descartada para criar uma outra, com estrutura apenas semelhante, nova ambientação e nova caracterização das personagens.
 
Esse segundo significado de re-escrever é o mais comum e o mais importante dentro do meu processo, pois acontece sem eu perceber – é inconsciente. Somente depois da nova história pronta (se não escrita, pelo menos totalmente inventada) é que eu percebo que retomei algo que já havia.
 
Primeiro a honra é a segunda versão de uma história de 1986, pois têm em comum a morte de uma personagem importante logo no início, mas sua permanência durante toda a história, por ser citada pelas outras personagens, que sentem sua falta – o que cria o que eu chamo de “morto que não morre”. Nesta segunda versão, a caracterização das personagens foi aprofundada, a estrutura ficou mais coerente, escolhi outro local e a época recuou alguns séculos.
 
Não é cor-de-rosa é a terceira versão daquela primeira “história adulta”. Reescrevê-la não foi intencional: desta vez, eu queria falar de questões de trabalho, dinheiro e classes sociais. Mas de repente eu percebi que tinha de novo uma moça rica apaixonada por um rapaz pobre, e ela brigava com o pai por causa desse amor. Então resolvi aproveitar os nomes – e os apelidos, que aqui são importantes – e reescrever, para ver se eles conseguiriam ficar juntos no final. Fiquei muito feliz ao poder reaproveitar uma história tão significativa para mim como foi essa, criada na época das histórias infantis mas já com pretensões de carreira literária, antes que tudo começasse de fato.
 
Agora que percebi que re-escrever é uma prática possível e até comum para mim, ao descartar uma história que acho interessante, já a marco como suspensa, prevendo que um dia será reescrita – uma espécie de fila de reinvenção. Foi o que aconteceu com o romance Tudo que o dinheiro pode comprar. Ela seria a primeira na fila de publicação mas resolvi descartá-la em vez de publicá-la, pois encontrei algumas incoerências no comportamento da personagem principal, o que significa que a caracterização está falha e inconsistente. Mas gosto da ideia de alguém que tem tanto dinheiro que pensa que pode comprar tudo e todos, por isso ela ficará suspensa, aguardando o momento propício em que meu inconsciente vai querer mexer nesse assunto de novo.

UM POUCO DE HISTÓRIA: A MINHA

Pode soar óbvio, mas eu comecei a escrever lendo muito. Gostaria de conseguir ler mais mas passei a ler menos depois que comecei a escrever porque não consigo ler um livro se estou escrevendo outro. Não tenho tanto tempo quanto gostaria. Então, quando estou escrevendo um romance meu, não leio outros livros de literatura.

Tudo começou assim: um dia, ainda na infância, eu tive um sonho e resolvi escrevê-lo. O final não me agradou mas eu tomei gosto pela brincadeira e cheguei aos doze anos com três histórias escritas: “Uma noite na fazenda”, “Os morangos de ouro”, “A formiguinha distraída”. Então eu resolvi que bastava de histórias infantis, que eu ía escrever uma história adulta, e caprichei no clichê: moça rica se apaixona por rapaz pobre; o pai dela não permite o romance; ela foge da casa, vai morar com a família dele e conhece as dificuldades da vida de pobre mas se adapta; ela faz as pazes com o pai, volta para casa e para a vida de rica; ela se casa com o rapaz e são felizes para sempre. Mas foi só a idéia, não a escrevi imediatamente, nem mesmo registrei, e ela ficou esquecida por muitos anos.

Em abril de 1985 – eu tinha 14 anos – eu tive um sonho com princípio, meio e fim, sem aquela lógica que parece ilógica e que é característica dos sonhos. Parecia um filme e resolvi escrevê-lo. Acrescentei falas, inventei cenas e assim redescobri o gosto por inventar histórias.

Depois vieram outras histórias, não sonhadas, e de repente eu estava vivendo minhas histórias, muitas vezes até como personagem principal. 1986 foi um ano de muitas idéias, muitos começos e pouca coisa que realmente valesse a pena.

Comecei a registrar todas as minhas idéias numa planilha – nome das personagens, nome da história, local e época em que se passa (setting, em inglês), data de criação. Ao longo dos anos, outros campos foram sendo incluídos nessa planilha para que vários outros detalhes tabeláveis ficassem registrados. Recentemente senti necessidade de incluir um resumo – anotar enquanto ainda lembro! – mas ainda não resolvi a questão do espaço.

Nesses quase vinte e cinco anos de carreira, tenho ao todo 285 histórias criadas, sendo que apenas 122 completas (com início, meio e fim). Dessas, escrevi 75 e considero boas (eu chamo de sobreviventes) vinte. As outras foram descartadas (ou seja, arquivadas – jogar fora nem pensar!). Mantenho 5 suspensas – uma espécie de limbo entre vivos e mortos, porque são histórias descartadas por algum motivo que, se resolvido, pode transformá-las em sobreviventes. Até agora, tenho seis livros publicados e dez livros na fila de publicação, sendo um livro de contos, um livro de poesias, um livro com Romances de Cavalaria e sete romances.