São Paulo

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 6 MESES

Ontem precisei procurar o nome de uma empresa específica, onde Toni está trabalhando, e me deparei com as expressões “triângulo central”, “antigo triângulo”, referentes à organização urbana de São Paulo. Fui pesquisar e acabei fazendo um estudo sobre geografia histórica de São Paulo – a fundação, urbanismo na época colonial, expansão urbana, os rios (hoje canalizados e alguns subterrâneos) Tamanduateí, Itororó, Saracura, Anhangabaú, além dos famosos Tietê e Pinheiros. Li também sobre os marcos urbanos centrais mais importantes desde a fundação e até o início do século XX: o Pátio do Colégio, o São Bento, a Sé, a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, os cafés, as tabernas, a Avenida Paulista com o Parque Villon, os bairros operários, e fui desenhando os contornos da cidade em 1917. Estou encantada com tudo o que estou descobrindo (e aprendendo) sobre a história e a geografia de São Paulo.
Na minha história, o ano de 1917 está chegando ao fim, e o Brasil acaba de entrar na Primeira Grande Guerra, enquanto Toni prossegue em sua luta pessoal por uma vida melhor. Na semana passada, organizei todos os fatos fictícios em ordem, e anotei tudo na minha tabela temporal. Ou seja, peguei aquela estrutura da história, da fase de elaboração, e inclui na tabela com os eventos da história de São Paulo e do Brasil. Então agora eu já sei quando cada coisa vai acontecer, quantos meses ele vai ficar em cada emprego, que emprego será. Está tudo organizado de forma que eu rapidamente consigo acessar as informações. Às vezes tenho vontade (mais do que necessidade) de imprimir os calendários desses anos, só para saber que dia da semana caiu cada evento, mas logo tento me convencer de que saber o dia da semana não é importante nesse caso. Mas, para um dos eventos, o dia da semana é importante, então provavelmente terei que consultar o calendário na hora de marcar o casamento.

ANTES DE COMEÇAR – O PROJETO

Eu sempre preciso fazer muita pesquisa antes de começar a escrever, porque preciso conhecer em detalhes o local e a época em que resolvi ambientar a história. Isso não significa que eu vá usar todos os detalhes na história, mas eu preciso conhecê-los para me sentir à vontade para criar. Eu desenhei mapas de Brugge (para O canhoto) e do Rio de Janeiro (para Construir a terra, conquistar a vida), como estou agora fazendo com São Paulo (para De mãos dadas), retirando partes modernas e tentando reconstruir o que havia na época das histórias.

O estudo do ambiente acontece em paralelo à construção da história, pois é necessário enquadrar a caracterização das personagens e a sucessão de eventos ao contexto escolhido. O nome de Antônio só me veio à cabeça quando eu resolvi aproveitar o contexto da imigração italiana do final do século XIX às minhas personagens. Assim, uma coisa influencia a outra, e todas juntas constroem a história do jeito que eu quero contar.
 
As idéias vêm de toda parte e de lugar nenhum (como já contei) e à medida que vou caracterizando as personagens, a trama prossegue, e vice-versa, até um momento de impasse, que me faz descartar a história, ou até o final do jeito que eu quero. Mesmo tendo encontrado um bom final, eu procuro outros finais possíveis, para me assegurar de escolher o melhor deles. Para isso, às vezes é necessário recuar e alterar eventos que estão mais próximos do meio do que do final. Não importa, eu gosto de testar possibilidades.
 
Tendo a estrutura da história e a caracterização das personagens, preciso aprofundar o estudo da ambientação, inclusive tentando descobrir fatos históricos que eu possa incorporar à minha história para acrescentar verossimilhança. Por exemplo, eu não posso deixar de citar na história que estou escrevendo agora (De mãos dadas) o surto de Gripe Espanhola de 1918, nem o dia mais frio da história de São Paulo, que também aconteceu em 1918. Assim, entrelaço a minha ficção na história real da cidade (e do estado) de São Paulo.
 
Muitas vezes, outras pesquisas, além da histórica, também são necessárias. Desta vez, quis conhecer melhor o processo de colheita e beneficiamento do café, já que os primeiros anos da história se passam numa fazenda de café. Para O canhoto, precisei estudar psicologia para entender se era possível a amnésia de Maurits, e que fatores eram necessários para que a amnésia fosse possível. Foi muito bom porque ajudou inclusive na caracterização da personagem e na estruturação dos eventos passados e futuros.
 
Quando tenho todas essas informações, e a certeza de que há uma boa história a ser contada, então vem a parte trabalhosa: pegar papel e caneta e começar a escrever.

RELATÓRIO DE PROGRESSO – 4 MESES

Minha história ainda não tem título. Continuo chamando de Rosinha, embora Antonio tenha se tornado a personagem principal. Já tenho mais de 50 páginas escritas e já comecei a andar com alguns “apetrechos” na bolsa: mapas e quadro do tempo.
 
Eu não conheço São Paulo. Já andei por alguns pontos da cidade, mas não o bastante para dizer que sei onde ficam os bairros, os parques, as ruas, os marcos de referência. Bem, não sabia, porque imprimi alguns mapas para me auxiliarem a visualizar por onde Toni está andando. É a maravilha do Google Maps: diferentes níveis de aproximação (zoom) para que eu tenha mapas de ruas, de bairros, de região. São ao todo cinco, cada um em pelo menos duas folhas A4 coladas com fita de empacotamento. Até o final da história, conhecerei São Paulo melhor, pelo menos na área entre as Marginais (Barra Funda, Perdizes, Pinheiros, Vila Mariana) e até Tatuapé e Água Rasa. São os limites da região por onde Toni anda, procurando emprego. Até agora, ele está tendo dificuldades, mas sem maiores problemas.
 
Outra necessidade que senti foi de fazer um mapa temporal – um quadro de meses e anos – onde eu pudesse anotar, para consulta rápida, os principais eventos da história de São Paulo, do Brasil e do Mundo, para inclui-los na minha história. É um recurso que já usei em Construir a terra, conquistar a vida e que foi extremamente útil. Estou num momento bem interessante – os anos de 1917 e 1918 – quando a cidade de São Paulo viveu os três “G” que marcaram aquela geração: a Greve Geral de 1917; a Grande Guerra, na qual o Brasil ingressou em 1917; e a Gripe Espanhola, que chegou ao Brasil em 1918. É maravilhoso ter tantos eventos importantes para Toni participar. É uma forma simples e eficiente de dar verossimilhança à história e contextualizá-la. Então, à medida que vou lendo e pesquisando, vou preenchendo o quadro e usando as informações na história. É claro que nem todos os anos têm coisas legais para aproveitar. São momentos para aprofundar os problemas das personagens ou para dar uma “corridinha” com a narração, até outro momento interessante, seja pela história real ou pela história inventada.
 
Estou ansiosa para chegar logo ao próximo ponto de virada, que acontece daqui a alguns anos, quando Toni terá novamente uma escolha difícil a fazer (o nome dele foi escolhido com isso em mente, como contei aqui). São os melhores momentos, pois é quando o conflito interno da personagem explode, e conhecemos melhor seu caráter e sua personalidade. Mais um pouco e eu chego lá.

HISTÓRIA NOVA

Eu sei que não tenho tempo para escrever. Eu não posso parar tudo para escrever. Mas está começando a ficar difícil me conter.

Meu trabalho no Patrimônio Nacional atualmente é a pesquisa do ecletismo em São Paulo, para embasar processos de tombamento já abertos de prédios com essa característica. Estou portanto lendo muito sobre o ecletismo na Europa, no Brasil e especialmente em São Paulo. E o ecletismo chegou a São Paulo junto com o café, nas fazendas do Vale do Paraíba, e depois do Vale do Tietê para, por fim, formar as casas da classe abastada da capital. É impossível não ver as minhas personagens caminhando pelo livro que acabei de ler (A casa paulista, de Carlos A. C. Lemos), pois a história começa numa fazenda de café no interior do estado – provavelmente na região de Campinas – e migra para a capital, e boa parte dela acontece dentro de uma residência eclética. Acho que é a primeira vez que meu trabalho “de verdade” me ajuda nas pesquisas para uma história minha. Até nisso o Iphan é bom para mim.

Eu estava tendo dificuldade para escolher o nome da personagem principal masculina, como comentei neste texto. Mas, quando lembrei que a família dele é de descendentes de italianos – como eu mesma – eu pude pensar como é a vida dos meus parentes que vivem na colônia, e rapidamente compreendi como será a infância das personagens principais. E encontrei também uma oportunidade de homenagear meu nonno, dando o nome e o apelido dele à minha personagem. Tenho que refazer as cenas usando o nome novo, para ver se funciona. As tentativas foram bem sucedidas até agora, mas é preciso testar as cenas mais densas. Se funcionar, o casal principal terá os nomes do meu nonno e da minha nonna. Embora sejam todos descendentes de italianos nascidos no Brasil – meus avós e minhas personagens – as histórias são muito diferentes.

Essa pesquisa que estou fazendo da arquitetura já me informa sobre aspectos da sociedade, da economia e da cultura da época. Depois terei que ler sobre a história de São Paulo, e ver alguns detalhes específicos, como imigração italiana e a industrialização na década de 1920. Já que a história deve acontecer em São Paulo no início do século XX, não resisto levar minhas personagens à Semana de Arte Moderna – e terei que rever toda a programação. É uma forma que tenho de também estar presente aos grandes momentos da história da arte, e participar das polêmicas e dos debates.

QUANTO TEMPO ENTRE TERMINAR UMA HISTÓRIA E COMEÇAR OUTRA?

A resposta a essa pergunta é muito simples: algumas horas, não mais do que um dia. Sou viciada em criar, então, assim que termino uma história já começo a pensar em outra. Sou como aquele fumante que acende um cigarro no outro: não há intervalo nem pausa.
 
Mas isso não quer dizer que escrevo todo o tempo. Esse intervalo de escrita tem sido maior, chegando a dois anos entre terminar de escrever uma história e começar a escrever outra. Nesse período de “descanso”, trabalho histórias novas mentalmente , retomo idéias antigas, procurando alguma que valha a pena escrever. Em março do ano passado, terminei de escrever O canhoto. Em novembro, re-escrevi À procura. Desde então, venho repassando duas histórias que acho boas: Rosinha (1986), tentando acertar um final interessante dentro dos objetivos que quero; e Amnésia (2004), tentando estruturar os eventos, construir a trama e melhorar a caracterização das personagens. Como podem ver, vou me preocupar com o título depois. Caso eu resolva escrever alguma das duas, haverá ainda etapas de pesquisa e planejamento, especialmente no caso de Rosinha, que se passa em São Paulo, no início do século XX – é preciso escolher uma data mais exata e ter informações para contextualizar.
 
Há anos atrás, esse tempo de pausa me angustiava. Eu ficava especulando se seria capaz de escrever novamente. A seqüência ponto final – assinatura – data me causava um vazio mental momentâneo, a sensação de “acabou”, que é ao mesmo tempo de alegria infinita pela conclusão e angústia de fim. Será que algum dia terei outra boa idéia? Será que conseguirei escrever com as melhores palavras? E se isso nunca mais acontecer, como vou viver sem criar e sem escrever? Eu considerava que tinha o compromisso de ter sempre boas idéias e escrever todas elas. Aos poucos, fui aprendendo que não é possível ser brilhante toda vez, e que é melhor não perder tempo escrevendo o que não é excelente. Desde então, tenho histórias que são meros passatempo, uma trama boba, cuja função é apenas me ajudar a dormir. Em geral, uso um conjunto fechado de personagens (inspiradas nas minhas velhas bonecas de papel), e mudo a caracterização, o ambiente e a trama. Chamo essas histórias de exercícios de criação, e não tenho pretensão de escrevê-las. São elas que preenchem meu tempo entre uma história boa e outra. Às vezes uma delas se desenvolve bem, chega ao fim, me agrada, e eu resolvo escrevê-la. Foi o que aconteceu com O destino pelo vão de uma janela, Difícil conquista (1991, descartada), Um dia, depois (1991, descartada), Amor maior que o amor, Tudo que o dinheiro pode comprar, À procura. Algumas são razoáveis, e talvez eu retome algum dia, para aperfeiçoá-las e escrevê-las, como Bonzinho mau-caráter (na versão de 2009), Um campo verde (1993), A Bela e a Fera (na versão de 1996).
 
Então atualmente estou curtindo também esse tempo de pausa de escrita, aproveitando para preparar as publicações, escrever textos para o blog, participar das comunidades de literatura. Considero que tudo isso é tão importante para minha carreira quanto criar e escrever. E hoje eu sei que eu vou conseguir criar novamente, e escrever como quero. Sei que meu inconsciente está trabalhando mesmo (e principalmente) sem eu sentir, e vai se manifestar quando estiver pronto, quando for a hora certa.