Tamara Quírico

O ALÉM

De novo estou escrevendo direto aqui, o que é exceção no meu processo.

Conforme tinha planejado, estou escrevendo mais este sonho que tive. Neste caso, não foi possível criar uma história em cima, então estou me limitando a detalhar tanto quanto possível ambientação, e o sentimento característico de cada um dos ambientes. Estou procurando acrescentar algumas personagens, na tentativa de incrementar as experiências e construir cenas.

Minha intenção era escrever em terceira pessoa, que eu prefiro, até porque tenho mais experiência assim (todas as minhas histórias, à exceção de História do Mundo, são em terceira pessoa). Como é uma história que se passa em locais imaginários, pensei em fazer como fiz Labirinto Vital, que também se passa fora da realidade (e é escrita em terceira pessoa).

Mas, neste caso, o uso da narração em primeira pessoa dá a noção de uma experiência vivida. Além disso, Dante Alighieri escreveu a Divina Comédia em primeira pessoa. Então acabei me decidindo mesmo pela primeira pessoa. Como o sonho foi meu, a história é de fato eu contando o que vi e o que senti.
 
Outra escolha que tive que fazer foi quanto ao nome das personagens principais: eu e meu marido que, na época do sonho, era meu namorado. Seria o caso de usar nossos nomes reais? nomes fictícios? Ou nenhum nome? Optei pela experiência do Labirinto Vital, em que as personagens não tem nenhum nome. Cheguei a tentar deixar o sexo indefinido por toda a história, mas logo tive que usar um adjetivo que varia conforme o gênero, e assim denunciei que a personagem principal é mulher.
 
Quanto às descrições das personagens, novamente me guiei pela Comédia, em que as personagens não são descritas, mas apenas a situação em que estão.
 
Talvez devesse dizer uma palavra para explicar o que me levou a escrever esse sonho depois de tanto tempo; a escrever um conto depois que abandonei a forma e passei a me dedicar exclusivamente ao romance.
 
Fiquei muito impressionada com o sentimento de verdade do sonho. Sinto como se o tivesse vivido de verdade. Então sempre conto às pessoas, quando surge uma oportunidade. Eu o introduzo assim: “Já te contei do dia em que eu visitei o Céu e o Inferno?” A curiosidade das pessoas me convence a repetir toda a história. Então um dia, minha amiga Tamara, doutora em Juízo Final, comentou que eu apresentava uma visão interessante, diferente da visão tradicional do catolicismo, e diferente do proposto por Dante Alighieri. Como ela também é artista plástica, podíamos fazer uma dobradinha semelhante a Dante Alighieri e Gustave Doré. Gostei da ideia de ter esse sonho tão significativo não apenas registrado numa forma final escrita, mas também bem ilustrado. O exercício de descrever tudo do que vi e senti – sem inventar em cima disso – é interessante e bastante enriquecedor. Está sendo muito difícil transformar em palavras o que vi e senti. E, mais ainda, trazer o leitor para viver a experiência comigo – algo que a primeira pessoa consegue melhor do que a terceira, então tenho que aproveitar a oportunidade. É muito difícil descrever o Céu em toda sua plenitude, com o horizonte infinito. É muito difícil descrever o Inferno em sua angústia e sofrimento. Mas, como eu não desisto, em algumas semanas venho aqui contar como ficou depois de pronto.

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: “o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar”. As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história. [editado: minha tabela não considerou a mudança do calendário Juliano para o calendário Gregoriano, então as informações não estão mais corretas. Já corrigi as datas nas histórias. Atualmente, consulto um calendário perpétuo para saber em que dia da semana cada ano da história começou. Agradeço a minha amiga e historiadora da arte Tamara Quírico, que me mostrou essa falha.]

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?