Terceira Cruzada

QUANTO DETALHAR

Muito importante na hora de construir a verossimilhança de um romance histórico é incluir na ficção fatos históricos reais, de maneira que as personagens fictícias participem e sejam afetadas pelos eventos históricos. Dessa forma, a história da personagem parece possível de ter acontecido de verdade, e o leitor acaba acreditando que a ficção é real. Acho que isso é um ponto positivo num romance histórico.

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, eu não tinha essa consciência, e meus primeiros romances, embora tenham as características da ambientação escolhida, não se apegam a esse tipo de pormenor. As personagens moram naquela cidade, ou naquela região, mas não naquela rua específica, naquela casa específica, em que o sol entra pelas janelas de manhã. Eu só comecei a me preocupar com isso quando fui buscar o passado da minha cidade, para escrever Uma antiga história de amor no Largo do Machado, e tinha que fazer minhas personagens andarem pelas ruas que existiam na época, e verem os prédios que havia na época. Em 146 anos (o lapso de tempo entra a data da história – 1845 – e o ano em que eu estava – 1991), a cidade do Rio de Janeiro mudou muito, com aterros, construções e expansão, e eu tinha uma cidade muito diferente para apresentar.

Mesmo assim, a história real era passiva, era um cenário a ser visitado, e não um redemoinho que carregasse minhas personagens em sua passagem. Foi somente em Construir a terra, conquistar a vida que as coisas começaram a se entrelaçar, pois Duarte veio para o Rio de Janeiro para lutar contra os franceses, na batalha que ficou conhecida com o nome de Uruçumirim. Duarte viu Estácio de Sá cair atingido pela flecha que o acertou no rosto; Duarte foi ao enterro de Estácio de Sá; Duarte construiu sua casa nova no Morro do Descanso, no terreno que Mem de Sá lhe cedeu. Depois, quando os franceses voltaram, e estavam em Cabo Frio, Duarte foi atrás deles, enquanto seus filhos patrulhavam a praia. Tudo o que aconteceu na cidade teve a participação efetiva de minhas personagens. Tenho muito orgulho do que consegui realizar.

O canhoto também tem esse entrelaçamento, inclusive com a participação de pessoas que existiram de verdade, e o principal evento de que minhas personagens participam é a Terceira Cruzada. Não é toda história que pede esse tipo de trabalho. Alguns romances são mais fechados, e uma ambientação básica já cumpre seu papel. Em outros romances, entretanto, a cidade, com sua história e geografia, também é personagem, e a narrativa fica mais aberta a interferências da realidade. Minha história atual é assim. Já inclui a Greve Geral de 1917, e informações sobre a Grande Guerra, em que o Brasil ingressou em 1918. Faltava contar a Gripe Espanhola, também em 1918, mas achei que a narrativa estava meio arrastada, e eu estava demorando muito para avançar, então resumi o episódio da Gripe em um parágrafo e entrei feliz em 1919, contando sobre o novo emprego de Toni. Mas, cada vez que eu relia, me batia um desconforto de pensar “parece que a Gripe foi só isso, e não a tragédia que foi”. Uma amiga minha resumiu meu sentimento “Você já passou pela Gripe Espanhola e nenhum personagem seu morreu? Não pode”. De fato, não pode. Se as personagens foram para as ruas na Greve Geral de 1917, se estão pagando caro pela comida por causa da Grande Guerra, elas também precisam pegar Gripe Espanhola. Então voltei para contar como minhas personagens enfrentaram uma das maiores epidemias da época, que vitimou mais de 35 mil pessoas em todo o Brasil, incluindo Rodrigues Alves, o presidente eleito, que morreu em janeiro de 1919, antes de ser empossado para seu segundo mandato. Mas quem matar? Quem poupar? Já me apeguei às personagens secundárias que se destacam mais, e não tem graça matar quem não tem importância, pois não fará falta na história. Também é preciso decidir se Toni será infectado ou não, e como a doença progrediria nele, que é a personagem principal. Muitas questões a definir, em nome da verdade do texto.
 
Então, de posse do conhecimento dos eventos históricos da época escolhida, é preciso detalhar todos os grandes momentos, que marcaram aquela época. Mas detalhar não é escrever uma página contando o que foi o evento e seus desdobramentos – podemos deixar isso para os livros de não-ficção. Detalhar, no romance histórico, significa envolver as personagens no evento, jogá-las no turbilhão, para que elas vivam aquilo e deem à ficção uma aparência de realidade histórica.

TIPOS DE MORTES

Sim, vou falar de novo nas mortes que acontecem nas minhas histórias, já que são mesmo muitas. Considerando apenas as histórias que escrevi (em número de 51), tenho 19 histórias em que ninguém morre, e 32 histórias em que morre pelo menos uma pessoa. Ao todo, são 113 mortes. A história que contabiliza o maior número de mortes é O maior de todos, o que não me impressiona, por ser uma história em que há traição e tentativa de golpe de estado, e por estar situada na época da Peste Negra (16 mortes). É interessante que Construir a terra, conquistar a vida, com 895 páginas, tem apenas 13 mortes (proporcionalmente muito menos do que O maior de todos, que tem 160 páginas). Quando eu fui contar quantas pessoas morriam em cada história (sim, tenho esta e outras informações em uma tabela), percebi que há três categorias de mortos:

1) personagens fictícias que morrem durante a história – são minhas criações que morrem por necessidade da trama. Ao todo, são 65 mortes dessa categoria. De todas as 51 histórias que escrevi, há apenas uma personagem que não precisava morrer mas que eu quis matar, justificando que “a morte não leva só quem deve morrer”. Sempre choro ao reler esse capítulo de O maior de todos. Este é, portanto, meu único “assassinato”, pois eu podia ter poupado essa personagem e não o fiz.

2) personagens fictícias que morrem antes da história começar – são pais, mães, irmãos, ancestrais, amigos das personagens que estão agindo na história, e que são citados por elas, e têm alguma importância na condição da personagem, ou no desenrolar da trama. São ao todo 41 mortes nessa categoria. Por exemplo, os pais de Duarte (Construir a terra, conquistar a vida) que, ao morrerem, deixaram-no desamparado, o que o impeliu à vida de furtos; o Velho Araújo (Tudo que o dinheiro pode comprar), que fez Miguel ser egocêntrico e arrogante e, ao morrer, deixou-lhe uma vultuosa herança.

3) pessoas reais que morrem durante a história – embora essas mortes sejam contadas por mim e façam parte da história – às vezes a ponto de determinar eventos fictícios posteriores – não sou responsável por elas, pois a pessoa morreu de qualquer jeito, salvá-las não está a meu alcance, e não fui eu que as matei, mas a vida. Ao todo, são sete: o Conde de Flandres (O canhoto), que morre durante a Terceira Cruzada; e os governantes e jesuítas de Construir a terra, conquistar a vida: Estácio de Sá, Mem de Sá, o rei Dom Sebastião, o rei Dom Henrique, Araribóia, o Padre Manoel da Nóbrega.

Podemos concluir, portanto, que o grande número de mortes nas minhas histórias não é responsabilidade minha apenas, mas dessa lei da vida, que diz que todos os que estão vivos morrem um dia.

JUAN MIGUEL TORRES

Acho importante dizer uma palavra sobre essa personagem. Não que ela seja mais significativa do que as outras, mas é minha criação mais recente, e tudo na composição dela tem um motivo, que quero contar aqui.

Juan Miguel Torres é personagem de O canhoto, que já foi falada aqui em 1/7/2009, quando contei que é reescrita de uma história de 1988, chamada Mosteiro. Aproveitei de Mosteiro todas as personagens, e fiz apenas ajustes de caracterização, inclusive por causa da re-contextualização da história numa Brugge urbana e flamenga. Jean Michel Beauvans, a personagem principal de Mosteiro era filho de nobre, e sua formação incluía a preparação militar, mesmo ele sendo um canhoto que usa mal a mão direita. Mas Jan Nicolaas van de Linde, personagem principal de O canhoto é um filho de negociante que, por ser um canhoto que usa mal a mão direita, tem dificuldades até mesmo com facas de mesa para cortar o pão. Ou seja, ele nunca empunharia uma espada sem por em risco, em primeiro lugar, a própria vida. Mas a participação dele na Terceira Cruzada da Terra Santa era fundamental para o desenvolvimento da trama. Então eu tive a necessidade de criar para ele um professor de esgrima, que o iniciasse na arte da guerra. Essa personagem nova seria um especialista militar, e seu destino era morrer em batalha, atravessado por uma espada sarracena.

A primeira escolha foi quanto à nacionalidade. Pelos meus planos, Nicolaas e o professor se encontrariam na Itália, mais precisamente em Gênova, cidade mercadora onde Nicolaas poderia trabalhar e se sustentar. Diante disso, a escolha óbvia para esse espadachim era que ele fosse italiano. Mas Nicolaas chega a Gênova em exílio, então achei melhor que esse professor também fosse um estrangeiro, para que eles tivessem algo em comum que os aproximasse, e tornasse possível uma amizade, e o treinamento de esgrima seria consequência da amizade, pois Nicolaas – um mercador – nunca procuraria aulas de esgrima, nem pensaria em ir para a Cruzada. Então as alternativas mais próximas passaram a ser francês e alemão, para não mexer com os eslavos do leste. Mas então eu me lembrei de que a Espanha vivia a Reconquista, e um professor espanhol poderia ter toda a família envolvida com treinamentos e guerra, e isso faria dele um bom professor e guerreiro. Além disso, desenvolvi um carinho especial pela Espanha depois que estudei os visigodos, para escrever Amor de redenção.

A escolha do nome Juan Miguel é referência e homenagem a Jean Michel, a personagem principal de Mosteiro. E assim, ele também é João, como Jean Michel, Jan Nicolaas e Hans Günter (o outro grande amigo de Nicolaas, que aparece em outro ponto da história). O sobrenome Torres dá à família a solidez defensiva necessária a quem luta pela expansão de seu território.

Quis que Miguel e Nicolaas tivessem idade e biotipo parecido, para que o relacionamento entre eles não se caracterizasse como mestre-discípulo, mas fosse uma relação entre iguais.

Isso feito, precisava explicar o que um espanhol com esse perfil estaria fazendo em Gênova, e tinha que dar a ele algum problema que Nicolaas pudesse ajudar a resolver, já que Miguel o ensinaria a lutar. Então inventei para ele uma “história anterior” que explicasse a saída da Espanha, a chegada a Gênova, e isso fazia parte do problema de por que ele não voltava para a Espanha.

Tudo definido, a personagem estava pronta para entrar na história e cumprir seu papel junto a Nicolaas.

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: “o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar”. As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história. [editado: minha tabela não considerou a mudança do calendário Juliano para o calendário Gregoriano, então as informações não estão mais corretas. Já corrigi as datas nas histórias. Atualmente, consulto um calendário perpétuo para saber em que dia da semana cada ano da história começou. Agradeço a minha amiga e historiadora da arte Tamara Quírico, que me mostrou essa falha.]

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

POR QUE TANTOS ROMANCES HISTÓRICOS?

Pode ser afinidade com o ideal romântico de fuga da realidade. Um colega que leu O maior de todos afirmou que não se trata de romance histórico, mas apenas uma história ambientada no passado. Concordo com ele. Minhas histórias tratam da natureza humana, e dos conflitos entre o indivíduo e o meio em que ele vive. Na grande maioria dos casos, poderiam ser situadas em qualquer tempo e em qualquer lugar – com ajustes na caracterização das personagens, é claro – e eu escolho onde vou colocá-las, conforme o que eu entendo como necessidade da trama e conforme meus gostos pessoais.

Se Nicolaas (O canhoto) não fosse à Terceira Cruzada, podia ir à Primeira ou à Sétima, ou à Segunda Guerra Mundial, que faria pouca diferença. A história não é sobre a Cruzada, mas sobre a busca individual dele por si mesmo.

Talvez o que eu tenho de mais próximo de um romance histórico seja Construir a terra, conquistar a vida, em que a formação da cidade do Rio de Janeiro, com seus lugares e personagens, é parte importante da história e aparece com destaque, influenciando a vida das personagens fictícias. Mas mesmo essa história poderia acontecer em outro ambiente sem perda de características fundamentais.

A forma romance também poderia ser contestada. É verdade que comecei a escrever tentando me filiar a José de Alencar, autor de vários romances favoritos, mas, como nunca me importei em analisar a forma dos romances que li, também faço os meus sem essa reflexão. O leitor mais atento deste blog já deve ter percebido que me refiro a meus romances pelo termo história, que, a meu ver, abrange todas as formas de ficção narrativa. Uso história (com HI), em vez de estória (com ES) pois história é mais abrangente, e engloba tanto a História real como as estórias fictícias. Então eu tenho histórias muito curtas, que agrupei com as poesias, por considerá-las “poesia em prosa”; histórias curtas, que eu considero contos; histórias longas e muito longas, que eu chamo de romances.

PERSONAGENS REAIS E FICTÍCIAS

A grande maioria de minhas personagens é fictícia. Não todas porque às vezes eles se encontram com pessoas reais e eu sou obrigada a dar vida a quem existiu de fato. Sempre evito mexer com pessoas reais, porque acho temerário vir eu contar que eles disseram ou fizeram isso e aquilo. Deixo essa tarefa aos historiadores, eu sou ficcionista. Nas minhas histórias, as personagens reais são citadas e às vezes elas até aparecem, mas apenas em “participações especiais”, e, mesmo assim, peço-lhes desculpas pela minha arrogância de supor que eles disseram e fizeram o que eu conto. É verdade que a presença delas ajuda a dar credibilidade à minha ambientação, mas mesmo assim eu evito.

A primeira vez que usei personagens reais foi em 1986, na segunda versão daquela “história adulta” que inventei com 13 anos. A pessoa real era o Rei Edward Tudor, o Sexto, da Inglaterra, e ele aparecia “numa idade que ele nunca teve, num tempo em que ele já era só lembrança”, como eu mesma registrei na época. Ou seja, usei de forma errada, e este foi um dos motivos do descarte da história.

A segunda vez foi em Mosteiro, quando Michel encontrou o Rei Philippe II da França. Desta vez, tentei compreender a personalidade e o comportamento da pessoa real para fazê-lo o mais verossímel possível, e não creio que tenha errado muito, se errei. O comportamento dele com Michel foi coerente com tudo o que li sobre ele.

Depois veio o desafio de recriar as personagens dos Romances de Cavalaria do Ciclo Arturiano, para A nova Camelot. Me envolvi tanto e fiquei tão impregnada com as personagens que fiz três romances de cavalaria, misturando minhas personagens fictícias aos cavaleiros lendários e ao próprio Rei Artur. Depois reuni essas três histórias em forma de romance de cavalaria – Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do cavaleiro bretão, Aventuras dos Cavaleiros Cantores – num único volume chamado Biblioteca de Kerdeor, seguindo a tradição de chamar de “biblioteca” as coletâneas de textos medievais.

Incluí personagens reais também em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, em que apareceram Joaquim Manuel de Macedo lançando “A Moreninha” e Machado de Assis ainda menino.

Vivianne (1993) era para contar a história de pessoas que viveram no século XVI. Todas as personagens eram reais. Não consegui escrever.

A história com maior número de pessoas reais contracenando com minhas personagens fictícias é Construir a terra, conquistar a vida. Nela aparecem jesuítas e governantes em estreita relação com Duarte e Fernão, as personagens principais dessa história que se passa no Rio de Janeiro do século XVI.

E finalmente O Canhoto tem a participação de Filips van de Elzas, Conde de Flandres, e de Hendrik I, Duque de Brabante. Creio ter sido fiel às informações que consegui sobre eles, e tê-los feito agir e falar de forma coerente a quem eles foram de fato. Mesmo assim, devo a eles muitas desculpas por tê-los feito participar tão ativamente de eventos decisivos da trama. Também são citados o Rei Philippe II da França e o Rei Richard I da Inglaterra, the Lionheart, ao lado de quem Nicolaas luta na Terceira Cruzada da Terra Santa.

É interessante notar que as pessoas reais só aparecem nas histórias ambientadas no passado. Talvez porque a presença delas ajude a dar maior verossimilhança ao que estou escrevendo. Talvez eu pense que não preciso usar pessoas reais nas histórias que se passam no meu tempo. Talvez as histórias do presente tenham a ambientação menos elaborada, porque parece que eu parto do princípio de que o presente é óbvio para o leitor, mas não o passado. Talvez as pessoas reais do presente não sejam tão importantes para o desenrolar das minhas tramas. Na verdade, não sei explicar.