Terra Santa

JUAN MIGUEL TORRES

Acho importante dizer uma palavra sobre essa personagem. Não que ela seja mais significativa do que as outras, mas é minha criação mais recente, e tudo na composição dela tem um motivo, que quero contar aqui.

Juan Miguel Torres é personagem de O canhoto, que já foi falada aqui em 1/7/2009, quando contei que é reescrita de uma história de 1988, chamada Mosteiro. Aproveitei de Mosteiro todas as personagens, e fiz apenas ajustes de caracterização, inclusive por causa da re-contextualização da história numa Brugge urbana e flamenga. Jean Michel Beauvans, a personagem principal de Mosteiro era filho de nobre, e sua formação incluía a preparação militar, mesmo ele sendo um canhoto que usa mal a mão direita. Mas Jan Nicolaas van de Linde, personagem principal de O canhoto é um filho de negociante que, por ser um canhoto que usa mal a mão direita, tem dificuldades até mesmo com facas de mesa para cortar o pão. Ou seja, ele nunca empunharia uma espada sem por em risco, em primeiro lugar, a própria vida. Mas a participação dele na Terceira Cruzada da Terra Santa era fundamental para o desenvolvimento da trama. Então eu tive a necessidade de criar para ele um professor de esgrima, que o iniciasse na arte da guerra. Essa personagem nova seria um especialista militar, e seu destino era morrer em batalha, atravessado por uma espada sarracena.

A primeira escolha foi quanto à nacionalidade. Pelos meus planos, Nicolaas e o professor se encontrariam na Itália, mais precisamente em Gênova, cidade mercadora onde Nicolaas poderia trabalhar e se sustentar. Diante disso, a escolha óbvia para esse espadachim era que ele fosse italiano. Mas Nicolaas chega a Gênova em exílio, então achei melhor que esse professor também fosse um estrangeiro, para que eles tivessem algo em comum que os aproximasse, e tornasse possível uma amizade, e o treinamento de esgrima seria consequência da amizade, pois Nicolaas – um mercador – nunca procuraria aulas de esgrima, nem pensaria em ir para a Cruzada. Então as alternativas mais próximas passaram a ser francês e alemão, para não mexer com os eslavos do leste. Mas então eu me lembrei de que a Espanha vivia a Reconquista, e um professor espanhol poderia ter toda a família envolvida com treinamentos e guerra, e isso faria dele um bom professor e guerreiro. Além disso, desenvolvi um carinho especial pela Espanha depois que estudei os visigodos, para escrever Amor de redenção.

A escolha do nome Juan Miguel é referência e homenagem a Jean Michel, a personagem principal de Mosteiro. E assim, ele também é João, como Jean Michel, Jan Nicolaas e Hans Günter (o outro grande amigo de Nicolaas, que aparece em outro ponto da história). O sobrenome Torres dá à família a solidez defensiva necessária a quem luta pela expansão de seu território.

Quis que Miguel e Nicolaas tivessem idade e biotipo parecido, para que o relacionamento entre eles não se caracterizasse como mestre-discípulo, mas fosse uma relação entre iguais.

Isso feito, precisava explicar o que um espanhol com esse perfil estaria fazendo em Gênova, e tinha que dar a ele algum problema que Nicolaas pudesse ajudar a resolver, já que Miguel o ensinaria a lutar. Então inventei para ele uma “história anterior” que explicasse a saída da Espanha, a chegada a Gênova, e isso fazia parte do problema de por que ele não voltava para a Espanha.

Tudo definido, a personagem estava pronta para entrar na história e cumprir seu papel junto a Nicolaas.

PERSONAGENS REAIS E FICTÍCIAS

A grande maioria de minhas personagens é fictícia. Não todas porque às vezes eles se encontram com pessoas reais e eu sou obrigada a dar vida a quem existiu de fato. Sempre evito mexer com pessoas reais, porque acho temerário vir eu contar que eles disseram ou fizeram isso e aquilo. Deixo essa tarefa aos historiadores, eu sou ficcionista. Nas minhas histórias, as personagens reais são citadas e às vezes elas até aparecem, mas apenas em “participações especiais”, e, mesmo assim, peço-lhes desculpas pela minha arrogância de supor que eles disseram e fizeram o que eu conto. É verdade que a presença delas ajuda a dar credibilidade à minha ambientação, mas mesmo assim eu evito.

A primeira vez que usei personagens reais foi em 1986, na segunda versão daquela “história adulta” que inventei com 13 anos. A pessoa real era o Rei Edward Tudor, o Sexto, da Inglaterra, e ele aparecia “numa idade que ele nunca teve, num tempo em que ele já era só lembrança”, como eu mesma registrei na época. Ou seja, usei de forma errada, e este foi um dos motivos do descarte da história.

A segunda vez foi em Mosteiro, quando Michel encontrou o Rei Philippe II da França. Desta vez, tentei compreender a personalidade e o comportamento da pessoa real para fazê-lo o mais verossímel possível, e não creio que tenha errado muito, se errei. O comportamento dele com Michel foi coerente com tudo o que li sobre ele.

Depois veio o desafio de recriar as personagens dos Romances de Cavalaria do Ciclo Arturiano, para A nova Camelot. Me envolvi tanto e fiquei tão impregnada com as personagens que fiz três romances de cavalaria, misturando minhas personagens fictícias aos cavaleiros lendários e ao próprio Rei Artur. Depois reuni essas três histórias em forma de romance de cavalaria – Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do cavaleiro bretão, Aventuras dos Cavaleiros Cantores – num único volume chamado Biblioteca de Kerdeor, seguindo a tradição de chamar de “biblioteca” as coletâneas de textos medievais.

Incluí personagens reais também em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, em que apareceram Joaquim Manuel de Macedo lançando “A Moreninha” e Machado de Assis ainda menino.

Vivianne (1993) era para contar a história de pessoas que viveram no século XVI. Todas as personagens eram reais. Não consegui escrever.

A história com maior número de pessoas reais contracenando com minhas personagens fictícias é Construir a terra, conquistar a vida. Nela aparecem jesuítas e governantes em estreita relação com Duarte e Fernão, as personagens principais dessa história que se passa no Rio de Janeiro do século XVI.

E finalmente O Canhoto tem a participação de Filips van de Elzas, Conde de Flandres, e de Hendrik I, Duque de Brabante. Creio ter sido fiel às informações que consegui sobre eles, e tê-los feito agir e falar de forma coerente a quem eles foram de fato. Mesmo assim, devo a eles muitas desculpas por tê-los feito participar tão ativamente de eventos decisivos da trama. Também são citados o Rei Philippe II da França e o Rei Richard I da Inglaterra, the Lionheart, ao lado de quem Nicolaas luta na Terceira Cruzada da Terra Santa.

É interessante notar que as pessoas reais só aparecem nas histórias ambientadas no passado. Talvez porque a presença delas ajude a dar maior verossimilhança ao que estou escrevendo. Talvez eu pense que não preciso usar pessoas reais nas histórias que se passam no meu tempo. Talvez as histórias do presente tenham a ambientação menos elaborada, porque parece que eu parto do princípio de que o presente é óbvio para o leitor, mas não o passado. Talvez as pessoas reais do presente não sejam tão importantes para o desenrolar das minhas tramas. Na verdade, não sei explicar.