Trecho

O canhoto – trecho

Capítulo I
 

– Nicolaas, volte aqui.
O menino entrou correndo no quarto e fechou a porta.
– Jan Nicolaas!
A mãe logo o encontrou, sentado na cama com ar emburrado.
– Isso é forma de se comportar? Volte imediatamente à sala.
– Não quero.
– Você precisa aprender a escrever -ela sentou-se ao lado dele.
– É muito difícil.
– No início, tudo é difícil.
– Tudo para mim é difícil sempre. Por que eu nasci assim?
– Porque Deus quis.
– Minha mão direita não presta para nada. Por que não posso usar a esquerda?
– Porque o certo é usar a mão direita para fazer as coisas. Agora venha, o professor está esperando.
Ele fechou os olhos, resignado, e as lágrimas rolaram.
– Peça a ele para não me bater se a letra ficar feia.
– Pedirei a ele para ser paciente agora no início. Mas quero que você prometa que vai praticar muitas horas por dia, até a letra ficar bonita.
– E se isso nunca acontecer, mãe? Minha mão é boba… -ele suspirou- Eu sou todo ao contrário…
– Eu sei que é difícil, meu filho. Mas você não pode desistir! Deus lhe deu essa cruz e você terá que carregá-la com todas as suas forças.
– Pelo menos isso eu posso fazer com a mão esquerda?
Ela sorriu, considerando que ele estava sendo espirituoso.
– Pode. Carregue a sua cruz com a mão esquerda. E faça todo o resto com a mão direita. Agora vamos voltar à sala, e trate de se comportar.
A mãe levantou-se primeiro e levou o filho pela mão de volta para o professor.

—“—

Frans van de Linde, rico negociante da cidade de Brugge, no condado de Flandres, atravessou a Praça do Mercado, em direção à Galeria das Águas, naquela terça-feira, 24 de junho de 1186. Lá dentro, muitas mercadorias passavam para lá e para cá, transportadas nos ombros dos carregadores, que esvaziavam os barcos e enchiam os armazéns. Frans procurou um pouco e logo encontrou seus filhos, dois rapazes jovens e bem dispostos. O mais velho, de lápis e papel na mão, conferia a encomenda e a entrega, enquanto o mais novo coordenava o trabalho dos carregadores, escolhendo as caixas a serem transportadas e decidindo onde depositá-las.
– Já podes aproveitar a vida -um amigo lhe disse- Teus filhos já dão conta do serviço.
– É verdade. São bons meninos. Tenho muito orgulho deles.
Ele deixou o amigo e foi até os rapazes.
– E então, Robrecht, tudo correto?
– Sim, pai. Falta descarregar ainda algumas caixas mas logo terminaremos.
Ele olhou para o outro filho, andando sem parar, subindo e descendo.
– Seu irmão não para?
Robrecht riu e respondeu:
– Não.
Então o pai chamou:
– Nicolaas.
Só então ele percebeu a presença do pai e foi até ele.
– Pronto, pai.
– Você carregou alguma caixa hoje?
– Não, nenhuma -respondeu com orgulho- Estou só coordenando.
– Muito bem. No próximo navio, faremos ao contrário: Nicolaas ficará conferindo a encomenda e Robrecht coordenará os carregadores.
– Ah, não, pai -ele pediu- Deixe Robrecht escrever. Escrever sentado à mesa já é difícil para mim; segurando o papel na mão será impossível.
– Nicolaas sabe o serviço, pai -Robrecht intercedeu- Muitas vezes ele é quem confere e eu só anoto.
– Está bem, então. Tenho ainda algumas visitas a fazer, para vender essa mercadoria. Não percam a hora do jantar.
– Terminaremos logo.
– Logo estarei em casa também -ele ia sair mas ainda disse- Nicolaas, calce os sapatos.
Frans saiu da Galeria das Águas, de volta à Praça do Mercado.
– Achei que ele não tinha visto…
Robrecht riu e repetiu as palavras que o pai já usara tantas vezes:
– “Calce os sapatos, Nicolaas: somos burgueses, não servos.”
– Calçado não posso andar de um lado a outro.
– Ele também não gosta de vê-lo andando tanto.
– Às vezes me irrita ter que fazer todas as coisas do jeito certo. Logo eu, que sou todo errado.
– Você não é todo errado. Você apenas tem dificuldade para fazer certas coisas. Vá lá, vamos terminar logo para irmos jantar.
Menos de meia-hora depois, os irmãos estavam saindo da Galeria das Águas, deixando toda a mercadoria guardada no depósito do pai. À tarde, iriam providenciar o transporte dos produtos para as diversas lojas da cidade. Eles pegaram a rua que beirava o canal, e caminharam por entre as pessoas que, como eles, apressavam-se por chegar em casa para a refeição. De repente, Nicolaas parou e respirou fundo.
– O que foi? -o irmão se preocupou.
– Está ficando cada vez mais frequente.
– Maus pensamentos de novo?
Ele concordou com a cabeça e completou:
– Acho que está acontecendo, Robrecht. Estou ficando com medo. Onde isso vai parar?
– Nicolaas, você não vai acreditar numa história de assustar criancinhas.
– Eu também achava que era só uma história. Mas está acontecendo comigo. Preciso fazer alguma coisa. Eu não quero ser controlado pelo demônio.
– Você não vai ser controlado-
– Você não sabe o que eu sinto. Você não sabe como é.
– Nicolaas, só porque você é canhoto-
– Não! Não diga essa palavra! Nunca! Você sabe que eu não gosto.
– Isso não o torna mais susceptível à influência do demônio. -ele completou o raciocínio.
– Você não sabe o que acontece dentro de mim, Robrecht. Estou lhe dizendo: eu também não acreditava. Mas agora estou com medo.
– O que pretende fazer?
– Ir embora.
– Para onde? -ele se assustou com a possibilidade.
– Ten Duinen.
– Um mosteiro? Ficou louco? Você não foi feito para a vida monacal.
– Lá o demônio não me alcançará.
– O demônio só o alcançará se você deixar.
– Aqui fora, sinto que estou perdendo a luta. Lá estarei mais perto de Deus.
– Não se precipite, Nicolaas.
– Não estou sendo precipitado. Faz quase um ano que penso em Ten Duinen.
– Esqueça isso tudo: o demônio, os mais pensamentos, Ten Duinen, tudo. Esqueça e viva normalmente. É só uma fase, vai passar.
– Faz dois anos que você diz que vai passar. Mas, em vez de passar, está piorando.
Robrecht não sabia o que dizer. Não queria ficar sem o irmão mas também não lhe agradava vê-lo assim, atormentado.
– Vamos para casa -Nicolaas concluiu- Não vamos decidir nada aqui e agora.
Eles andaram mais um pouco, até que Nicolaas parou novamente. Mais um barco vinha pelo canal, indo para o centro da cidade, e nele Nicolaas reconheceu uma pessoa, que sorria ao rever sua cidade.
– É Ester! -ele pensou alto, avisando Robrecht, e chamou por ela.
Ester atendeu, e sorriu ao ver quem a chamava.
– Que bom vê-los! -ela saiu de onde estava, na amurada da proa, e foi andando pela lateral do barco, para estar mais perto deles.
– Você voltou!
– Para sempre.
O barco continuava seu caminho, e Ester já chegara à popa, e já não se podia conversar. Então ela apenas gritou para eles:
– Irei vê-los à tarde.
Nicolaas confirmou com um gesto de cabeça, e ficou ali vendo o barco levá-la.
– Ester voltou… Para sempre, ela disse.
Robrecht concordou com um gesto de cabeça.
– Eu tinha me esquecido de como ela é linda. Como ela é linda!…
Robrecht puxou-o pelo braço, para que eles voltassem a andar.
– É assim que você quer ir para um mosteiro? Pensando numa mulher?
– Não estou “pensando” em Ester. Gosto dela: crescemos juntos.
– Sim, crescemos juntos, nós três. E eu não estou deslumbrado com a volta dela.
– A diferença de idade entre vocês é muito grande; você nunca teve muita afinidade com ela.
– Pode ser esse o motivo. Mas você ficou com cara de bobo quando a viu.
– Eu não esperava vê-la.
– Reconheceu de imediato uma pessoa que não via a dois anos.
– O tempo me faria esquecer o rosto dela?
– Ah, então confessa-
– Nem o seu!
– Mas nós dois somos sangue.
– Você só está tentando me confundir!
Eles entraram em casa, e foram logo à sala de refeições, onde a mãe acabava de arrumar a mesa.
– Encontramos Ester no caminho -Robrecht contou- Ela está de volta a Brugge.
– Ah, que alegria saber!
– Desculpe, Nicolaas, você queria dar a notícia?
– Ela disse que virá aqui à tarde -Nicolaas completou.
– Que bom. Vou mandar fazer o bolo de nozes de que ela gosta.
Frans também chegou à sala e Hannelore avisou ao marido:
– Ester virá aqui à tarde. Ela voltou a Brugge.
– Que bom! Quanto tempo ela ficou fora? dois anos? três?
– Dois -Robrecht respondeu, antes de Nicolaas.
– Vou mandar servir -Hannelore avisou- Sentem-se.
Os três sentaram-se, enquanto ela foi à cozinha chamar os empregados.
Depois da refeição, os três homens iam sair para terminar o trabalho do dia mas Nicolaas lembrou:
– Ester virá agora à tarde. Não podemos resolver os negócios depois?
– Os comerciantes estão aguardando a mercadoria hoje. Temos um compromisso a cumprir -Frans disse.
– Além disso, Ester provavelmente vai descansar um pouco e guardar a bagagem antes de vir -Robrecht completou.
– E por certo vai querer ficar mais com os pais dela do que conosco -Hannelore adivinhou.
– Resolvemos logo a entrega das mercadorias -Robrecht propôs- E voltamos em tempo de receber Ester.
– Sim, estão todos certos -Nicolaas concluiu- Vamos logo, então.
Os três sairam e Hannelore tomou as providências necessárias para receber os amigos logo mais. Pouco depois que os três homens voltaram, com os negócios resolvidos, a família de Ester bateu à porta. Os pais dela foram bem recebidos mas todos queriam ver e falar com a própria Ester. Hannelore abraçou-a primeiro, depois Frans segurou-lhe as mãos e beijou-lhe a testa. Eles comentaram:
– Está mais alta, mais bonita.
– Ganhou corpo -Frans observou- Seus dias de menina ficaram para trás.
Ester sorriu pelos elogios e foi até Robrecht. Segurou as mãos dele e beijou-o no rosto.
– Seja bem-vinda, Ester. Sentimos sua falta. É bom tê-la de volta.
– Eu também senti falta de vocês.
Eles trocaram um sorriso carinhoso e Ester estendeu as mãos para segurar as mãos de Nicolaas, mas ele não retribuiu o gesto. Ela estranhou a falta de cortesia e ele disse:
– Por que tão formal? Onde está minha Ester?
O sorriso dela aumentou e ela abraçou-o pelos ombros.
– Estou aqui -ela disse-lhe ao ouvido- Sempre estive, e sempre estarei.
– Que bom que você voltou -ele passou os braços ao redor dela.
– Quase morri de saudades, meu querido. Agora me solte, antes que meu pai brigue comigo.
Ele beijou-lhe o rosto e soltou o abraço. Eles ainda se olharam de mãos dadas e só então se soltaram. Todos sentaram-se e Hannelore pediu:
– Ester, conte tudo o que aconteceu nesses dois anos.
– Aconteceu tanta coisa… e nada, ao mesmo tempo. Eu não sei o que aconteceu no mundo, porque não recebíamos nenhuma notícia lá no convento.
– Conte o que você fez.
– Fui bem comportada. Aprendi muitas coisas. Li muitos livros. Éramos doze moças, e tínhamos contato com seis monjas, incluindo a abadessa. Mas a comunidade era maior, com umas vinte monjas. Aprendi tarefas domésticas, caligrafia, gramática, um pouco de história e filosofia. Li a Bíblia, vidas de santos, os pais da Igreja. Não havia muito o que fazer, então estudávamos e líamos quase todo o tempo.
– Não era monótono? -Robrecht perguntou.
– Completamente. Estávamos sempre inventando alguma coisa para animar o dia. Agora me contem vocês o que aconteceu no mundo nesses dois anos.
– A principal novidade é que a guerra contra a França acabou -Robrecht contou.
– Que ótimo! Já não era sem tempo. E ganhamos ou perdemos?
– Perdemos. Tivemos que entregar Vermandois ao Rei, e o Conde tem uma série de exigências a cumprir. É como se o pacto feudal não valesse mais. Philippe é um louco centralizador que não quer que os territórios tenham autonomia.
– Ah, política! -Hannelore interferiu- Vou pedir a Margaretha para servir um chá. Ela fez o bolo de nozes de que você gosta.
– Que maravilha! Estou mesmo morrendo de saudades dos bolos de Margaretha.
Hannelore foi à cozinha. Ester perguntou aos que ficaram:
– Faz tempo que a guerra acabou?
– Foi agora em março.
– E essa perda de autonomia afetou os negócios de alguma forma?
– Que eu tenha percebido, não -Frans respondeu- A guerra aumentou os impostos, mas agora tudo volta ao normal.
Hannelore voltou à sala e convidou-os a passarem para a sala de refeições. Enquanto todos se acomodavam, Margaretha trouxe o bolo e deixou sobre a mesa. Ester abraçou-a.
– Maga, querida, tive saudades de você.
– Como está bonita a minha menina! Fico feliz em ver meus três filhos crescidos, sadios e bonitos -ela olhou para os três jovens- Agora sente aí e coma bastante bolo: você está muito magrinha. Aquelas monjas não lhe davam comida?
– Davam. Mas nenhuma delas cozinha como você.
Ester sentou-se à mesa e Margaretha voltou à cozinha. As duas famílias lancharam e conversaram, e só depois da ceia a família de Ester despediu-se.
– Esteve muito quieto a tarde inteira -Ester comentou- Onde está meu Nicolaas?
– Seu Nicolaas tem preocupações quanto ao futuro.
Ela sorriu:
– Não precisa se preocupar mais: agora eu estou aqui.
Ele tentou retribuiu o sorriso dela mas não conseguiu mais do que um sorriso forçado. A família de Ester saiu e a família de Nicolaas recolheu-se para dormir.

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No outro dia, logo depois do desjejum, antes que a família se levantasse da mesa, Nicolaas disse:
– Preciso falar com vocês. Tive pesadelos esta noite de novo. E os maus pensamentos estão ficando cada vez mais frequentes. Não estou conseguindo controlar e logo será tarde demais. Quero ir para Ten Duinen.
Hannelore saiu de onde estava e foi abraçar o filho, chorando.
– Se fosse um lugar horrível, mãe, as pessoas não ficariam lá.
– Estou chorando por mim, que vou ficar sem meu filho.
– Você está desistindo muito cedo, Nicolaas -Robrecht tentou- Enterrar-se num mosteiro não resolve nada.
– Conheço um pouco da Regra -Frans disse- Há um período de noviciado que, se não me engano, é de um ano. Só o deixo ir com uma condição.
– Qual?
– Se durante esse período, você tiver qualquer dúvida, ou se sentir falta de nós e da vida que você tem aqui, você sairá de lá. E pensaremos em outra coisa para livrá-lo dos pesadelos e dos maus pensamentos. Quero que prometa que só ficará lá definitivamente se ficar completamente livre dos maus pensamentos e dos pesadelos, e se não sentir falta de nada do que ficou para trás.
– Eu prometo. A menor indecisão me fará sair de lá.
– Ele achará que a saudade passará com o tempo -Robrecht insistiu.
– Eu sei que não passa.
– Vai se livrar dos maus pensamentos e sufocar a saudade.
– Saudade não se sufoca -Frans disse- Se duvidar disso, vai sentir na pele. Saudade sufocada explode nas horas mais inconvenientes, causa constrangimento. O próprio abade recusará um monge que chora de saudade do mundo no meio da oração.
– E Ester? -Robrecht tentou outra coisa.
– Não comece de novo com isso.
– Você gosta dela.
– Já lhe disse como é que gosto dela.
– E ela gosta de você: ela o abraçou! E depois não parou de olhar para você.
– Ela estava com saudades!
Robrecht segurou a cabeça entre as mãos, inconformado, e estendeu-as na direção dos outros.
– Será que ninguém tem juízo? Será que ninguém vê que Nicolaas não será feliz num mosteiro?
– Ele vai voltar, Robrecht. -Frans respondeu, tranquilo- Todos sabemos que o lugar de Nicolaas é conosco – ele também. Mas é algo de que ele só se convencerá estando lá. Algumas crianças precisam por a mão na chama, para se convencerem de que o fogo queima. Se ele não for, nunca saberá como teria sido se tivesse ido. Você não pode ficar um ano sem seu irmão?
As palavras de Frans desarmaram Robrecht.
– Parece que terei que descobrir.
– Quando pretende ir? -Frans perguntou a Nicolaas.
– Logo.
– Antes, preciso que você passe todo o serviço para Robrecht. E talvez eu me lembre de alguma outra coisa que preciso que você faça antes de ir. Então, quando decidir uma data, não deixe para avisar na véséra -ele levantou-se da mesa- Agora vamos trabalhar. Hoje vou levá-los para visitar alguns clientes. Hannelore, deixe para chorar depois que ele partir.
Ele abraçou-a para tentar consolá-la:
– Não pode ficar sem seu filho por um ano?
– Não…
– E quando ele tiver que viajar para negociar com os fornecedores.
– Não…
Ele estreitou o abraço:
– Não temos escolha, minha querida. -e soltou-a- Procure ocupar-se, e não pensar no assunto.
Frans saiu com os filhos.
Antes do fim da manhã, Ester entrou na Galeria das Águas, um lugar eminentemente de homens, e foi até o depósito de Frans.
– Bom dia, senhores.
– Ester? -Nicolaas estranhou a presença dela ali- O que faz aqui?
– Seu pai me disse que vocês estavam aqui.
– Que tal foi dormir novamente na sua cama? -Robrecht perguntou.
– Muito bom. Na verdade, ainda estou me readaptando à minha vida -ela olhou para Nicolaas- Você está muito ocupado?
– Um pouco.
– Queria que você me mostrasse o que há de novo em Brugge.
– Brugge não mudou muito em dois anos.
– Então mostre-me os mesmos lugares de sempre.
Eles ficaram se olhando. Ele não sabia como recusar. Na verdade, ele não queria recusar. Mas um senso de dever lhe dizia que não podia trocar o trabalho pelo prazer. Robrecht percebeu e intercedeu:
– Pode ir, Nicolaas. Eu continuo sozinho. E depois leve Ester para jantar conosco.
– Meu pai…
– Eu falo com ele.
– Eu não quero atrapalhar -Ester percebeu que podia estar sendo inconveniente- Podemos fazer isso outra hora.
– Então não conhece Nicolaas, e sua preocupação em ser sempre o certinho? O que estamos fazendo não é urgente. Se não terminarmos hoje, terminamos amanhã. Vão logo.
Nicolaas e Ester despediram-se de Robrecht e saíram do depósito.
– Uma mulher com iniciativa -Robrecht pensou alto- Ousada, determinada… Que bom, Ester, vai precisar mesmo ser tudo isso.
Andando pela Galeria, Ester comentou:
– Eu nunca tinha vindo aqui.
– A Galeria das Águas não é lugar de mulher.
Ela riu:
– E qual é o lugar da mulher? Em casa?
– É.
– Se você pensasse assim, não teria reclamado da minha formalidade ontem.
– É diferente.
– Ah, então você quer privilégios.
– Não. Mas nós somos amigos. Os carregadores da Galeria são homens rudes.
– Então você pode olhar para mim e homens rudes não podem.
– Admira-me que você queira que homens rudes olhem para você.
– Mas por que estamos brigando? Eu vim à Galeria atrás de você.
Eles saíram para a Praça do Mercado.
– Aonde quer ir?
– Quero ver a cidade: as praças, as casas, os canais. Não há mesmo nada de novo?
– Alguma loja diferente, flores novas, alguma nova pintura numa casa. Mas nada de muito especial.
– Eu gosto daqui -ela parou de andar e olhou em volta- Essa movimentação, esse burburinho, essa agitação. É uma cidade viva.
– Como conseguiu ficar longe por dois anos?
– Quando a saudade batia, conava o tempo que restava para voltar. Foi o que me manteve.
– Não chegou a pensar em se tormar monja?
– Não. Eu pertenço ao mundo. Sabia que havia muita coisa me esperando aqui fora. Sabia que você estava aqui fora.
– E se eu não estivesse?
– É uma hipótese improvável, Nicolaas.
Por que estragar o passeio com a notícia de uma nova separação?
– Vê alguma coisa diferente aqui na Praça?
– Não. Há algo diferente que eu devia ver?
– Acho que não. Então vamos à Praça do Burgo. Depois vamos ver as praças menores, e os canais. E depois você vai jantar na minha casa.
– Eu não planejei jantar fora.
– Então vamos avisar seu pai.
Nicolaas ofereceu-lhe o braço, e eles foram à loja do pai de Ester. Depois continuaram o passeio até a hora do jantar. E, como o passeio não tinha terminado, ele se prolongou pela tarde, até quase a hora da ceia, quando Nicolaas deixou Ester em casa.
– Virá à minha festa, não virá?
– É claro.
– Vou reservar uma dança para cada convidado. Tem preferência por alguma?
Ele pensou um pouco, sorriu e respondeu:
– A maior.
Ela também sorriu, aprovando a resposta.
– Cuidarei disso. Amanhã e depois vou deixá-lo trabalhar. E nos veremos no sábado.
Ele concordou com um gesto de cabeça. Ela beijou-o no rosto e entrou em casa. Nicolaas trincou os dentes para conter o choro. Tudo seria tão mais fácil se pudesse controlar seus pensamentos. Talvez Robrecht tivesse razão e ele não devia nem ir para Ten Duinen. Talvez seu pai tivesse razão, e a saudade o faria voltar. Talvez ele mesmo tivesse razão e somente a proximidade de Deus afastaria o demônio. Numa coisa, por certo, seu pai tinha razão: precisava ir para descobrir.

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No sábado, a casa de Ester encheu-se com os amigos da família que vinham comemorar o retorno dela à cidade. Conforme planejado, ela destinou uma dança para cada convidado, e avisou aos músicos qual devia ser a maior e quais não precisavam ser tão longas. Robrecht viu que a mãe acompanhava a dança de Nicolaas e Ester e comentou:
– Não são um belo par?
– Quem me dera ela o convencesse a não ir…
– Ele não teve coragem de contar a ela.
– Mas ele está planejando ir depois de amanhã!
– Eu agora acredito em meu pai: ele vai voltar. Basta ele falar com Ester antes de ir.
– Ela precisa saber logo!
– Ela é uma mulher inteligente: saberá o melhor a fazer, na hora em que acontecer. Nicolaas a pegará de surpresa, e o desespero dela irá com ele para o mosteiro, e o trará de volta.
Mais algumas músicas e Ester procurou Robrecht:
– Reservei a próxima música para você.
– Você foi muito gentil ao dedicar uma música para cada homem da festa.
Ele a levava pela mão, por entre outros convidados.
– É que não quero ninguém com ciúmes.
Robrecht puxou Nicolaas e entregou a ele a mão de Ester, explicando:
– Então dance com ele.
Nenhum dos dois entendeu muito bem, mas aceitaram a sugestão, sorrindo um para o outro.
Quando todas as músicas tinham sido tocadas – já se anunciava a madrugada – os músicos foram aplaudidos e levantaram-se para sair. Estava terminada a festa. Ester foi até eles, e conversou com eles, e eles se sentaram novamente. O flautista explicou:
– Uma última música, a pedido da senhorita.
Ester passou por entre as pessoas até Robrecht:
– Especialmente para você. Não fuja, dance comigo.
– Eu? Por quê?
– Você me proporcionou um momento muito especial esta noite.
Robrecht sorriu, deu-lhe a mão e colocaram-se a postos para a dança. A música começou. Diferente das outras vezes, nenhum outro casal se apresentou para dançar. Então, quando a música acabou, as pessoas aplaudiram o casal de dançarinos. Aos poucos, os convidados foram despedindo-se, e logo na casa ficou apenas a família. Ester estava feliz por estar de volta, pela retomada do vínculo com os amigos, e pelo estreitamento desse vínculo com um amigo especial.

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A igreja de Sijnt Donatius estava cheia. As vozes da assembleia ecoavam pelas paredes e subiam para o Céu.
– Tão bonita esta missa… -Ester comentou com Robrecht e Nicolaas na praça, depois que a missa tinha terminado.
– As missas no convento eram diferentes?
– Só havia vozes de mulheres. É muito monótono. Ah -ela viu uma amiga a alguma distância- com licença.
Quando ela se afastou, Robrecht perguntou a Nicolaas:
– Quando dirá a ela de sua partida?
– Não quero contar.
– Isso eu sei. E você com certeza sabe que tem o dever de dizer a ela.
Ele suspirou:
– Ela vai chorar…
– Vai. Ela está fazendo planos, sabe? E os planos dela incluem você.
– Eu sei…
– Você precisa falar com ela. Quanto antes, melhor.
– Não tenho coragem…
– Então eu direi a ela. E será agora.
Robrecht ia andar mas Nicolaas segurou-o, apavorado pela possibilidade.
– Não!
– Então prometa que falará com ela.
– Não posso!
– Prometa contar a ela que você vai embora.
– Como?! Passamos dois anos contando as horas para o reencontro. E agora que ela voltou eu vou partir para sempre. Como vou dizer isso a ela?
– Assim, como acabou de me dizer.
– Não posso!
– Então não diga. E não vá.
– Que vai ser de mim se eu não for?
– Vai se casar com Ester, ter filhos, uma casa bonita. Trabalharemos juntos e envelheceremos juntos. Não vá, Nicolaas.
– E os maus pensamentos?
– Desaparecerão, agora que Ester voltou.
– Você sabe que eles começaram antes de ela ir. A presença dela não me protege. Se eu me casar com ela, e o demônio me controlar, que será dela?
– O demônio não o controlará.
– Eu não posso arriscar.
– Conte a ela. Ela tem o direito de tentar convencê-lo a não ir.
Nicolaas olhou para Ester, conversando alegremente com algumas amigas, não longe dali. Robrecht deu o ultimato:
– Nicolaas, você tem três alternativas: ou fala com ela agora; ou me dá sua palavra de que falará com ela antes de partir; ou eu mesmo falarei com ela agora -ele mostrou-lhe três dedos da mão- Escolha.
Nicolaas olhou para Robrecht e para Ester, e pensou o que seria melhor. Sabia que seria melhor que ele mesmo contasse a ela. Mas não tinha coragem de fazê-la sofrer.
– Falarei com ela depois. Pensarei nas melhores palavras e falarei com ela. Prometo.
– Vai para o Inferno se não cumprir essa promessa -ameaçou.
– Eu sei. Eu vou falar com ela. Só não consigo fazer isso agora.
– Meu pai me chama. Pense rápido e fale logo com ela.
Robrecht deixou o irmão para atender o pai, que conversava com o pai de Ester.
– Bom dia, Menheer Jansen.
– Bom dia, Robrecht. Estávamos conversando aqui sobre a forma como Ester o privilegiou ontem, ao pedir uma música extra para dançar com você.
– Foi apenas um agradecimento.
– Eu ficaria muito feliz em tê-lo como genro.
Robrecht perdeu a respiração de susto, mas logo conseguiu responder:
– Eu fico honrado, mas não posso aceitar. Ester ama Nicolaas.
– Ela quis dançar duas vezes com você.
– Ela dançou duas vezes com Nicolaas: eu cedi minha vez a ele. A música extra foi para me agradecer por isso.
– Vocês dois são amigos, se dão bem -ele ainda tentou.
– Menheer, há três pessoas envolvidas aqui: eu, Ester e Nicolaas. Ester ama Nicolaas, Nicolaas ama Ester, eu não amo Ester. Adoraremos ter Ester na família, mas como mulher de Nicolaas.
– Nicolaas ainda é muito novo… -ele pensou alto.
– Conversaremos novamente daqui a alguns anos -Frans sugeriu.
Aos poucos, as pessoas iam dispersando, voltando para casa, e a Praça do Burgo ia esvaziando.
Nicolaas passou o domingo preparando-se para a partida do dia seguinte. Se tudo acontecesse conforme planejava, nunca mais voltaria, nunca mais veria sua família, sua casa, sua cidade… nunca mais veria Ester. Mas, se conseguisse se libertar da angústia e do medo que os maus pensamentos lhe provocavam, valeria a pena. O preço era alto, mas preferia salvar sua vida e sua alma e, em consequência, a vida das pessoas que amava.
Logo cedo, no outro dia, Nicolaas arrumou algumas coisas num cavalo e despediu-se de seus pais e de Robrecht como se os visse pela última vez. Foi impossível conter as lágrimas mas Nicolaas montou o cavalo e partiu. Tinha sido difícil despedir-se do passado, como seria difícil agora despedir-se do futuro.
Nicolaas bateu à porta e foi recebido pela própria Ester.
– Acordou cedo! O que foi, caiu da cama?
– Vim despedir-me.
Ela se assustou e os dois sentaram-se.
– Não sabia que você ia viajar.
– Você sabe que eu sempre tive pesadelos.
– Todo mundo tem pesadelos às vezes.
– Mas os meus são muito frequentes. E os maus pensamentos também. Estou perdendo o controle, e tenho medo de estar sofrendo influência do demônio.
– Você sempre foi muito impressionado com isso. Sei que você sofreu muito por ser canhoto-
– Não diga essa palavra!
– mas agora já passou. Você já aprendeu a fazer as coisas com a mão direita.
– Tudo o que faço com a direita fica mal-feito. De pentear o cabelo a escrever. Tantos anos de treino, e eu não consegui me tornar destro.
– Não faz mal. Eu não me importo.
– Preciso ficar perto de Deus, para me livrar dessa influência má.
– Para onde você vai?
– Ten Duinen.
Ester engoliu em seco:
– Por quanto tempo?
– Para sempre.
– Não! -ela agarrou-o pelos pulsos e começou a chorar- Você não pode ir embora! E quanto a tudo o que planejamos, tudo o que queremos?
– Eu não posso me arriscar a ter minha vida controlada pelo demônio.
– Eu é que vou controlar sua vida.
– Tenho tido maus pensamentos três, às vezes quatro vezes ao dia. Daqui a pouco, terei maus pensamentos todo o tempo, e depois começarei a executar o mal. Eu preciso ir para perto de Deus enquanto há tempo. Daqui a pouco, será tarde demais.
– Não! Não! Não! -ela repetia sem parar.
– Entenda que eu não tenho escolha.
– E se tivesse?
– Para que quer essa ilusão? Eu vou embora, e é o melhor que posso fazer -ele beijou as mãos que o seguravam- Espero que seja feliz, Ester -ele levantou-se e ela o acompanhou- Eu preciso ir -pediu que o soltasse, e ela atendeu- Adeus, Ester.
– Não! -ela abraçou-o pelo tórax e apertou-o- Você não pode me deixar assim. Eu amo você, Nicolaas. Não aquele amor infantil de quando nos despedimos a dois anos atrás. Amo você como uma mulher ama um homem. Preciso de você como uma mulher precisa de um homem. Quero você… -o choro não a deixou continuar- Você não pode fazer isso comigo!
Ele abraçou-a e beijou-a na cabeça, e depois segurou-a pelos ombros, querendo soltar-se.
– É preciso, Ester.
– Não vá, não vá! Eu posso ajudá-lo, sei que posso.
– Você não faz idéia do tormento que tem sido minha vida. Eu preciso de paz, Ester.
– Você terá paz comigo.
Ele abraçou-a novamente e lembrou da promessa que fizera ao pai. Entendia agora o porquê dela. Entendia também porque Robrecht o forçara a falar com Ester antes de partir.
– Prometi a meu pai que voltarei se sentir falta da vida que tenho, e das pessoas que ficam.
Ela afrouxou o abraço e olhou para ele, parando de chorar.
– Prometeu voltar?
– Se sentir falta de alguma coisa. Tenho um ano de noviciado antes de ficar lá permanentemente.
– Então você vai voltar.
– Não sei. Se tudo der certo, eu não voltarei.
– Você vai voltar -ela deslizou as mãos até os ombros dele, e abraçou-o carinhosamente pelo pescoço- Vai pensar em mim e vai voltar -ela pôs seus lábios nos dele, e beijou-o delicadamente, mas com paixão. Nicolaas estreitou o abraço e correspondeu ao beijo dela, esquecendo-se do mundo, da viagem, de Ten Duinen, do demônio. Quando as bocas se soltaram, eles ficaram se olhando, ambos afogueados, e Ester falou primeiro, já completamente calma e dona de si:
– Eu posso esperar mais um ano, até você se curar dos pesadelos e aprender a controlar os maus pensamentos. Passei dois anos contando os dias, posso passar mais um ano contando dias.
– Eu posso não voltar depois de um ano.
– Eu lhe darei outro beijo melhor do que esse no dia em que você voltar.
– Melhor?
– Esse foi um beijo triste, de despedida. O beijo feliz do reencontro certamente será melhor.
Não, não queria mais ir – Nicolaas pensou – Para que esperar meses por um segundo beijo, se podia vê-la no dia seguinte, se podia vê-la todos os dias…; se podia tê-la em sua casa…, em sua cama…, em sua vida…? Mas tinha o direito de transformar a vida de Ester no tormento que era sua vida?
– Quero dedicar-me inteiro a você, Ester. Mas isso é algo que não conseguirei fazer agora. Tenho que ir para Ten Duinen, mesmo que seja apenas para ter certeza de que lá não é meu lugar.
– Eu já tenho essa certeza. Você não vai ficar lá nem um ano. Ouso arriscar seis… não, oito meses. Você voltará para mim em menos de oito meses. Por que não conta os dias, para saber se acertarei ou não?
– Lembrarei disso quando se completarem oito meses.
Tinha que dar um jeito de fazê-lo pensar nela todos os dias – Ester pensou – Mas o que poderia funcionar?
– Pelo menos reze por mim.
– Rezarei.
– Todos os dias. Precisarei de orações todos os dias, porque sofrerei todos os dias até você voltar.
– Rezarei todos os dias.
Ele soltou-a.
– Aguardarei seu retorno… e sonharei com o segundo beijo.
Nicolaas beijou as mãos dela e saiu, antes que desistisse completamente de ir, montou o cavalo e partiu. Ester saiu também e o viu afastar-se, talvez para sempre. Ela entrou novamente em casa antes de gritar e agarrar os cabelos como se fosse arrancá-los. Os pais de Ester e também Robrecht entraram na sala correndo para socorrê-la, e a mãe abraçou-a, para tentar acalmá-la.
– O que Robrecht faz aqui? -ela envergonhou-se que ele presenciasse seu desespero.
– Vim pedir a seus pais que não interferissem na sua conversa com Nicolaas. Pode ficar calma, Ester: ele vai voltar. Ele quase desistiu de ir, ele não vai aguentar nem dois meses longe de você. Não com a promessa de um segundo beijo.
Ester corou:
– Vocês ouviram a conversa!?
– Foi a condição de seu pai para não interferir.
– E me arrependi! Tive que ver minha filha lambendo um homem e não pude fazer nada.
– E ficaram espiando! -ela cobriu o rosto com as mãos- Ah, meu Deus, que vergonha!
– Foi isso o que você aprendeu com aquelas monjas? -ele estava furioso.
– Não -ela tirou as mãos do rosto- Isso aprendi com minha mãe.
– E põe a culpa em mim!
– A senhora me ensinou a lutar pelo que eu quero, e a usar todas as armas disponíveis. A senhora sempre disse que uma mulher consegue tudo de um homem, se usar seus talentos femininos.
– Mesmo assim, Ester, você se excedeu.
– Desculpem, Mevrow, Menheer, mas eu concordo com Ester. Nicolaas quase desistiu de ir. Ela o amarrou com todos os laços: ele não conseguirá escapar dos encantos dela. Vai lembrar do contato físico, das palavras… e vai voltar. Parabéns, Ester, você terá Nicolaas de volta.

 
 
 
 
 

O processo de Ser – trecho

Capítulo I
 
Viver entre a montanha e o rio. A que impera nos céus, e o que escorre pela terra. A fortaleza e a suavidade, e eu aqui, entre ambos, elemento de ligação entre eles e da identidade deles.
– Vem Euryanthe!
A cachorra não se mexeu.
– Vem, Euryanthe, a neve não está alta.
Ela pareceu ter entendido e foi até seu dono. Eles caminharam juntos mais alguns metros, montanha acima, e, a certa altura, ele parou e olhou em redor.
– Vê como está tudo branco?
Ela não respondeu. A neve cobria os tornozelos dele e a companheira parecia estar com frio. Ainda assim, ele sentou-se no chão e abraçou-a.
– Nossa casa lá embaixo parece tão pequena… Como a distância muda as pessoas: aquela é Tatiana. Parece tão sem importância daqui… -ele olhou a figura que estava perto da casa- Ela está nos procurando. Vamos descer, Euryanthe.
Ele levantou-se e os dois desceram rápido. Tatiana estava perto da margem do rio e, quando viu o irmão se aproximando, gritou-lhe:
– Ilya, venha rápido!
Ele correu e parou ao lado dela.
– O que foi?
– Ali -ela apontou o rio- Ele vai morrer. -disse, preocupada e olhou para Ilya.
Rápido, ele entregou a ela o agasalho, as luvas e o chapéu e pulou na água gelada para salvar o estranho. Alcançou-o e levou-o até a margem. Quando saiu da água, sentiu seu corpo congelar. O outro estava desacordado e ele o reconheceu:
– É um dos soldados que esteve em nossa casa há alguns dias. -ele levantou-se- Vamos entrar: estou morrendo de frio.
– E deixá-lo aqui?
– Tatiana, ele é um soldado.
– É um ser humano!
Ilya pensou um pouco e resolveu carregar o outro para dentro da casa. Lá dentro, deitou-o perto da lareira e começou a tirar-lhe a roupa.
– Tatiana, apanhe uma toalha.
Ela atendeu e voltou, trazendo duas.
– Deixe que eu cuide dele: tire essas roupas molhadas antes que adoeça.
Ele fez que não ouviu. Jogou uma toalha sobre os ombros e, com a outra, começou a secar o corpo gelado do estranho.
– Apanhe um cobertor bem grosso, Tatiana.
Ela novamente atendeu rápido e eles cobriram o que estava ao lado da lareira. Ilya tirou a camisa, as botas e meias e se enrolou no outro cobertor que Tatiana trouxera.
– Está gelado, Ilya… Venha pra perto do fogão esquentar-se. -ela puxou-o pelo braço.
– Ele vai morrer.
– Você acha?
Os dois observaram o estranho e Ilya explicou:
– Olhe como ele treme. Com a noite vem o frio… Ele não vai conseguir recuperar o calor em tempo.
Ela deu ao irmão uma caneca com chá quente, de que ele tomou alguns goles.
– Vá lá pra cima, vista-se e enfie-se debaixo das cobertas, se não quiser ficar doente.
Ele devolveu-lhe a caneca vazia e fez o que ela disse.
Mais tarde, ela levou-lhe o jantar no quarto.
– Já está mais quente?
– Completamente. Se tivesse me chamado, eu teria ido lá embaixo.
– Não queria que se resfriasse.
– Não trouxe nada para Euryanthe?
– Ela está aqui?
– Ela esquentou meus pés.
Ilya levantou o cobertor e a cachorra pulou para o chão.
– Ilya, sabe que mamãe não gosta que ela suba na cama.
– Ela não precisa ficar sabendo. E, sem Euryanthe, eu não teria esquentado tão rápido.
Tatiana entregou-lhe a bandeja e ele tomou a sopa antes que esfriasse.
– O estranho?
– Continua do mesmo jeito. Tive que colocar um travesseiro debaixo da cabeça dele, ou ele a quebraria de tanto se bater no chão.
– Enquanto ele estiver tremendo, é porque o corpo está reagindo. Quando ele cansar…
Ele já tinha terminado de comer. Ela pegou a bandeja e ía sair.
– Vem, Euryanthe, vem jantar.
– Tatiana, quando você for dormir, me avise.
– Para que?
– Eu vou descer e cuidar de manter o fogo na lareira. O aquecimento normal será pouco para ele.
– Eu posso colocar lenha na lareira antes de dormir.
– Se for muito, vai queimá-lo. Se for pouco, não vai durar a noite inteira.
– Está bem, virei chamá-lo.
Tatiana saiu e fechou a porta. Desceu a escada seguida por Euryanthe e deu-lhe comida.
Ilya não podia passar a noite inteira acordado. Ela também não. Então o justo seria que dividissem a função. Tatiana lavou a louça e sentou-se junto à lareira com uma cesta de costura nas mãos. Se ficasse ocupada, pensou, o sono custaria mais a chegar. Resistiu duas ou três horas além da que estava acostumada. O estranho estava tremendo menos. Estaria já cansando? Tatiana tocou nele e sentiu que ele estava quente. Talvez o frio agora fosse por dentro. O coração dele batia forte e apressado e a respiração era angustiante.
– Eu acho que ele está com febre. Ilya tem razão: se o frio não o matar, o calor o fará. É pena…
Ela levantou-se e verificou que todas as janelas e a porta estavam bem fechadas. Acendeu uma vela e disse a Euryanthe:
– Fique aqui e faça companhia a Ilya, está bem?
Tatiana subiu ao outro andar carregando uma vela acesa e uma apagada, entrou no quarto de Ilya e acordou-o. Acendeu a outra vela, deixou uma com ele e entrou no seu quarto.
Ilya desceu caminhando devagar e sentou-se numa poltrona junto à lareira.
– Vai ser uma longa noite, Euryanthe.
Ele abriu um livro e comecou a ler. De vez em quando, olhava para o estranho, para ver se ele melhorava ou piorava de vez. Lá fora, a noite era branca de neve e vento frio. O silêncio era interompido apenas pelo crepitar da lenha no fogo.
A noite passou tranqüila e, quando desceu, pela manhã, Tatiana encontrou todos dormindo.
– Ilya, acorde.
Ele abriu os olhos e espreguiçou-se.
– Acabei dormindo…
– Ele parece melhor hoje.
– Dê-me um pouco de chá: estou com frio.
Os dois tomaram chá e ela encheu outra caneca.
– Será que ele consegue beber?
– Tente.
Tatiana abaixou-se junto ao estranho e tocou nele. Ele respirou fundo e se mexeu mas não abriu os olhos. Ela levantou a cabeça dele e colocou-lhe a caneca nos lábios. Aos poucos e com dificuldade, ele bebeu tudo.
– Como se sente? -ela falou com ele.
Ele abriu os olhos e fitou-a longamente.
– Ainda sente frio? -ela insistiu.
Ele negou com um gesto de cabeça.
– Não consegue falar?
Ele repetiu o gesto e deixou a cabeça cair para trás.
– Você está com febre. Vou arrumar uma cama para você.
– Qual? -Ilya perguntou.
– Aquela cama velha no último quarto. Está fechado há meses: vou ter que abrir a janela um pouco e deixar arejar. Depois que eu tiver arrumado, você o leva para lá.
Ilya pensou um pouco e concordou com a cabeça e Tatiana levantou-se para fazer o que dissera.
– Não. -Ilya interrompeu- Deixe que eu abra a janela e tire a poeira do colchão. Fique aqui e prepare alguma coisa: estou com fome.
Ela voltou e Ilya subiu. Tatiana colocou mais lenha no fogão e pensou o que colocar nas panelas. Logo um cheiro bom de comida encheu a casa.
– Você deve estar com fome. -ela comentou.
Ele concordou com a cabeça e perguntou com dificuldade:
– Qual o seu nome?
– Tatiana Mikhailovna. -ela olhou para ele.
– Agradeço… por minha vida.
– Qual o seu nome?
– Piotr Ivanovich.
– O que fazia ontem no rio, Piotr Ivanovich?
– Eu… caí. Não sei como, eu me desequilibrei e caí.
– Seus amigos soldados não o socorreram?
– Eu não estava com eles.
Ela se encheu de medo e perguntou em voz baixa:
– Você é um desertor?
Ele hesitou um instante mas confirmou com a cabeça.
– Então estamos em perigo enquanto você estiver conosco. Ilya tinha razão: devíamos tê-lo deixado morrer.
– Ele pensa assim, você, não. Por isso, esperei que ele saísse para agradecer a você. Não lembro das palavras mas lembro da sua voz convencendo-o a me salvar. A você eu devo a minha vida.
– Eu não teria pulado na água.
– Ele também não, se você não o tivesse convencido a fazê-lo.
– Não diga a Ilya que é um desertor. E, se os soldados vierem procurar você, vou jurar que não sabia o que você é.
– Eu juro que farei tudo que estiver a meu alcance para não causar-lhes aborrecimentos.
Ele sentou-se mas, como não estava vestido, o frio o fez deitar-se novamente. Tatiana voltou a atenção às panelas e Ilya voltou ao primeiro andar.
– Não pensei que houvesse tanta poeira naquele quarto! De lá ouvi vozes. Estavam conversando?
– Nosso hóspede já consegue falar.
– E sobre o que conversavam?
– Nós nos apresentamos -o estranho respondeu- e eu agradeci a ela por vocês terem salvado minha vida.
– Eu sou Ilya Mikhailovich. Quem é você e o que fazia dentro do rio ontem?
– Sou Piotr Ivanovich. Eu caí no rio.
– Não achou quem o socorresse?
– Meus companheiros não me viram cair. Eu me afastei deles um instante, eles não devem ter notado minha ausência até a noite.
– Se procurarem por você…
– Diremos a verdade: eu caí no rio e vocês me salvaram. Não haverá problemas.
– É o que eu francamente espero.
– Ilya, as roupas dele não estão secas.
– Mesmo que estivessem, eu não permitiria que as usasse: não quero um soldado na minha casa. Você é maior do que eu, vou ver se meu pai tem alguma roupa que lhe sirva.
– O almoço está quase pronto.
Ilya foi até o quarto do pai e voltou com algumas peças de roupa.
– Aqui estão. Tatiana, vá colocar um lençol naquela cama.
Ela atendeu e Piotr vestiu-se antes que ela voltasse. Pouco depois, os três sentaram-se à mesa. Ilya sentou-se no lugar do pai, Tatiana à sua direita e Piotr em frente a ela. Faziam a refeição em silêncio e, antes que terminassem, a porta se abriu e um casal entrou. Os filhos correram a abraçá-los e Piotr levantou-se.
– Parece que temos visitas. -ele olhava fixamente para Piotr.
Ilya se aproximou de Piotr com o pai e apresentou-os.
– Ele estava se afogando e eu o tirei do rio.
– Pelo que sou eternamente grato.
– Ah, pai, as roupas que ele está usando são suas.
– Eu já tinha percebido. Meus filhos estão cuidando bem de você?
– Salvaram minha vida.
– Enquanto estiver aqui, sinta-se como em sua casa.
– Obrigado.
– Sente-se, pai, e coma antes que esfrie. -Tatiana colocou o prato em frente a ele, sobre a mesa.
Os cinco sentaram-se, uns para começar, outros para terminar a refeição.
Quando terminaram, levantaram-se os quatro e as mulheres tiraram os pratos de cima da mesa. Piotr cruzou os braços sobre a mesa e apoiou neles a cabeça.
– Sente-se mal? -a dona da casa perguntou.
Ele não se moveu, apenas disse:
– A cabeça me pesa e eu sinto frio.
– Está com febre. Venha, você precisa descansar.
Tatiana disse isso, pegou o cobertor que estava em frente à lareira e conduziu Piotr pelo braço até o quarto que preparara para ele. Fechou a janela, enquanto ele deitava na cama e se cobria.
– É simples mas… -ela disse, referindo-se ao quarto.
– Acolhedor. E quente.
– Tente dormir. Vou pedir à mamãe que faça um chá para baixar sua febre.
– Só posso agradecer.
Tatiana saiu.
 
 
 
 
 

Um dia, depois (conto) – trecho

 
– Faz tanto tempo e parece que nunca nos separamos.
– Você sempre esteve comigo, em minha memória.
– E você na minha.
– Precisamos nos encontrar num final de semana. Estou curioso para ver o novo Henrique, conhecer seus filhos…
– Também quero conhecer seus filhos. Quantos anos seus eu perdi? -ela passava os dedos pelo cabelo dele- Envelhecemos tanto, você e eu…
– Mas você ainda é tão bonita… De repente me sinto com quinze anos novamente. Aquele tempo foi tão bom…
 
 
 
 

Vingança – trecho

 
Capítulo I
 
A luz era filtrada por grossas cortinas, deixando o ambiente na penumbra. Os móveis eram de madeira-de-lei escura, grandes, pesados. O cômodo era grande mas cheio de estantes de livros e com duas escrivaninhas e um canapé espaçoso, onde dois rapazes conversavam.
– Seu pai queria que você esquecesse esse assunto.
– Eu sei. Se não fiz nada até hoje, foi em respeito a ele. Mas já fiz luto por um ano, não tenho porque esperar mais.
– Podia atender o desejo dele.
– Eu não queria dar-lhe desgosto mas agora ele não está mais aqui para desgostar-se. Eu preciso fazer isso, Álvaro.
– Não entendo porque não consegue esquecer tudo.
– Esquecer?! A minha vida mudou totalmente, você acha que posso esquecer?!
– Mudou para melhor, não?
– Não importa. Eles não tinham direito. Não tinham direito…
– A Ângela já sabe?
– Não. Nem deve saber. Você é o único que sabe. Então é o único que pode me deter. Mas é também o único que não tentará me deter.
– Você vive obsecado com essa idéia. Esqueça, Rodrigo, perdoe!
– Nunca: eu jurei vingança. E eu terei minha vingança.
– Já sabe o que fará?
– Não, não sei em que situação vivem. Preciso estar lá para decidir.
– Não faça nada de que possa se arrepender depois.
– O que quer que eu faça, não será motivo de arrependimento.
– Eu não sei como convencê-lo a não ir.
– Não sabe porque não há como. Eu partirei na próxima semana. Já tenho tudo planejado até chegar lá. Então verei o que fazer.
– Rodrigo, você é jovem, rico, tem uma noiva linda, por que ficar repisando coisas do passado?
– É uma ferida que não fechou, Álvaro. É preciso pôr remédio para que cicatrize.
– E vingança é remédio?
– Para mim, é. Você fala tudo isso porque não sabe o que aconteceu.
– Eu sei: você me contou.
– Você não sabe o que eu sofri, o que eu passei. Eles merecem todo o que eu darei a eles. Eles pagarão muito caro pelo que me fizeram.
Álvaro desistiu: sabia que a esperança da vingança era o que mantinha Rodrigo vivo. E, apenas quando se sentisse vingado, ele poderia viver em paz, como uma pessoa normal. Enquanto restasse essa mágoa, ele estaria sempre angustiado, amargurado, melancólico.
– Então, que você tenha sucesso, e que sua sede de vingança seja saciada.
– Deus permita.
 
 
 
 

À procura (conto) – trecho

O sol encontrou um grupo de cinco pessoas caminhando mato adentro, subindo montes e escalando pedras.
– Não podemos parar um pouco? -ela segurou-se no ombro de Augusto- Eu estou cansada.
– Pedro -ele chamou o que seguia à frente- vamos parar um pouco: Beatriz está cansada.
– Mais ali na frente, que tem sombra e espaço.
Os cinco pararam e sentaram-se no chão.
– Foi uma caminhada e tanto -Nelson comentou- Minhas pernas parecem latejar.
– Ainda falta muito?
– Uma meia hora.
– Por que não senta também e descansa, Pedro?
– Não estou cansado. Quando eu era criança, fazia numa puxada só.
– Você costuma vir sempre pra cá?
– Não. Vinha quando era pequeno. Faz mais de dez anos… a última vez que eu vim…
– Por causa das maldições que dizem haver?
– Ninguém sabia da maldição até que eu contei.
– Como você ficou sabendo?
– Eu caí dentro dela -falou, solene.
Os quatro pesquisadores espantaram-se.
– O que… quer dizer com “caí dentro dela”? -Beatriz teve coragem de perguntar.
– Quero dizer que ela já me pegou. Não fosse por isso, eu não teria coragem de ir lá.
– E… -ela pensou se devia perguntar- em que consiste essa maldição?
– Morte.
– Mas você está bem vivo, não está morto.
– Não tenho certeza…
Os quatro arregalaram os olhos por um segundo e Augusto levantou-se.
– É melhor continuarmos -ele achou melhor encerrar o assunto.
Os outros levantaram-se também e continuaram o caminho.
 
 
 
 

História da vingança do cavaleiro bretão – trecho

  

Agora que podia usar uma espada, Linart queria buscar sua vingança, mas o pai sempre arranjava um motivo para não deixá-lo partir. Um dia, impaciente por conseguir o que queria, Linart reclamou com o pai:

– Não vou ficar aqui, tendo um mundo inteiro para correr.
– A produção não foi boa este ano. -desculpou- Talvez no próximo ano…
– Quereis que eu seja o herdeiro… Eu não vou ficar, pai.
– Sei que é necessário para a fama de todo bom cavaleiro viver aventuras, mas deves entender que preciso de ti.
– Meus irmãos deixastes partir. -queixou-se.
– Por isso mesmo. Eles se foram, não sei quando voltarão. Infelizmente, não sei nem mesmo se voltarão. Sei que és impetuoso, Linart, mas eu só tenho a ti.
– Pai, não entendeis? eu não posso ficar aqui.
– Sacrifica teu orgulho de jovem para dares uma velhice tranqüila a teu pai.
– Pai… -tinha que contar- Rodreve foi morto injustamente. Eu jurei vingá-lo. Sacrificai vossa velhice tranqüila pela honra de um filho vosso.
– O que estás dizendo, Linart? -ele se assustou com a revelação.
– Rodreve foi morto à traição. Eu estava lá, eu vi.
– Mas foi Sir Tristan de Leonis quem o matou.
– Sim, covardemente.
– Sir Tristan de Leonis não age assim. Ele é um cavaleiro honrado.
– Não foi contra Rodreve. Pai, eu vi. Se não acreditais, perguntai a Denisalt. Ele estava comigo, ele viu.
– Não disseste nada…
– A vingança é minha. Se eu dissesse, iríeis mandar alguém contra ele. Eu quero matá-lo, pai.
– Só Sir Lancelot conseguiria bater-se contra Sir Tristan e permanecer vivo.
– Eu também o farei. Se não for possível, quero morrer tentando.
– Tu és muito jovem ainda, Linart. Sir Tristan tem muita experiência. Por isso ele é um dos melhores cavaleiros do mundo.
– Deixai-me morrer tentando, pai! -ele se ajoelhou em frente à cadeira em que o pai estava sentado e implorou- Deixai-me ser fiel ao juramento que fiz, sobre o corpo sem vida de meu irmão!
O velho senhor pensou longos minutos. Apesar de impaciente pela demora, Linart apenas olhava para o pai. E ele deu a resposta:
– Não quero perder todos os filhos que tive.
– Pai!
– Mas devo reconhecer que teu pedido é justo. Vai, Linart, vinga teu irmão e cumpre tua palavra. Se conseguires, volta, e conforta os últimos anos de teu pai.
Linart sorriu, eufórico pela decisão do pai.
– Eu voltarei, meu pai. Assim que eu matar Tristan, voltarei e não sairei mais de junto de vós. Prometo que não vou querer mais fama. Quando a morte de Rodreve estiver vingada, não vou me opor a ser vosso herdeiro.
 
 
 
 

Pelo poder ou pela honra – trecho

 
  
 Capítulo I

Apenas a alguns meses os franceses tinham celebrado o início de um novo ano, apesar da recente derrota de outubro. A guerra seguia sem tréguas entre os povos irmãos, e os ingleses, aos poucos, conseguiam vitórias importantes. A derrota do exército francês em Azincourt abalara o país, não somente econômica e politicamente mas principalmente no que se refere a autoconfiança.

No interior do país, num território fiel a Charles VI, um jovem vivia sua guerra particular. O pai dele estivera presente na batalha contra Henry V e, agora, repousava no jazigo da família. O velho barão não tinha muitas posses mas seu feudo e seu título eram a causa de uma guerra justa: o direito à sucessão.

– Ainda nos pesa no coração a perda de nosso pai. Mas acho que é mais que hora de pensarmos na herança, meu irmão.

– O que quer dizer com “pensar na herança”?

– Temos que ver como vamos dividir-

– Dividir? Eu sou o único herdeiro.

– Eu quero uma parte, Estienne.

O rapaz deu uma gargalhada e encostou-se na cadeira.

– Você? -ele ainda não conseguia parar de rir- Quer uma parte? Ora, por favor, não me mate de rir.

– Por acaso não tenho direito? Por acaso o pai era só seu?

– Você sabe que o primogênito é o herdeiro. E eu sou o primogênito.

– Eu nasci um ano antes de você. -atacou.

– Eu sei. -ele disse tranqüilo.

– Então eu-

– Você é mulher, Ninette.

– E o que isso importa?

Ele parou um instante para pensar na resposta. Encostou novamente na cadeira e procurou acalmar-se.

– Você sabe que, pela lei, você não tem direito.

– Eu só quero uma parte, Estienne.

– Você quer é um marido.

– Não. Eu quero terra.

– Ninette,… quer um condado? Talvez um ducado? Posso conseguir isso para você.

– Não quero um condado. Quero a minha parte nestas terras.

– Está bem, Ninette, chega por hoje. Agora saia, que preciso resolver algumas coisas importantes.

– Se são referentes à nossa herança, não creio que precise sair.

– Ninette-

– Ou então vamos resolver logo a parte-

– Eu não vou admitir isso! -ele levantou-se- Estou tentando ser paciente mas você, francamente-

– Não levante a voz para mim: você não é melhor do que eu.

– Saia daqui. Agora.

– Somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Eu não vou deixar que você decida minha vida. Não vou deixar que você tome o que, por direito, também é meu.

– Direito… Você sabe que as mulheres são excluídas da linha hereditária. A função das mulheres é dar filhos aos homens, não atuar como homens. Uma mulher tem direito a um marido, não a um feudo.

– Meu filho terá direito a este feudo?

– É claro que não. Receberá a herança do pai dele.

– Há setenta e cinco anos eles lutam contra essa lei imbecil. Ele vai acabar sentando-se no trono da França.

– Nosso rei é Charles VI. Esse Henri da Inglaterra não tem nenhum direito.

– Só porque foi uma mulher que deu a ele sangue francês? Ele tem direito, sim. Assim como eu. -ela pensou um instante- Vou deixá-lo resolver suas… “coisas importantes”. Eu também tenho coisas importantes a resolver.

Ela saiu, batendo a porta. Estienne sentou-se, procurando acalmar-se. Precisava combinar logo o casamento de Ninette.

– Que mulher terrível! Indócil assim… está mesmo precisando de um homem para atender-lhe os caprichos.

— “ —

Ninette e um homem caminhavam a passos curtos e lentos pelos muros do castelo, onde ele montava guarda, naquela tarde de vento frio.

– Entende o que quero, Frederic?

– Pode ser perigoso.

– Por isso preciso de você.

Eles pararam de andar e Ninette virou-se de frente para ele.

– O que me diz?

Ele pensou um pouco.

– O que eu ganho com isso?

Ela sorriu: sabia que ele faria essa pergunta.

– Não gostaria de ser o chefe da guarda? Você teria um soldo maior… e um certo poder. Além da minha -ela se aproximou e olhou fundo nos olhos dele…- eterna gratidão -e voltou a andar.

– E se seu plano não der certo? -ele alcançou-a e novamente pararam.

– Farei companhia a você na prisão… e na forca.

– É arriscado demais.

– Meu irmão não gosta de você e você sabe disso. Acha que ele confiaria a segurança do castelo a você? Acha que vai conseguir melhorar de vida com ele?

– Fico sem argumentos.

– Que bom -ela sorriu- Bem, meu chefe da guarda, sua primeira missão é conseguir soldados de sua confiança. Não diga a eles meu plano: eles têm que ser leais a você, não a mim. A mim, basta a sua lealdade.

– O que vou oferecer a eles?

Ela pensou um pouco.

– Folga uma vez por semana. E podemos negociar uma baixa de impostos para as famílias deles.

– Baixar os impostos? Como vai cuidar de sua sobrevivência?

Ela caminhou até o merlão e olhou para fora pela ameia.

– Muitas gerações já trabalharam nestas terras. Para cuidar delas, posso abrir mão de algum luxo.

– Farei o possível para não desapontá-la.

– Seja esperto, procure apenas os que têm algum motivo pessoal para ficar do nosso lado. Não diga nada aos que são leais ao atual chefe da guarda.

Eu sou leal a ele. -ele sorriu- Mas sou muito mais leal a mim mesmo.

– Eu sei que a lealdade depende de quem paga mais. Mas, se alguém me entregar para meu irmão, pode conseguir alguma vantagem. Conto com você também neste detalhe.

– Não vou decepcioná-la.

– Você tem dois dias para cuidar de tudo. Conto com você, Frederic. -ela colocou a mão no rosto dele e sorriu.

– Ninette! -uma voz de mulher gritou, chamando.

Ela virou-se para onde a chamavam. Despediu-se do soldado com um olhar e afastou-se em direção à mulher. 

– Sim, mamãe.

– O que estava falando com aquele homem?

– Ele pediu-me um favor.

– Que favor?

Ela olhou para a mãe com o canto do olho.

– Pediu-me… que intercedesse por ele junto a Estienne. A senhora sabe que meu irmão não gosta dele.

– E você gosta dele?

– Por que haveria?

– Então não foi um gesto de carinho?

Ela parou e olhou para a mãe.

– O que quer dizer com “gesto de carinho”?

– Você colocou a mão no rosto dele. Eu vi.

Ninette voltou a andar.

– Ora, mamãe, que tolice. Só quis dar-lhe esperança.

– E como ele interpretou?

– Chega, mamãe. Esta conversa não nos leva a lugar algum.

Elas entravam em casa.

– Então quero tratar de um outro assunto.

– Só um minuto, mamãe, tenho que lavar minhas mãos. Aliás, venha também a meu quarto: podemos conversar lá.

As duas subiram a escada e a mãe esperou que a filha terminasse de lavar as mãos para começar:

– Seu irmão me disse que vocês discutiram ontem. Ninette, que tolice! Que idéia absurda querer parte da herança.

– O pai dele era meu também. Nós dois temos o mesmo sangue.

– Filha, as mulheres têm outro tipo de poder: elas dominam os homens.

– Os homens fazem as mulheres tolas pensarem assim.

– Seu pai nunca me negou nada.

– E a senhora negou algo a ele?

– Ninette, um bom marido-

– Eu não quero um marido, mãe.

– Entendo que não queira se casar com um estranho. Mas tenho certeza de que seu irmão não irá contra sua escolha. Ainda mais se você escolher-

– Servos escolhem seu senhor?

– Filha, estou tentando melhorar as coisas-

– Ser dominada primeiro pelo pai, depois pelo irmão, depois por um marido para, quando ele finalmente morrer, ser dominada pelo próprio filho. Mãe, isso não é vida!

– E que vida você quer? A vida de um homem? Quer lutar nas guerras ao invés de ficar protegida no castelo-

– Cuidando de crianças? Sim, quero.

– Não tem condições. Pense naqueles dias-

– Se lhe dá dor de cabeça, pouco me importa. Nunca senti nada e a senhora sabe disso. Sei que não tenho a força de um homem. -ela sorriu com maldade- Mas o que mais um homem tem além da força?

– Ninette, tenha juízo.

– Não vou abrir mão da parte a que tenho direito. Se Estienne quiser conversar, podemos negociar, eu não me importo em ficar com uma parte menor, desde que a terra seja boa.

– Isso é loucura!

– E quem é a louca? Vocês, que passam a vida satisfazendo os caprichos de seus maridos? Ou eu, que não vou me curvar a nenhum marido?

– Não pode desejar nunca se casar.

– “Não me curvar” não significa “não me casar”.

– E que homem vai consentir nisso?

– Com um dote de meio feudo, que homem vai me recusar?

– Seu irmão não vai concordar.

– Ele vai concordar. Vou dar a ele mais dois dias para pensar. -ela sorriu com maldade- E, daqui a dois dias, eu sei que ele vai concordar.

 
 
 
 
 

A noiva trocada – trecho

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Capítulo I

O carro sacudia na estrada esburacada. O caminho de terra marrom era estreito e irregular mas única alternativa para se chegar à cidade. Depois de algumas horas de viagem, os ocupantes do carro avistaram o Rio de Janeiro. O cocheiro virou para trás e avisou o outro:
– Olha, chegamos!
– Ainda bem! Eu não aguentava mais!
Pouco depois, eles chegaram à praça central, no alto do Descanso, onde desceram.
– Ah, estou todo quebrado! -ele se torcia, tentando colocar os músculos de volta ao lugar.
– Tu não estás acostumado a vir à cidade, Amândio. Por isso sentes tanto.
– E eu não sei como consegues vir tantas vezes.
– Não devíamos ir ao porto, de uma vez?
– Henrique me encomendou que marcasse a data: eu não quero esquecer. Os proclamas já estão correndo há muito tempo e ele tem pressa.
– Está bem. Eu te espero aqui.
Amândio entrou na igreja e Miguel ficou na praça. Andou por ali, procurando alguém conhecido. Do alto da cidade, podia ver toda a baía e a praia, onde os navios ancoravam.
– Mas,… o que…? O que aquele navio faz ali?! -ele segurou um transeunte- Aquele é o navio que veio de Portugal?
O homem olhou para onde ele apontava.
– Sim, é aquele.
– Há quanto tempo chegou?
– Está aí desde a manhã.
Miguel soltou o outro, que continuou seu caminho.
– Meu Deus…!
Ele voltou correndo até a praça e entrou na igreja. Encontrou Amândio na sacristia, conversando com o pároco.
– Amândio, corre! O navio já chegou de manhã!
Amândio pulou da cadeira:
– De manhã!? Mas não estava previsto chegar de tarde?!
– Tiveram bons ventos, assim me disse o capitão -o padre explicou.
– Temos que ir, então. A sua bênção, padre.
Amândio e também Miguel beijaram a mão do vigário e saíram, apressados.
– Onde vamos encontrá-la agora?
– Calma, Miguel.
– Tu conheces mesmo a moça?
– Conheço.
– Tu lembras do rosto dela?
– Lembro. Calma, Miguel: nós vamos encontrá-la.
Eles entraram no carro e foram ao porto. Lá, encontraram o capitão do navio que tinha chegado pela manhã.
– Não, todos os passageiros desembarcaram.
– Era uma moça alta, magra, jovem; de cabelos pretos e olhos castanhos.
– Havia muitas moças neste navio, senhor: trouxemos muitas órfãs da Rainha.
– E para onde elas foram?
– Foram alojadas temporariamente no colégio dos Jesuítas. Mas não ficarão muito tempo por lá porque logo arranjarão casamento.
– Ela não iria com as órfãs… -Amândio pensou alto- Ela sabia que alguém viria buscá-la…
– Na verdade -o capitão lembrou- uma moça ficou para trás. Tinha muitas arcas e vestia-se bem. E corresponde à vossa descrição.
– O senhor tem ideia de onde pode estar? -ele se encheu de esperança.
– Se eu soubesse que era noiva de Dom Henrique Carvalho, teria prestado mais atenção: teria cuidado dela, já que o senhor não estava aqui a esperá-la. Olha -ele percebeu algo- a bagagem dela é aquela ali -ele apontou uma coleção de arcas a pouca distância- Ela não deve ter ido longe. Talvez tenha ido a alguma taberna para jantar ou mesmo abrigar-se do sol: como é quente esta terra!
– Muito obrigado pelas informações, capitão. Vem, Miguel, vamos procurar pela moça.
Os dois afastaram-se, na direção da taberna mais próxima.
– Ela não entraria aqui -Miguel arriscou- É um lugar imundo.
– Não custa olhar. Vamos.
Eles entraram e procuraram, e perguntaram pela moça. Nada. Andaram mais alguns metros, entraram na outra taberna e perguntaram. A moça que os atendeu apontou uma direção:
– Será aquela ali?
Eles olharam na direção indicada e viram uma pessoa debruçada sobre uma das mesas. Aproximaram-se e chamaram por ela, sem ter resposta. Amândio suspendeu-a para ver se era quem procuravam.
– Meu Deus, é ela!
– Ela jantou, bebeu e apagou -a taberneira explicou.
– Bebeu? Bebeu o que?
– Umas três garrafas de vinho.
– Três garrafas!
Ele tentou acordá-la mas não teve sucesso.
– E agora, o que vamos fazer?! Como vamos apresentá-la ao noivo neste estado?!
– Do jeito que ele é, vai por a culpa em nós.
– E que culpa temos se o navio chegou antes da hora?
– Ah, já ouço a voz dele: “tu tinhas que ter previsto essa possibilidade”. Mas se tu, que és o chefe, não estás preocupado, eu, que sou empregado, é que não vou me preocupar.
Amândio pensou na reação do patrão.
– Ele vai ficar furioso. E com razão: devíamos ter vindo ontem, para evitar qualquer imprevisto.
Miguel olhou para a taberneira, que estava ali com eles, e para a moça adormecida:
– Ele não conhece a moça, conhece?
– Não. E que forma de conhecê-la: bêbada.
– E se… -e falou à taberneira- Pode nos dar licença um instante?
– Tudo bem. Mas ela não pagou a despesa. Quero ver quem vai pagar.
Ela se afastou e os dois cochicharam. Amândio olhou para as duas e deu seu parecer:
– É loucura! Isso não pode dar certo.
– Tu tens outra ideia?
Amândio pensou e chamou a taberneira de volta, perguntou qual tinha sido a despesa e pagou a conta.
– Como a senhora pode ver, eu e meu amigo estamos numa situação bem difícil.
– É, eu pude ver.
– A senhora não se disporia a nos ajudar?
– Eu? Como? Eu não sou médica nem “payé” para fazê-la acordar.
– Bem, nós temos que levar uma noiva a nosso patrão. A senhora não poderia ir no lugar dela?
– Eu?! Deus me livre! E quando ele descobrir que foi enganado? Não, senhor, eu não posso fazer isso.
– Nem se… se nós lhe pagarmos?
– Pagar? -ela se interessou- quanto?
– Quanto a senhora quer?
– Dez mil réis.
– O que?! Mas isso é muito dinheiro! Como acha que posso conseguir uma tal quantia?!
– Bem, os senhores precisam de alguém para levar a seu patrão…
– Arranjaremos alguém que cobre menos. Carrega ela, Miguel, eu vou cuidar da bagagem.
Miguel pegou a moça adormecida ao colo. A taberneira reagiu:
– Espera! Eu preciso do dinheiro mas… Quanto o senhor pode me pagar?
Amândio fez as contas e respondeu:
– Mil réis. Dois mil, no máximo.
– Está bem, eu aceito.
– Mas, se não fores convincente e ele descobrir, não receberás nada.
– Eu serei convincente.
– Cada deslize seu será cem réis a menos no pagamento.
– Está bem. Mas, se ele descobrir por culpa dos senhores, eu receberei meus dois mil réis e direi que a ideia foi vossa e que me obrigastes a participar.
– Estamos combinados.
Os dois apertaram-se as mãos, fechando o acordo.
– Esperem um instante: eu vou avisar que preciso sair agora e que não virei amanhã.
Ela foi à cozinha e logo voltou, sem o avental e com o cabelo preso.
– Podemos ir.
Os quatro saíram e, enquanto Miguel acomodava a moça adormecida no interior do carro, Amândio cuidou que a bagagem dela fosse levada para o carro. Quando estava tudo pronto, eles partiram, de volta para casa.
No caminho – assim que o carro se pôs em movimento – a taberneira procurou aprender seu papel:
– Muito bem, o que eu devo saber sobre ela? O que ele sabe dela e o que ela sabe dele?
– Como é seu nome?
– Inês.
– Pois acostume-se a atender pelo nome de Assunción. Maria Assunción Hernandez. É o nome dela.
– Assunción? Ela é espanhola?
– Sim, de Toledo.
– Pare este carro -ela gritou e Miguel atendeu.
– O que foi? -Amândio se assustou com a reação dela.
– Como vou me passar por uma espanhola: eu não sei espanhol!
– Os pais dela são portugueses. Ela fala português fluentemente.
– E se o noivo pedir para ela falar em espanhol com ele?
– Decline. Estamos em terras portuguesas e, até El-Rei, o cardeal D. Henrique morrer, não teremos relações com a Espanha.
– Está bem. Eu pensarei em algo.
Amândio avisou Miguel e o carro voltou a se mover.
– Agora me fale da relação dos dois.
– Eles nunca se viram, nem trocaram cartas. O pai de Henrique mora em Portugal e arranjou a noiva para o filho. Ela é filha de um amigo dele… eu não sei bem como é a história.
– Eles nem ao menos trocaram cartas?
– Não.
– Quando será o casamento?
– No domingo.
– Mas… daqui a cinco dias!
– Por isso é tão importante que ele tenha uma boa impressão dela.
– Eu não me pareço tanto com ela. Ele vai saber que eu não sou ela.
– Não tereis muito contato hoje e, quando chegarmos em casa, será noite. Até amanhã, ela já deverá estar melhor. Tu usarás a mantilha, como as espanholas usam, e cobrirás o rosto com um leque.
– Eu gostaria que o senhor continuasse a me tratar por “senhora”.
– Perdão.
– Seu patrão deve confiar muito no senhor e em seu amigo, para permitir que buscásseis a noiva dele, sozinhos.
– Ele confia. Ele é um homem muito difícil de se lidar. Ele não admite ser contrariado. E ele é muito rico. Se ela se queixasse de nosso comportamento, seríamos, na melhor das hipóteses, presos.
Inês suspirou: e teria que lidar com tal homem.
– E ela, como é? alegre, faladeira, recatada, geniosa…?
– Séria, de pouca fala – mas fala o que pensa, doa a quem doer. Não é o tipo envergonhada mas também não é dada a simpatias gratuitas. É gentil e educada.
– É estudada? Ela sabe ler?
– Por certo!
– Olhe, moço, eu nunca estudei nada. Eu não sei nem ler nem escrever nada.
– Se ele lhe pedir para ler, diga que ainda está mareada.
– É uma boa ideia.
– Eu estarei por perto para ajudá-la no que for preciso.
– O senhor mora na casa-grande, junto com ele?
– Sim. Eu, que sou o guarda-livros dele, e alguns irmãos que vieram para o Brasil com ele.
– São quantos irmãos?
– Três rapazes e uma moça: a minha noiva.
Inês sorriu:
– O senhor é esperto… Ele é novo, velho…
– Novo, novo… Tem vinte e cinco anos.
– Não é feio de morrer, é?
– Não: é bem apessoado.
– Ainda bem: só me faltava fazer sala para velho feio. E ela, quantos anos tem?
– Dezenove. Fará vinte no próximo mês.
– E os nomes dos pais dela? O nome do velho que arrumou o casamento? E o nome do moço que é o noivo?
– Os pais dela são João Lopez e Isabel Hernandez. Ela tem mais duas irmãs: Encarnación e Anunciación; e um irmão: Francisco. O pai dele é Marcos Carvalho. O noivo é Henrique Carvalho.
– Judeus?
– Convertidos. Eles não têm práticas judaicas: eu sei, eu moro na mesma casa que eles.
– É o que eu espero, porque não gosto dos judeus.
– Os judeus são ricos.
– Não me interessa: o sangue deles é sujo como o dos negros.
– Eles não são judeus, Assunción, eu lhe asseguro. Todos os filhos do velho Marcos foram batizados ainda crianças, quando nasceram. E vivem como bons cristãos.
– Acredito no senhor. Fale-me mais sobre ela: como o senhor a conheceu, como é a vida dela, o que ela gosta de fazer, se vive bem com os pais,… Eu preciso saber tudo, para não falar tolices.
– Está bem, Assunción, eu direi tudo o que sei sobre ela. Mas antes…
Ele bateu no teto do carro, chamando Miguel.
– O que é?
– Vamos deixar a verdadeira Assunción em tua casa: tua irmã cuidará dela. Iremos direto à tua casa, deixar a moça, e para Inês vestir uma roupa dela.
– Está certo.
A viagem continuou. Inês prestava atenção às informações que Amândio lhe passava e tentava imaginar como agir para parecer-se com a espanhola.
Eles chegaram à propriedade no fim da tarde. Conforme combinado, passaram longe da casa-grande, indo diretamente a uma casa simples mas bem construída, não muito longe da casa principal. Miguel carregou Assunción adormecida e deixou-a na cama da irmã. Inês trocou seu vestido, cobriu os cabelos e parte do rosto com uma mantilha e pegou o leque, para ter como cobrir o rosto. Só então eles chegaram na casa-grande.
Assim que ouviu o passo dos cavalos, Henrique foi até o alpendre ver o carro que chegava. Amândio desembarcou, ajudou Inês a descer e conduziu-a até a casa.
– Aqui está tua noiva, Henrique: Dona Maria Assunción Hernandez.
Henrique olhava fixamente para ela e sorria, tentando adivinhar o rosto que ela escondia atrás do leque. Ela estendeu-lhe a mão, que ele apressou-se em segurar.
– Encantado por conhecê-la, senhora.
– Da mesma forma, senhor -ela procurou forçar um sotaque espanhol.
– Então é verdade: a senhora sabe mesmo português.
– Sempre falamos português em casa. Só uso… usava o espanhol com pessoas de fora da família: os empregados e os amigos dos meus pais.
– Isso é bom, porque eu não sei espanhol. Venha, vamos entrar -ele conduziu-a pela mão- Está escurecendo, é hora de fechar a casa: temos muitos mosquitos aqui.
– O senhor Amândio me contou.
– Contou? E o que mais ele lhe contou?
Ela sorriu. Procurava andar um pouco à frente dele e com o rosto voltado na direção oposta a ele para não ser vista, sem precisar ficar escondida atrás do leque todo o tempo.
– Ele me explicou o que é um engenho e me falou do senhor.
– De mim? -ele parou de andar- Não falaste mal de mim – perguntou ao próprio.
– Só a verdade, Henrique.
Ela puxou-o para dentro de casa, onde as luzes ainda não estavam acesas e, por isso, estava mais escuro, para poder falar-lhe diretamente, sem se esconder.
– Ele me falou que o senhor é um homem decidido e de bom caráter. Disse que não vou me arrepender por ser sua esposa.
– Isso eu lhe garanto. Aqui nunca lhe faltará nada e a senhora será sempre respeitada. Eu sou um homem honrado: se a senhora cumprir com seus deveres, nunca terá queixas de mim.
– Eu fico muito satisfeita por ouvir isso.
– Henrique, por que não levas Dona Assunción ao quarto dela? Tenho certeza de que ela gostaria de se refrescar e descansar um pouco antes da ceia.
– É claro.
Ele conduziu-a a um quarto, onde entraram, e acendeu uma lâmpada.
– Eu espero que a senhora ache confortável.
Ela olhou em volta: a cama larga, a mesa com a jarra d’água, uma cadeira acolchoada e lugar para os baús de roupas.
– Acho que está bom, sim.
– Não sei como é em sua casa…
– Eu sou uma pessoa simples, senhor Henrique. Não precisa se preocupar, eu ficarei bem aqui.
– Eu mandarei chamá-la quando a ceia estiver pronta.
– Obrigada. Poderia mandar subir minhas coisas?
– É claro. Amândio deve estar providenciando isso agora mesmo. Logo sua bagagem estará aqui. Precisa de uma escrava para ajudá-la?
Ela pensou em recusar mas lembrou que o vestido que estava usando era abotoado nas costas.
– Por favor.
– Ela logo estará aqui. Com licença.
Ele saiu e fechou a porta. Inês respirou, aliviada: saíra-se bem no primeiro encontro. Agora restava a ceia, dormir e, no dia seguinte, a verdadeira Assunción tomaria seu devido lugar.
Inês desceu para a ceia. Assim que chegou à sala, Henrique foi até ela.
– Descansou um pouco?
– Sim. A cama é bem macia: o senhor se importa mesmo com meu conforto.
– Certamente. Venha conhecer meus irmãos.
Inês aproximou-se do grupo que estava sentado em sofás: mais gente para perceber, depois, que ela não era a mesma que tomaria seu lugar no dia seguinte:
– Meus irmãos, esta é Assunción. Assunción, meus irmãos Pedro, Duarte e Antônio. E minha irmã, Maria.
Ela cumprimentou-os e disse a Maria:
– Temos o mesmo nome. Mas, como minhas irmãs também são Marias, acostumei-me a ser chamada pelo segundo nome. E, breve, terei mais uma irmã com nome de Maria.
As duas trocaram um sorriso e Inês perguntou a Henrique:
– Quem é o mais velho?
– Dos que estão aqui, eu. Mas tenho um irmão mais velho do que eu, que está em Portugal com meu pai. E também tenho mais duas irmãs, uma mais velha e outra mais nova, que são casadas e também moram em Portugal.
– É uma família grande.
Henrique riu e brincou:
– Sim. Por isso, chegou um dia que meu pai não aguentou mais tanta gente e nos mandou embora a todos.
– De verdade?
– Não. Mas o futuro de Portugal é o Brasil. Se alguém quer enriquecer, é aqui que tem que trabalhar. Por isso, eu vim.
– Eu pensei que esta fazenda já era riqueza.
– Não posso pô-la nas costas e levá-la para Portugal. Eu quero ter muito ouro para, um dia, voltar para minha terra.
– A ceia, Henrique -Maria avisou.
Todos se levantaram e tomaram lugar à mesa. Inês queria sentar-se longe de Henrique, para que a iluminação fraca dificultasse a visão dela por ele mas teve que sentar-se ao lado dele.
Falaram pouco enquanto comiam e, assim que se levantaram da mesa, Inês pediu licença para retirar-se, alegando estar cansada da viagem. Ela desejou boa noite a todos e, antes de sair, olhou para Amândio e fez-lhe um sinal sutil de que queria falar-lhe.
Inês entrou no quarto, onde a escrava a esperava. Tirou o vestido e deitou-se, despachando a escrava. Mas não dormiu. Em que encrenca tinha se metido! Precisava escapar o quanto antes. As horas se passavam e Amândio não vinha. Será que ele não tinha entendido seu pedido? Ainda ouvia movimentação pela casa. Por certo, ele esperava que todos fossem dormir para ir ao quarto dela sem chamar a atenção dos outros. Aos poucos, a casa foi silenciando até calar. Então ela ouviu uma batida leve na porta. Levantou-se, foi até a porta e perguntou em voz baixa:
– Quem é?
– Sou eu -outra voz sussurrou.
Ela abriu a porta mas assustou-se ao ver quem era.
– Ah, é o senhor?…
Henrique entrou e fechou a porta.
– Sim. Por quê? a senhora esperava outra pessoa?
– Na-não… Quero dizer: sim. É que eu esqueci m-meu leque lá na sala. O senhor Amândio ofereceu-se para buscá-lo para mim. O que o senhor quer aqui?
– O fim disso.
– Fim? De que?
– De toda essa formalidade. Não quero mais chamar-te de “senhora”, não quero mais que me chames por “senhor”. Quero um pouco mais de intimidade; afinal, vamos nos casar no domingo.
– Eu não acho isso correto. O senhor deve sair daqui agora.
– Só se tu pedires direito -ele quis se aproximar dela- Vem cá, deixa eu te sentir perto de mim.
– Não! -ela se afastava a cada passo dele- Por favor, senhor, vá embora.
– Enquanto me chamares de “senhor”, não ouvirei uma só palavra.
Ele atacou rápido e segurou-a pelo pulso.
– Vem cá, quero só um abraço.
Mas ela lutava por permanecer longe dele.
– Mas que gata feroz!
– Fique longe de mim!
E, como ela ameaçasse morder a mão que a segurava, ele a soltou.
– Fica calma, eu não quero tua virtude. Não hoje. Para subir ao altar comigo, tem que ser pura. Depois… -ele sorriu- Bem, depois tu serás minha mulher e não me rejeitarás mais. Eu te quero virgem até domingo. Agora eu só quero ficar um pouco perto de ti. Confia em mim.
Ela acreditou nas palavras dele e desarmou-se. Ao ver a mudança na atitude dela, ele se aproximou e ela não reagiu quando ele passou os braços em torno dela.
– Pronto, é só isso.
– Não é certo. O senhor não devia estar aqui.
– Eu até desejo que passes a noite me chamando de “senhor”. Porque, enquanto insistires com isso, eu não sairei daqui.
Ela pensou um pouco e cedeu:
– Está bem: Henrique.
Ele fechou os olhos um instante:
– Nunca meu nome me foi tão agradável aos ouvidos.
Ela riu:
– Como eu fui tola! Eu tive tanto medo de te conhecer… E o senhor Amândio ainda me disse que tu não costumas ser gentil.
– Não sou mesmo. Pelo menos, não com ele, que é homem e meu empregado. Mas tu… és a criatura mais linda que já vi. Eu queria que fosse dia, para poder ver teu rosto com todos os detalhes.
– Se me deixares dormir, logo será dia. E amanhã serei mais bela, porque estarei mais descansada. -“e serei a tua noiva verdadeira”, pensou.
– Queres mesmo que eu vá?
– Sim, por favor.
– Está bem. Essa viagem é mesmo muito cansativa.
Ele quis beijá-la mas ela esquivou-se e soltou-se dele.
– Só um beijo de boa-noite.
– Mas como é abusado!
– Só quero tocar teus lábios.
– Primeiro só quer tocar meu corpo, depois meus lábios. O que mais o senhor “só quer tocar”?
– Ah, chamaste-me de senhor.
– Henrique, por favor, sai daqui.
– Dá-me um beijo.
– Não.
– Então não saio.
– Bem que o senhor Amândio disse que tu não aceitas ser contrariado -ela perdeu a paciência- Só que eu não sou um brinquedo nas tuas mãos: sou uma mulher e tenho vontade própria. E, neste caso, minha vontade é contrária à tua.
– Então tens que ceder.
– Por que eu é que tenho que ceder?
– Porque tu és mulher. Mais: tu serás minha mulher: é bom que te acostumes logo.
– Se eu ceder hoje, tu cederás outro dia?
– É claro que não! Tuas atitudes me preocupam. Que tipo de educação recebeste?
– Aprendi a não ficar calada se me sinto injustiçada.
– Injustiçada? Não é injustiça atender teu marido. E, quando fores minha mulher, terei direito a teus beijos e a tudo mais que eu quiser, na hora em que eu quiser. Grava bem isso.
Ela suspirou e concluíu:
– Que infeliz é Maria Assunción Hernandez, por ter que se submeter a um homem como tu…
– Vem cá, deixa-me beijar-te.
Dois mil réis valeriam o sacrifício? E por que Amândio não vinha logo atender seu chamado? Será que nada a salvaria desse destino?
– Está bem, mas será do meu jeito.
Ele sorriu, aprovando.
– E como é o teu jeito?
– Eu vou beijar-te. Tu não te mexas por nada.
Ele sorriu e não respondeu. Ela foi até ele.
– Não me olhes assim.
– Como queres que eu te olhe?
– Não me olhes.
– Está bem, vou fechar os olhos.
Ele fechou os olhos para não envergonhá-la. Ela apoiou as mãos nos ombros dele, tocou os lábios dele com os seus e pressionou-os, num beijo. Ele não resistiu e abraçou-a, e retribuiu o toque dela com um beijo mais caloroso. Ela se assustou, a princípio, mas deixou o carinho continuar. Quando se soltaram, os dois suspiraram, sem se afastarem um do outro.
– Eu devo ir agora -ele concluíu- antes que eu queira “só tocar-te” em algum outro lugar.
Ele beijou os lábios dela duas,três vezes e só então soltou-a e saiu do quarto. Inês sentou-se na cama para não cair: seu corpo inteiro tremia.
– Que feliz é Maria Assunción Hernandez -ela começou a chorar- por ter que se submeter a esse homem…
Novamente bateram na porta.
– O que é?
– Sou eu: Amândio.
Ela abriu a porta e o fez entrar. Logo ele percebeu que havia algo errado:
– Eu esperei todos dormirem para vir aqui sem perigo. Mas o que tens?
– Não tenho nada.
– Estás chorando e… pareces ter febre. O que aconteceu?
– O senhor sabe quem acaba de sair daqui?
– Não faço ideia.
– Henrique.
– Henrique!? E o que ele veio fazer aqui?
– Veio para me beijar.
– Mas tu não…
– O senhor o conhece melhor do que eu: ele não aceita recusas.
– Tu o beijaste!
– Ele me beijou.
– Por isso estás assim… Não ouses apaixonar-te por ele.
– Eu não vou me apaixonar por ele. O senhor não entende? Ele esteve aqui, ele me viu de perto, ele me tocou, ele me beijou! Amanhã ele vai saber que ela não é eu. O senhor tem que me tirar daqui. Agora!
– Agora?! Mas nem em pensamento! Miguel esteve aqui. A verdadeira Assunción dá sinais de vida. Ela vai acordar amanhã e tomar teu lugar. Depois pensaremos em como te tirar daqui.
– Ele vai descobrir. Quando ele puser os olhos nela amanhã, saberá que não foi com ela que esteve aqui, hoje. Eu quero estar bem longe, quando isso acontecer.
– Mantém-te calma, Inês. Tudo vai correr como planejado. Quando Assunción aparecer, tu desaparecerás. Henrique nunca mais vai te ver.
– É o que eu espero.
– Vamos dormir, então. Amanhã tu não saias do quarto enquanto eu não te der uma posição.
– Certamente. A última coisa que eu quero é que ele me veja com a luz do sol.
Amândio saiu. Inês deitou-se e tentou relaxar, mas era difícil esquecer o toque de Henrique. Não podia se apaixonar por ele: era um homem comprometido, quase casado. Com outra. Quando, enfim, ela adormeceu, o sono foi profundo. Ela nem ouviu quando a porta se abriu e alguém entrou. Ele respeitou o sono dela e foi silencioso, e contentou-se apenas em observar. Ele sentou-se no chão, junto à cama, bem perto do rosto de Inês, para observá-la a noite inteira. A luz que ela deixara acesa era frágil e quase não iluminava mas era bom estar ali, perto dela.

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Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália – trecho

Capítulo I
 
Não me interessa aqui contar como foi o nascimento e as infâncias do herói, dizer de sua estirpe e o valor de seu pai. Por isso, esta história começa, não com os bravos feitos cavaleirosos de seus antepassados, mas com o dia em que ele foi armado cavaleiro.
Eram tempos de se viver aventuras. Um dia, um homem a cavalo chegou a Camelot, onde estava o Rei Artur. Seu cavalo não estava ajaezado à maneira daquele lugar e todos puderam ver que ele era um estrangeiro. Não usava armadura mas era largo de ombros e de porte nobre e elegante. O estranho entrou no castelo e chegou aonde estava o Rei Artur.
– Estou diante de Artur, o Rei dentre os reis?
– Sim, eu sou Artur. Vindes em paz ou em guerra?
– Venho em paz, para pedir-vos uma graça.
– Pois pedi e eu concederei, se for justa.
– Quero ser cavaleiro por vossas mãos.
– Quem sois e daonde vindes?
– Sou Haliwain e meu pai é o Duque de Nova Gália. Vossa fama corre o mundo, tanto que até do outro lado do mar conhecemos vosso nome. Como desejo ser cavaleiro de valor, não posso receber as armas de outro que não do Rei Artur.
– Lisongeia-me vossa preferência. Pareceis um jovem valente. Eu vos farei cavaleiro e, mais que isso, oferecerei um torneio: quero saber de vossa destreza com as armas.
E assim foi: alguns dias depois, Haliwain foi sagrado cavaleiro e pôde participar do torneio, quando praticou muitos feitos d’armas. Artur não se arrependeu por tê-lo feito cavaleiro depois que viu tudo de que o jovem era capaz.
 
 
 
 

O maior de todos – trecho

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Capítulo I

O Reno nasce nos Alpes e corre pelas montanhas até escorregar para a planície ao norte, onde constrói seu leito. De um lado e de outro do rio, alguns castelos, muitas casas e casebres, campos cobertos de trigo, pequenos bosques e grandes florestas. De um lado, o grande reino da França, poderoso e unificado. Do outro lado, os reinos e ducados germânicos. Dos dois lados, a mesma preocupação: bem-servir ao senhor feudal.
O conde ía apressado pelo corredor escuro do castelo.
– Ah, até que enfim, apareceste! – um homem veio a seu encontro, também andando rápido- O rei já perguntou por ti. Todo o castelo já se pôs à tua procura. Onde estavas?
O conde olhou para o amigo um instante e eles caminharam juntos à sala do trono.
– É uma pergunta indiscreta.
– Não acredito que estavas com uma mulher.
– Eu não disse isso.
– Curt, -ele segurou-o pelo braço e eles pararam de andar- sabes que o rei atende audiências sempre a esta hora e que ele não resolve nada sem ouvir os ministros. Como podes te ocupar com uma mulher numa hora dessas?
O conde tirou a mão do outro de seu braço.
– Estou errado ou o rei cresceu? Está na hora dele aprender a tomar decisões sozinho.
Curt abriu as portas e entrou na grande sala em que estava o rei. Curvou-se respeitosamente e aproximou-se da única pessoa que estava sentada.
– Perdoai meu atraso, Majestade. Forças além da minha vontade mantiveram-me ocupado até agora.
– Parece-me que há sempre uma força qualquer que te mantém afastado de teus deveres junto ao Reino.
– Eu peço vosso perdão, senhor.
– Falaremos sobre isso depois. -ele olhou para um dos guardas- Faz entrar o próximo.
Terminadas as audiências, o rei levantou-se e ía sair, seguido pelos ministros.
– Não -ele disse aos outros- Legrant, vem comigo.
Curt seguiu o rei ao gabinete dele. Os dois entraram e o conde fechou as portas e se aproximou do rei, parando, porém, a uma distância respeitosa. O rei olhou pela janela o Reno, ali perto, e os servos trabalhando nos campos, enquanto pensava em que palavras usaria para iniciar o assunto que o incomodava. Curt tinha os olhos sobre o jovem rei, que acompanhava absortamente a movimentação dos servos nos campos.
– Algum problema, meu rei? -ele achou melhor romper logo o silêncio.
Sem se mover, o rei disse:
– Quanto tempo ainda vou ter que suportar isso, Legrant?
Curt pensou por um segundo mas não entendeu a pergunta.
– Do que estais falando?
O rei virou-se e olhou para o conde, impassível.
– De ti.
– Não entendo, Majestade.
– Se não dás valor algum a teu cargo junto ao reino, deixa a corte e vai para teu castelo.
– Majestade, é uma honra para mim-
– Sempre chegas atrasado. Zombas de meus ministros -ele saiu da janela- Que cargo pensas que ocupas para agires assim, sempre tão poderoso?
– Majestade, eu- -ele procurava se desculpar.
– Cala a boca. Tu contas sempre as mesmas histórias. Pensas que eu não sei o que estavas fazendo? Eu sei. Se, pelo menos, fosse a tua mulher, eu seria capaz de perdoar.
– Meu rei-
– Vou te dar o direito de escolher mas só tens duas alternativas: ou tu te tornas um ministro responsável, ou deixas a corte e voltas a teu castelo.
Os dois se encararam alguns segundos, numa disputa de poder que nenhum venceu.
– Entendeste?
– Entendi.
– Não precisas me dar uma resposta: teu comportamento e tuas ações me dirão o que preferes.
O rei passou pelo conde, que se curvou respeitosamente à sua passagem, e saiu, deixando as portas abertas. O conde acompanhou-o com os olhos, até que as sombras do corredor o encobriram.
– Garoto insolente. -murmurou.
À noite, durante a ceia, da qual o rei não tomou parte, Curt percebeu que era motivo de cochichos escondidos, pelos olhares que se dirigiam a ele, e que não se sustentavam quando retribuídos. Depois da ceia, ele percebeu que sua presença era evitada.
– Espera. -ele segurou um amigo pelo braço- O que está acontecendo por aqui? Por que falam de mim pelas costas, sem coragem de falar abertamente?
– É impressão tua, Curt.
– Fala, Hermann. Ou será que fiz mal em te escolher por amigo?
Hermann pensou um pouco, enquanto olhava para o chão, e depois olhou novamente para o amigo.
– Estão dizendo… que tu voltarás ao castelo Legrant.
– Por quê?
– O rei se cansou de teus atrasos constantes e te expulsou da corte.
– Quem disse isso?
– Ninguém revela a fonte, mas garantem que são palavras do próprio rei.
Curt soltou o braço de Hermann e sorriu:
– Então é o que ele quer… Bom saber disso, agora sei exatamente o que fazer. -ele se afastou, andando rápido.
– Curt, aonde vais?
– Aonde vou? -ele voltou-se para responder- Vou arrumar minha bagagem. -e riu.
Curt entrou em seus aposentos e chamou pelo servo. Sem esperar por ele, tirou o gorro de conde da cabeça e desamarrou a túnica. Uma mulher veio do outro cômodo, usando uma camisa de leito branca comprida, e tendo os cabelos loiros presos em duas tranças grossas, que íam até a cintura.
– Não é cedo demais para estares aqui?
Ele olhou para ela, parada na porta. Era uma adorável aparição, aquele anjo de beleza, mas ele olhou para ela com indiferença e voltou ao que estava fazendo.
– São meus aposentos, posso vir à hora que quiser. -Uma idéia veio-lhe à mente e ele olhou de novo para ela- Minha entrada súbita provocou a saída de alguém pela janela?
– Não. Mas eu podia estar me trocando.
– Realmente, seria uma grande desgraça se eu entrasse aqui e não encontrasse minha esposa pronta para dormir. -disse, rindo- Onde está meu servo?
– Tu nunca vens tão cedo, ele deve estar ocupado com outras coisas.
Ele sentou-se numa poltrona, para ter os sapatos descalçados.
– Se não estivesses com a camisa tão branca, eu pediria que me tirasses os sapatos.
Ela deu uma gargalhada e se aproximou dele.
– Curt, meu marido, tens um senso de humor invejável. Quem neste mundo pensaria em pedir tal coisa a uma condessa de nascimento?
– Tu és a minha esposa.
– E as funções de esposa são diferentes das funções de um servo.
Um rapaz abriu a porta como se tivesse passado os últimos minutos correndo, e entrou, indo logo abaixar-se em frente ao conde para tirar-lhe os sapatos.
– Por onde andavas?
– Perdoai, senhor, eu… eu me distraí um instante e…, quando procurei por vós, me disseram que tínheis saído do salão. Podeis acreditar, senhor, eu vim correndo.
Curt sorriu, lembrando-se de uma cena parecida, que tinha acontecido na tarde do mesmo dia.
– Estás perdoado, garoto. Sei de tua dedicação e reconheço tua lealdade.
A condessa passou ao outro cômodo enquanto Curt, ajudado pelo servo, preparou-se para dormir. Usando uma camisa de leito branca comprida como a da esposa, Curt entrou no quarto e encontrou sua mulher sentada na cama, com as pernas sob as cobertas. Ele se sentou na mesma posição que ela, beijou-lhe a testa e deitou-se de costas para ela.
– Curt.
– O que foi? -ele não se mexeu.
– É verdade que vamos voltar a Legrant?
Ele sentou-se novamente e olhou para ela.
– Quem te disse isso?
– Dizem que, depois das audiências, o rei te chamou em reservado e te expulsou da corte.
– Quem disse isso?
– Todos diziam. Eu não quero voltar para lá, Curt. Tu sabes, eu-
– Lisbet, nós não vamos voltar a Legrant.
– Então, tudo o que dizem… É tudo mentira?
– Alguém está tramando contra mim. Alguém que não aprova minha influência sobre o rei. Tu sabes, Lisbet, ele não toma decisões sem antes me consultar.
– É tudo mentira, Curt?
Ele olhou para os próprios pés, escondidos sob as cobertas, e respondeu:
– Eu me atrasei para as audiências. Ele me pediu que prestasse mais atenção aos horários.
– Ou teríamos que voltar a Legrant.
– Ele disse: “ou volta a Legrant e abandona o cargo ou torna-te mais responsável”. Eu serei responsável.
– Que bom. Assim vou poder dormir tranquila.
Ele se virou novamente de costas e se deitou.
– Curt.
– O que foi agora?
– Vais dormir?
– Se deixares.
– Todos os homens ainda estão lá embaixo, conversando e bebendo. Tu vieste antes da hora costumeira. Eu pensei…
– Pensaste…? -ele virou a cabeça até vê-la.
– Pensei que tivesses vindo mais cedo por minha causa.
Ele riu e se virou na cama, e segurou a mão dela.
– Minha querida Lisbet, preciso ser mais responsável a partir de amanhã. -ele beijou-lhe a mão- Deixa-me descansar, ou teremos que voltar a Legrant.
Ele fechou os olhos para dormir e ela não chamou mais.
— “ —
O rei entrou no gabinete, seguido pelo secretário. Alguém esperava por ele.
– O que fazes aqui?
O outro curvou-se respeitosamente.
– Aguardo Vossa Majestade.
– Para que?
– Para dizer-vos que, quando for de vossa conveniência, tenho já prontas a apresentar-vos as contas dos impostos dos servos.
– Pensei que tivesses vindo despedir-te.
– É uma grande honra para mim servir ao Reino, senhor. Nem mesmo a oportunidade de zelar pelos bens de minha família é o bastante para afastar-me de meus deveres.
– Então resolveste ser responsável.
– Nunca fui irresponsável. Se faltei a alguns compromissos foi por acreditar na competência de meus companheiros de ministério e na vossa real sabedoria.
– Ousas me ofender, Legrant?
– Majestade, palavras de elogio vos ofendem?!
– Eu já aprendi a perceber teu tom de ironia. Zombas de teu rei?
– Por Deus, senhor, não! Se eu não acreditasse realmente em vossa capacidade, eu nunca me permitiria ficar ausente. Se vós não fosseis inteligente e capaz, eu estaria sempre a vosso lado, e faria todo o possível para que vós proclamásseis como vossas as minhas decisões.
– Sim, tuas palavras têm lógica. E, pelo que conheço de ti, pensas assim realmente. -ele se sentou à mesa- Vamos ver logo as contas. Depois… depois quero tratar de outro assunto.
Verificados os impostos, o rei dispensou o secretário para falar a sós com Curt. O rei indicou-lhe uma cadeira do outro lado da mesa, e Curt sentou-se.
– Achas mesmo que devo me casar? -ele se debruçou sobre a mesa.
– Sim, deveis casar e ter filhos: o Reino precisa de herdeiros.
O rei riu:
– Mal fui coroado e já pensas em quem me sucederá? -ele encostou.
– Senhor, sois o único com o sangue real de Durpoin. Vossa família governa nosso povo desde que existimos. Vós sois o último de uma linhagem. Quando vosso pai morreu, alguns traidores tentaram matar-vos para roubar-vos a coroa e o trono.
– Eu me lembro.
– Por isso vos mandei à Dinamarca, enquanto prendia os traidores aqui.
– Se eu estou hoje aqui, devo-te muito.
– Quem tem poder tem sempre inimigos. É muito fácil matar-se um homem e tomar-se posse da herança dele, se não há um herdeiro. Mas, se há um herdeiro, alguém cuidará dele, até que receba a herança que lhe cabe.
– Se eu morresse, -ele colocou a mão sobre o braço do outro- cuidarias de meus filhos?
– Sim -ele colocou a mão sobre a mão que o segurava- Como cuidei de ti.
Os dois trocaram um sorriso de agradecimento e afeição paternal e o rei soltou o conde.
– Essa… essa princesa…
– Tens algum amor no coração, Karl?
– Amor? Não… Quero dizer… -ele baixou os olhos e corou- Eu nem sei o que é amor…
Curt riu:
– Isso é normal em tua idade.
– Vais me dizer o que é? ou vais me deixar à minha própria sorte?
– Amor, Karl? Amor é quando tu olhas para uma moça e a achas a mais linda do mundo. E tu desejas que o mundo acabe, para que tu nunca mais precises sair de perto dela. -disse, sorrindo.
– Então isso é amor.
– Sim. -o sorriso morreu-lhe- A separação é dolorosa e apenas a esperança de um reencontro te mantém vivo…
– Isso te entristece…
Curt forçou um sorriso:
– Aos poucos, Lisbet deixou de ser tão bela. O mundo nunca acabou e minha dor é aproximar-me dela sabendo que não a amo mais. -ele afugentou as tristezas- Mas amor não é tudo num casamento. Às vezes, amor é o que menos importa. Tu amas alguém, Karl?
– Se amor é o que dizes,… não.
– Ótimo. Então não sofrerás para escolher uma esposa. De que princesa falavas?
– Da andaluza. -ele sorriu e seus olhos brilharam de uma forma diferente- Ela é bonita.
– Tens uma dívida para com o rei da Dinamarca: ele te acolheu quando eras perseguido.
– As filhas dele são velhas demais para mim.
– Ele é um rei poderoso.
– Curt, elas são velhas demais.
– Ora, um ano ou dois-
– Não. A mais nova delas tem dez anos mais que eu.
– Dez? Não foi o que o Embaixador da Dinamarca disse.
– Eu era um menino e elas já eram adultas. Ela tem trinta e um anos, Curt. Ela mesma me disse, um dia, em segredo. Eu não vou me casar com uma mulher que não tem mais condições de ser mãe.
– Trinta anos? -ele sorriu com malícia- Aos trinta anos uma mulher ainda pode ter filhos.
– Não. Eu quero a andaluza.
Curt respirou fundo enquanto pensava:
– E a princesa russa? Temos interesse em estreitar as relações de amizade com os russos.
– Eu quero a andaluza.
– Há muitas mulheres bonitas no mundo, Karl.
– Eu sei. Mas é que ela…
– É mais bonita do que todas as outras? -ele sorriu significativamente.
– Estou agindo como um tolo -desabafou- deixando-me levar pelo que sinto.
– Não. A andaluza era minha próxima alternativa. Se gostas dela, manda os embaixadores.
O rei sorriu, aliviado.
– Que bom que concordas, Curt. Eu tive medo de que… de que me convencesses a escolher outra.
– Se me conhecesses realmente, saberias que eu nunca faria isso. Tu és o rei, tu decides pelo reino. Tu és um homem, tu decides por tua vida. Se tu achas que ela será boa esposa para ti, boa mãe para teus filhos e boa rainha para teus súditos, eu não tenho direito de te dizer outra coisa que não: casa-te com ela.
– Achas… achas que devo me aconselhar com mais alguém?
– Só se alguma dúvida paira em tua cabeça. Mas, se estás decidido, envia os embaixadores com presentes. Manda-lhe ouro e pedras preciosas, para que ela saiba que se casará com um rei poderoso.
– Sim, é o que farei. -ele se levantou e deu a volta na mesa para chegar até a porta mas parou, foi até Curt e segurou-lhe a mão entre as suas- Meu pai faria por mim tanto quanto tu fazes?
– Não. Ele faria mais, porque era um grande homem, e porque era teu pai.
– Desde que ele morreu, tu tens sido meu pai, Curt.
– Apenas cumpro minha obrigação, Majestade.
– Não. Todos me protegeram, quando eu era um menino. Todos me aconselham, agora que sou rei. Mas só tu me tratas como se fosses meu pai. Não temes dizer o que pensas, mesmo que isso me ofenda. Tua arrogância nos aproxima, Legrant. -ele apertou a mão de Curt entre as suas e mudou de assunto- Vou mandar os embaixadores. -ele soltou Curt e saiu andando rápido, deixando as portas abertas.
Curt acompanhou-o com os olhos, vendo-o afastar-se, e murmurou:
– Criança tola…
Ele apoiou a cabeça no encosto da cadeira em que estava sentado e lembrou-se de há quase dez anos atrás, quando o rei Ludwig – pai de Karl – tinha morrido. Se Karl soubesse… se ele pudesse saber o que o mantivera vivo…
– Ele me agradeceria por existir, e depois me odiaria. Se ele soubesse que apenas o meu poder o manteve vivo…
Sim, morto o rei, o jovem príncipe era o herdeiro. Traidores desejaram matar o príncipe mas, sem um herdeiro legítimo, como se escolheria o futuro rei? Um dentre os traidores, por certo. Mas não. Morto o príncipe, Curt Legrant seria aclamado o novo rei. Os traidores concordaram que não valeria a pena sujar as mãos de sangue e ter por rei um que não pertencia ao grupo. Era preciso matar Curt Legrant primeiro. Mas não é fácil matar um homem como é fácil matar um menino. Isso manteve Karl vivo até ter idade para receber a coroa. Havia um herdeiro, e Curt cuidara dele até que ele recebeu a herança que lhe cabia.
– Podia ser tudo meu… Ah, se não houvesse um herdeiro…
– Agora tens hábito de falar sozinho, Legrant? -um homem entrou no gabinete.
– Duvier? Eu… estava pensando alto.
– Pensando em herdeiros.
– Sim: nosso rei decidiu casar-se.
– Já não era sem tempo! Que princesa ele escolheu? A russa, por certo.
– Não. Ele escolheu a princesa Isabel de Andaluzia.
– Da Andaluzia? Não podes estar falando sério.
– Estou. -Curt levantou e foi até a janela- Ele é jovem, Duvier, é natural que sonhe com amor.
– Amor? -disse com desprezo- Como pode alguém amar uma… uma negra?
Curt olhou para Duvier e curvou-se ao ver quem estava à porta:
– Majestade.
Duvier virou-se, rápido, e também curvou-se.
– O que foi que disseste, Duvier? O que disseste sobre Isabel de Andaluzia?
– Senhor, eu… -ele não tinha coragem de olhar para o rei.
– Repete, Duvier. -ele se aproximou do ministro.
– Eu… eu…
– Ele não tem coragem, Majestade. -Curt explicou.
– Chamaste-a de negra.
– Senhor, eu…
– Nunca mais usa essa palavra para ofendê-la. Porque ela é negra e linda.
– Majestade, -Curt interrompeu- mouros não são exatamente negros, e ela é descendente de mouros.
– Preferes ver meu sangue misturado ao de uma eslava, Duvier?
– E-eu… eu…
O rei olhou para o chão.
– Estavas errado, Legrant, devo ouvir a todos. -ele olhou para Curt- Manda chamar meus ministros: quero uma reunião.
– A que horas eles devem se apresentar?
– Agora. Não quero esperar mais de dez minutos.
Curt saiu andando rápido, para dar ordem de reunir todos os ministros sem demora, e voltou ao gabinete. O rei olhava pela janela, enquanto esperava que todos se apresentassem. Duvier se aproximou de Curt e disse-lhe ao ouvido:
– Não acredito que tenhas feito isso. Eu ainda vou descobrir que motivos te fizeram preferir essa mestiça para ser nossa rainha.
– Pensas que fui eu quem quis? -disse, surpreso, em voz baixa- Duvier, ele não é mais um menino. Ela é uma mulher atraente, encheu os olhos dele.
– Tu o manipulas sempre, pensas que é um segredo?
– Nunca mais repitas isso. -ele se ofendeu- Ele é orgulhoso, pode se ofender se ouvir tal mentira.
– E eu ouvi. -o rei disse, sem se mexer.
– Majestade, eu… -Duvier começou- eu não queria dizer isso…
O rei virou-se de frente para os dois. Um terceiro ministro chegou apressado, cumprimentou o rei e entrou.
– Agelin, Duvier me acusa de não ter vontade própria. Tu concordas?
Agelin olhou para Duvier e para Legrant, tentando inteirar-se da situação, e voltou a olhar para o rei.
– Não, Majestade.
– Quem toma as decisões?
– Vossa Majestade.
O quarto ministro chegou, cumprimentou o rei e entrou.
– Rogier, quem manda no rei?
Sem entender nada, Rogier olhou para os três companheiros, e novamente para o rei.
– Majestade, não compreendo.
– Correm boatos de que um dos ministros me manipula. Quero que me digas o nome dele.
– Senhor, eu não sei…
Os dois últimos ministros encontraram-se na porta do gabinete, cumprimentaram o rei e entraram.
– Senhores, estou investigando uma traição. Um dentre vós é tão vil que sua própria existência me repugna. Aquele que disser a verdade terá minha proteção real, e minha misericórdia. Chegou aos meus ouvidos a acusação de que um dentre vós toma decisões por mim, me manipula. Quero saber quem é.
Os seis ministros ficaram em silêncio, alguns sem entender completamente o que estava acontecendo, outros sem coragem de acusar.
– Chalier, tu me manipulas?
– Não, senhor!
– Sabes quem o faz?
– Não, senhor.
– Agelin, -ele se aproximou do ministro- tu és o mais velho de todos. Tu sabes tudo o que acontece: tua experiência te permite ver além das aparências. Diz o nome de quem me manipula.
– Senhor… -ele fazia que “não” com a cabeça, sem saber o que dizer.
– Tu sabes quem é, Duvier? -ele se virou bruscamente.
Duvier apenas olhou para o rei, mas não respondeu.
– Tu, Legrant. Diz quem me manipula.
– Majestade,… -ele tinha os olhos baixos- dentre todos os vossos covardes e hipócritas ministros, só um teria forças para vos manipular. Um que não é nem covarde, nem hipócrita.
– Quem?
– Eu mesmo. Mas, para depor por minha inocência, tenho vossa augusta pessoa. Minha tranquilidade, senhor, é que vós sabeis que eu não vos manipulo. Minha vontade nunca prevaleceu sobre a vossa. Se meus conselhos são úteis…
– Majestade -um dos ministros se encheu de coragem para chamar.
– Sim, Pralan.
– As palavras são inapropriadas -ele mantinha os olhos na direção do chão- mas a acusação é válida.
– Explica.
– É sabido por todos que o Conde Legrant exerce influência sobre vós.
– Exerce influência… -ele olhou para todos os seis- Uma de vossas funções é me aconselhar.
– Sempre dais preferência aos conselhos dele.
O rei riu e caminhou até a mesa.
– Vê, Legrant, tua culpa é dar-me só bons conselhos.
– Se calúnias são o preço de minha competência, Majestade, eu pagarei contente. -ele mal segurava um sorriso cínico.
– Mas não foi para isso que chamei todos aqui. Foi para avisar-vos de que eu resolvi: vou me casar.
– Com a n… -Duvier murmurou, e engoliu o resto.
– O que disseste, Duvier?
– Nada, senhor.
O rei abriu uma gaveta da mesa, de dentro da qual tirou pequenas tábuas pintadas e emolduradas.
– Cinco reinos apresentaram-me suas princesas: o da Dinamarca, o da Andaluzia, o da Rússia, o da Escócia e o de Veneza. São cinco belas jovens, de reinos distantes e de raças estrangeiras. Quero que me aconselheis qual delas devo desposar.
– Rússia -Duvier disse logo.
– Vossa Majestade tem uma dívida junto à Dinamarca. -Agelin lembrou.
– Uma aliança com a Rússia seria proveitosa. -Chalier disse.
– Sim, Majestade, a princesa russa é a mais indicada -Rogier disse.
– Sim, a russa. -Pralan disse.
Todos calaram, esperando pela palavra de Legrant, que não veio.
– Diz tua escolha, Legrant.
– Majestade, vós já escolhestes uma, minha opinião pouco importa.
– Diz, quero ouví-la.
– Vossa Majestade deve se casar com aquela que escolheu.
– Tua opinião, Legrant. -o rei insistiu.
Legrant pensou um pouco.
– Se a dinamarquesa tem a idade que dissestes, a russa.
– Por quê? -o rei separou uma das tábuas e olhou a figura pintada- Por que quereis que eu me case com essa mulher pálida e fria? -ele jogou o quadro ao chão- Eu não quero. Não quero nenhuma destas. -ele jogou mais três quadros ao chão e segurou com cuidado o quinto e mostrou aos seis- É ela que eu quero.
A surpresa tomou conta dos quatro que só então recebiam a notícia e eles tentaram interceder contra. O rei passou por eles, abraçado ao quadro, em direção à porta. Dali, virou-se para o interior do cômodo.
– Amanhã quero que os ourives do reino me apresentem as mais belas e mais ricas jóias que conseguirem confeccionar, com ouro e pedras preciosas: quero escolher um presente para enviar à minha noiva. Agelin, providencia cartas de amizade para serem enviadas aos outros reinos e, Chalier, os embaixadores que vão à Andaluzia devem ser escoltados: não quero que meus presentes sejam roubados pelo caminho.
Os seis curvaram-se respeitosamente e o rei saiu.
– Por que a andaluza, Legrant? -Duvier atacou logo.
– Eu não sei. O que faz um homem se apaixonar por uma mulher?
– Tu o aconselhaste. Tu o induziste a escolhê-la.
– O rei não é influenciável como pensais. Ele buscou meu conselho, sim, mas não ouviu nada do que eu disse. Pensais que não intercedi por Catarina da Rússia? Eu o fiz. E também por Ana da Dinamarca. Mas ele dizia sem parar que queria a andaluza.
– Uma moura.
– Senhores, somos franco-germânicos. Tanto os mouros quanto os eslavos são de raça diferente da nossa. Se nosso futuro rei tem que ter sangue mestiço, deixai que Karl decida que mulher ele quer.
– É assim mesmo que pensas, Legrant?
– Se houvesse possibilidade de uma princesa francesa, ou germânica, ou helvética ou mesmo austríaca, eu tentaria influenciá-lo, apelando, sim, para a pureza da raça. Mas as alternativas são poucas e, na verdade, nenhuma me agrada. Os dois são jovens. Se ele está apaixonado por ela, deixai que ela o faça feliz.
– Basta ele estar feliz, Curt?
– Ela é européia e é uma princesa. Ela saberá ser nossa rainha. Sim, Pralan, basta ele estar feliz.
– A decisão está tomada -Agelin, o mais velho, tomou a palavra- e cabe a nós cumprir a vontade de nosso rei. Temos deveres a cumprir, senhores, para tornar o desejo dele realidade.
Os outros concordaram e todos saíram para providenciar tudo o que seria necessário para o futuro noivado… e para o casamento do rei de Durpoin.

 

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