Tudo que o dinheiro pode comprar

INFLUÊNCIAS – PARTE 2

Muitas vezes, identifico nos meus textos algumas características que são influências recebidas de livros que eu li e de filmes que eu vi. Tenho escrito alguns textos sobre isso (Influências, Releituras, Amor à primeira vista, Amor desde sempre). Mas ultimamente tenho pensado muito em um livro que eu não li inteiro mas que, mesmo assim, me influencia muito, especialmente na composição das personagens. É o livro A filha do diretor do circo, da Baronesa Ferdinande Maria Theresia Freiin von Brackel. O livro foi escrito em 1875 e minha mãe tem provavelmente a edição de 1913, com capa de tecido marrom.
Há duas questões a esclarecer. A primeira delas é porque eu não o li até o final. A segunda é de que forma esse livro me influencia. Antes de tudo, preciso dizer que eu gosto dessa literatura do século XIX. Apeguei-me à literatura – para ler e para escrever – com os clássicos (e alguns não tão clássicos) do romantismo do século XIX. O tipo de escrita e a linguagem me são familiares e eu aprecio a forma dramática como as coisas acontecem. Em outras palavras, eu estava adorando a história. Apaixonei-me pelo amor de Nora e Kurt – tanto que dei ao Conde Legrant o nome de Curt em homenagem ao Conde Curt Deghental (eu achava que se escrevia com C. Recentemente fui conferir e vi que é com K). É uma típica história de abismo social, em que um membro da nobreza (Conde Deghental) se apaixona por uma plebéia (Nora Carstens, a filha do diretor do circo) e eles precisam enfrentar a pressão das famílias e da sociedade para poderem ficar juntos. Bem, esse é um tema que me acompanha desde aquela “primeira história adulta”, criada ainda na pré-história da minha carreira, e que depois eu escrevi com o nome de Petrópolis (1986) e que mais recentemente eu retomei e se tornou Não é cor-de-rosa (2005). Essa já é a primeira influência: a temática recorrente, que também aparece em Luz dos meus olhos, Tudo que o dinheiro pode comprar, Construir a terra conquistar a vida (com algumas personagens), e até na história de Rodrigo, por um prisma diferenciado.
Então eu estava lendo e adorando até o ponto em que alguém sugere que eles fiquem separados por um ano, para testarem a constância de seu amor. Embora receosos, eles aceitam e aí a minha curiosidade me levou à última página do livro: eu precisava saber se o amor que eu achava tão lindo era também constante e manteria o casal unido até o fim. E foi quando eu descobri que… o livro da minha mãe está incompleto. Falta o último caderno inteiro, o que deve dar mais ou menos 64 páginas. Ou seja, eu nunca saberia se eles ficaram juntos ou não. Então eu parei de ler ali mesmo, naquele momento, naquele ponto de extrema tensão (é possível que o marcador ainda esteja em algum lugar entre as páginas). E, na minha paixão adolescente, eu desejei intensamente que o amor deles passasse nessa prova de constância, e eles chegassem vitoriosamente juntos ao final do livro. Esse sentimento moldou o temperamento de todos os meus apaixonados, desde Alex e Cathy (1982) até Rodrigo e Ângela (2015). Meus amores são constantes e resistem à separação e a qualquer prova que a vida exija deles, o final que eu espero que a Baronesa tenha dado a meus queridos Nora e Kurt.
Então, mesmo sem ter chegado ao final do livro – não por culpa da história, nem minha – A filha do diretor do circo me marcou profundamente e me influencia fortemente durante toda a carreira.

Se eu tenho curiosidade de saber o final da história? É claro que sim!! É uma curiosidade que dura cerca de 30 anos. Infelizmente é um livro com edições esgotadas e raro de se encontrar entre os livros usados, o que faz com que seu preço seja bastante elevado. Mas continuo procurando e, um dia, acabo de ler esse livro, para ver se a Baronesa von Brackel pensava como eu e fez o amor vencer no final.

VIDA E MORTE

Acusam-me de matar muitas personagens em minhas histórias mas minha mania de tabelas tem outra opinião. Na verdade, em minhas histórias nasce muita gente. Se são 72 mortes em 59 histórias (conto apenas as que eu escrevi até o fim) – média de 1,22 mortes por história – são 66 nascimentos nas mesmas 59 histórias – média de 1,18 nascimentos por história. 
 
Há apenas oito histórias com três ou mais mortes: Juliana (4 mortes), Viagem sem volta (3 mortes), Mosteiro (4 mortes), O maior de todos (12 mortes, mas há que se considerar o período da Peste Negra e a trama de golpe de estado), Primeiro a honra (3 mortes), Vingança (8 mortes, mas há que se considerar que é uma história de vingança), O canhoto (4 mortes, como em Mosteiro), De mãos dadas (6 mortes, sem esquecer de considerar a Gripe Espanhola, que matou mais do que eu), totalizando 44 mortes só aqui.
 
Do outro lado, são cinco histórias com mais de três nascimentos: Juliana (4 nascimentos), Idade média (5 nascimentos), Tudo que o dinheiro pode comprar (4 nascimentos), Construir a terra, conquistar a vida (17 nascimentos), De mãos dadas (22 nascimentos), totalizando 52 nascimentos só aqui.
 
Percebe-se também que quanto maior o número de páginas, maior o número de nascimentos e menor o número de mortes: Construir a terra, conquistar a vida tem 895 páginas manuscritas, 2 mortes e 17 nascimentos; De mãos dadas tem 810 páginas manuscritas, 6 mortes e 22 nascimentos. Então, se há nascimentos como há mortes (para não falar na quantidade de personagens que nem nascem nem morrem durante as histórias), na verdade o que há em minhas histórias é um retrato mais ou menos real do que é a vida: pessoas nascem, vivem e morrem. Sem cobranças, sem culpas.
 

FINALMENTE VAI NASCER EDUARDO

Quem será essa personagem que merece ter seu nascimento anunciado? É o filho de Rodrigo, o protagonista de meu próximo romance. Estou numa fase de organizar as informações e a estrutura da história e uma das questões a definir é o nome das personagens. Pensei em chamá-lo de Lucas ou de Tiago mas alguma coisa me dizia que esses nomes não seriam bons. Em vez de ficar quebrando a cabeça para resolver um problema, gosto de deixar o inconsciente aflorar para que ele resolva. Então parei de pensar em que nome daria ao menino. De repente, do nada (assim chamamos quando o inconsciente passa alguma informação à consciência), eu me lembrei que devo seguir uma tradição que criei, senão ela deixará de ser tradição.
Já expliquei essa tradição em outro texto mas vou repetir o princípio básico aqui: filhos de protagonistas nascidos durante a história recebem o nome do último protagonista que teve filhos. Até hoje, só fiz isso para os meninos. Hora de pesquisar como anda o nascimento de meninas… A tradição começou com Miguel Vasconcelos de Araújo, que foi pai de Ricardo, como Ricardo de Almeida. Depois Duarte Correia foi pai de Miguel. E depois disso (2002), nenhum outro protagonista teve filhos. Agora, finalmente, Rodrigo terá um filho. Não vou contar seu nascimento porque ele nasce no tempo entre o livro 2 e o livro 3. Mas é uma criança que nasce enquanto estou contando uma história, uma vez que a história de Rodrigo é um conjunto de três livros. Então, se o protagonista tem um filho, ele deve ter o nome do protagonista anterior. Não cabe, nos dias de hoje, em pleno Rio de Janeiro (época e local da história de Rodrigo), chamar uma criança de Duarte – essa forma do nome caiu em desuso por aqui (embora continue sendo usada em Portugal). Então vamos modernizar e abrasileirar Duarte e vê-lo transformar-se em Eduardo.
É uma alegria dar continuidade a uma tradição que é só minha e que, portanto, precisa de mim para continuar existindo. E o problema de que nome dar ao garoto foi facilmente resolvido: o filho de Rodrigo se chamará Eduardo. Assim também já fica decidido que, depois de Eduardo, o próximo menino que nascer se chamará Rodrigo.

DESCARTADOS

Neste texto comemorativo dos meus 27 anos de carreira literária, quero pegar um viés diferente. Em vez de falar nas ideias que deram certo, nos textos que viraram livros, vou falar nas ideias que não se tornaram histórias, e nos textos que foram descartados.
 
Pois é, nem tudo são flores na carreira artística. Ninguém consegue ser brilhante todo o tempo. Não se pode acertar todas. Cerca de 90% do que se produz serve apenas como exercício para não se errar de novo mais para frente. Só 10% (no meu caso, menos) de tudo o que se cria realmente merece ter prosseguimento e vir a público.
 
Sendo a época de fechar mais um ciclo (aniversário), posso fazer minhas contas e estatísticas: ao longo de 27 anos, tive 309 ideias (começos ou meios ou finais ou temas), das quais apenas 139 consegui desenvolver até o final (são histórias realmente) – ou seja, praticamente 45% de todas as ideias realmente se tornaram história com começo, meio e fim. Quando eu comecei a escrever, eu escrevia tudo o que eu inventava, sem me preocupar se depois conseguiria dar prosseguimento à ideia. Isso me fez ter muitos textos simplesmente começados, às vezes um punhado de páginas, uma cena, uma página, um parágrafo. É algo que poderia ter me desanimado, ter me feito questionar se eu de fato era capaz de levar uma narrativa até o fim, mas eu tinha tantas idéias novas todos os dias que considerava que em algum momento a inspiração para dar continuidade a todos os textos surgiria, talvez por mágica, talvez como um sopro das Musas. Acho que nem preciso dizer que todos esses textos incompletos, todas essas idéias que não renderam histórias estão devidamente descartados. Infelizmente, em algum momento eu rasguei algumas coisas, e hoje me arrependo, pois entre esses textos incipientes estava, por exemplo, o registro da primeira ideia de Rosinha, a história que hoje estou escrevendo. Então, embora eu tenha na memória que a estrutura básica foi mantida, como eu retomo muito certos temas, já não tenho certeza se a Rosinha de hoje realmente guarda vínculos com a Rosinha original, ou se misturei a estrutura com alguma outra história pelo caminho que tinha o mesmo tema (por exemplo, Espera e Raio de Sol).
 
Foram 139 histórias inventadas, mas não escrevi todas. Não basta a ideia ter um final, é preciso que eu goste dele, que eu considere que é uma história que vale a pena ser escrita. Também é preciso tempo para escrever. Então, são apenas 59 histórias que se tornaram texto – ou seja, 42% de todas as histórias inventadas e 19% de todas as idéias que já tive.
 
Escrever bem não é tarefa fácil. É preciso dar consistência à caracterização das personagens, descrever o ambiente, contextualizar, seguir a estrutura pré-estabelecida, criar bons diálogos, construir personagens interessantes, contar bem a história, redigir um texto coerente, não abusar do deus-ex-machina, utilizar as palavras e expressões corretamente, desenvolver cada cena no tamanho adequado, para citar só alguns aspectos. Então não é porque o texto está escrito que vou sair procurando editora para publicar. Tive sorte por perceber que era necessário apontar todos os defeitos e inconsistências dos textos e descartar tudo o que eu não considerasse próximo ao “perfeito” na época da análise. É por isso que, de tudo o que foi escrito, somente 19 textos permanecem, estou escrevendo um e pretendo escrever mais dois. Para efeito de estatística, vamos considerar que, pela minha experiência acumulada, essas três histórias que estou escrevendo ou vou escrever ficarão boas e serão sobreviventes (não, a minha experiência não garante que os textos ficarão bons. Só a avaliação posterior poderá julgar). Então, são 22 textos sobreviventes – ou seja, 37% das histórias escritas sobrevivem, o que equivale a quase 16% das histórias criadas, e 7% de tudo o que eu já inventei.
 
E que histórias são essas, que foram descartadas? Em geral, ideias bobas mas também ideias interessantes que eu não sei como desenvolver. Às vezes me vem à cabeça uma cena, ou um tema, e eu registro, para ver se acontece alguma coisa. Às vezes misturo idéias já tidas e invento uma coisa nova (Construir a terra, conquistar a vida é um exemplo de sobrevivente a partir de duas idéias descartadas). Pode dar certo ou não. Quero citar uns exemplos de histórias descartadas que me vêm à mente agora: a história de Juliana que pegou carona na garupa da bicicleta de André, na Ilha de Paquetá (escrita); a história de Roberto, que entrou de penetra numa festa grã-fina e saiu dela com o compromisso de dar uma festa igual (Champagne – não escrita); a história de Miguel, que comprou Alice para ser sua esposa (Tudo que o dinheiro pode comprar – escrita e quase publicada); a primeira história, que tentei reestruturar e reescrever duas vezes, sem sucesso (Sahara – escrita); Mosteiro (escrita), que se tornou O canhoto; Idade Média (escrita), que se tornou Primeiro a honra; Simultaneidade (não escrita), que fala de um rapaz que vive no presente e no passado ao mesmo tempo; Bonzinho mau-caráter, que já tem cinco versões inventadas e nenhuma escrita. Bem, são muitas e não vou conseguir citar nem as principais todas aqui. A última história que descartei foi À procura (romance), que era reescrita de À procura (conto), também escrita.
 
O descarte pode acontecer a qualquer momento. Há histórias que são descartadas logo após serem inventadas, pois é uma ideia que na hora não consigo levar adiante. Outras são descartadas depois de prontas, pois acho que não vale a pena escrever. Nesses dois casos, na verdade, estou descartando idéias e projetos. Ultimamente, como esse descarte preliminar ficou mais freqüente, é mais difícil descartar histórias escritas. Mas do que eu escrevi no início, pouco restou: foram descartadas em alguma avaliação posterior à escrita. As histórias estão sempre em risco de serem descartadas, até que eu as mande para a gráfica, como aconteceu com Tudo que o dinheiro pode comprar, que foi descartada quando eu preparava os arquivos para a gráfica. O limite entre a vida e a morte é bastante tênue, e as histórias estão sempre sendo reanalisadas e reavaliadas, então a morte paira sobre elas constantemente. Por isso chamo as boas histórias de sobreviventes: elas vêm escapando com sucesso de todas as avaliações.
 
Não tenho pena de descartar o que não considero perfeito. Sei como é fácil criar, como é fácil escrever. Então estou buscando mais do que isso: escrever bem, tramas sem furos, personagens interessantes, linguagem apropriada, contextualização conforme a necessidade da trama. Exigente como sou, tenho 19 textos sobreviventes. É mais do que um para cada dois anos de carreira. Hoje sei que o polimento do texto é mais demorado do que a escrita, então na verdade me considero bastante produtiva. A fila de publicação é que demora a andar, mas estou cuidando disso e logo anunciarei o lançamento de meu oitavo livro, A noiva trocada, em produção independente.
 
Chego aos 27 anos com uma maturidade que eu não imaginava alcançar quando comecei. É muito bom olhar para trás e ver o que foi construído. E essas histórias descartadas, em vez de serem fracassos, como poderia parecer à primeira vista, são na verdade o chão que eu piso, a escada que me faz progredir. Elas são as mestras que, se não ensinaram como fazer, ao menos ensinaram como não fazer, o que pode ser até mais produtivo e eficiente. Fica então minha homenagem a esses degraus que eu pisei, a esse caminho trilhado, cheio de sucessos que sobrevivem e de sucessos descartados.

PESQUISA HISTÓRICA

Precisei ir à Biblioteca Nacional no início do mês, então aproveitei que já estava lá para a pesquisa que eu precisava fazer para minha história atual. Ao se escrever romances ambientados no passado, o mais difícil – e também o mais interessante e desafiador – é saber detalhes históricos para usar no romance. Hoje em dia, com a Internet, é fácil descobrir a história da cidade em que o romance está ambientado, a geografia – inclusive com mapas históricos, e alguns aspectos da vida cotidiana, como festas e eventos culturais. Mas há certos pormenores que textos históricos não contam, e que somente uma pesquisa específica em fontes primárias (documentos da época) consegue resolver. Minha dificuldade no momento era quanto ao valor do dinheiro. Que a moeda no Brasil nas décadas de 1910 e 1920 era o Real (que as pessoas chamavam de “réis”) eu já sabia. Mas quanto valia, por exemplo, mil réis (R 1$000)? Quanto se recebia de salário? Quanto custava a cesta básica? Como Toni oscila entre empregado e desempregado, eu precisava ter certeza de quanto ele ganha e quanto gasta – até porque muitas vezes (por exemplo, quando ele é contratado para um novo emprego) preciso citar isso no texto.

Quando estudei sobre e Greve Geral de 1917, encontrei a informação de que um operário ganhava em média cinco mil réis (R 5$000). Achei que esse valor era por mês, o que fazia de R 1:000$000 (um conto de réis) uma fortuna. Mas eu tinha que ter certeza se minhas suposições eram corretas, então precisava de um tipo de documento da época que me situasse de uma forma mais segura.

Cheguei ao setor de periódicos da Biblioteca Nacional e perguntei como procurar o que eu precisava. A moça que me atendeu explicou: pelo título da publicação. Hein? Pelo título? Mas eu não faço ideia de qual é a publicação que me serve. Mas afinal o que eu quero? Jornais publicados em São Paulo em 1918 (arbitrei a data, considerando a Grande Guerra) que tenham classificados. Eu já tinha feito esse tipo de pesquisa para Tudo o que o dinheiro pode comprar, e achei uma boa estratégia para repetir. Na época, eu procurava a cotação do café para exportação, e ofertas de escravos à venda, para calcular a receita de Miguel, e quanto ele poderia dar de mesada a mulher, por exemplo. Desta vez também, a funcionária, experiente, logo se lembrou de algo e me trouxe três rolos de microfilme do jornal O Estado de São Paulo em 1918. Eu pulei todas as notícias e li apenas os classificados de algumas edições de janeiro e algumas edições de abril. É fantástico, pois encontrei anúncios de oferta de casas para vender e para alugar; roupas masculinas e roupas de cama, mesa e banho; vagas em pensões; e também ofertas de emprego, quando descobri que a informação de R 5$000 que eu tinha se referia à diária, e não a um salário mensal. Descobri também quanto custam ingressos para o cinema e para o teatro; livros, revistas, exemplares e assinatura do jornal. Com essas informações, pude calcular os salários de Toni em seus vários empregos, as despesas dele de estadia e alimentação, e também despesas avulsas, como roupas novas e diversão. É claro que arbitrei quanto custam as coisas que ele paga, mas com uma base de realidade sólida. Se a pensão do anúncio cobra entre R 70$000 e R 80$000 por mês, Dona Luizinha pode cobrar R 68$000; se cada refeição da pensão do anúncio custa cerca de R $600 (seiscentos réis), Dona Luizinha pode cobrar R $640 (seiscentos e quarenta réis, ou dois cruzados). Se uma loja chique cobra R 4$600 por uma camisa, Toni pode comprar numa loja popular por R 1$500. Bem, eu precisava também saber se ele teria sempre dinheiro para pagar suas contas, então montei uma tabela de receitas e despesas, e ajustei os salários e o tempo dele em cada emprego para que ele tenha – ou não – como pagar suas despesas entre 1915, ano em que ele chega em São Paulo, e 1922, quando ele receberá uma proposta de emprego imperdível, desde que… Não vou contar, né?

Faltava só uma informação, que não consegui encontrar nos classificados: o preço da passagem de trem para ele voltar para a casa dos pais em São Carlos. Ajudou-me a Internet, ao me jogar na página do governo do Estado de São Paulo, que já digitalizou documentos governamentais, inclusive do início do século XX, onde encontrei os decretos de aumento de preço. Então agora essa parte financeira está resolvida, e não preciso mais deixar buracos no texto, esperando pela informação. Agora é só organizar meu tempo, para poder escrever mais rápido.

PÁGINAS COLORIDAS

Já estou passando da página 80 do meu novo romance. Está na hora de preparar a página 100, que, pelas características de tempo/espaço da história, será cor-de-rosa.

Essa é uma das minhas manias, e virou uma diversão. Passei os três primeiros anos da minha carreira escrevendo textos curtos. Não que as histórias fossem contos; eu apenas não sabia desenvolver bem os romances, e eles acabavam ficando com 60 ou 80 páginas manuscritas. Mosteiro foi a primeira a mudar isso – tanto que ela é um marco de mudança de fase, como contei neste texto. Em Mosteiro , eu tinha tanta coisa para contar, entre fatos e sentimento das personagens, que a certa altura (lá pela página 93), percebi que ia passar de 100 páginas. Ora, 100 é um número redondo, corresponde a um século, e eu nunca tinha escrito tanto, então achei que o feito merecia uma comemoração, que ficasse para sempre marcada no texto. Na época, eu tinha ganhado uns pacotes de Creative Paper (papel craft) com folhas coloridas e achei que seria uma boa ideia ter uma folha colorida no meio de mais de 100 folhas brancas – isso por certo marcaria a minha primeira centésima página escrita numa mesma história. E foi o que eu fiz. Dessa forma, a página 100 de Mosteiro é cor-de-abóbora, e depois dela há mais 89 páginas brancas, completando a história. Era tão grande que fiz para ela uma capa de cartolina. Achei boa a ideia de ter uma lombada para facilitar o manuseio das folhas de papel, então resolvi dar nem que fosse uma mini-capa a todas elas – já que o pequeno número de páginas não justificava uma capa de cartolina para cada uma. Como uma das minhas formas de organização é atribuir cores a conjuntos, aproveitei o Creative Paper para fazer as mini-capas das histórias. As cores disponíveis eram (excluídas preto e branco) vermelho, cor-de-rosa, azul, verde, amarelo, cor-de-abóbora então estabeleci o critério da ambientação para classificar as histórias e fiquei com seis grupos associados às seis cores (já contei isso aqui). A partir de então, as páginas múltiplas de 100 têm a cor da classificação da história. A página 100 de Mosteiro deveria ter sido vermelha, mas ela pertence à pré-história da classificação.

Até agora, tenho oito histórias que ultrapassaram a página 100: Mosteiro, Uma antiga história de amor no Largo do Machado, O maior de todos, Primeiro a honra, Tudo que o dinheiro pode comprar, Construir a terra, conquistar a vida, Não é cor-de-rosa, O canhoto. Achei muito curiosa a coincidência entre a página 100 de Mosteiro e de O canhoto (lembrando que O canhoto é re-escrita de Mosteiro), pois as duas foram escritas com um intervalo praticamente exato de nove anos entre elas: 16, 17 e 18 de setembro de 1988 / 17 e 18 de setembro de 2007.

Minha primeira 200 aconteceu em Tudo que o dinheiro pode comprar: eu “estiquei” a história para chegar até ela. As outras 200 são em Construir a terra, conquistar a vida e O canhoto.

Minha primeira 300 foi em Construir a terra, conquistar a vida. Além dela, apenas O canhoto tem mais de 300 páginas.

A partir daí, todas as outras páginas múltiplas de 100 são apenas em Construir a terra, conquistar a vida: 400, 500, 600, 700, 800. E, a menos que eu me meta a escrever outra saga, dificilmente chegarei novamente a 500 páginas.

A história de Toni está chegando a 100 páginas. Ainda estou em no ano de 1919 e tenho muito que contar, até 1928, o fim da história. Se posso arriscar um palpite, acho que, além da página 100, essa história terá também uma página 200 e uma página 300 coloridas.

QUANTO TEMPO ENTRE TERMINAR UMA HISTÓRIA E COMEÇAR OUTRA?

A resposta a essa pergunta é muito simples: algumas horas, não mais do que um dia. Sou viciada em criar, então, assim que termino uma história já começo a pensar em outra. Sou como aquele fumante que acende um cigarro no outro: não há intervalo nem pausa.
 
Mas isso não quer dizer que escrevo todo o tempo. Esse intervalo de escrita tem sido maior, chegando a dois anos entre terminar de escrever uma história e começar a escrever outra. Nesse período de “descanso”, trabalho histórias novas mentalmente , retomo idéias antigas, procurando alguma que valha a pena escrever. Em março do ano passado, terminei de escrever O canhoto. Em novembro, re-escrevi À procura. Desde então, venho repassando duas histórias que acho boas: Rosinha (1986), tentando acertar um final interessante dentro dos objetivos que quero; e Amnésia (2004), tentando estruturar os eventos, construir a trama e melhorar a caracterização das personagens. Como podem ver, vou me preocupar com o título depois. Caso eu resolva escrever alguma das duas, haverá ainda etapas de pesquisa e planejamento, especialmente no caso de Rosinha, que se passa em São Paulo, no início do século XX – é preciso escolher uma data mais exata e ter informações para contextualizar.
 
Há anos atrás, esse tempo de pausa me angustiava. Eu ficava especulando se seria capaz de escrever novamente. A seqüência ponto final – assinatura – data me causava um vazio mental momentâneo, a sensação de “acabou”, que é ao mesmo tempo de alegria infinita pela conclusão e angústia de fim. Será que algum dia terei outra boa idéia? Será que conseguirei escrever com as melhores palavras? E se isso nunca mais acontecer, como vou viver sem criar e sem escrever? Eu considerava que tinha o compromisso de ter sempre boas idéias e escrever todas elas. Aos poucos, fui aprendendo que não é possível ser brilhante toda vez, e que é melhor não perder tempo escrevendo o que não é excelente. Desde então, tenho histórias que são meros passatempo, uma trama boba, cuja função é apenas me ajudar a dormir. Em geral, uso um conjunto fechado de personagens (inspiradas nas minhas velhas bonecas de papel), e mudo a caracterização, o ambiente e a trama. Chamo essas histórias de exercícios de criação, e não tenho pretensão de escrevê-las. São elas que preenchem meu tempo entre uma história boa e outra. Às vezes uma delas se desenvolve bem, chega ao fim, me agrada, e eu resolvo escrevê-la. Foi o que aconteceu com O destino pelo vão de uma janela, Difícil conquista (1991, descartada), Um dia, depois (1991, descartada), Amor maior que o amor, Tudo que o dinheiro pode comprar, À procura. Algumas são razoáveis, e talvez eu retome algum dia, para aperfeiçoá-las e escrevê-las, como Bonzinho mau-caráter (na versão de 2009), Um campo verde (1993), A Bela e a Fera (na versão de 1996).
 
Então atualmente estou curtindo também esse tempo de pausa de escrita, aproveitando para preparar as publicações, escrever textos para o blog, participar das comunidades de literatura. Considero que tudo isso é tão importante para minha carreira quanto criar e escrever. E hoje eu sei que eu vou conseguir criar novamente, e escrever como quero. Sei que meu inconsciente está trabalhando mesmo (e principalmente) sem eu sentir, e vai se manifestar quando estiver pronto, quando for a hora certa.

LITERATURA E ARTE

Esta é uma associação que eu sempre faço, não fosse eu historiadora da arte. Então, sempre que posso, incluo aspectos formais e estilísticos de construções arquitetônicas, cito artistas que eram ativos na época da história, quando não faço minhas personagens terem contato com as obras e os artistas. Aproveito também para situar as principais questões artísticas da época e o status social dos artistas. É também uma forma bem confortável que tenho de contextualizar a minha história.

A primeira história em que essa relação entre literatura e arte acontece é Tudo por causa de um quadro, de 1986. Como o próprio nome diz, tudo acontece porque o rapaz viu um quadro com o retrato da moça, apaixonou-se e pretende conquistá-la. Era uma história baseada num sonho, e não consegui dar-lhe muita consistência, por isso descartei. Cheguei a fazer uma segunda versão, que também não se sustentou. Em uma história sem nome de 1987, uma artista plástica pretende testar se a observação tátil do modelo funciona tão bem quanto a observação visual. Em Nem tudo que brilha… há um quadro, mas não o inseri na história da arte. Em O canhoto, também cuidei de descrever bem a estrutura e a decoração do mosteiro, que o caracterizam como cisterciense. Foi muito divertido, quando Nicolaas viaja pela Itália (perdido no mundo) e passa por Florença, “pátria” do Renascimento italiano porque, quando ele passou por lá, simplesmente não havia nada de renascentista para ele visitar, como turista. Olhando com olhos de hoje, é absurdo pensar que ele passou apenas meio dia na cidade porque “não há nada de interessante para se ver em Firenze”. E há também uma outra história sem nome, de 1998, em que um órfão pobre de repente descobre que tem um dom excepcional e se torna um grande artista. Pensei em situar essa história no século XIV e de alguma forma relacionar minha personagem a Giotto: como aluno, como concorrente, mas não desenvolvi a idéia e deixei essa história suspensa.

Uma história em que usei bastante os aspectos artísticos na contextualização foi Tudo que o dinheiro pode comprar. Tenho, por exemplo, uma cena em que Miguel diz querer encomendar um retrato do filho. É a brecha para eu falar em Augusto Mueller, um dos maiores retratistas da primeira metade do século XIX, e a polêmica do gosto entre Vítor Meireles, requisitado retratista da segunda metade do século XIX, famoso por suas pinturas históricas e panoramas, e Pedro Américo, pintor histórico. Na hora de situar essa história no tempo, eu queria o final do século XIX, então não resisti e fiz parte dela acontecer em 1879, ano da Exposição Geral de Belas Artes em que foram apresentados dois dos quadros mais famosos da arte brasileira até o século XIX: a “Batalha dos Guararapes”, de Vítor Meireles, e a “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo. Minhas personagens, como o público da época, tomaram partido, atacaram e defenderam as obras e os artistas.

Acho que a relação mais intensa está em Construir a terra, conquistar a vida, em que um dos meninos desenha bem mas percebe que não pode seguir carreira devido à importância dada às artes plásticas na colônia (nenhuma importância). Prefiro não contar aqui nem quem é o menino, nem que solução encontrei para ele. Assim, não estrago a leitura do livro, quando eu o publicar. Foi muito interessante contrastar o Renascimento italiano – um dos momentos mais deslumbrantes da história da arte, quando o artista assume lugar de gênio e deixa de ser um artesão competente – e o ambiente cultural do Brasil na mesma época, em que os poucos artistas eram monges ou padres; as artes possíveis eram a arquitetura e, quando muito, a escultura devocional; as pinturas eram raras e se resumiam a retratos do rei e histórias de santos; as casas de pau-a-pique não eram decoradas artisticamente, então o único cliente era a Igreja, que tinha seus próprios artistas. “Quem vai querer comprar um desenho, mesmo que esteja bem feito?” –pergunta o artista, desconsolado, resignando-se a seguir outra profissão. Ele é meu único artista plástico e, por coincidência, houve um “mestre em artes” no Rio de Janeiro no início do século XVII com o mesmo nome. Mestre em artes, na época, não significava artista plástico, mas englobava várias habilidades manuais, inclusive o trabalho artesanal que hoje chamamos de arte colonial brasileira.

NASCIMENTOS

Já que falei nas mortes, vou falar também nos nascimentos que acontecem durante as histórias. São em bom número e, para fazer este texto, incluí essa coluna de informação na mesma tabela em que contabilizei o número de mortes, e descobri que há 41 histórias em que não nasce ninguém e 10 histórias em que nasce pelo menos uma pessoa. Ao total, são 44 personagens que nascem durante as histórias. Em seis casos, a história acabou antes que a criança nascesse, sendo que, em Tudo que o dinheiro pode comprar, outras crianças já tinham nascido, então ela aparece entre os 10 casos de nascimentos e entre os seis casos de crianças por nascer. Há apenas um caso de gestação perdida (é claro que não vou dizer em que história). A história com maior número de nascimentos é Construir a terra, conquistar a vida, em que nascem 17 pessoas. É interessante notar que não fazem parte de minhas histórias o nascimento de pessoas reais, mas só conto o nascimento das minhas personagens.

A primeira criança que nasceu numa história minha foi André, de uma história sem nome descartada que eu chamo de Juliana, o nome da personagem principal. Nas histórias sobreviventes, o primeiro bebê foi Clare Neville, em O destino pelo vão de uma janela. Meu “caçula” é Karl Günter, que nasceu em O canhoto (a história mais recente).

A certa altura do processo, desenvolvi uma espécie de “mania” com relação aos nomes das personagens nascidas no Brasil: o nome do bebê é sempre o mesmo da personagem principal do romance anterior. Curiosamente, os primogênitos vêm sendo sempre meninos. Acho que começou em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, quando o descendente de Ricardo também se chama Ricardo. A história seguinte passada no Rio de Janeiro foi Tudo que o dinheiro pode comprar e eu resolvi homenagear a personagem principal da história anterior. O nascimento seguinte no Brasil foi em Construir a terra, conquistar a vida, então o primeiro filho de Duarte se chama Miguel. Desde então, não nasceu mais nenhum brasileiro, mas eu já sei que o próximo que nascer se chamará Duarte – ou Eduardo, a forma moderna do nome. A escolha dos nomes das personagens é sempre muito bem pensada, e eu analiso a sonoridade, se é um nome forte ou fraco, doce ou rude, de forma que combine com a personalidade que estou construindo, mas os nomes das crianças é de certa forma exceção, porque, como as pessoas, as crianças das minhas histórias vão formando a personalidade à medida que crescem.

TIPOS DE MORTES

Sim, vou falar de novo nas mortes que acontecem nas minhas histórias, já que são mesmo muitas. Considerando apenas as histórias que escrevi (em número de 51), tenho 19 histórias em que ninguém morre, e 32 histórias em que morre pelo menos uma pessoa. Ao todo, são 113 mortes. A história que contabiliza o maior número de mortes é O maior de todos, o que não me impressiona, por ser uma história em que há traição e tentativa de golpe de estado, e por estar situada na época da Peste Negra (16 mortes). É interessante que Construir a terra, conquistar a vida, com 895 páginas, tem apenas 13 mortes (proporcionalmente muito menos do que O maior de todos, que tem 160 páginas). Quando eu fui contar quantas pessoas morriam em cada história (sim, tenho esta e outras informações em uma tabela), percebi que há três categorias de mortos:

1) personagens fictícias que morrem durante a história – são minhas criações que morrem por necessidade da trama. Ao todo, são 65 mortes dessa categoria. De todas as 51 histórias que escrevi, há apenas uma personagem que não precisava morrer mas que eu quis matar, justificando que “a morte não leva só quem deve morrer”. Sempre choro ao reler esse capítulo de O maior de todos. Este é, portanto, meu único “assassinato”, pois eu podia ter poupado essa personagem e não o fiz.

2) personagens fictícias que morrem antes da história começar – são pais, mães, irmãos, ancestrais, amigos das personagens que estão agindo na história, e que são citados por elas, e têm alguma importância na condição da personagem, ou no desenrolar da trama. São ao todo 41 mortes nessa categoria. Por exemplo, os pais de Duarte (Construir a terra, conquistar a vida) que, ao morrerem, deixaram-no desamparado, o que o impeliu à vida de furtos; o Velho Araújo (Tudo que o dinheiro pode comprar), que fez Miguel ser egocêntrico e arrogante e, ao morrer, deixou-lhe uma vultuosa herança.

3) pessoas reais que morrem durante a história – embora essas mortes sejam contadas por mim e façam parte da história – às vezes a ponto de determinar eventos fictícios posteriores – não sou responsável por elas, pois a pessoa morreu de qualquer jeito, salvá-las não está a meu alcance, e não fui eu que as matei, mas a vida. Ao todo, são sete: o Conde de Flandres (O canhoto), que morre durante a Terceira Cruzada; e os governantes e jesuítas de Construir a terra, conquistar a vida: Estácio de Sá, Mem de Sá, o rei Dom Sebastião, o rei Dom Henrique, Araribóia, o Padre Manoel da Nóbrega.

Podemos concluir, portanto, que o grande número de mortes nas minhas histórias não é responsabilidade minha apenas, mas dessa lei da vida, que diz que todos os que estão vivos morrem um dia.