Um dia depois

DESCARTEI

Resolvi finalmente descartar o conto História do Mundo. Passou bastante tempo suspenso e eu não encontrei como solucionar seus problemas estruturais. Descartar sempre dói, é uma espécie de última alternativa, quando nada mais funciona. Ao mesmo tempo que o clima é de morte, cabe a frase de Lavoisier: “nada se perde”. Os temas abordados permanecerão na minha mente e talvez venham a ser re-elaborados e retrabalhados em outra história.
 
Essas categorias “sobrevivente”, “suspensa”, “descartada” são muito flexíveis, e as histórias passam de uma a outra facilmente. Basta eu querer escrever para ser “sobrevivente”; basta eu desistir de escrever para ser “descartada”. Quando eu gosto mas há algo que não consigo resolver, fica “suspensa”. Se eu leio e gosto, é “sobrevivente”; se eu leio e não gosto, é “descartada”. Como estou sempre revendo meus textos e minhas listagens, as histórias têm muitas chances de movimentação até chegarem à publicação, quando se tornam de fato VIVAS.
 
Há uma outra história oscilando entre a vida e a morte: Um dia, depois. Considerando meu espírito crítico atual, vou continuar concordando com o contista que me convenceu a parar de escrever contos, pois um conto precisa de uma trama – não basta uma cena, mesmo que esteja bem-feita – e vou manter essa história descartada. Desta forma, me restam apenas dois contos: O cisne e Labirinto vital, já que O Além terá tratamento diferenciado, sendo publicado com ilustrações. Pelas características deles, não devem ser descartados. Mas também não posso fazer um livro com apenas dois contos curtos. Por isso resolvi juntá-los aos poemas e a outros textos curtos em prosa, que eu chamo de “peças curtas”, porque não são poemas, não são contos, não são crônicas. Todos são narrativos e contam uma história curta, ou são o pensamento de alguma personagem, ou algum tipo de depoimento pessoal ou desabafo. Difícil descrever. Em geral, são escritos em primeira pessoa (“Eu agonizava sobre o leito”, “Eu nasci sob essa árvore”, “Nascemos no mesmo dia, na mesma hora”, etc) ou é alguém falando com esse “eu” (“Vá se despir de tudo e volte para mim”), ou ainda uma descrição de cena (“Cercada pelo fogo, a vida se faz fora daqui”, “Com que coragem tu te atira na aurora!”). Há também dois diálogos, duas cenas, portanto, mas que não configuram um conto por não haver enredo, nem tempo, nem espaço, nem caracterização das personagens. Utilizei a forma de diálogo para apresentar idéias minhas. Começam assim:
 
1) “- Estou deprimida –ela diz ao companheiro.
– Por quê? –pergunta preocupado.
– Minha vida está no fim e eu não morri. Tanto que eu queria… Vou morrer frustrada por não ter morrido.”
 
2) “- Trouxe seu chá.
– Tem gosto?
– Provavelmente.
– Então não quero. Cansei desse prazer fútil. Agora descobri que o prazer que quero é o da cessação.”
 
São idéias meio malucas, concordo, mas eu prefiro dizer que são cenas surrealistas, alegóricas, simbólicas. Expressam o que eu penso? Não, expressam o que eu pensei quando as criei. Nem sempre eu concordo com minhas personagens. Não preciso concordar. Não preciso acreditar nos sentimentos e nas idéias que eu ponho no papel. De fato, a única coisa em que eu realmente acredito é na existência real das minhas personagens fictícias. Quando eu digo “Duarte morava aqui” ou “Nicolaas passou por essa cidade”, eu preciso de alguns segundos para lembrar de que eles nunca viveram de verdade e que é por isso que os livros de História da Civilização não registram os nomes deles nem o que eles fizeram.
 
Descartar uma história, qualquer que seja, é doloroso e emocionalmente complicado, mas também é bom, porque é um peso que eu tiro da minha cabeça; é uma coisa a menos com que preciso me preocupar, um problema a menos para resolver. Sei que meu inconsciente continua trabalhando nos temas e, se for necessário, eles vão reaparecer em outra história, ou os problemas serão solucionados e eu saberei como reescrever a mesma história. Não há dificuldade que meu inconsciente não saiba resolver, com sonhos e processos simbólicos, então é melhor deixar ele resolver sozinho, em vez de ficar tentando encontrar uma solução consciente e racional.

QUANTO TEMPO ENTRE TERMINAR UMA HISTÓRIA E COMEÇAR OUTRA?

A resposta a essa pergunta é muito simples: algumas horas, não mais do que um dia. Sou viciada em criar, então, assim que termino uma história já começo a pensar em outra. Sou como aquele fumante que acende um cigarro no outro: não há intervalo nem pausa.
 
Mas isso não quer dizer que escrevo todo o tempo. Esse intervalo de escrita tem sido maior, chegando a dois anos entre terminar de escrever uma história e começar a escrever outra. Nesse período de “descanso”, trabalho histórias novas mentalmente , retomo idéias antigas, procurando alguma que valha a pena escrever. Em março do ano passado, terminei de escrever O canhoto. Em novembro, re-escrevi À procura. Desde então, venho repassando duas histórias que acho boas: Rosinha (1986), tentando acertar um final interessante dentro dos objetivos que quero; e Amnésia (2004), tentando estruturar os eventos, construir a trama e melhorar a caracterização das personagens. Como podem ver, vou me preocupar com o título depois. Caso eu resolva escrever alguma das duas, haverá ainda etapas de pesquisa e planejamento, especialmente no caso de Rosinha, que se passa em São Paulo, no início do século XX – é preciso escolher uma data mais exata e ter informações para contextualizar.
 
Há anos atrás, esse tempo de pausa me angustiava. Eu ficava especulando se seria capaz de escrever novamente. A seqüência ponto final – assinatura – data me causava um vazio mental momentâneo, a sensação de “acabou”, que é ao mesmo tempo de alegria infinita pela conclusão e angústia de fim. Será que algum dia terei outra boa idéia? Será que conseguirei escrever com as melhores palavras? E se isso nunca mais acontecer, como vou viver sem criar e sem escrever? Eu considerava que tinha o compromisso de ter sempre boas idéias e escrever todas elas. Aos poucos, fui aprendendo que não é possível ser brilhante toda vez, e que é melhor não perder tempo escrevendo o que não é excelente. Desde então, tenho histórias que são meros passatempo, uma trama boba, cuja função é apenas me ajudar a dormir. Em geral, uso um conjunto fechado de personagens (inspiradas nas minhas velhas bonecas de papel), e mudo a caracterização, o ambiente e a trama. Chamo essas histórias de exercícios de criação, e não tenho pretensão de escrevê-las. São elas que preenchem meu tempo entre uma história boa e outra. Às vezes uma delas se desenvolve bem, chega ao fim, me agrada, e eu resolvo escrevê-la. Foi o que aconteceu com O destino pelo vão de uma janela, Difícil conquista (1991, descartada), Um dia, depois (1991, descartada), Amor maior que o amor, Tudo que o dinheiro pode comprar, À procura. Algumas são razoáveis, e talvez eu retome algum dia, para aperfeiçoá-las e escrevê-las, como Bonzinho mau-caráter (na versão de 2009), Um campo verde (1993), A Bela e a Fera (na versão de 1996).
 
Então atualmente estou curtindo também esse tempo de pausa de escrita, aproveitando para preparar as publicações, escrever textos para o blog, participar das comunidades de literatura. Considero que tudo isso é tão importante para minha carreira quanto criar e escrever. E hoje eu sei que eu vou conseguir criar novamente, e escrever como quero. Sei que meu inconsciente está trabalhando mesmo (e principalmente) sem eu sentir, e vai se manifestar quando estiver pronto, quando for a hora certa.

ESCOLHA DOS TÍTULOS

Eu gostaria de ser como João Ubaldo Ribeiro, que declarou numa entrevista que só começa a escrever um romance quando o título já está escolhido. Comigo isso raramente acontece: em geral, a história nasce antes do título. Enquanto escrevo a trama, vou pensando num título e, em geral, termino de escrever sem ter chegado a um título, que às vezes só me vem anos depois. Não me angustio mais por isso; aprendi a aceitar mais essa minha limitação e a conviver bem com ela.
 
Para mim, criar um título, nomear a história, é a parte mais difícil de toda a escrita. Acho que o título deve indicar o objetivo da história, seu resumo, sem contar fatos importantes e menos ainda o final. Também não deve dar pistas óbvias ao leitor do que vai acontecer no decorrer da história, e de características de personagens que só serão reveladas ao longo da história. Além disso, acho que títulos não devem ter verbos, nem devem ser longos. O ideal para mim é uma frase nominal de cerca de quatro palavras, incluindo artigos e preposições. Bem, é nisso que penso quando procuro um título para uma história, mas nem sempre encontro algo que me atenda 100%.
 
O destino pelo vão de uma janela, por exemplo, tem um título longo demais, a meu ver, mas o nome da história sempre foi Janela, porque é pela janela que a história começa e é pela janela também que começa o fim. E o que está em jogo não é a janela-construção, mas a janela-abertura, a janela-vão: por isso especificar no título o vão da janela. O destino é porque é pela janela que a vida de Marie muda.
 
O processo de Ser foi chamada pelo nome da personagem principal durante muitos anos. Como essa personagem está buscando se conhecer e se compreender, está construindo sua identidade, a formação de seu Ser está em processo. É um título que atende minhas especificações.
 
Pelo poder ou pela honra também está de acordo com meus objetivos. Era o título de Primeiro a Honra, que era título de História da vingança do cavaleiro bretão, meu segundo romance de cavalaria. Quando renomeei o romance de cavalaria, mais conforme os autores medievais, o título Primeiro a honra ficou vago, e eu achei que ele estava mais apropriado para a história de Rosala, que também trata de vingança. Já o foco da história de Ninette e a luta pelo poder. Então embaralhei títulos e histórias e cheguei a essa conclusão. O título explica a motivação do conflito principal da história de dois irmãos que brigam pelo poder e, ao verem esgotadas suas possibilidades, continuam lutando em nome da honra. É um título que eu considero de acordo com meus critérios.
 
Nem tudo que brilha… foi pensado em comparação ao ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro”, porque a história trata de falsas aparências. Costumo dizer dessa história que o grande vilão é a vítima, pois é difícil concluir quem afinal é vítima e quem é vilão. O título é enigmático como a história, pois cabe ao leitor descobrir como completar a frase.
 
O aro de ouro foi fácil escolher, porque é onde se passa a história. É um título completamente adequado aos meus critérios. É curto, sintético e tão explicativo quanto acho que deve ser.
 
O maior de todos é uma solução que me agrada, mas está fora das especificações, pois à primeira vista se relaciona ao nome de uma das personagens principais, o Conde Legrand, que se poderia traduzir por “o grande”. Mas, ao chamar de O maior de todos, proponho ao leitor que escolha se “o grande” é de fato o maior de todos, ou se outro é maior, nessa história que trata justamente da disputa de poder entre fortes e fracos, entre um jovem rei e seus experientes ministros.
 
Primeiro a honra foi resultado de uma redistribuição de títulos. Quando eu acho uma frase que serve como título, guardo-a para ser usada quando for apropriada e a reparação da honra perdida é a motivação das ações da personagem principal.
 
Construir a terra, conquistar a vida é outro título que foge completamente às minhas próprias regras, por ser longo, conter verbos e ser formado por duas frases separadas por pontuação. Mas é o título que expressa o significado dessa Saga luso-carioca. Troquei propositadamente os objetos dos verbos mais óbvios (conquistar a terra e construir a vida), pois não bastava conquistar a terra, foi preciso construí-la sobre charcos e alagadiços. Diante disso, a vida não é uma construção, é uma conquista diária sobre as condições do lugar, sobre a natureza e contra os inimigos.
 
A noiva trocada é um título simples para uma história simples, que informa o problema principal sem antecipar qual poderá ser a solução. É um título que atende completamente minhas especificações.
 
Vingança também é um título óbvio, que fala das intenções da personagem principal. A verdade é que fiquei com preguiça de procurar um título mais bonito e pomposo. Talvez eu pense em alguma coisa antes de publicar, então altero o título.
 
Amor de redenção foi escolhido pensando nos romances de Camilo Castelo Branco “Amor de salvação” e “Amor de perdição”. O amor de que trata meu livro nem salva nem perde, mas é capaz de redimir o que estava perdido.
 
Fábrica não tem título. Ainda tenho que pensar em uma frase que fale de relações de trabalho, exploração capitalista, ricos e pobres, e o amor no meio disso tudo. [editado: a história agora se chama Não é cor-de-rosa, e a explicação do título está neste texto].
 
O canhoto também é um título óbvio, que era uma espécie de subtítulo na primeira versão (Mosteiro) e que eu elevei à categoria de título porque resume os dramas da personagem principal: todos os problemas que ele enfrenta na vida decorrem do fato dele ser canhoto. Como essa informação é dada logo no início, achei que não havia problema já antecipar no título. Confesso que fiquei com preguiça de pensar num título melhor, e um título provisório me angustia menos do que nenhum título.
 
Biblioteca de Kerdeor – Procurei dar aos três romances títulos no estilo dos romances de cavalaria medievais, sem repetir a fórmula. Na época, os títulos costumavam ser longos, contar o final da história (por exemplo, “A morte de Artur”, de Thomas Malory), indicar se a narrativa era em verso ou prosa. Pensando nisso, dei a elas os títulos: 1) Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália; 2) História da vingança do cavaleiro bretão; 3) Aventuras dos Cavaleiros Cantores. Também seguindo a tradição medieval – agora portuguesa, os três romances “irmãos” são reunidos num volume chamado Biblioteca. “Kerdeor” é como eu imagino que seria Cadorin em bretão, uma vez que o Rei Artur era bretão e seus romances são compostos do que se convencionou chamar de “matéria da Bretanha”.
 
Nomear contos é mais fácil, pois a trama simples não deixa espaço para grandes dúvidas e devaneios. Com relação aos títulos dos meus contos:
 
Um dia, depois é um título esquisito à primeira vista, mas foi escolhido porque o casal principal se encontra um dia, depois de anos de separação.
 
História do mundo é a rara exceção em que o título nasceu junto com o texto. É também a única história escrita em primeira pessoa. É a história do mundo contada de um ponto de vista bem pessoal. Quis criar um contraste entre essas duas características: um título bem genérico e abrangente, com uma narrativa bem intimista e pessoal.
 
Labirinto vital – a escolha da palavra “labirinto” foi óbvia, pois é o ambiente em que a história se passa. “Vital” tem mais a ver com a metáfora do significado do labirinto, com toda a simbologia alegórica da história.
 
O Cisne é um título que, à primeira vista não tem relação com a história, mas o significado dele fica claro no final. Talvez seja o único título que está relacionado ao final da história, e não ao início, nem à motivação. Mesmo assim, cumpre minhas especificações de não antecipar fatos, nem contar o final da história.
 
À procura é um título que se refere à motivação das personagens, pois todas estão buscando alguma coisa, e a expedição científica de que fazem parte pode ser o momento ideal – ou a última chance, de conseguirem o que procuram.