Uma antiga história de amor no Largo do Machado

AULA DE TÉCNICA HISTÓRICA

Aprendi a fazer romance histórico com o livro Scaramouche, de Rafael Sabatini. Faz quase trinta anos que li (e ando morrendo de vontade de reler) e ainda lembro da primeira frase, que sintetiza o caráter do protagonista, André Louis Moreau: “Nascera com o dom de rir e a ideia de que a humanidade é louca” – ou algo parecido.
O livro foi escrito em 1921 e ambientado durante a Revolução Francesa (1789-1793) e esse lapso temporal entre a época de escrita e a época da ação é fundamental para a conceituação de um romance como histórico. Sabatini foi brilhante ao intrincar sua história fictícia aos eventos históricos que derrubaram a monarquia na França. André Moreau participa dos acontecimentos, encontra as pessoas reais e interage com elas. Não interessa muito se as pessoas fizeram aqueles gestos ou falaram aquelas palavras: Sabatini criou dentro das características dessas pessoas conforme registrado pelos estudiosos, então elas são totalmente reais, verossímeis.
Embora eu me considere uma boa aluna, essa construção interligando realidade e ficção não é fácil de fazer. Eu comecei a tentar fazê-la nos meus romances em 1991 (já com seis anos de prática de escrita), no romance Uma antiga história de amor no Largo do Machado mas só consegui fazer que minhas personagens andassem por uma cidade real com pontos de referência existentes. O marco importante é Construir a terra, conquistar a vida (1996), em que minhas personagens participam ativamente dos eventos da história da cidade e interagem com pessoas que existiram de verdade. Mas ainda não era o intrincamento que eu consegui fazer em De mãos dadas (2009). Toni não apenas participa dos eventos mas também é arrastado por eles, como num turbilhão incontrolável. Diferente de Duarte, que constrói os eventos com seus concidadãos, Toni é vítima dos acontecimentos. Duarte esforça-se para participar da História, enquanto Toni quer escapar dela para apenas trabalhar e viver em paz.

Acho que agora aprendi realmente a lição do mestre Sabatini. Mas não sei quando terei oportunidade de praticar novamente, pois a história de Rodrigo, que estou escrevendo agora, não pede esse tipo de estrutura histórica, nem a história que pretendo escrever em seguida, que vou chamando de Amnésia até dar-lhe um título. Mas, quando eu tiver uma outra trama histórica para escrever (e isso não quer dizer ambientar a história no passado), eu já sei que ferramentas usar para interligar ficção e realidade. Obrigada duas vezes, Rafael Sabatini: pela experiência prazerosa que tive ao ler Scaramouche, e pela aula de como fazer um romance histórico.

FINALMENTE VAI NASCER EDUARDO

Quem será essa personagem que merece ter seu nascimento anunciado? É o filho de Rodrigo, o protagonista de meu próximo romance. Estou numa fase de organizar as informações e a estrutura da história e uma das questões a definir é o nome das personagens. Pensei em chamá-lo de Lucas ou de Tiago mas alguma coisa me dizia que esses nomes não seriam bons. Em vez de ficar quebrando a cabeça para resolver um problema, gosto de deixar o inconsciente aflorar para que ele resolva. Então parei de pensar em que nome daria ao menino. De repente, do nada (assim chamamos quando o inconsciente passa alguma informação à consciência), eu me lembrei que devo seguir uma tradição que criei, senão ela deixará de ser tradição.
Já expliquei essa tradição em outro texto mas vou repetir o princípio básico aqui: filhos de protagonistas nascidos durante a história recebem o nome do último protagonista que teve filhos. Até hoje, só fiz isso para os meninos. Hora de pesquisar como anda o nascimento de meninas… A tradição começou com Miguel Vasconcelos de Araújo, que foi pai de Ricardo, como Ricardo de Almeida. Depois Duarte Correia foi pai de Miguel. E depois disso (2002), nenhum outro protagonista teve filhos. Agora, finalmente, Rodrigo terá um filho. Não vou contar seu nascimento porque ele nasce no tempo entre o livro 2 e o livro 3. Mas é uma criança que nasce enquanto estou contando uma história, uma vez que a história de Rodrigo é um conjunto de três livros. Então, se o protagonista tem um filho, ele deve ter o nome do protagonista anterior. Não cabe, nos dias de hoje, em pleno Rio de Janeiro (época e local da história de Rodrigo), chamar uma criança de Duarte – essa forma do nome caiu em desuso por aqui (embora continue sendo usada em Portugal). Então vamos modernizar e abrasileirar Duarte e vê-lo transformar-se em Eduardo.
É uma alegria dar continuidade a uma tradição que é só minha e que, portanto, precisa de mim para continuar existindo. E o problema de que nome dar ao garoto foi facilmente resolvido: o filho de Rodrigo se chamará Eduardo. Assim também já fica decidido que, depois de Eduardo, o próximo menino que nascer se chamará Rodrigo.

QUANTO DETALHAR

Muito importante na hora de construir a verossimilhança de um romance histórico é incluir na ficção fatos históricos reais, de maneira que as personagens fictícias participem e sejam afetadas pelos eventos históricos. Dessa forma, a história da personagem parece possível de ter acontecido de verdade, e o leitor acaba acreditando que a ficção é real. Acho que isso é um ponto positivo num romance histórico.

Quando eu comecei a escrever, lá no final do século XX, eu não tinha essa consciência, e meus primeiros romances, embora tenham as características da ambientação escolhida, não se apegam a esse tipo de pormenor. As personagens moram naquela cidade, ou naquela região, mas não naquela rua específica, naquela casa específica, em que o sol entra pelas janelas de manhã. Eu só comecei a me preocupar com isso quando fui buscar o passado da minha cidade, para escrever Uma antiga história de amor no Largo do Machado, e tinha que fazer minhas personagens andarem pelas ruas que existiam na época, e verem os prédios que havia na época. Em 146 anos (o lapso de tempo entra a data da história – 1845 – e o ano em que eu estava – 1991), a cidade do Rio de Janeiro mudou muito, com aterros, construções e expansão, e eu tinha uma cidade muito diferente para apresentar.

Mesmo assim, a história real era passiva, era um cenário a ser visitado, e não um redemoinho que carregasse minhas personagens em sua passagem. Foi somente em Construir a terra, conquistar a vida que as coisas começaram a se entrelaçar, pois Duarte veio para o Rio de Janeiro para lutar contra os franceses, na batalha que ficou conhecida com o nome de Uruçumirim. Duarte viu Estácio de Sá cair atingido pela flecha que o acertou no rosto; Duarte foi ao enterro de Estácio de Sá; Duarte construiu sua casa nova no Morro do Descanso, no terreno que Mem de Sá lhe cedeu. Depois, quando os franceses voltaram, e estavam em Cabo Frio, Duarte foi atrás deles, enquanto seus filhos patrulhavam a praia. Tudo o que aconteceu na cidade teve a participação efetiva de minhas personagens. Tenho muito orgulho do que consegui realizar.

O canhoto também tem esse entrelaçamento, inclusive com a participação de pessoas que existiram de verdade, e o principal evento de que minhas personagens participam é a Terceira Cruzada. Não é toda história que pede esse tipo de trabalho. Alguns romances são mais fechados, e uma ambientação básica já cumpre seu papel. Em outros romances, entretanto, a cidade, com sua história e geografia, também é personagem, e a narrativa fica mais aberta a interferências da realidade. Minha história atual é assim. Já inclui a Greve Geral de 1917, e informações sobre a Grande Guerra, em que o Brasil ingressou em 1918. Faltava contar a Gripe Espanhola, também em 1918, mas achei que a narrativa estava meio arrastada, e eu estava demorando muito para avançar, então resumi o episódio da Gripe em um parágrafo e entrei feliz em 1919, contando sobre o novo emprego de Toni. Mas, cada vez que eu relia, me batia um desconforto de pensar “parece que a Gripe foi só isso, e não a tragédia que foi”. Uma amiga minha resumiu meu sentimento “Você já passou pela Gripe Espanhola e nenhum personagem seu morreu? Não pode”. De fato, não pode. Se as personagens foram para as ruas na Greve Geral de 1917, se estão pagando caro pela comida por causa da Grande Guerra, elas também precisam pegar Gripe Espanhola. Então voltei para contar como minhas personagens enfrentaram uma das maiores epidemias da época, que vitimou mais de 35 mil pessoas em todo o Brasil, incluindo Rodrigues Alves, o presidente eleito, que morreu em janeiro de 1919, antes de ser empossado para seu segundo mandato. Mas quem matar? Quem poupar? Já me apeguei às personagens secundárias que se destacam mais, e não tem graça matar quem não tem importância, pois não fará falta na história. Também é preciso decidir se Toni será infectado ou não, e como a doença progrediria nele, que é a personagem principal. Muitas questões a definir, em nome da verdade do texto.
 
Então, de posse do conhecimento dos eventos históricos da época escolhida, é preciso detalhar todos os grandes momentos, que marcaram aquela época. Mas detalhar não é escrever uma página contando o que foi o evento e seus desdobramentos – podemos deixar isso para os livros de não-ficção. Detalhar, no romance histórico, significa envolver as personagens no evento, jogá-las no turbilhão, para que elas vivam aquilo e deem à ficção uma aparência de realidade histórica.

PÁGINAS COLORIDAS

Já estou passando da página 80 do meu novo romance. Está na hora de preparar a página 100, que, pelas características de tempo/espaço da história, será cor-de-rosa.

Essa é uma das minhas manias, e virou uma diversão. Passei os três primeiros anos da minha carreira escrevendo textos curtos. Não que as histórias fossem contos; eu apenas não sabia desenvolver bem os romances, e eles acabavam ficando com 60 ou 80 páginas manuscritas. Mosteiro foi a primeira a mudar isso – tanto que ela é um marco de mudança de fase, como contei neste texto. Em Mosteiro , eu tinha tanta coisa para contar, entre fatos e sentimento das personagens, que a certa altura (lá pela página 93), percebi que ia passar de 100 páginas. Ora, 100 é um número redondo, corresponde a um século, e eu nunca tinha escrito tanto, então achei que o feito merecia uma comemoração, que ficasse para sempre marcada no texto. Na época, eu tinha ganhado uns pacotes de Creative Paper (papel craft) com folhas coloridas e achei que seria uma boa ideia ter uma folha colorida no meio de mais de 100 folhas brancas – isso por certo marcaria a minha primeira centésima página escrita numa mesma história. E foi o que eu fiz. Dessa forma, a página 100 de Mosteiro é cor-de-abóbora, e depois dela há mais 89 páginas brancas, completando a história. Era tão grande que fiz para ela uma capa de cartolina. Achei boa a ideia de ter uma lombada para facilitar o manuseio das folhas de papel, então resolvi dar nem que fosse uma mini-capa a todas elas – já que o pequeno número de páginas não justificava uma capa de cartolina para cada uma. Como uma das minhas formas de organização é atribuir cores a conjuntos, aproveitei o Creative Paper para fazer as mini-capas das histórias. As cores disponíveis eram (excluídas preto e branco) vermelho, cor-de-rosa, azul, verde, amarelo, cor-de-abóbora então estabeleci o critério da ambientação para classificar as histórias e fiquei com seis grupos associados às seis cores (já contei isso aqui). A partir de então, as páginas múltiplas de 100 têm a cor da classificação da história. A página 100 de Mosteiro deveria ter sido vermelha, mas ela pertence à pré-história da classificação.

Até agora, tenho oito histórias que ultrapassaram a página 100: Mosteiro, Uma antiga história de amor no Largo do Machado, O maior de todos, Primeiro a honra, Tudo que o dinheiro pode comprar, Construir a terra, conquistar a vida, Não é cor-de-rosa, O canhoto. Achei muito curiosa a coincidência entre a página 100 de Mosteiro e de O canhoto (lembrando que O canhoto é re-escrita de Mosteiro), pois as duas foram escritas com um intervalo praticamente exato de nove anos entre elas: 16, 17 e 18 de setembro de 1988 / 17 e 18 de setembro de 2007.

Minha primeira 200 aconteceu em Tudo que o dinheiro pode comprar: eu “estiquei” a história para chegar até ela. As outras 200 são em Construir a terra, conquistar a vida e O canhoto.

Minha primeira 300 foi em Construir a terra, conquistar a vida. Além dela, apenas O canhoto tem mais de 300 páginas.

A partir daí, todas as outras páginas múltiplas de 100 são apenas em Construir a terra, conquistar a vida: 400, 500, 600, 700, 800. E, a menos que eu me meta a escrever outra saga, dificilmente chegarei novamente a 500 páginas.

A história de Toni está chegando a 100 páginas. Ainda estou em no ano de 1919 e tenho muito que contar, até 1928, o fim da história. Se posso arriscar um palpite, acho que, além da página 100, essa história terá também uma página 200 e uma página 300 coloridas.

NASCIMENTOS

Já que falei nas mortes, vou falar também nos nascimentos que acontecem durante as histórias. São em bom número e, para fazer este texto, incluí essa coluna de informação na mesma tabela em que contabilizei o número de mortes, e descobri que há 41 histórias em que não nasce ninguém e 10 histórias em que nasce pelo menos uma pessoa. Ao total, são 44 personagens que nascem durante as histórias. Em seis casos, a história acabou antes que a criança nascesse, sendo que, em Tudo que o dinheiro pode comprar, outras crianças já tinham nascido, então ela aparece entre os 10 casos de nascimentos e entre os seis casos de crianças por nascer. Há apenas um caso de gestação perdida (é claro que não vou dizer em que história). A história com maior número de nascimentos é Construir a terra, conquistar a vida, em que nascem 17 pessoas. É interessante notar que não fazem parte de minhas histórias o nascimento de pessoas reais, mas só conto o nascimento das minhas personagens.

A primeira criança que nasceu numa história minha foi André, de uma história sem nome descartada que eu chamo de Juliana, o nome da personagem principal. Nas histórias sobreviventes, o primeiro bebê foi Clare Neville, em O destino pelo vão de uma janela. Meu “caçula” é Karl Günter, que nasceu em O canhoto (a história mais recente).

A certa altura do processo, desenvolvi uma espécie de “mania” com relação aos nomes das personagens nascidas no Brasil: o nome do bebê é sempre o mesmo da personagem principal do romance anterior. Curiosamente, os primogênitos vêm sendo sempre meninos. Acho que começou em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, quando o descendente de Ricardo também se chama Ricardo. A história seguinte passada no Rio de Janeiro foi Tudo que o dinheiro pode comprar e eu resolvi homenagear a personagem principal da história anterior. O nascimento seguinte no Brasil foi em Construir a terra, conquistar a vida, então o primeiro filho de Duarte se chama Miguel. Desde então, não nasceu mais nenhum brasileiro, mas eu já sei que o próximo que nascer se chamará Duarte – ou Eduardo, a forma moderna do nome. A escolha dos nomes das personagens é sempre muito bem pensada, e eu analiso a sonoridade, se é um nome forte ou fraco, doce ou rude, de forma que combine com a personalidade que estou construindo, mas os nomes das crianças é de certa forma exceção, porque, como as pessoas, as crianças das minhas histórias vão formando a personalidade à medida que crescem.

EXPERIÊNCIA E CARREIRA

É engraçado pensar que este mês (não lembro nem anotei o dia) completo 25 anos de carreira literária. Em abril de 1985, quando escrevi aquele sonho, que se tornou minha primeira história, não pensava que chegaria aqui. Mas cheguei. E, graças a tudo pelo que passei, atingi uma maturidade que eu não tinha quando comecei. A conclusão parece óbvia, mas é essa maturidade, não só de vida mas também de prática literária, que me faz ter clareza do meu processo, e me torna capaz de orientar colegas menos experientes.

Fico muito lisonjeada com os comentários que as pessoas – muitas das vezes, colegas de literatura – têm feito sobre meu trabalho, aqui no blog e nas comunidades literárias de que participo. Dizem que aprendem com meus textos, que se encantam com o que escrevo, que a narrativa está tão bem feita que nada há a observar e corrigir. Minha primeira reação é sempre de “calma, que é isso, não é bem assim: sou apenas uma escritora iniciante”. Mas depois “cai a ficha”, e eu lembro de todo meu percurso para chegar aqui e acredito que os elogios não são exagerados, pois de fato eu sei algumas coisas e me aperfeiçoei ao longo desses anos. É pena que o mercado editorial tenha outros olhos, e as editoras grandes, que poderiam divulgar bem meu nome e meu trabalho, continuem fechadas para mim, pois continuo sendo uma ilustre desconhecida do público em geral.
 
Pode parecer pedante eu chamar de carreira literária esses 25 anos de escrita que tenho. Mas é uma prerrogativa do ofício – sim, a literatura é mais ofício do que profissão, no sentido de que não é regulamentada, não há formação específica nem mercado de trabalho formal. Então, assim como me auto-intitulo escritora ou romancista, também me dou ao direito de auto-intitular minha trajetória de “carreira”. É algo que só os artistas podem fazer. Não é um diploma, nem um certificado ou declaração que dizem que alguém é compositor musical, ou artista plástico, ou cineasta, ou ator, ou escritor. Cursos podem ajudar a aperfeiçoar mas não bastam. Pessoas com cursos e títulos podem não se considerar artistas, assim como pessoas sem curso nenhum podem ser artistas e fazer bons trabalhos. Descobri isso na faculdade de Educação Artística, quando uma colega, cuja produção, na época, eu considerava medíocre, assinou um texto se intitulando “artista plástica”. Eu e outros colegas, indignados, nos perguntávamos “quem disse que ela é artista plástica?” A resposta era óbvia: ela mesma. E quem éramos nós, meros aprendizes também, para dizer que não? Foi quando decidi que começaria a me chamar de “escritora” assim que publicasse o primeiro livro – pois o que vale neste mundo não é escrever, é publicar, é disponibilizar publicamente um objeto para uso do público (desculpem a redundância, mas, neste caso, me parece inevitável).
 
Comecei minha carreira escrevendo poemas, contos, crônicas, romances curtos (menos de 100 páginas manuscritas), romances longos (acima de 100 páginas manuscritas). Hoje escrevo apenas romances longos, e eventualmente algum romance curto acontece. Mas sempre romances.
 
Foi importante mas também dolorosa essa escolha, porque significou fechar portas. Quando se escolhe uma coisa, ao mesmo tempo se “des-escolhe” todas as outras. Mas é importante ter um foco, para que o aperfeiçoamento seja mais fácil e, muitas vezes, possível. Primeiro, fiz uma opção pela prosa, abandonando a poesia, que passou a acontecer esporadicamente, só em momentos de grande emoção e inspiração. Na verdade, minha produção poética se concentra nos anos de 1990 a 1992. Depois disso, só fiz 2 poesias em 1993, uma poesia em 1994, 1996, 1997 e 1998 e, desde então, mais nenhuma. Mais ou menos na mesma época, abandonei a crônica, por perceber que as histórias inventadas que eu faço têm mais consistência do que as histórias que têm vínculo com a realidade, além de serem muito mais fáceis de se fazer. Oficialmente só parei de fazer contos em 2004, quando um contista me mostrou os defeitos dos meus contos, mas eu já tinha parado com a produção em 1996, data do último conto (À procura). Depois disso, as duas histórias mais curtas já foram romances curtos, e não mais contos. Mesmo sem escrever contos desde 1996, eu ainda me considerava romancista e contista, o que só acabou em 2004, quando eu resolvi não escrever mais contos, e investir só no romance. No início, minha preocupação era: “e se eu tiver uma idéia curta?” Mas logo percebi que eu não tinha mais idéias curtas há muito tempo, e que isso não seria problema. Mesmo À procura pôde ser desenvolvida e se tornou um romance curto.
 
De fato, desde Construir a terra, conquistar a vida, quando eu resolvi contar praticamente toda a vida da personagem principal, e também de seus descendentes (a idéia de gerações, conforme contei neste texto aqui), o que me rendeu 895 páginas, mesmo minhas idéias curtas, de histórias que acontecem em pouco tempo e num mesmo lugar, têm rendido pelo menos romances curtos (Vingança e A noiva trocada). Se o conflito for um pouco mais complicado de resolver, lá vou eu passando das 100 páginas (Não é cor-de-rosa e Amor de redenção). Desde o início, o que eu mais gosto de fazer são os romances, em que eu tenho espaço para fazer meus diálogos, onde as características psicológicas das personagens e os conflitos se desenvolvem e se apresentam ao leitor, então essas escolhas, no fim, não foram tão sofridas assim, e eu nunca me arrependi por elas, nem tive “recaídas” de voltar a escrever nas formas abandonadas (exceto por O Além, que é um conto, mas esse é um caso especial). Mesmo dentro dessa escolha por contar histórias longas, eu podia ter escolhido escrever peças teatrais ou roteiros para cinema e TV. Mas eu me decidi mesmo pelo romance, pela arte na palavra escrita. Por mais que meus textos tenham muitos diálogos, como no teatro, e, às vezes, a descrição da cena seja meio cinematográfica, escolhi me expressar com palavras, não com imagens.
 
Ah, antes que me esqueça, quero esclarecer um pequeno detalhe. Quando se fala em 25 anos de carreira, a primeira impressão pode ser de que se trata de uma pessoa de meia idade. Mas a arte nos permite começar bem jovens, de forma que conseguimos fazer bodas de carreira sem contar muitos aniversários. Este ano, além dos 25 anos de carreira, comemoro 10 anos de casamento e 40 anos de vida, embora minha aparência faça muitas pessoas julgarem que tenho menos idade.
 
Recentemente, mudei o critério de numeração de minhas histórias, e resolvi numerar também quando retomo uma idéia para retrabalhá-la, pois isso facilita encontrar todas. Antes, se a história de número 33, por exemplo, fosse retomada anos depois, após a história 170, ela manteria o número 33, em vez de receber o número 171. Isso dificultava muito encontrar as retomadas, pois podiam estar em qualquer lugar das 23 páginas de registros. Agora, a nova versão da história 33, se vier depois da história 170, tem o número 171, e uma referência de que é versão da história 33. A história que mais foi retomada não tem título mas eu chamo de “Bonzinho mau-caráter” (adoro falsas aparências!) e aparece nas posições 114, 197, 267 e 298. Por causa dessa renumeração, o número de histórias aumentou, em relação ao que citei neste texto aqui, pois todas as retomadas, que não contavam como histórias novas, agora contam. Então, ao final de 25 anos, tenho 306 histórias criadas, sendo que 137 são completas. Isso dá uma média de 12,24 histórias criadas por ano e 5,48 histórias completas por ano. Esse número é alto porque sou viciada em criar histórias, e não durmo se não inventar um pedaço de alguma coisa. Para quem gosta de imagens (como eu, por exemplo), fiz um gráfico com o número de histórias ano a ano (clique na imagem para ver melhor).
 
 
 
O saldo numérico desses 25 anos é este: 306 histórias criadas; 136 histórias completas; 23 histórias sobreviventes, que se organizam em 6 livros publicados, 9 livros a publicar e 3 histórias em desenvolvimento.
 
Agradeço à literatura pela companhia durante esses 25 anos, pelos bons momentos que passamos (todos!!), pelos amores e aventuras que vivemos juntas.
 
Agradeço a minhas amigas de adolescência, que tiveram a paciência de ler minhas histórias quando eu ainda não sabia escrever bem, em especial à Cláudia, que teve que ler todas as primeiras e opinar sobre elas. Até hoje, não posso nem falar o nome da primeira, porque ela pede, desesperada: “não me faça lembrar dessa história! É horrível! É a pior história que você escreveu! Você ainda não a jogou fora? Joga no lixo! Vamos falar de outra coisa?”
 
Agradeço especialmente à minha amiga Luciana, que leu muitas, mas conhece todas desde a fase de criação, pelas nossas horas de conversa sem fim, em que eu conto o que fiz e como a história vai prosseguir, e muitas vezes leio para ela em voz alta alguns trechos. Lembro que eu tinha uma história com fantasmas, que eu contei a ela de noite. A mãe dela entrou no quarto e nos assustou. Depois ela não conseguiu dormir direito. Lembro também como era difícil acompanhar quem era quem na “história dos tatás”, como é conhecida entre nós. São muitas lembranças das horas de conversa com essa amiga paciente tão querida.
 
Agradeço também aos amigos eu já me conheceram na fase dos livros publicados, e vêm prestigiando meu trabalho, lendo os livros e opinando. É muito importante para o autor ter retorno de seu trabalho, inclusive aquele “não gostei”, que muita gente tem medo de dizer mas que eu gosto de ouvir, porque às vezes meu objetivo é mesmo chocar o leitor e tirá-lo da zona de conforto.
 
E agradeço a todos os que leem meus textos no blog e nas comunidades – amigos que a literatura, com a ajuda da tecnologia, está trazendo para mim. É mesmo uma boa e inseparável amiga, a literatura.
 
 
 
 

BASTIDORES

No teatro, bastidores são as partes nos dois lados e atrás do palco, escondidas da platéia, onde ficam o material de apoio e as pessoas da produção, e onde os atores esperam sua hora de entrar no palco. É a região de suporte do espetáculo, invisível do público. Nas minhas histórias, bastidores são minhas anotações e pesquisas, tabelas, cálculos, ensaios e tudo que serve de base às páginas escritas do romance. São as informações que dão suporte de verossimilhança ao que estou escrevendo.

No início, minhas pesquisas eram muito superficiais: eu não tinha consciência de que era preciso situar o contexto em que a história se passa: informações de uma enciclopédia resumida me bastavam. Dizia eu: “o leitor que vá pesquisar, se quiser saber o que estava acontecendo nessa época e nesse lugar”. As histórias eram ambientadas em locais distantes ou imaginários; as personagens não se relacionavam com o meio social, mas toda a ação acontecia no ambiente fictício, então também nem havia muito o que contextualizar. Muitas vezes, me bastava conversar com um professor de história, ou com alguém da área de medicina, mais para me esclarecer alguma dúvida (tipo: “se eu enfiar um punhal aqui, acerto o coração?”) do que para de fato contextualizar alguma coisa.

Até que, em 1992, sonhei que eu estava numa livraria e, quando saí dela, eu estava no Largo do Machado, com ruas de terra e a igreja de Nossa Senhora da Glória em construção. Foi um choque para mim essa viagem no tempo e é claro que criei uma história em que a personagem principal saía de 1991 e viajava no tempo, para a época em que a igreja estava em construção. Era imperioso pesquisar, até para saber em que ano situar a história: em que ano a igreja estaria no estágio de construção que vi no sonho? Depois a personagem ia querer fazer um passeio turístico por sua cidade no passado, então eu fui novamente forçada a pesquisar o que havia de turístico no Rio de Janeiro de 1845, e foi a primeira vez que eu “subi” o Morro do Castelo. Eu também tinha que saber que meio de transporte ela ia usar: carruagem? Coche? Caleça? Carroça? Cabriolet? Que roupas ela usaria? Havia Copacabana? Que ruas ela percorreria para chegar ao Centro? Cada pesquisa dessas resultava em uma ou duas folhas de anotações, que eu ia guardando, para consultar a cada dúvida. Quando acabei de escrever a história (que depois acabou sendo descartada), guardei as anotações pois poderiam ser úteis, caso eu resolvesse fazer outra história ambientada no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A partir dessa pesquisa, eu comecei a ficar curiosa sobre os contextos em que eu situava as histórias e comecei a ter uma necessidade cada vez maior de pesquisar e contextualizar as histórias.

O maior de todos se passa na época da Peste Negra na Europa (século XIV) e o meu Reino, embora fictício, tem localização geográfica precisa, e fica bem no caminho da Peste. Ora, eu tinha que perder algumas personagens vítimas da Peste, então tinha que saber como elas iam morrer, e o que havia em termos de tratamento. Um primo meu cursava Enfermagem e, além de pesquisar junto aos professores da faculdade, me emprestou alguns livros. Achei muito legal quando, um semestre depois, ele veio me dizer que teria prova, que a matéria era peste bubônica e ele não precisava estudar porque já sabia tudo, pela pesquisa que tinha feito para mim.

Quando fui escrever Tudo que o dinheiro pode comprar, que se passa no final do século XIX, aproveitei boa parte das pesquisas feitas para a história do Largo do Machado – o objetivo dos Bastidores é esse mesmo.

Construir a terra, conquistar a vida deu origem a uma pilha de mais ou menos três centímetros de folhas anotadas. Além disso, como a história dura 25 anos, fiz uma tabela com meses e anos (meses nas linhas, anos nas colunas) para que eu pudesse anotar os eventos históricos (reais) e planejar os eventos fictícios. Precisava também ter como acessar rapidamente eventos passados da própria história – por exemplo, datas de nascimento das personagens, data em que se conheceram. Foi a primeira vez que fiz uma tábua de planejamento cronológico, com datas marcadas.

Uma parte de Amor de redenção se passa na Espanha do século VI – e foi a parte que eu tive que pesquisar. Foi a primeira vez que reuni, além de textos, imagens. Como a pesquisa foi pela Internet, depois reuni as anotações num disquete (hoje estão num CD). Nessa época, eu estava complementando a pesquisa e recolhendo também imagens para a publicação de O processo de Ser (1986), que tem seus Bastidores no mesmo CD.

Anotações, fotos, mapas, planejamento. O canhoto tem tudo isso mas de uma maneira mais sofisticada. Às vezes penso mesmo que extrapolei, pela reação que as pessoas têm quando lhes mostro meus requintes. A questão nem é o mapa da cidade de Brugge, e das estradas imperiais romanas remanescentes no século XII (época em que se passa a história), nem a planta-baixa do mosteiro em que Nicolaas ingressou – hoje em ruínas. Mas as pessoas se assustam com a tabela que fiz listando todas as orações das celebrações de todas as Horas Canônicas, conforme preconizado na Regra de São Bento, uma tabela que tem duas páginas de largura (letras em corpo 8), pois algumas Horas têm orações diferentes conforme seja inverno ou verão, domingo ou dia de semana.

Também assusta as pessoas a tabela que lista a organização dos horários de trabalho, oração, estudo, refeição, descanso, conforme a Regra de São Bento para cada dia da semana, de acordo com a estação do ano. Para facilitar a percepção rápida da informação, pintei de azul os horários de estudo; de verde os horários de trabalho; de marrom os horários de repouso e de abóbora os horários livros: eu tinha que saber descrever o que Nicolaas estaria fazendo no dia-a-dia.

Há também uma tabela de idades de todas as personagens (personagens nas colunas; anos nas linhas), para que eu acesse rapidamente quantos anos cada uma tinha em cada evento da história.

Numa fase da história, Nicolaas se torna viajante, e percorre uma parte da Europa, especialmente de Flandres ao sul da França, passando pela Alemanha e Suíça, e depois de norte a sul da Itália, para encontrar o exército cruzado em Messina (Sicília). Escolhi o caminho dele e calculei as distâncias usando o Google Earth, usei a Wikipedia em várias línguas para saber se as cidades escolhidas existiam na época e vários mapas para saber por onde passavam as estradas romanas da época imperial que ainda existiam no século XII. Considerando que uma pessoa é capaz de caminhar a uma velocidade média de 6 Km/h (mais ou menos quanto eu faço andando rápido), supus que uma pessoa a cavalo viaja calmamente a 12 Km/h mas pode chegar a 40 Km/h se fizer o cavalo correr, considerando que um cavalo de corrida chega a 60 Km/h. A partir disso, montei uma tabela para cada percurso da viagem, com o cálculo de quanto tempo ele levou em cada trecho, para poder contar o dia-a-dia das viagens.

Foi a primeira vez que montei os calendários dos oito anos de duração da história. Era fundamental saber em que dia da semana as cenas aconteciam, porque a Regra Beneditina se apega a esse detalhe. Eu já tinha consultado um calendário permanente em Construir a terra, conquistar a vida, para marcar os casamentos em domingos mas desta vez copiei o calendário permanente no Excel e montei os calendários dos anos que eu queria, e essa folha serviu como tábua de planejamento, como eu já tinha feito em Construir a terra, conquistar a vida. Só que agora, em vez de quadrados em branco para eu escrever dia e evento, eu tinha o calendário com os dias da semana para assinalar. A pergunta óbvia é: como eu sabia que o dia 27 de junho de 1186, data do início da história, caiu numa terça-feira? Simples: em pesquisas anteriores, eu encontrei a informação de que o Rio de Janeiro foi fundado numa segunda-feira. Ora, se 1 de março de 1565 foi segunda-feira, num ano que não é bissexto, então 1 de janeiro de 1565 foi sexta-feira. A partir daí, foi só ir voltando os anos (1/1/1564 = quinta-feira; 1/1/1563 = quarta-feira), pulando um a cada ano bissexto (1/1/1562 = segunda-feira), e cheguei à informação de que 1/1/1186 foi domingo – portanto, 27/6/1186 foi terça-feira. Deu um bom trabalho mas a vantagem é que agora tenho pronto o cálculo dos dias da semana de todos os anos do século XII ao século XVI, e poderei facilmente usar calendários em todas as histórias que forem ambientadas nesses séculos, e tenho também a mecânica do cálculo do dia da semana de 1 de janeiro de qualquer ano, então poderei rapidamente montar o calendário de qualquer ano em que eu quiser situar uma história. [editado: minha tabela não considerou a mudança do calendário Juliano para o calendário Gregoriano, então as informações não estão mais corretas. Já corrigi as datas nas histórias. Atualmente, consulto um calendário perpétuo para saber em que dia da semana cada ano da história começou. Agradeço a minha amiga e historiadora da arte Tamara Quírico, que me mostrou essa falha.]

Será neurose chegar a esse nível de pesquisa e detalhe somente para escrever um romance?

PERSONAGENS REAIS E FICTÍCIAS

A grande maioria de minhas personagens é fictícia. Não todas porque às vezes eles se encontram com pessoas reais e eu sou obrigada a dar vida a quem existiu de fato. Sempre evito mexer com pessoas reais, porque acho temerário vir eu contar que eles disseram ou fizeram isso e aquilo. Deixo essa tarefa aos historiadores, eu sou ficcionista. Nas minhas histórias, as personagens reais são citadas e às vezes elas até aparecem, mas apenas em “participações especiais”, e, mesmo assim, peço-lhes desculpas pela minha arrogância de supor que eles disseram e fizeram o que eu conto. É verdade que a presença delas ajuda a dar credibilidade à minha ambientação, mas mesmo assim eu evito.

A primeira vez que usei personagens reais foi em 1986, na segunda versão daquela “história adulta” que inventei com 13 anos. A pessoa real era o Rei Edward Tudor, o Sexto, da Inglaterra, e ele aparecia “numa idade que ele nunca teve, num tempo em que ele já era só lembrança”, como eu mesma registrei na época. Ou seja, usei de forma errada, e este foi um dos motivos do descarte da história.

A segunda vez foi em Mosteiro, quando Michel encontrou o Rei Philippe II da França. Desta vez, tentei compreender a personalidade e o comportamento da pessoa real para fazê-lo o mais verossímel possível, e não creio que tenha errado muito, se errei. O comportamento dele com Michel foi coerente com tudo o que li sobre ele.

Depois veio o desafio de recriar as personagens dos Romances de Cavalaria do Ciclo Arturiano, para A nova Camelot. Me envolvi tanto e fiquei tão impregnada com as personagens que fiz três romances de cavalaria, misturando minhas personagens fictícias aos cavaleiros lendários e ao próprio Rei Artur. Depois reuni essas três histórias em forma de romance de cavalaria – Romance em prosa do Cavaleiro de Nova Gália, História da vingança do cavaleiro bretão, Aventuras dos Cavaleiros Cantores – num único volume chamado Biblioteca de Kerdeor, seguindo a tradição de chamar de “biblioteca” as coletâneas de textos medievais.

Incluí personagens reais também em Uma antiga história de amor no Largo do Machado, em que apareceram Joaquim Manuel de Macedo lançando “A Moreninha” e Machado de Assis ainda menino.

Vivianne (1993) era para contar a história de pessoas que viveram no século XVI. Todas as personagens eram reais. Não consegui escrever.

A história com maior número de pessoas reais contracenando com minhas personagens fictícias é Construir a terra, conquistar a vida. Nela aparecem jesuítas e governantes em estreita relação com Duarte e Fernão, as personagens principais dessa história que se passa no Rio de Janeiro do século XVI.

E finalmente O Canhoto tem a participação de Filips van de Elzas, Conde de Flandres, e de Hendrik I, Duque de Brabante. Creio ter sido fiel às informações que consegui sobre eles, e tê-los feito agir e falar de forma coerente a quem eles foram de fato. Mesmo assim, devo a eles muitas desculpas por tê-los feito participar tão ativamente de eventos decisivos da trama. Também são citados o Rei Philippe II da França e o Rei Richard I da Inglaterra, the Lionheart, ao lado de quem Nicolaas luta na Terceira Cruzada da Terra Santa.

É interessante notar que as pessoas reais só aparecem nas histórias ambientadas no passado. Talvez porque a presença delas ajude a dar maior verossimilhança ao que estou escrevendo. Talvez eu pense que não preciso usar pessoas reais nas histórias que se passam no meu tempo. Talvez as histórias do presente tenham a ambientação menos elaborada, porque parece que eu parto do princípio de que o presente é óbvio para o leitor, mas não o passado. Talvez as pessoas reais do presente não sejam tão importantes para o desenrolar das minhas tramas. Na verdade, não sei explicar.