Vingança

VIDA E MORTE

Acusam-me de matar muitas personagens em minhas histórias mas minha mania de tabelas tem outra opinião. Na verdade, em minhas histórias nasce muita gente. Se são 72 mortes em 59 histórias (conto apenas as que eu escrevi até o fim) – média de 1,22 mortes por história – são 66 nascimentos nas mesmas 59 histórias – média de 1,18 nascimentos por história. 
 
Há apenas oito histórias com três ou mais mortes: Juliana (4 mortes), Viagem sem volta (3 mortes), Mosteiro (4 mortes), O maior de todos (12 mortes, mas há que se considerar o período da Peste Negra e a trama de golpe de estado), Primeiro a honra (3 mortes), Vingança (8 mortes, mas há que se considerar que é uma história de vingança), O canhoto (4 mortes, como em Mosteiro), De mãos dadas (6 mortes, sem esquecer de considerar a Gripe Espanhola, que matou mais do que eu), totalizando 44 mortes só aqui.
 
Do outro lado, são cinco histórias com mais de três nascimentos: Juliana (4 nascimentos), Idade média (5 nascimentos), Tudo que o dinheiro pode comprar (4 nascimentos), Construir a terra, conquistar a vida (17 nascimentos), De mãos dadas (22 nascimentos), totalizando 52 nascimentos só aqui.
 
Percebe-se também que quanto maior o número de páginas, maior o número de nascimentos e menor o número de mortes: Construir a terra, conquistar a vida tem 895 páginas manuscritas, 2 mortes e 17 nascimentos; De mãos dadas tem 810 páginas manuscritas, 6 mortes e 22 nascimentos. Então, se há nascimentos como há mortes (para não falar na quantidade de personagens que nem nascem nem morrem durante as histórias), na verdade o que há em minhas histórias é um retrato mais ou menos real do que é a vida: pessoas nascem, vivem e morrem. Sem cobranças, sem culpas.
 

ROMANCE DE ÉPOCA

Um alerta do Google me levou ao site Ler é o melhor lazer, de minha xará, para ver o texto que ela publicou explicando a diferença entre romance histórico e romance de época. Segundo ela, ambos são escritos no presente, com ambientação no passado, mas um romance é histórico quando há fatos históricos citados no romance; e um romance é de época quando não cita os fatos históricos mas se propõe apenas a reconstruir a realidade e a visão de mundo daquela época.

É claro que fiquei curiosa para classificar meus romances e cheguei a uma conclusão: de todos os meus romances ambientados no passado, são romances históricos Pelo poder ou pela honra, O maior de todos, Construir a terra, conquistar a vida, O canhoto, De mãos dadas; e são romances de época O destino pelo vão de uma janela, Primeiro a honra, A noiva trocada, Vingança, Não é cor-de-rosa. O capítulo II de Amor de redenção, que acontece no passado, estaria também na classificação de romance histórico. [obs.: estou sempre revisando essas classificações e não concordo mais com essa]
Interessante perceber o equilíbrio dessa divisão (seis romances históricos; cinco romances de época). Acho que meus romances de época têm uma leveza maior, provavelmente pela falta de compromisso com os eventos registrados pela história. Por outro lado, a presença dos eventos históricos na trama dá maior verdade e dramaticidade a meus romances históricos. Qual eu gosto mais de fazer? Os dois. Adoro a complexidade que a presença dos fatos reais dá aos romances históricos e também adoro o desafio de contextualizar os romances de época sem usar os fatos históricos. Se a trama estiver no passado, a história já me agrada. Não que eu não goste de ambientar romances no presente; mas o passado tem um sabor especial para mim.
Outra coisa que achei interessante foi que, para mim, os dois tipos requerem a mesma qualidade e quantidade de pesquisa e trabalho de contextualização. Usar ou não fatos e personalidades reais não é decisão minha, mas necessidade da trama.
De mãos dadas não era para ser um romance histórico. Não é como O canhoto, que tem já na sinopse que “Nicolaas participa da Terceira Cruzada”. Mas eu não posso ver uma revolução acontecendo em São Paulo que já ponho o pacato Toni sofrendo seus efeitos. Foi assim na Greve Geral de 1917 e na Revolução Paulista de 1924. Ainda bem que acabo a história em 1928, porque era bem capaz dele se ver forçado a combater na Revolução Constitucionalista de 1932. 

AMBIENTES

Renato Mesquita, meu colega do fórum Escreva Seu Livro (desativado) que está lendo todos os meus livros chamou minha atenção para os ambientes às vezes restritos onde ponho minhas personagens para interagir. É uma observação curiosa, pois uma das características do gênero romance é a pluralidade de ambientes.

No meu texto comemorativo de 26 anos de carreira, contei como é possível dividir minha trajetória em quatro fases, e as características de cada uma. Um dos diferenciais para essa divisão é justamente o trabalho da ambientação. As duas histórias da primeira fase – O destino pelo vão de uma janela e O processo de Ser – realmente acontecem num ambiente bastante restrito: a residência da personagem e seus arredores, sendo que as cenas que acontecem na residência predominam. O mesmo se pode dizer das histórias da segunda fase – Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha… Nesses casos, o ambiente é como uma personagem figurante, pouco detalhada e pouco importante.
Quando chega a terceira fase – O maior de todos e Primeiro a honra – o ambiente começa a se expandir, os “arredores” tornam-se importantes e o espaço passa a ser trabalhado com mais detalhamento. Em O maior de todos, o castelo e a vila são macro-ambientes com pequeninas sub-divisões: os cômodos no castelo; a casa e as ruas na vila. Primeiro a honra tem três grandes focos: Orléans, Paris, Soissons, que marcam momentos importantes na história. Só Paris tem sub-divisões: a casa e a floresta. É o ambiente se tornando personagem secundária.
A quarta fase é curiosa pois, ao mesmo tempo que começa com Construir a terra, conquistar a vida, em que a cidade e seus eventos são personagens importantes também, tem A noiva trocada e Vingança com ambientes restritos. Não é sem motivo: essas duas histórias seguem uma estrutura que as aproxima do conto, gênero que tem por característica os ambientes restritos. Amor de redenção acontece na Espanha e no Brasil e, mesmo quando para no Rio de Janeiro, há pelo menos dois ambientes bastante importantes, sem contar os “arredores”. Não é cor-de-rosa é um pouco restrita também, embora haja o mundo de Caty e o mundo de Alex, a fábrica, a casa, o trem, a praça. O canhoto é desvario, nesse quesito de ambiente. Quase fico cansada só de pensar em por quantos lugares Nicolaas passou pois ele saiu de Bruges para a Terra Santa, tendo morado ainda em Antwerpen, Aachen e Gênova. De mãos dadas é difícil de analisar, porque ainda estou escrevendo mas há dois macro-ambientes – São Carlos e São Paulo – cada um com seus ambientes menores, bastante trabalhados, pois Toni é do tipo que vai do Tatuapé a Perdizes andando sem nem ao menos se cansar, então os muitos lugares de São Paulo são bastante presentes. A fazenda vai aparecer em detalhes na fase 3, em que Toni transitará pela casa dos pais, pela Casa Grande, pelo cafezal, além dos passeios com Rosa. Alcancei a pluralidade de ambientes que pede o romance.
Penso que venho desenvolvendo minha habilidade em explorar os recursos cênicos dos ambientes por onde andam minhas personagens. É um caminho longo e ainda incompleto. Mas estou aprendendo.

FASES

Interessante analisar comparativamente a estrutura das histórias, procurando se há um padrão – se eu sigo uma fórmula pessoal. É verdade que não costumo me prender a dogmas, dicas, fórmulas, quando estou inventando, mas isso não quer dizer que não os esteja usando, mesmo que inconscientemente. Tive um professor na faculdade de Educação Artística que costumava dizer algo como “inconscientemente não é ignorantemente”, para dizer que, mesmo que o artista não faça escolhas conscientes, mesmo que não saiba explicar suas escolhas, ele sabe muito bem que está escolhendo o que é mais apropriado para sua obra. Então resolvi fazer mais uma tabela, para verificar quantas fases distintas cada história tem, e onde está o clímax de cada uma delas. Descobri que posso dividir a grande maioria em três fases (7 histórias) e que, nessas, o clímax está na terceira fase. Em outras 5 histórias, há duas fases, com o clímax na segunda fase e apenas duas histórias não consegui dividir em fases, pois a ação segue num continuum sem interrupção.
Não estou chamando de “fases” as divisões estruturais necessárias a um romance: apresentação, desenvolvimento, clímax, conclusão. Estou dividindo apenas o desenvolvimento. A apresentação necessariamente faz parte da primeira fase e o clímax com a conclusão estão na última, seja ela a segunda ou a terceira, ou a mesma primeira com que a história começou. O que marca essa divisão em fases são pontos de virada determinantes, que fazem a história dar uma guinada e mudar de rumo. Não são pontos de virada de comprometimento da personagem principal com seu objetivo, mas justamente quando a personagem muda de planos.
 
Vamos exemplificar:
1)     De mãos dadas:
Fase 1 – fazenda, apresentação das personagens, apresentação dos objetivos, Toni vai para São Paulo, trabalha e ganha dinheiro, dificuldades (Fase “Toni”).
Fase 2 – Letícia chega com dinheiro e uma proposta, Letícia influencia a vida de Toni, Letícia se afasta de Toni (Fase “Letícia”).
Fase 3 – Toni tenta se manter e organizar a vida, Toni volta à fazenda. As coisas não acontecem como ele esperava, e ele precisa redescobrir sua própria identidade e objetivos. Clímax e conclusão. (Fase “Rosa”).
 
2)     O canhoto:
Fase 1 –  apresentação das personagens, apresentação do problema, Ten Duinen, Maurits, casa do pai (Fase “Bruges”).
Fase 2 – Aachen, Antwerpen, Gênova, conhece Miguel, Cruzada (Fase “Exílio”).
Fase 3 – volta a Bruges. As coisas estão diferentes do que ele esperava e ele precisa organizar novamente sua vida. Clímax e conclusão (Fase “Bruges”).
 
Em seis histórias de três fases, a estrutura é mais ou menos como essas que apresentei: a personagem de alguma forma volta a suas origens na terceira fase, mas tudo está diferente: o ambiente, as pessoas, e ela mesma, que amadureceu durante os eventos da primeira e da segunda fases. São assim O destino pelo vão de uma janela, O maior de todos, Primeiro a honra, Não é cor-de-rosa, e as já citadas O canhoto e De mãos dadas. Apenas uma história com três fases é diferente, a ponto de, num primeiro momento, eu ter considerado que havia apenas uma fase: Construir a terra, conquistar a vida. Mas há marcadamente três momentos na história. Um primeiro, em que Duarte e Fernão lutam para se estabelecerem na terra nova. Na segunda fase, já de alguma forma estabelecidos, é preciso manter o que foi conquistado, e preparar a próxima geração para não ter que enfrentar os mesmos problemas. Depois, na terceira fase, é hora dos filhos também decidirem seus rumos, e conquistarem suas vidas. Na terceira fase também ficam o clímax e a conclusão.
 
Nas histórias com duas fases, o que acontece é um contraponto, uma espécie de duelo entre duas personagens, dois temas, duas questões. Na primeira fase, prevalece um deles e, no segundo, prevalece o segundo, encaminhando para a conclusão. Um exemplo é A noiva trocada, em que Inês prevalece na primeira fase e, troca desfeita, a segunda fase pertence a Assunción. Também têm duas fases Pelo poder ou pela honra, O aro de ouro, Nem tudo que brilha… e Amor de redenção. Em todas essas, há apenas um ponto de corte, de mudança de rumo na história.
 
E não consegui dividir em partes O processo de Ser nem Vingança. São histórias curtas, lineares, sem contrapontos, sem pontos de virada dramáticos. É um fluxo apenas, um encadeamento que vai somente numa direção, da apresentação ao clímax e à conclusão.
 
As mais intensas são provavelmente as histórias com três fases, inclusive porque nelas o protagonista volta ao ponto inicial modificado por sua jornada e percebe que não existe retorno, mas somente uma caminhada sempre em frente, sempre construindo coisas novas, mesmo que aparentemente sobre o que já foi um dia. Assim também é a nossa vida: sempre em frente. A repetição da rotina é apenas uma abstração da nossa mente controladora, e não existe na realidade. Cada dia é um novo dia.

TONI E AS MULHERES

Desde que chegou a São Paulo, Toni tem estado cercado por mulheres. Desde Dona Luizinha, que o hospedou em sua casa, e o trata como a um filho, até Júlia, que ainda não entrou na história mas será alguém com quem Toni terá um vínculo forte. Outras três são Janaína, Raquel e Letícia, amigas que em algum momento da trama têm atitudes importantes e decisivas. Há ainda Ana Paula, vilã declarada, e Nara, secundária que será de grande ajuda para Toni na terceira fase. Enquanto isso, embora ele more numa pensão com mais sete rapazes, o único amigo realmente é Luigi. Alberto também tem certa importância mas não chega a ser determinante.

Essa característica ainda não tinha sido tão notável em nenhuma outra história. Os amigos, em geral, são do mesmo sexo que o protagonista, pois acredito que há mais afinidade de amizade entre pessoas do mesmo sexo. Penso que, em geral, fazemos confidências íntimas a pessoas que compartilham conosco certos modos de ver e entender o mundo – e penso que essa é uma das diferenças fundamentais entre homem e mulher. Pares românticos não entram nessa conta, pois é outro tipo de relação. Cada história tem sua característica própria. O destino pelo vão de uma janela é marcada pelos companheiros de infância do protagonista Gustave: Marcel e Jacques. Em O processo de Ser, a personagem extra é Piotr, mesmo sexo de Ilya, e seu contraponto. Em Pelo poder ou pela honra, curiosamente (e eu não tinha parado para pensar nisso), a protagonista é mulher e as personagens determinantes são todas masculinas: Estienne, Fréderic, Jules, Pierre e Antoine – o mesmo que agora percebi na história de Toni, só que ao contrário. O aro de ouro e Amor de redenção não têm personagens extras determinando a história: tanto Lucas como Ágila constroem seu próprio destino, sem ajuda externa. Nem tudo que brilha… repete Pelo poder ou pela honra: protagonista feminina cercada de homens: Roberto, Marcos, Vicente, embora a personagem realmente determinante seja Cecília, mulher como a protagonista Isabel. O maior de todos é uma história de homens, e as mulheres são secundárias. Em Primeiro a honra, Rosala tem Constance, Berta, Adèle e Atilde a marcarem seu destino, mais do que Lanrose, Toulière e Archibald (pares românticos não contam). Em A noiva trocada, Henrique é ajudado por Pedro, Amândio e Miguel. A grande marca de Construir a terra, conquistar a vida é a amizade entre Duarte e Fernão. Rodrigo, de Vingança, não tem amigos, pois é um vingador. Em Não é cor-de-rosa, Caty tem as amigas Lúcia e Isabel, com quem troca confidências. Nicolaas é exagerado como Toni, no sentido de ser cercado por personagens que interferem em seu destino, mas são todos homens: o pai François, o irmão Robrecht, os amigos Maurits e Miguel, o abade do mosteiro de Ten Duinen, Irmão Willem, o Conde de Flandres, Laurent, os Filhos de Flandres. A única mulher de maior expressão (ressalto de novo que Ester não conta) é a mãe Hannelore.
 
Penso que essa diferenciação reflete as diferentes questões e temas abordados nas histórias: quando o tema é mais intimista, em que o conflito da personagem é com ela mesma, ou entre seus desejos e as normas sociais, há menos personagens externos determinantes; quando o tema é mais social e relacional, quando a personagem deseja construir na sociedade – ou, em outras palavras, apenas levar uma vida normal, ela sofre mais influência de outras pessoas. Mas o que faz eu escolher cercá-la de pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto é algo que ainda merece maior reflexão para que eu possa tentar chegar a uma resposta ao menos aceitável.

APOLOGIA RELIGIOSA

Estou lendo os primeiros capítulos de um dos livros de minha amiga literária Isie Fernandes e fiquei pensando que religião têm as personagens dela, pois sei que ela é evangélica. Será que todas as personagens dela são evangélicas só porque é a religião dela, ou ela consegue fazer personagens que acreditam em outras coisas? Bem, eu teria que ler as Obras Completas da autora para poder responder, mas seus livros ainda estão inéditos, então terei que adiar essa pesquisa.

A reflexão, porém, serviu para eu analisar a minha produção. Será que eu consigo caracterizar com convicção personagens que acreditam em coisas diferentes das quais eu acredito? Qual a religião das minhas personagens? Será que são todas católicas, só porque eu sou católica?

Bem, sim, a grande maioria das minhas personagens é católica, mas não por ser essa minha religião, e sim porque a maioria das minhas personagens vivem no mundo ocidental antes da Reforma de Lutero, Calvino e Henrique VIII. Estão nessa situação todas as personagens de O destino pelo vão de uma janela(883), Pelo poder ou pela honra (1415), O maior de todos (1348), A noiva trocada (1572), Construir a terra, conquistar a vida(1567-1592), O canhoto (1189-1193). Devo acrescentar que, até meados do século XX, a grande maioria da população brasileira era católica, e eu teria que elaborar alguma estratégia para ter personagens não-católicas (por exemplo, descendentes de alemães protestantes vivendo em colônias tradicionais). Portanto, também são católicas as personagens de Vingança (1899), Não é cor-de-rosa (1910) e De mãos dadas (1913-1928). Há nuances nessa religiosidade, desde Vingança  e O destino pelo vão de uma janela, em que esse aspecto é tão sem importância que nem citado, até O canhoto , em que a religião é tão importante que tenho monges e um mosteiro beneditino na história (e eu tive que estudar a Regra de São Bento para dar coerência ao comportamento e às atividades das personagens), passando por De mãos dadas Não é cor-de-rosa, em que as personagens vão à missa aos domingos.
Nas histórias ambientadas no presente (O processo de Ser, O aro de ouro, Nem tudo que brilha…, Amor de redenção), a questão religiosa não é mencionada, mas às vezes há aspectos de crenças citados – em Nem tudo que brilha…, as personagens se dividem entre quem acredita em reencarnação e quem não acredita. A questão da reencarnação, com personagens que acreditam e personagens que não acreditam, também está presente em Amor de redenção e, na fase que acontece no século V, todas as personagens são arianas, uma variante do catolicismo que foi declarada heresia no Concílio de Nicéia (325).

Minha grande personagem não-católica é Rudbert, que cultua ainda as divindades celtas, em companhia de Atilde, a vizinha feiticeira. É interessante, pois Primeiro a honra se passa na Europa após Cristo e antes da Reforma Protestante do século XVI mas há espaço para personagens pagãs, pois o século V é justamente de expansão do cristianismo pela Europa, então tenho na mesma história personagens cristãs recém-batizadas, e personagens que permanecem pagãs.

Após essa análise rápida, posso concluir que sou capaz de caracterizar bem personagens com crenças diferentes das minhas – a ponto de receber comentários de que eu estaria fazendo uma crítica ao cristianismo com a caracterização de Rudbert e Atilde.

Mas não nomeei este texto “Apologia” para falar da religião das personagens, e sim para falar da única vez em que a minha opinião religiosa prevaleceu. Procuro sempre deixar essas questões de fé em aberto, afinal minhas personagens têm direito de acreditar em coisas diferentes, e eu não tenho interesse em doutrinar o leitor. Então não fecho a questão se Rudbert está certo em seu paganismo, ou Rosala está certa em seu cristianismo; não decido se Roberto está certo em acreditar em reencarnação, ou se está certa Isabel em não acreditar. As personagens não argumentam, não tentam convencer o outro, mas respeitam a opinião diferente em silêncio. E, em Amor de redenção isso acontecia também – Ágila acreditando em reencarnação e Camila não acreditando. Mas, como essa é uma história em que o diabo aparece e contracena (o que já é suficiente para que seja uma história cristã, pois há religiões que não consideram a existência dessa entidade), precisei do meu repertório de crenças para combatê-lo. Camila é católica, Ágila é ariano, e é o poder do nome de Jesus Cristo que dá força ao casal para enfrentar o diabo. O sinal da cruz e a oração do Credo são as armas possíveis.

É claro que não fiz de caso pensado. Não pensei em fazer uma história doutrinadora – e espero não ter feito! Só recentemente percebi como a minha religião foi fundamental para o desenvolvimento da história. Penso que, nesse caso, as personagens – pelo menos Camila – teriam obrigatoriamente que ter a mesma religião que eu, pois é a que eu conheço melhor e cujas crenças eu saberia usar para o desfecho que eu queria. Então é a única história em que eu, através das personagens, defendo os conceitos em que eu acredito, especialmente na cena decisiva entre Ágila e Camila, em que ela fala dos Planos de Deus para a vida dele, e como a interferência do diabo atrapalhou isso, e mesmo assim Deus não o abandonou. É a fé inabalável de Camila que determina seu relacionamento com Ágila e, dessa forma, tudo o que acontece na história. É uma história realmente especial em vários aspectos, e este é apenas um deles.

TEMPO E DURAÇÃO

Acho interessante pensar em quanto tempo dura uma história. É uma informação que eu ainda não tinha tabelado. Sempre tenho a impressão de que minhas histórias duram dois anos, o tempo de que preciso para contar como o protagonista resolveu o principal conflito de sua vida. É claro que penso nas exceções, como A noiva trocada e Vingança, que duram menos, e Construir a terra, conquistar a vida e O canhoto, que duram mais. Mas, tabela feita, percebo que estou bastante enganada, e apenas uma história, num conjunto de 14, conta dois anos da vida do protagonista.
No extremo inferior da classificação quanto ao tempo de duração, tenho  A noiva trocada e Vingança, em que a trama inteira acontece em uma semana, basicamente no mesmo lugar e com poucas personagens, não muito desenvolvidas, o que dá a elas, inclusive, ares de conto longo (a terceira história com essas características era À procura, que foi descartada). Em Nem tudo que brilha…, não marquei, nem com estações nem datas, o tempo de duração, mas eu diria que tudo acontece em menos de um ano.

A grande maioria das histórias, na verdade, acontece no decorrer de um ano. O processo de Ser não tem o tempo marcado, mas eu diria que começa no outono de um ano e termina no outono do ano seguinte, o mesmo que acontece em Primeiro a honra – esta, sim, com a passagem de tempo bem definida pela troca das estações. O Aro de Ouro, por ser o tempo de uma experiência científica, também tem início e fim pré-delimitados, e a duração de um ano e mais uns poucos dias, para introdução e conclusão, que é o mesmo que acontece com Não é cor-de-rosa, que também dura alguns dias mais do que um ano. Amor de redenção é um caso totalmente à parte, pois, embora tenha a duração de um ano letivo – a divisão de tempo da vida de Camila, é uma história que se projeta para o futuro, e tem suas raízes num passado remoto. Então ela, de fato, começa em 585 e só termina em 2043. Como eu detalho apenas o ano de 2003, considero que ela também tem duração de um ano.
Contrariando a minha impressão inicial, há apenas uma história com a duração de dois anos: O maior de todos. Pelo poder ou pela honra não tem a passagem do tempo tão bem marcada, mas dura ao todo praticamente três anos, da Batalha de Azincourt até a solução final dos conflitos.
Os outros romances são mais longos, o que implica também em um maior número de páginas. O destino pelo vão de uma janela não chega a ter um número grande de páginas, apesar de seus nove anos de duração, pois tem um salto de cinco anos no meio da história.  O canhoto  dura sete anos, De mãos dadas dura 15 anos e  Construir a terra, conquistar a vida dura 25 anos. Essa longa duração faz com que todas essas histórias tenham mais de 300 páginas (De mãos dadas ainda não chegou a esse número, mas vai chegar, pois estou na página 125 e só agora a história vai começar. Tudo o que houve até agora foi introdução e preparação para este momento).

Então não sigo mesmo um padrão para a duração das histórias que conto. Aparentemente tenho preferência por tramas mais curtas, que possam ser resolvidas em mais ou menos um ano, mas não tenho medo das tramas de longa duração, nem dificuldade em desenvolver texto para contar tudo o que acontece nesse passar de anos. Curta ou longa duração, cada tipo tem uma função específica no meu inconsciente, e ambas são igualmente necessárias para meu desenvolvimento pessoal.

Quando você acha que as mortes ultrapassam dos limites?

Tenho pensado muito sobre essa pergunta, que me foi feita pela jovem escritora Amanda, e a conclusão a que chego é sempre a mesma: nunca. As mortes na ficção nunca ultrapassam nenhum limite. Matar as personagens não é uma questão ética, mas ficcional, e a ficção segue leis próprias, que não se baseiam nos princípios do mundo real. Quando um autor cria uma história e se mete a escrevê-la, é porque quer tratar de um tema, com um determinado objetivo, mesmo que não tenha plena consciência disso. Então, quando acontecem mortes na ficção, é porque há um plano maior de desenvolvimento da história, que faz com que aquelas mortes sejam necessárias. Diante disso, o limite aceitável de mortes varia conforme os objetivos do autor. Em O maior de todos, eu tenho Peste Negra e um complô para tomada de poder. É óbvio que morre muita gente, pois tenho dois eventos altamente mortais. Em Vingança também morre gente, pois o objetivo da história é contar a tentativa de vingança do rapaz.

Quando estruturo uma história, já decido quem precisa morrer quando e como, e as consequências dessa morte na vida das personagens principais. Depois, à medida que vou escrevendo a história e desenvolvendo as personagens, fico com pena, e tento poupá-las do destino decidido, mas nunca tenho como fugir, pois aquela morte é apenas um elo numa cadeia maior e, se a morte não acontecer, o rumo da história muda e ela pode, inclusive, se tornar inviável. Então eu tento envolver o leitor, para que ele sofra comigo por aquela morte inevitável, e entenda como ela era necessária para o crescimento emocional do protagonista e a continuação da história em seus objetivos.

Como já contei aqui há uma – e apenas uma – morte que eu podia ter evitado, porque não era essencial ao prosseguimento da história. Foi a única vez que, ao chegar a hora, eu perguntei “essa personagem precisa mesmo morrer?” e, embora a resposta tenha sido “não”, eu segui em frente e a fiz morrer, e contei cada etapa do processo de morte com todos os detalhes que pude. Eu podia ter evitado essa morte mas não o fiz, justificando que “a morte não mata só quem tem que morrer”. Sempre leio esse capítulo com um lenço na mão, porque as lágrimas são inevitáveis.

Então, Amanda, minha opinião é de que não há limite para a quantidade de mortes numa história. Tudo vai depender dos objetivos do autor e da estrutura montada. Pode não ser necessária nenhuma morte, ou o autor pode ter que matar todas as personagens. Também considero que não há limite qualitativo para as mortes, pelos mesmos motivos. O autor pode precisar apenas da morte de uma personagem terciária, ou pode precisar da morte do próprio protagonista para atingir seus objetivos. Tenho algumas histórias assim (umas sete, numa conta rápida), que acabam porque o protagonista morreu.

Também não vejo necessidade de limite para a maneira como a personagem morre (doença, acidente, assassinato, suicídio), nem para a quantidade de detalhes que o autor decide contar ao leitor – e aqui vou fugir só um pouquinho do tema da pergunta. Eu gosto de descrever os sintomas, as sensações, os sentimentos e pensamentos da personagem que está morrendo. Acho que isso a torna humana, e cria empatia com o leitor, que pode ter experiência de morte sem precisar passar por ela. É bem verdade que eu também nunca morri para ter a experiência que estou contando mas, a partir dos sintomas (informação que um médico ou um bom artigo de medicina pode dar), e do conhecimento que tenho da personagem, consigo imaginar como ela deve estar vivendo essa experiência, e por isso conto. Conforme seja meu vínculo afetivo com a personagem (que eu suponho seja semelhante ao do leitor com a personagem), eu enfoco mais ou menos os detalhes desagradáveis do que elas estão passando. Isso fica bem nítido em dois enforcamentos que acontecem em O maior de todos. Em um deles, como eu tinha simpatia pela personagem, o texto ficou assim: “Ele fez um gesto ao carrasco, que puxou uma corda, e o chão abriu sob Fulano. Os amigos não contiveram mais as lágrimas. Fulano debateu-se com força quase um minuto mas logo acalmou: estava morto”. Como eu não gostava da outra personagem, o texto ficou assim: “Karl fez um gesto ao carrasco, que puxou uma corda e o chão abriu sob Beltrano. O corpo contorceu-se com violência alguns segundos e depois parou: o feio estava morto” (as expressões em itálico são para não dizer os nomes nem dar detalhes da trama).

Nenhuma morte é fácil de ser contada, seja uma doença que consome (peste bubônica, pneumonia, enfarto, falência renal, virose, sarampo, depressão), um enforcamento, um envenenamento, um desmoronamento, uma queda de um lugar alto, uma espada (ou adaga ou punhal) que atravessa os órgãos ou o corpo inteiro, uma pancada na cabeça, uma adaga que corta a traqueia, o frio que congela o sangue, um emparedamento, um ataque de onça (percebam que eu não uso arma de fogo). Todas são difíceis de descrever e detalhar, mas é um procedimento necessário para chamar o leitor para dentro da história. Assim como se descreve em detalhes as cenas de amor, os beijos e carinhos, acho que também cabe descrever as cenas de horror. É esse conjunto que dá verdade a um livro. Além de tudo, a vida é assim, e o destino de todos nós, reais ou fictícios, é o mesmo: a morte. Precisamos parar de ter medo do inexorável.

EXÍLIO

Refletindo sobre O canhoto, percebi aspectos interessantes e recorrentes nas minhas histórias. Percebi que muitas vezes alguma personagem precisa enfrentar algum tipo de exílio, em geral injustamente, mas esse exílio é o afastamento necessário para o amadurecimento da personagem: sair de si para se encontrar. Ao enfrentar uma situação-limite, a personagem é afastada do mundo, isolada, para que supere suas dificuldades emocionais e possa voltar ao mundo mais fortalecida e preparada para resolver seus problemas.
 
O local de exílio preferido é algum tipo de deserto, inabitado, de forma que a personagem possa ficar a sós consigo mesma (solidão) para encontrar seu caminho de crescimento pessoal, como acontece com Lucas, Ilya, Isabel e Mário. Outras vezes o exílio se configura por a personagem simplesmente estar afastada de seu ambiente habitual e doméstico, que é o que acontece com Duarte, Rosala, Nicolaas e Caty. São exílios quase auto-impostos, embora não desejados pelas personagens – são o afastamento necessário para o amadurecimento, e a personagem se mantém nele até que tenha condições de solucionar seus problemas e voltar – ou não.
 
Nas 54 histórias que escrevi (ou estou escrevendo), 30 personagens enfrentam o exílio (o mesmo grupo no mesmo lugar ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo conta como uma personagem). 17 são isoladas num lugar deserto, e 13 são simplesmente afastadas de seu ambiente habitual. Dessas 30 personagens, 20 retornam a seu mundo para resolverem seus problemas mas 8 passam tanto tempo exiladas que, pela impotência em saírem do exílio, são forçadas a construir suas vidas ali – e alguns chegam mesmo a ser felizes, como é o caso de Duarte, exilado de Portugal, e que construiu o Rio de Janeiro, sua nova terra, para poder conquistar uma vida melhor. Há ainda dois casos em que a personagem volta para resolver assuntos pendentes (Vingança e De mãos dadas) mas na verdade já têm sua vida construída no exílio.
 
Quando a personagem retorna, ela nunca volta ao ponto exato de onde saiu, pois a realidade está diferente e ela mesma está diferente, mais madura e fortalecida. Então, mesmo quando há o retorno, é necessário reconstruir a própria vida, dentro da nova realidade dela e do mundo.
 
Embora o exílio seja injusto e não desejado (apesar de necessário e auto-imposto), minhas personagens não o temem, mas enfrentam com coragem, confiantes em que conseguirão superá-lo, ou resignadas por agora fazerem parte daquela situação desagradável – e é essa coragem que permite a elas amadurecerem para poderem voltar, ou construírem uma nova vida no ambiente do exílio. Tenho orgulho de dizer que essa coragem de todos eles é minha. Coragem de amadurecer, coragem de enfrentar novas realidades, coragem de mudar sempre que necessário, para me tornar uma pessoa melhor.

DEUS EX-MACHINA

Já usei essa expressão algumas vezes em textos publicados aqui, e já me perguntaram o que significa, então resolvi explicar o que é e aproveitar para comentar como uso essa ferramenta.
 
Deus-ex-machina é uma expressão em latim que quer dizer mais ou menos “uma divindade saindo de um dispositivo”. Descontextualizado, não faz mesmo sentido. Precisamos saber um pouco da história da Grécia clássica e seu Teatro. A tragédia – a grande forma – contava especialmente histórias mitológicas, de deuses, semideuses e heróis. A história dizia que o herói enfrentava incontáveis dificuldades até o sucesso final. Muitas vezes, vencia os desafios sozinho mas, outras vezes, precisava de ajuda divina. Então surgia no palco uma estrutura e, de dentro dela, saía algum deus, para ajudar o herói em seu problema. Fazer uma estrutura descer do céu ou brotar da terra sempre requer uma boa engenharia para construir um artefato e fazê-lo mover-se sozinho na direção certa – esse conjunto é o que se chama machina. Portanto, deus-ex-machina é o momento da tragédia grega em que deus sai do artefato de engenharia para interferir definitivamente no destino do herói. Por ser um deus, ele age ignorando as leis da física, da química e da biologia, e também está acima das leis e da moral, e segue uma ética própria, que nem sempre é a ética dos humanos.
 
Em literatura, chamamos de deus-ex-machina o momento em que o escritor cria um evento improvável para alcançar o resultado de que precisa para dar continuidade à história. Em geral, por estar agindo como um deus, ele passa por cima das leis da natureza e produz milagres. É aquela chuva que cai bem na hora e deixa o mocinho e a mocinha presos em algum lugar, para que percebam que estão apaixonados; é a distração do vilão que faz o mocinho vencê-lo; é a cura milagrosa de doenças, etc. É bem fácil identificar quando esse artifício está sendo usado, pois o leitor fica com uma sensação de “trapaça”, e pensa logo “essa chuva caiu bem na hora, hein!”, ou “nunca que o vilão vai cometer um erro primário desses”, ou “nossa, que sorte isso acontecer”, ou “ah, é claro que a mocinha tinha que estar ali para o mocinho encontrá-la”. São eventos injustificáveis, às vezes inverossímeis, mas totalmente necessários para que a história aconteça conforme os planos do autor. É importante que se diga que é um recuso possível, permitido, mas que deve ser usado com parcimônia, pois o exagero de deus-ex-machina numa história compromete a verossimilhança. É uma espécie de ato de desespero do autor: quando nada mais vai funcionar, apela-se para o deus-ex-machina.
 
Eu faço o possível para não abusar do recurso, pois, como já disse, ele mina a verossimilhança que me custa tanto construir. Ainda assim, às vezes é inevitável para que as personagens tenham o destino que lhes cabe. Há deus-ex-machina quando Estienne acredita que Ninette não é quem diz ser. Há deus-ex-machina na forma como Marie conhece Jacques. E também nas coincidências entre Isabel e Cecília; na ausência do pai de Caty quando Alex vai procurá-lo; na posição de Isabel de Durpoin enquanto Lisbet Legrant avista o arqueiro; no sono excessivo de Assunción; no não-reconhecimento de que Rodrigo é Mário. Não tinha jeito, eu precisava desses eventos para continuar a história.
 
E tenho, em Amor de redenção, um caso de diabolus-ex-machina (o termo é invenção minha). Chamo assim porque quem apareceu não veio para ajudar, mas era necessário para manter Ágila vivo até encontrar Camila. O próprio fato de Ágila atravessar os séculos vivo é inverossímil, mas a motivação da história (que contei aqui) exigia tal coisa, e essa espécie de deus-ex-machina foi o meio que encontrei para compor a personagem com todas as características necessárias.
 
Percebi que uso bastante o recurso do deus-ex-machina, mas procuro fazer de forma que pareça natural, e que o leitor considere uma “coincidência providencial”, e não uma apelação, ou uma “forçação de barra”. Meus deus-ex-machina costumam ser possíveis dentro da realidade da ficção criada e, portanto, verossímeis.