Curiosidade Personagem Técnica de escrita

GERENCIAR PERSONAGENS PRINCIPAIS

Já escrevi aqui como é ter poucas e muitas personagens; que na maioria das histórias sobreviventes tenho poucas personagens (menos de 30) mas que gosto mais do trabalho de criar e desenvolver mais de 30 personagens numa mesma história. E fica o desafio de lidar com os diferentes níveis de importância de cada personagem.

Numa história com poucas personagens, a divisão de importância é simples de resolver: o casal protagonista é principal, as pessoas mais próximas (familiares, amigos, antagonista) são secundárias e o restante é figuração, personagens quase nada desenvolvidas que aparecem para cumprir uma finalidade muito específica e que não interferem no desenrolar da história.

Mas, em histórias com muitas personagens, há, além das principais, grande número de secundárias e algumas terciárias, antes de chegarmos às figurantes. Em certos momentos, alguma secundária pode assumir o papel de conduzir a trama, tornando-se, assim, a principal naquele momento. E aí entra a dificuldade de gerenciamento, pois é necessário dosar a quantidade de importância que se dá a essa secundária, de forma que, resolvido seu conflito, ela volta a seu lugar e devolva ao verdadeiro protagonista seu lugar principal. Senti muito isso quando escrevi Construir a terra, conquistar a vida. As vidas de Duarte e Fernão, nos 25 anos que eu conto, não têm conflitos importantes o tempo todo. Por isso, várias vezes, os filhos assumiram o lugar de protagonista, carregando a trama até que o conflito voltasse aos protagonistas oficiais. Desta forma, a história mantém-se interessante, pois sempre há algo acontecendo, mas não sobrecarrego meus protagonistas. Por outro lado, Duarte não entrega o posto de personagem principal (ele é levemente mais principal do que Fernão) – e essa é a grande questão. É esse o cuidado que tive que ter, escrevendo e relendo todo o tempo, para que nenhum filho o sucedesse, tomando a frente e carregando a história, e deixando a Duarte apenas envelhecer no cantinho. Se isso acontecesse, o final previsto perderia o efeito, pois não envolveria mais o protagonista, mas um ex-protagonista. É o que eu chamo de “perder a personagem”- e é o que não pode acontecer. Se, a qualquer momento, eu desconfio de que a personagem principal está perdendo sua importância, é hora de fazê-la enfrentar o conflito de sua vida; ou voltar, identificar o ponto em que aconteceu a “passagem de bastão”, e re-escrever a partir daí, devolvendo à protagonista verdadeira a tarefa de conduzir a trama.

“Perder a personagem” é um risco real, que eu já vivi, e tive que descartar a história, por não ter percebido em tempo. Aconteceu naquela primeira história criada aos 13 anos, aconteceu em Um quadro, e em O castelo mal-assombrado, todas naturalmente descartadas. Ao chegar ao final da escrita fico satisfeita mas, quando vou reler, percebo o problema, e não há mais o que fazer além de deixar de lado, ou re-escrever tudo, o que nem sempre estou disposta a fazer.

Em O maior de todos, o desafio era conjugar as ações de Curt e Karl com o poder que eles detêm. Assim, deveria haver equilíbrio de importância, pois a questão do poder não estava definida. Então, embora Curt seja ligeiramente mais principal do que Karl (eu sempre me refiro a eles como Curt e Karl, e não Karl e Curt), o protagonismo deles se alterna e se equilibra.

Muitas vezes tive medo de perder Nicolaas pelo longo caminho que ele percorreu, não apenas nos cinco anos em 376 páginas, mas por todas as cidades por onde ele passou. Temi também que a característica mais marcante dele, que é a causa inicial de tudo o que acontece – o fato de ser canhoto – perdesse a importância, um dos problemas que me fez descartar Mosteiro. Houve ainda a questão de ele contracenar com personagens secundárias bem construídas e detalhadamente estruturadas: Maurits de Jong e Juan Miguel Torres, que poderiam a qualquer momento roubar a importância. Por isso, nem as deixei protagonizar, e os problemas deles ficaram sempre com importância inferior aos problemas de Nicolaas.

Achar o ponto de equilíbrio é sempre uma tarefa delicada. Dar destaque às personagens secundárias? Não dar? Quanto dar? Cada história pede uma resposta própria e me desafia a seguir à risca a perspectiva proposta.