Curiosidade Técnica de escrita

ALGUMAS QUESTÕES DE ESTILO

Primeira postagem do ano e eu deixei passar o dia combinado… Férias são um problema… Mas vamos falar de estilo.

Segundo Mário Quintana, “estilo é a deficiência que faz um sujeito escrever sempre do mesmo jeito”. É verdade. De tanto repetir os procedimentos, eles viram fórmulas e configuram um estilo. Por fim, só sabemos escrever dessa forma, que acaba se tornando mais fácil, pela prática. Então aprimorar meu estilo próprio é descobrir minhas deficiências e investir nelas; e encontrar a forma que me é mais simples, fácil e prazerosa. Mesmo quando tento implementar mudanças na forma de escrever, quando percebo, estou fazendo do jeito que sempre faço. Por causa deste blog, tenho refletido sobre meus processos, e chegou a hora de apontar alguns hábitos que configuram aspectos que podem ser considerados estilo. Perdoem-me os críticos literários e especialistas, se meu linguajar não é técnico nem correto: nunca estudei análise literária formalmente: minha experiência é empírica, de leitora amadora.

Quero levantar alguns pontos característicos:

1) os inícios: gosto de jogar o leitor de para-quedas no meio da ação. Quando o livro começa, a história já começou e o leitor “pega o bonde andando”, e tem que rapidamente inteirar-se do que está acontecendo. Foi assim em O destino pelo vão de uma janela: “De repente, um vulto entra pela janela do quarto da jovem”; em O maior de todos: “O conde ia apressado pelos corredores escuros do castelo”; em Primeiro a honra: “Em prantos, a jovem entrou no quarto da amiga”; em Construir a terra, conquistar a vida: “O prisioneiro foi retirado da cela imunda”; em A noiva trocada: “O carro sacudia na estrada esburacada”. O início de O canhoto também é assim, com Nicolaas fugindo para esconder-se no quarto, seguido por sua mãe.

2) descrição física das personagens: as descrições são curtas e contam só as características mais expressivas das personagens: o que as faz diferentes das outras pessoas. Também não gosto de fazer um parágrafo para descrever a personagem: me faz lembrar as redações da escola, que eu odiava fazer. Prefiro que as características da personagem apareçam em algum diálogo ou no meio de uma cena, ou quando significam alguma coisa para o desenvolvimento da história. Por exemplo: em Construir a terra, conquistar a vida: Duarte e Fernão têm cada um seu parágrafo próprio com a descrição de sua aparência (eu estava tentando ter um estilo diferente) mas Inês, por exemplo, é descrita num diálogo em que suas características estavam sendo criticadas e defendidas. Dos irmãos mestiços, sabemos que um é o mais branco dos irmãos; outro, o mais moreno deles; um tem traços portugueses e cor indígena, mas os detalhes dessas misturas não é contado: cada leitor imagine como quiser. Em O canhoto: de Nicolaas só sabemos a cor dos olhos e cabelos, e que é canhoto. Ainda assim, essas informações são dadas ao longo das 376 páginas manuscritas. Ester não é descrita, nem Juan Miguel, nem Robrecht, e também sabemos pouco sobre Maurits, as personagens que rodeiam Nicolaas mais de perto. É algo que terei que rever quando for digitar essa história, e descrever as personagens um pouco mais: elas também não podem ser tão pobres em descrição. É preciso dar pistas para que o leitor possa formar a imagem das personagens, para que elas adquiram corpo e existência física concreta. A pintura que faço das personagens não é um quadro renascentista, em que os fios de cabelo são desenhados um a um, tudo em detalhes, mas está mais próximo de um quadro impressionista, em que algumas poucas pinceladas dão uma visão geral da personagem, deixando espaço para que o leitor use sua imaginação e seu conhecimento do mundo para completar a descrição.

3) descrição psicológica das personagens: os aspectos psicológicos das personagens eu absolutamente não descrevo, para não rotulá-las. Pelo que elas pensam, dizem e fazem, e pela forma como se movem e agem é possível ao leitor perceber se a personagem é calma, agitada, alegre, melancólica, neurótica, nervosa, medrosa, insegura, etc. Às vezes, alguma personagem rotula outra, mas fica a critério do leitor aceitar a opinião dessa personagem ou ter a sua própria. Fernão, por exemplo, diz que Duarte tem bom senso mas talvez o leitor ache que as ações de Duarte não sejam tão sensatas assim e prefira caracterizá-lo de outra forma. Willem diz que Maurits é subversivo mas Nicolaas o acha admirável. Cabe ao leitor escolher se concorda com um dos dois ou se tem opinião diversa. O que não pode é eu, enquanto escritora e “mãe” de todos eles dizer o que penso deles: o leitor acreditaria sem refletir e todo meu trabalho de dizer em linhas e entrelinhas se tornaria inútil.

4) tempo da narração: faço a narração no passado, contando o que as personagens disseram e fizeram. Acho mais tranqüilo e confortável. Quando eu comecei a escrever, misturava narração no presente e no passado, conforme o tipo de cena: passado para cenas calmas, presente para cenas tensas e de ação. Com a prática, acho que aprendi a criar tensão e ação mesmo usando o tempo passado, então só em O destino pelo vão de uma janela essa mistura permaneceu: quando fui publicar, não quis que o texto perdesse suas características originais.

5) clichês: entrei em pânico quando me disseram que eu usava muitos clichês. Tive que rever o que eu já tinha escrito e o que estava escrevendo, para encontrá-los e eliminá-los, tanto quanto possível. Desde então, tenho sido muito mais cuidadosa para nem produzi-los. Prefiro não fazer uma imagem a fazer um clichê. Nesse ponto me ajudou muito o Blog do Romance (que não existe mais), de Sérgio Barcelos Ximenes, ao disponibilizar listagens de clichês usados por outros autores em suas obras. Ao ver a falha apontada no outro, me corrigi. É interessante que eu usava os clichês simplesmente por não saber que são clichês, e que isso empobrecia a minha escrita. Uma vez com a consciência do erro, ficou mais fácil evitá-lo.

6) ação: minha narrativa tem por base os diálogos. É neles que as personagens são nomeadas. Antes da pessoa ser citada, ela não tem nome; é apenas “um vulto” (Gustave) que entra pela janela do quarto “da jovem”(Marie); “o prisioneiro”(Duarte) que tem as mãos amarradas para trás; “o conde” (Legrant) que vai apressado pelos corredores escuros do castelo; “a jovem” (Rosala) que entra chorando no quarto “da amiga” (Constance).

É nos diálogos também que eu construo os conflitos, e que as características psicológicas das personagens se expressam. É claro que as personagens não ficam todo tempo falando. Elas também se movem, andam, pensam em silêncio, brigam, correm, etc, e isso é narrado sem diálogos. Considerando essa minha predileção por diálogos, posso dizer que meu estilo tem algo de teatral, por se basear em cenas de interação entre as personagens, mediada pela fala. O Prof. Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, apontou isso quando viu um trecho de Construir a terra, conquistar a vida, ressaltando que o grande mestre do diálogo é Shakespeare, um autor que eu naturalmente não pretendo ombrear.

Bem, devo ter deixado de discorrer sobre algum aspecto de análise estilística, que não me ocorre agora. Se meus leitores apontarem meus esquecimentos, terei prazer em complementar as informações.

(1) Comentário

  1. Monica a minha consideração sobre o estilo não acompanha a opinião do Quintana.
    Busco uma expressão consonante com meu ambiente, com a minha época, que fale sobre a minha geração e sobre o meu tempo os recursos consagrados necessitam do apoio de uma gramática anacronica que não cumpre as alterações e variáveis que esta nova geração de produtores de textos está experimentando.
    Gostei dos elementos que voce destaca, são primordiais para a narrativa, mas quero ler nos contemporaneos um tanto mais que escapou dos registros de gerações passadas.
    Gostei do seu blog, da sua linguagem e principalmente do tratamento formal que voce adota no labor literário.

    Abraços,

    Dudu Oliveira.

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